Diary Of A Journalist
7 Capítulo 7
Notas iniciais
(…) -O John de ressaca e o George com pontos nos dedos. – Eu engoli em seco. Estava à espera do que quer que ele fosse dizer. – Eu nem tenho tempo de comentar isto agora. Vá, George, agora compõem-te. Rapazes, quero-vos lá em baixo para o jantar. Saímos em uma hora. – E depois do aviso, saiu do quarto e eu suspirei de alívio.
Sentei-me na beira da cama e estive um pouco à conversa com o John, já recuperado e apresentei as minhas desculpas, mesmo sabendo que a culpa não tinha sido toda minha. Mas eu não queria sair daquele quarto sem que um deles saísse. Ficar com o Brian sozinho neste momento não era opção que me agradasse e aproveitei a sair com o George e o Ringo. O John ficou mais um pouco e disse que apareceria depois.
E assim foi. Nem dez minutos se tinham passado e ele tomava um lugar à mesma à nossa beira. Estranhei só o facto de ter na minha frente apenas três Beatles. – O Paul não vem?
-Não. – John respondeu, servindo-se. – Ele não consegue comer antes dos concertos. Fica meio enjoado.
Foi então que sorri ao levar o garfo à boca. Lembrei-me do meu primeiro dia no infantário. O meu avô tinha-me deixado em casa dos pais do Paul e fomos juntos para a escola. Ele comeu um pequeno-almoço bem grande, e depois ficou encostado a um canto da sala, com as bochechas cor de fogo, nervoso por ser o primeiro dia. De repente, ele abriu a mochila de uma das meninas, acho que o nome dela era Bianca ou Beatrice, não me lembro, e vomitou lá para dentro. Desde esse dia, cada vez que ele sabia que ia ficar nervoso, ele não comia nada.
E então outra memória me veio à cabeça. Eu e o Paul sempre fomos uns aventureiros e então adorávamos brincar num pequeno mato que havia perto da casa dos meus avôs. Lá encontramos um gatinho, bem pequeno, mas assanhado. Quando o Paul o tentou apanhar, ele arranhou-lhe a cara toda, mas ele fez-se de corajoso à minha frente, mesmo estando a fazer beicinho e a segurar as lágrimas. Eu dei-lhe um beijo na bochecha pela bravura dele. Aquelas bochechinhas de menino, de que alguma maneira ele ainda tem. Ele ainda continua adorável, e impossível de resis- Kate, para já com isso! O que é que estás a pensar?
-Kate, está tudo bem? – Ouvi a voz do George muito ao longe e depois reparei que um calor me abrasava a face e que tinha largado o talher.
-Sim. Estou-estou bem.
Limpei aqueles pensamentos da minha mente, se bem que nem a uma hora daquele momento, eu estaria a pensar naquilo outra vez quando eles subissem ao palco. Mas, eu não sei bem o que sentia em relação ao Paul. Éramos miúdos e passaram-se quinze anos. Qualquer outro não me ligaria, mas ele parece tão à vontade, como se nunca nos tivéssemos separado. E, não, eu não podia negar que tinha um fraquinho por aqueles quatro. Mas, vá lá, quem não tem? Agora, em relação ao Paul, aquilo era questão de pensar.
Saímos para o concerto, e apesar do Brian não me ter mandado embora, eu sabia que algo tinha que correr mal. Até agora era muita sorte. E eu parecia estar a desejar que algo corresse mal logo, do que levar com aquilo mais tarde. Enfim, os rapazes deram um concerto que mesmo que eu queira descrever, não consigo. Fiquei com o Brian ao lado do gradeamento que segurava as fãs todas aos saltos e berros por eles. E não eram só eles que tinham bons pulmões; as raparigas atrás de mim batiam todos os recordes! E eu fiquei parcialmente surda.
