Notas iniciais

Escurecia. A temperatura declinava em conjunto aos raios de sol que alaranjavam todo o horizonte e deixavam a paisagem ainda mais outonal. A cidade pulsava, como de costume. São Paulo acendia suas luzes, enfim. Muitos dos trabalhadores deixavam seus postos naquele momento, seus relógios marcavam seis horas e trinta minutos, aproximadamente. De cima, Sophia parecia apreciar toda aquela harmonia. Todo o funcionamento antagônico daquelas pequenas engrenagens que faziam a cidade viver. Sentia como se o corpo pairasse sob os prédios, sob os trens e ônibus que cruzavam as ruas naquele instante. Só voltava os pés no assoalho lígneo quando sentia a respiração ofegar e suar o vidro que a separava daquela atmosfera.
Da cobertura, não se podia sonhar muito. Já tinha alcançado boa parte de seus objetivos, estava no auge de sua vida, e isso era totalmente visível aos olhos alheios. Afastou-se da janela aos poucos, piscando algumas vezes ao sair do tal transe, ajustando o roupão de seda na silhueta.
Sophia tinha traços e corpo esguio. Sua aparência homiziava sua verdadeira idade, seu rosto confundia facilmente qualquer um que não a conhecesse. Sua estatura era também um embuste, uma vez que possuía aproximadamente um metro e sessenta.
Era uma mulher de nariz e queixo finos, olhos castanhos, pernas longas, quadril estreito, porém cintura bem definida.
Não muito depois de voltar a si, a loura desvia o olhar da paisagem, focando na moça estática próxima à entrada do cômodo. A patroa pede para que a doméstica adentre enfim.
Com passos tímidos, obedece.
— Não é nada de importante, dona Sophia. Só ia avisar que o patrão chegou.
Ao receber tal informação, sorri e acaricia o ombro da criada antes de dispensá-la.
Ela era apegada à moça, e vice-versa. Era a melhor empregada que poderia ter contratado, dizia. Denise, a doméstica, era tudo o que uma dona de casa queria. Cozinhava bem, passava bem, e parecia saber exatamente como resolver todos os problemas que apareciam. Sabia agradar a patroa.
Quando, finalmente, o marido chegou no cômodo em que se encontrava a esposa, a mulher estava perfeitamente pousada numa poltrona no canto do quarto do casal, encarando ainda o pôr do sol. Os últimos raios de luz refletiam na pele pálida de Sophia e em boa parte do quarto. O esposo, Olavo, se encantou com tal visão e aproximou-se aos poucos. Largou o paletó no colchão e desabotoou a camisa, suspirando.
— Não vai se trocar?
— Agora mesmo estou indo. — Desviou o olhar da paisagem e fixou-o no amado, sorrindo suavemente.
Eram o casal perfeito. Exalavam harmonia, e qualquer um que os conhecesse, sabia: Nasceram um para o outro, completavam-se.
Ao deixar o estofado níveo, encaixou-se na silhueta do marido, aspirando seu perfume impregnado no tecido da camisa, enquanto um dos palmos do mesmo se emaranhava nos cachos dourados da amada. Na ponta dos pés, Sophia colidiu os lábios a uma das bochechas delgadas de Olavo. Desfez-se das carícias assim, rumando ao banheiro e ali trancando-se por aproximadamente quarenta minutos.
Os céus da metrópole viva já haviam enegrecido há algumas horas. O casal estava bem vestido, como de costume. Esmeraldas cintilavam nos lóbulos de Sophia. O tom das pedras preciosas lembravam as íris do marido. Olavo era um homem de boa aparência. Possuía cabelos castanhos e dentes bem enfileirados e brancos. O nariz era um tanto escarpado. Além dos atributos físicos, era extremamente polido e tinha mil e um hobbies. Era arquiteto.
Iam os dois para o jantar de aniversário da mãe de Sophia. O pai da moça já não retornava do exterior a alguns meses, a mãe cada vez mais doente. Sophia tinha fé de que tudo fosse ficar bem dali pra frente, entretanto não contribuía para fazê-lo.
— O que acha que passar algumas semanas na casa de sua mãe? — Disse Olavo, o qual guiava o carro, sem desviar as orbes do caminho. A loura calou-se por alguns instantes antes de responder à pergunta.
— Por que?
— Ela não está bem, Sophia. Sente sua falta.
— Sim, você tem razão.
— E, também, eu vou deixar a cidade por algum tempo. — Disse antes mesmo de terminar de ouvir a frase da companheira.
— Ah, sim, entendo.
Sophia preferia não questionar.
— Eu fui chamado para um projeto em Goiás, então é bem provável que eu passe um bom tempo por lá.
— Quanto tempo?
— Algumas semanas.
O casal calou-se após o assentimento da mulher com a cabeça, a qual tentava repelir as ideias de questionar ou contrariar Olavo a todo instante. Não queria separar-se do marido, e também não queria passar um tempo em sua casa antiga. Por maior e mais bonita que fosse, Sophia, no fundo, não queria lidar com a doença de sua mãe. Aquilo a corroía tanto quanto corroía a própria, e ela não sabia lidar com isso.

