Diego estava sentado em sua poltrona, ocioso. Não queria estar relaxado, não tinha a menor vontade de desperdiçar seu tempo assim mas ele realmente não tinha opção. Não sabia quanto tempo demoraria para sua familiar voltar, então decidiu sair por ai, e inventar alguma coisa para fazer.

Todos os seus amigos haviam ido embora, e ele realmente não ligava. Um dia iria unir-se a eles. Sua namorada estava viajando, foi visitar seus pais em sua cidade natal, na Argentina. Ou seria no Brasil mesmo? Independente, zigue-zagueou pela calçada chutando pedrinhas que atrapalhavam seu caminho.

Um carro passou acelerado na rua, e em seguida passou uma moto, mais devagar. Que cidade parada. O bar favorito de Diego estava fechado, mas isso não era surpresa, pois o dono tinha constantes problemas com furtos. Estava em um bairro perigoso. Após uma breve parada em frente ao recinto, o protagonista continuou caminhando.

Passou dessa vez por uma mulher. Ela estava notoriamente bêbada, sem ter muita noção das coisas que estavam acontecendo ao seu redor.

- Tira o olho dela, idiota. — Falou um homem que surgiu ao lado da moça. — Ela tem dono. — e continuou em frente, puxando-a pelo ante-braço. “Que imbecil”, pensou Diego “essas pessoas com pensamentos das cavernas me enojam.”

Logo já estava na Avenida. A Avenida, como o nome diz, é uma avenida. Ela é conhecida assim pois é um lugar que os jovens adultos vão para farrear, além de ficar no centro da cidade. Possui pouco mais de cinco quilômetros de extensão, pelo menos a parte popular. Poderiam haver centenas de pessoas ali naquele momento, mas não naquela hora. Haviam alguns jovens tomando cerveja, ou qualquer outra coisa enquanto fumavam narguilé. Aquilo deixava Diego enjoado, pois para ele, fumar era uma coisa podre e repulsiva.

Logo passou em frente à um bar. Fez uma breve parada e continuou andando, desta vez com uma lata de cerveja na mão. “Que dia estranho”, pensou. Mas era apenas o começo. Literalmente, o começo. O relógio de Diego marcava 00:00. De repente um gato pulou na sua frente, fazendo dar um pulo. Repentinamente, virou em uma rua lateral. Estava muito mal iluminada, só haviam um ou outro poste funcionando. Pelo menos a metade deles não tinham lampadas.

Subitamente o ar esfriou. Era visível sua respiração toda vez que expirava o ar. Sorte que havia pego o casaco antes de sair de casa. Fechou o zíper e agasalhou-se bem. “Para onde mesmo estou indo?” Perguntou-se mentalmente. Ele parou, e pensou. Até que enfim “Eu estava com tédio.” e, mais uma vez, continuou.

A solitária caminhada continuava adentro da pequena cidade, e sem nenhuma grande atração de fato. Após mais algumas esquinas viradas, um pequeno item chamou a atenção de Diego: uma pequenina esfera no meio da rua. Era uma pérola. Catou, colocou-a no bolso do casaco, e continuou. Olhou ao redor e percebeu que não havia ninguém por ali, então uma onda de choque percorreu sua espinha quando percebeu que não via ninguém desde que saiu da Avenida. Olhou no relógio e já eram 00:59. Tomou mais um gole da cerveja. Ainda estava no meio da rua, onde havia encontrado o objeto. “Preciso pensar”. E pensou. Sentou no meio fio, e ficou ali.

Um homem apareceu andando por ali. Quando viu Diego ali, decidiu ir até ele.

— Olá, amigo. Tudo bem? — Perguntou o homem.

— Tudo sim. Só estou meio perdido. — Respondeu.

— Claro. Quem não está? — O homem usava um chapéu coco. Parecia um mendigo, exceto pelo fato das pessoas de roupa custarem mais do que todos os bens de Diego.

O estranho continuou sua perambulação. Diego viu ele se afastar. Tomou mais um gole da cerveja e pôs ela de lado. Seu tronco começou a ficar mais pesado que o normal, foi puxado para o chão e dormiu ali mesmo na calçada.

Sonhou com pinguins, bruxas, celulares, estrelas, bonecas russas, árvores, janelas... e chuva?

Foi acordado pela chuva. Abriu seus olhos e só o que viu foram gotas de água caindo em seu rosto. Com muito esforço, sentou-se. “Merda. Que horas são?” e ao olhar no pulso, verificou que ainda eram 00:59. Estava pensando nas últimas horas quando sentiu algo estranho em seu pé direito. Era uma peróla, que estava no meio da rua. A chuva havia movido ela até a beira. Diego pegou, examinou, e guardou junto com a outra. Sua atenção voltou-se para o pé direito, que havia sido tocado pelo objeto. Se estivesse de tênis, como o pé esquerdo, certamento não teria sentido o suave toque. “Caralho, me roubaram o tênis direito?! Que merda aconteceu?” indagou-se. Nem havia se passado um minuto sequer no seu sono. Agora eram 01:00.

Ficou se perguntando se era realmente possível alguém ter passado por ali e ter roubado somente um de seus tênis. A chuva havia desacelerado, quase parada já. Sua cerveja ainda estava ali. Uma mulher aparece correndo na calçada do outro lado da rua.

- Ei moça! — Gritou Diego, ficando em pé.

O grito havia assustado-a, pois ela não havia notado a presença de Diego ali. Ela parou, olhou para ele com a cara aterrorizada, e continuou a correr. Diego começou a correr atrás dela. Ela dobrou uma esquina, e entrou em um beco, onde três prédios se encontravam. Ela ficou sem saída.

- Não vou te fazer mal! Só me diga porque está correndo assim! — Pediu Diego, gesticulando com os braços, para mostrar que não segurava alguma arma ou coisa do tipo.

A mulher, com o rosto um pouco menos espantado, largou no chão várias pérolas. E logo depois, abriu uma porta de um dos prédios e entrou.

Diego catou todas as pérolas, e se preparou frente à porta. Colocou a mão na maçaneta mas não abriu. Invés disso, olhou para o lado, na direção da entrada do beco, e lá estava o Senhor Senhor.

Senhor foi até Diego.

— Senhor.

— Diego. Como vai? — Perguntou o recém-chegado.

— Bem, e o Senhor?

— Ótimo. Então, jovem. O que está fazendo aqui?

— Tinha uma mulher... eu queria ajudá-la. Ela parece meio perturbada.

— Sim sim. Eu costumo saber do que se passa nessas ruas.

— Claro.

— Vai entrar?

— Vou.

— Lembra do que aconteceu da última vez?

— Eu sei lidar com problemas.

— Você sabe que só está aqui porque não tem nada melhor para fazer.

— Vou entrar.

— As perólas.

— O que tem as pérolas?

— Elas são minhas. Vou querer todas, por favor.

— Que seja.

— É melhor eu ir. Vejo você em breve. — E saiu. Diego ainda estava com as mãos na maçaneta.

Nem deu tempo de ver o homem sumir por ai, apenas abriu a porta e entrou.

Estava escuro, e o lugar fedia muito a mofo. Tipicamente, não parecia ser um lugar “humano”. Uma onde de arrependimento tomou conta e Diego se virou para voltar, mas a porta já havia ido e só restava uma parede avermelhada. Com dificuldade, viu uma pérola no chão a sua frente. E outra mais a frente. Depois outra, e outra. Iria segui-las por entre as grades. Seria uma longa noite.

Notas finais
Se gostarem, por favor, falem! Obrigado para quem leu.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.