Já no camarim, nós partilhávamos um cigarro. Um cigarro um pouco para o diferente. Maconha. Eles aproveitaram aquele momento para a fumar, já que no dia seguinte ia para estúdio e segundo eles, gravar chapados não produzia resultados e foi experiência a não ser repetida. Eu estava sentada sobre uma mesa, balançando as pernas quando o Brian espreitou na porta.
-Rapazes, têm uns minutos para uma pequena entrevista?
Eles os quatro acenaram, apagando o cigarro. E foi aí que vi a minha má sorte. – Francis!
-Kate. – Ele disse vagarosamente.
Reparei a forma como o John o olhava, já estando a par de todas as crueldades de que era alvo nas mãos daquele tipo. Mas, sorte a minha, nenhum dos rapazes foi muito com a cara dele. E eu fiquei ali, em silêncio enquanto eles respondiam a todas as perguntas.
-Nunca te achei como uma delas. – Ele disse-me antes de sair, tentando manter uma conversa comigo. O que ele não sabia era que os rapazes já me tinham lido as expressões e sabiam que eu estava a ser simpática. A minha cara sorridente era uma fachada para a vontade de lhe bater.
-Eu sou fã, mas não sou das que gritam. – Esbocei um sorriso que quase me magoou a boca de tão forçado que foi. – Mas eu não estou aqui pelo concerto. Pelo menos, não inteiramente.
-Uhm, pessoas como nós só vêm a concertos ou por lazer ou por trabalho. Se não é lazer, posso assumir que é trabalho?
-Sim. – E era verdade. Todos sabiam. Eu até tinha estado a tirar fotografias durante o concerto. Só o Francis é que não sabia mesmo. – Estou a acompanhá-los e ia entregar-te um artigo na matéria.
-Oh, — Ele grunhiu não muito satisfeito. – podias-me ter dito. Se calhar agora, eras tu que estarias aqui em vez de mim, a reunir matéria para um artigo no jornal.
-Ha! – Eu gargalhei. – Não me faças rir, Francis. Quando é que me deixarias vir? – Ele não respondeu e eu saltei abaixo da mesa. – Quantos artigos meus deitas-te fora? Pior, em quantos artigos meus riscaste o meu nome e os publicaste com o teu? – Eu aproximei-me dele e vi pelo espelho que os rapazes sorriam ao ver-me enfrentá-lo. – Plágio é ilegal, Francis.
-Eu sou o diretor da redação. O meu pai é o dono do jornal. – Ele olhou-me nos olhos e disse com superioridade. – Achas que algum dia me conseguirás fazer frente?
-Queres saber uma coisa? Eu não quero saber. – Pressionei o meu dedo contra o peito dele e afirmei. – Prefiro manter o meu orgulho e a minha integridade do que aturar as tuas tretas. Despeço-me! – E sai pela porta sem mais palavras a dizer.
Ainda só tinha dado uns passos quando fui barrada por um homem. Alto, magro, de charuto ao canto da boca e uns suspensórios. Topei-o logo pela aparência. – Não pude deixar de ouvir a conversa, e, compro-lhe o seu artigo…se ele for bom.
Olhei-o de cima abaixo e continuei. – Quanto?
-Só discuto preço na hora. Depois de ler. – Do bolso puxou um cartão e deu-mo. – Tem até ao final da semana para aparecer com o manuscrito.
E tão depressa quanto me cruzei com ele como ele desapareceu outra vez. E atrás de mim uma porta tinha acabado de se fechar. O Francis saía do camarim dos rapazes e eu falei quando ele me olhou. -O que é que ainda está aqui a fazer?
-Não posso agora? – Ele falou alto e eu quase que o fuzilei com o olhar, para ele baixar o tom de voz. – Eu estou a fazer o meu trabalho, e ao contrário de ti, eu não tive a sorte de chegar aqui e ter tudo ao meu dispor.
-Estás a ser injusto, Francis. E eu não tenho problema em dizer como tive esta oportunidade.
-Claro que não. Com cunhas também eu!