No salão, tudo era branco. As bandejas flutuavam com taças borbulhantes de champagne, e os convidados se acomodavam pouco a pouco. O casal recém-chegado parecia estimular o burburinho e trazer para si todos os elogios e olhares dos parentes e chegados da família de Sophia. Uma garota tão bonita, educada, com um moço bem sucedido. Sempre fora o orgulho da família. Todos vibravam pela união.
A mãe de Sophia logo surgiu. Usava um vestido feito sob medida para a ocasião, todo branco e pomposo, acompanhado por jóias, as quais contornavam pescoço, pulsos e dedos da senhora. Acolheu Sophia e o genro nos braços por algum tempo, sorrindo de orelha a orelha. Um pouco de maquiagem escondia suas olheiras, seu olhar era vago e triste quando não pairavam pela maior obra prima de sua vida: Sophia. Não se estendeu em nenhum assunto,pois além da fraqueza visível, não queria deixar de cumprimentar o resto dos convidados: era uma ótima anfitriã, receber era um prazer.
— Sophia! — Entusiasmou a senhora, que num pulo levantou-se de seu acento e puxou a moça para perto. Agarrou os braços delgados da sobrinha, como se a quisesse parada para admirá-la por alguns instantes antes de abraçá-la. Repetiu o processo com Olavo. Sophia sorriu e retribuiu o afeto, acariciando as costas da tia durante o abraço. A senhora indicou duas cadeiras ao casal, convidando os mesmos a se juntarem à família. — Por favor, sentem-se!
A mesa era composta por quatro figuras: a tia Inês, recente viúva, sua filha Olívia, a mais nova, Paula, a mais velha, e o marido. Usavam, as três, tons quentes. A mais nova tinha as bochechas levemente fartas, os cabelos lisos e curtíssimos: a parte mais longa era a franja tímida que lhe cobria parte da testa, o resto não caía em lugar nenhum, quase fixo na cabeça da jovem. A pele alba e os cabelos castanhos claros eram o fator comum entre mãe e filhas. Eram muito parecidas, mas Olívia tinha os olhos azuis do falecido pai. O marido de Paula era moreno, tinha olhos castanhos e fios negros. Era calado, acabava por falar poucas vezes durante as reuniões familiares.
Sentados, enfim, os seis, jogaram conversa fora por algum tempo. Nenhum dos assuntos ali comentados se fixava, nem entre o grupo e nem na cabeça de Sophia, que só pensava na mãe.
— A senhora viu, mamãe, como Marco está diferente?
O mundo ficou lento por alguns segundos. Sophia perdera o compasso da respiração e sua visão ficara turva por um instante. Marco?
— Marco? — Recuperou.
Antes que tia Inês pudesse responder à pergunta da filha, sorriu para a sobrinha e respondeu
— Ah, sim! Marco! Está tão bonito o rapaz. Meu companheiro de carteado, como faz falta!
Sophia levou os lábios ao cristal da borda de sua taça de champagne, bebericando mais um gole, antes de completar:
— Não tenho mais contato com o primo Marco. Anda pela Alemanha, não?
— Está mais perto do que imagina. -Pronuncia-se a adolescente.
A loura encara a tia velando um sorriso nervoso, aguardando por explicações.
— Creio que ainda não tenha o visto, Sophia.
— Ví-lo quando cheguei, depois não mais. – Acrescentou a prima Paula.
Um arrepio tomou conta de todo a estrutura de Sophia assim que veio a sua mente o olhar cinzento do primo, que trazia a sensação de ser atingida por uma forte brisa de inverno: seca e gélida.
Manteve a postura. Afastou com cautela o assento da mesa e, acariciando o ombro do marido, ergueu a estrutura, sorriu aos demais, pediu licença e afastou-se. Era o fim de seu breve sopro de resiliência.
Desfilou com a graça de uma ave machucada, cambaleando em cima dos saltos. Foi bombardeada pela euforia dos convidados ao vê-la, que logo eram passados para trás pela mesma, que só pausava a caminhada apressada para virar uma ou outra taça de champagne que vinha nas dançantes bandejas. Os cristais vazios voltavam às bandejas ou às aleatórias mesas pelo caminho. Sem mais noção ou controle sob a situação, olhou em volta a procura de um rumo. Fixou os olhos na sacada no mezanino do salão, que ficava entre duas escadas de mármore branco. Focou a negritude do céu exposto e o movimento da fina cortina que ali foi colocada, subindo degrau por degrau automaticamente, fitando os convidados que permaneceriam no térreo e suas incessantes línguas, que ora degustavam, ora comentavam. O ombro delgado foi barrado por algo maciço e firme.
— Prima! – Vibrou o empecilho.
— Marco! Mas que surpresa boa!
Sophia analisou o parente de cima a baixo, aflita. O rapaz tinha ombros largos, estatura robusta, aproximadamente um metro e oitenta de altura. Seus fios eram genuinamente negros, e os olhos de um tom inesquecível: um gélido cinza-azulado.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.