Diary Of A Journalist
11 Capítulo 11
Notas iniciais
(…) Ele engoliu em seco, tremendo, quase de lágrimas nos olhos. – Ela…ela está no hospital. – As vozes dos outros quatro homens misturam-se, fazendo perguntas que o baixista pouco ouviu. – Ela foi agredida pelo pai, e…o avô dela não me explicou muito bem como ela está. Brian… — Ele sussurrou. Mais uma vez, Brian estava a servir como amparo dos miúdos. Sim, eles ainda eram miúdos nos seus vinte anos.
-Claro, Paul. – Ele disse, percebendo, dando-lhe um aperto no ombro. – Eu levo-te lá no final do dia.
-Nós queremos ir também. – Ringo falou, olhando para o John e o George que acenaram com a cabeça, concordando.
Brian suspirou fundo, ainda abalado pelas notícias, e sabendo que aquele era um passo a dar, para remediar um pouco a pressão que tinha andado a pôr sobre eles. – Muito bem. No fim do dia vamos todos vê-la. Agora, acham que conseguem continuar? — Os quatro acenaram. – Como vai a composição até agora? (…)
Os cinco chegaram ao hospital sem ainda ter despertar a atenção de alguma fã. Foram conduzidos por um enfermeiro por um longo corredor, onde tudo predominava em branco. Não foi preciso conduzi-los até ao quarto onde Kate estava pois Paul apressou o passo ao ver David Martin caminhando para o quarto.
-Sr. Martin! – Ele chamou.
-Ah, — O velho olhou para trás e sorriu. – Paul! Como estás? – David deu um aperto de mão a Paul. Depois colocou-lhe as mãos nos ombros e abanou-o. – Já faz algum tempo desde que te vi da última vez. Estás um homem feito.
Paul deu uma risadinha tímida e virou-se, apresentando. – Sr. Martin, estes são o John, o George, o Ringo e o Brian. Pessoal, este é David Martin, o avô da Kate. – Enquanto os outros quatro cumprimentaram o homem, Paul hesitava em entrar no quarto. – Como é que ela está?
-Está a dormir agora, mas os médicos disseram que ela não vai ficar com mazelas.
-O que é que lhe aconteceu ao certo? Ela foi embora sem nos dizer nada. – O baixista colocou os olhos nos colegas de banda e no empresário e depois disse cabisbaixo, olhando o chão. – Eles já sabem sobre o problema dela com o pai. Espero que não se sinta humilhado por eu lhes ter contado.
-Oh rapaz, — David sentou-se nas cadeiras e todos os outros fizeram o mesmo. – tu sentes mais remorsos do que o meu próprio filho…Ela ligou-me e disse que estava na altura de deixar o passado no passado e que ia resolver de uma vez por todas o problema com o pai. Eles nunca mais se tinham visto desde que o internei na clínica de reabilitação há uns quinze anos. Eu nunca disse à Kate, mas ligaram-me dias depois de o ter internado e disseram-me que não podiam ter um paciente contra a sua vontade e tiveram que o deixar ir embora. Soube por uns conhecidos que tenho aqui em Londres que ele estava melhor. Já não bebia tanto e que até tinha arranjado a vida, mas ainda continuava com raiva, sim diria raiva mesmo contra a Kate. E foi quando ela lhe apareceu e acho que ia encontrar um pai diferente e o viu assim. A discussão entre eles aqueceu, ela como sempre disse tudo o que tinha a dizer e acabou mal. Não devia dizer isto mas ainda bem que ele foi preso e vai ser obrigado a ir para desintoxicação. Assim acabam-se os problemas de vez. – O homem largou um profundo suspiro, mas depois levantou a cabeça e disse. – Entrem lá, rapazes. Ela deve estar para acordar.
-Entra primeiro, Paul. – John disse.
Paul levantou-se e preparou-se para entrar enquanto Brian falou. – Sr. Martin, percebi que o senhor e a sua neta são muito chegados e então quero dizer-lhe primeiro a si, que tenho uma proposta de trabalho que ela não recusará.
-Anseio por ouvi-la, jovem. – O velho levantou-se e convidou. – Acompanham-me para um café?
Brian, George e Ringo levantaram-se e seguiram-no mas John ainda olhava o amigo com a mão a agarrar a maçaneta da porta, sem entrar. – Não vais com eles? – Paul disse abafadamente.
-Não enquanto não entrares. Se entrares.- John levantou-se e caminhou até ele. Colocou-lhe a mão sobre o ombro e apertou-o firmemente. – Estou aqui se precisares.
Paul suspirou e deu-lhe uma palmada nas costas. – Obrigado John, mas acho que vou ficar bem. – Então rodou a maçaneta e abriu um pouco a porta. – Podes ir.
Paul entrou e ficou aos pés da cama de braços cruzados a ver a rapariga dormir. Olhou para a prancheta e leu os gatafunhos médicos: três costelas fraturadas, diversos hematomas espalhados pelo corpo, arranhões, estes conseguidos em autodefesa. Depois voltou a olhá-la e sentou-se na borda da cama. Não conseguia tirar o olhar da face dela com um hematoma sobre o olho direito e a testa. E então sorriu. Sabia que ela era forte e que não ia tolerar que ele a tratasse como a donzela que precisa de ajuda. Ele sabia que ela tinha lutado.