-O meu avô conhece os McCartney e nós fomos vizinhos deles por uns anos. Eu conheci o Paul quando eramos miúdos.
-Pois. – Ele bufou. – Tu conheces o Paul e eu sou filho da rainha!
-Porque é que és assim, Francis? Eu estou a dizer-te coisas que nem precisavas de saber. Olha, – Eu ia virar costas, já sem paciência, mas não queria ficar com assuntos pendentes. – recolhe o material que queres para o artigo e não causes mais espalhafato, ok?
-Eu estou a fazer espalhafato? – Ele disse de novo aos berros. Parecia que queria chamar a atenção para ele, ali mesmo no meio do corredor por onde todos passavam. – E tu, que andas toda entretida com os Beatles? Não vieste para fazer o artigo também? Já agora aproveitavas essa suposta oportunidade que te concederam.
Eu não me importava minimamente que ele estive ali para fazer o artigo, mas ele já estava a dar espetáculo. Por aquela altura, ele já tinha material que chegasse, então tentei fazer com que ele saísse. Arrastei o Francis comigo, já que ele não se calava e continuamos a discussão mais perto de uma porta que dava acesso a um beco. O Ringo vinha lá ao fundo, e eu continuei a moderar o tom de voz para não dar nas vistas. Mas com o Francis ali aos berros não dava para não ser notado.
O Ringo caminhava para a porta. Ele ia apanhar um pouco de ar e fumar um cigarro para descontrair do concerto quando me disse. -Tudo bem aí, Kate?
-Tudo. Eu consigo dar conta do recado por mim, Ringo.
-Eu sei que sim. – Ele gargalhou. – Mas, se precisares estou bem aqui.
-Oh, — Francis disse com tom de gozo. – a dar numa de protetor? Que bonitinho! – Eu revirei os olhos. Aquilo era típico daquele imbecil. Quando não ganhava com razão, partia para o ridículo. — agora entendi como conseguiste andar atrás deles. Dormiste com todos ou só com o baixinho?
Ele não tinha acabado de dizer aquilo. Tudo à minha volta como que parou por dois segundos para eu ter a noção do que tinha acontecido. Tinha acabado de ser insultada e humilhada por um pacóvio que não sabia lidar com o sucesso dos outros. Mas se eu não queria confusões. Sabia com o tipo de pessoa que lidava e mais valia ignorar.
Porém, o mesmo não podia dizer do Ringo. Ouvi a sola dos sapatos dele a roçar o chão quando ele se virou. -O que é que disseste?
-Hei, desculpa, – O Francis levantou os braços a fingir-se de inocente, mas ainda a gozar e provocar mais. – não queria ofender. Mas és realmente pequeno!
-Richard, — Eu estiquei o braço, a minha mão batendo forte no peito dele, tentando pará-lo. – ele não vale a pena. Ignora!
-Não. Eu sei que sou pequeno. – Ele disse continuando a caminhar, apontando o dedo.– Agora, primeiro que tudo, não há nada entre mim e ela, nem entre ela e qualquer outro membro da banda, se é que isso te diz respeito. E segundo, isso não são modos de falarem com as pessoas. Especialmente com uma mulher.
-Chamas aquilo mulher? Ou ainda pessoa?
-Diz lá isso outra vez. – Eu se fosse ao Francis já estava longe. Deveria ser intimidante ter o bafo do Ringo a bater-me na cara, ter aqueles dois grandes olhos azuis, agora escurecidos de impaciência e fúria, a olhar-me fixamente. Mas isso não parecia afetar o Francis, pelo menos, ele mostrava-se todo forte e corajoso, mas eu sabia que ele estava cheio de medo.
E antes que o Francis se arrepende-se, ou pior mesmo, antes que o Ringo se arrepende-se de alguma coisa, agarrei o baterista pelo casaco e tentei afastá-lo. – Deixa-o, ele já estava de saída.