Ele agarrou-me na mão, aquela que tem a cicatriz na sua palma, e apertei a mão dele com força. Abri os olhos lentamente e encarei-o. – Olá raio de sol! – Ele disse de sorriso nos lábios. Revirei os olhos contra ele. – Como estás?
-Ótima! — Ele deitou-me os olhos, exigindo que eu deixasse de ser valente e dissesse a verdade. – Bem. Estou bem. O médico disse que não vou ficar com nenhuma marca. Exceto as que já tinha.
-Hei, prometo-te uma coisa. – Olhei-o sério nos olhos como ele me olhava. – Quando formos famosos lá na América eu vou pagar ao melhor médico que encontrar e ele vai tirar-te essas cicatrizes.
-Paul… — As lágrimas quase me escorreram pelo rosto. Ele não podia estar a falar a sério. Contudo gostei da frase dele; ele estava confiante que um dia fariam sucesso na grande América. Ele não encarava aquilo como possibilidade, como um “se” ou um “talvez”, mas como um futuro próximo. E eu sabia que eles conseguiriam lá chegar.
-É promessa, Kate. E não vou deixar que recuses.
-Vieste sozinho? – Eu falei, acomodando-me e mudando de assunto.
-Não, viemos todos. Eles foram tomar café com o teu avô e já devem estar aí. Posso chamá-los?
Eu acenei e só o deixei levantar-se da cama. Segurei-lhe a mão e abracei-o, sussurrando-lhe ao ouvido. – Obrigada por teres vindo, Paul.
-Para mim os amigos não são só para certas ocasiões.
Ele abriu a porta e quando eu esperava ver os outros três rebeldes, entrou Brian que me deu um sorriso.
-Aproveitei para entrar agora porque quero dar-te uma palavrinha primeiro e sei que quando os rapazes entrarem só saem daqui quando acabar a hora das visitas. – Eu sorri; estava a contar com isso mesmo. – Primeiro que tudo, como te sentes?
-Bem. – Sentei-me na cama e só achava que do Brian sairiam palavras de morte. Eu continuava a achar que ele me quereria matar!
-Ainda bem.
-Brian peço imensa desculpa pelo que aconteceu-
-Não, não. Eu conduzo o discurso daqui para a frente. Aquela discussão fez bem a todos nós. Eu estava a ser um bocado duro nos rapazes e como também eu estou a ser pressionado precisei de alguém sobre quem atirar as culpas, e tu foste o meu alvo. Mas, não quero que isso seja assim. Devo agradecer-te pelo artigo que fizeste sobre a banda. Se ele não nos ajudar a conquistar multidões aqui na capital, não sei que mais ajudará! – Ele gargalhou e eu corei com o elogio. – Quero então oferecer-te uma oportunidade que sei que não recusarás. Preciso sempre de uma mãozinha com a impressa, e acho que serás um bom braço direito. Para além disso, poderás escrever artigos sobre os Beatles e vendê-los a quem bem entenderes.
Ele meteu as mãos aos bolsos e eu fiquei atónita. – Brian, isso é uma oportunidade que aparece uma vez na vida. Acho que seria a maior idiota à face da Terra se recusasse.
-Ótimo. Quero ser conhecido como o homem que deu a descobrir ao mundo talentos e não deixaria que recusasses. – Ele depois foi até à porta e suspirou. – Tenho agora é que me mentalizar que vou ser babá de cinco!
Eu ri alto e o quarteto sorriu ao ver-me bem. Brian ficou com o meu avô lá fora enquanto eu fiquei na companhia daqueles quatro. Arrumei-me para um dos lados da cama já que John veio deitar-se à minha beira e os outros só riam do seu normal comportamento. Paul sentou-se na borda da cama outra vez e Ringo sentou-se na cadeira ao meu lado direito e apoiou os cotovelos sobre a cama. George estava ao fundo da cama apoiando-se nela com os antebraços, mas rapidamente deu um pulo e sentou-se na beirada onde tinha tido os braços e colocou os pés sobre a cama de cada lado das minhas pernas. Realmente não podia pedir por melhor: ter os quatro Beatles, não só à minha beira, mas todos na minha cama. Quantas raparigas se poderiam gabar disto? E quantas se poderiam gabar de lhes chamar amigos? Pois, eu realmente tive essa sorte!
Eles fizeram-me rir durante o tempo todo. E eu ri com eles, com vontade, mesmo que me estivesse a doer algumas coisas. Não doía em demasia, mas eu também não ignorava. Na verdade, o riso até estava a ajudar a curar. E é assim que deve ser a vida. Viver a vida ao máximo, em pleno, rir e não ignorar. Eu abri o livro do meu passado, reescrevi-o e coloquei-o de novo na prateleira. Não ignorei e resolvi o passado. Agora, ele é isso mesmo. Passado. Todas as formas verbais daquele livro são passadas. Finitas. E, agora só tenho um futuro para ser escrito à minha frente. E eu vou deixar que ele se escreva por si próprio.
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