-É bom que assim seja. – Ele chocalhou os ombros, virando costas.
-Eu sabia que ias tomar a atitude certa. Ela não vale a pena!
-Diz lá isso só mais uma vez. Desafio-te! – Os olhos de Ringo semicerram-se na direção de Francis.
-Ou então o quê? Chamas os seguranças, roqueiro de meia tigela?
-Não. – Até consegui ouvir a saliva a deslizar-lhe pela garganta seca. O punho direito dele fechou-se, mas eu não tive tempo de fazer nada. – Eu trato disto sozinho!
O punho do Ringo bateu forte na cara do Francis e ele caiu no chão com o nariz a pingar sangue. No dia seguinte ele ia poder contar as duas mossas dos anéis na cara. Ele defendeu-me, não porque eu não me poderia defender sozinha, mas porque ele é cavalheiro e sentiu-se insultado por mim. E também porque fora enxovalhado numa discussão que nada lhe dizia respeito e para a qual foi arrastado. A minha boca abriu-se em espanto e confesso que uma coisa palpitou dentro de mim em excitação. Admito. Eu não o consegui parar, mas também não sei se iria mesmo querer!
Enquanto o Francis se contorcia agarrado ao nariz, constatei que o que diziam era verdade. O John tinha a fama de desordeiro, mas era do Ringo Starr que se devia ter medo. Dizia-se que ele conseguia bater em alguém e ir fazer uma sanduíche logo a seguir, como se não tivesse acontecido. E foi o que aconteceu; Ringo caminhou para a porta, acendendo um cigarro.
-Eu vou-te processar! – Francis berrou, levantando-se. – A ti e a todos! Vêm para aqui miúdos mimados que acham que são os reis-
Ele podia testar todos os limites comigo, mas não ia arruinar outras pessoas. Enchi-me de fúria e fiz a primeira coisa que me veio à cabeça. Esbarrei com ele contra a parede e ameacei. – Atenta alguma coisa contra os rapazes e garanto que te esfolo vivo! – Apertei-lhe bem o colarinho da camisa contra o pescoço, fazendo-o tossir, aflito sem ar. – Eu estou a falar bem sério.
Pela forma como ele me olhou, acho que ficou tudo esclarecido. Larguei-o e ele só disse. – Depois passa pela contabilidade para levantares o cheque. – O Francis saiu envergonhado e a olhar o chão.
Apoiei as mãos na parede e olhei o chão também, respirando fundo. Se calhar devia meter-me com pessoas do meu tamanho… e do meu sexo. Eu não sei se derrubava o Francis, mas mesmo que não conseguisse, sabia que um berro meu e o Ringo entrava por ali adentro e dava-me uma ajuda.
E por falar nele, tinha que lhe agradecer. Abri a porta e ele deitou-me os olhos. – Ele já foi?
-Já, e foi bem calado. – Esbocei um sorriso e sentei-me ao lado dele nos degraus de pedra. – Obrigada por me defenderes.
-Ele não tinha o direito de falar assim. Mas ele que tinha razão em duas coisas. Tu realmente não és mulher nem pessoa. Tu lutas pelo que queres sem medo. És supermulher, e és fantástica. – Senti-me toda a corar e se tivesse um buraco, eu escondia-me, desarmada com o elogio. Ele depois riu. – Isso foi o ponto um. Ponto dois é que ele tem razão: eu sou mesmo pequeno!
-Não. Ele nisso enganou-se. És um grande homem, Richard Starkey.
-Shh!- Ele disse, levando o dedo aos lábios. — Não digas isso. O Ringo fica ofendido e ciumento!- Só pude largar uma gargalhada que ecoou na noite silenciosa. – Bem, está na hora de voltarmos. E, sabes que o Paul não comeu… Devias ir ajudá-lo a assaltar a cozinha do hotel e passar um tempinho com ele.- Eu revirei os olhos. O que seria que eles falavam de mim nas minhas costas?
Notas finais
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