Diamond: A história de uma loba
14 Seja meu alguém
Notas iniciais
Diamond
— Olhe! Parece que mamãe e papai já chegaram. — Mike comentou enquanto corríamos.
Estávamos nessa maratona a um tempo, então fiquei satisfeita por já estarmos em casa. Papai parecia totalmente aéreo, o que era bem raro, e mamãe havia entrado na caverna.
— Oi, pai! — Mike sorriu e acabou assustando-o.
— Oh, não tinha visto vocês. Onde estavam?
Olhei para ele como se dissesse “a ideia foi sua, você fala”. Sério. Eu não precisava de mais problemas para o meu lado.
— Bem... Nós fomos caçar um cervo. — Mike revelou. Na mesma hora, os dentes de papai ficaram totalmente visíveis. Ele ia dizer algo, porém, meu irmão continuou a falar.
— Era um filhote. Eu distraí a mãe e Diamond o pegou. Nós comemos e está tudo bem.
Então, o semblante de papai mudou, e eu não conseguia mais saber se ele estava bravo ou feliz. Conseguir decifrar as emoções que meu pai sente é algo muito difícil. Digamos que ele seja um lobo misterioso.
“Por favor, não esteja bravo...” — eu comecei a dizer nos meus pensamentos.
— Ora, ora... Vocês são rápidos! — ele riu. — Eu pretendia revisar as técnicas de caça de todos vocês daqui a uns dias, visto que irão ter mais liberdade para caçar sozinhos. Mas estão mesmo bem?
Feliz. Ufa.
Mike me encarou e voltou a olhar o chão. Agora era minha vez de falar, já que eu estava quieta desde que chegamos.
— Bem, pai, Mike acabou levando um coice no peito. — eu revelei. — Ele insiste em dizer que não é grave, mas não sei...
Papai chegou perto de Mike e o lambeu. Senti que ele também ficou bem preocupado. Veja, se Mike ainda estava de pé depois de correr uma distância enorme, significa que ele iria ficar bem, entretanto, houve uma chance de ele morrer ao levar o coice. Nunca se sabe.
— Argh... — Mike gemeu baixo assim que papai tocou o local ferido com a pata.
— Vamos para a caverna. Você precisa descansar um pouco, filho. — ele suspirou. — Talvez tenha de ficar de repouso por alguns dias, apenas por precaução.
Mike queria rolar os olhos, eu sei que queria. Mas ao invés disso, apenas assentiu com a cabeça e entrou na caverna-quase-toca. Fiquei ali fora olhando para o céu. O Sol estava começando a aparecer mais, junto ao seu calor reconfortante. Involuntariamente, imagens de Radius vieram à minha mente e eu comecei a sorrir bobamente. Acho que se eu me visse, me acharia uma idiota.
— Mas qual é o seu problema? O Sol não tem graça. — era Midnight, como sempre, me atormentando. Mas eu não a culpo. Nunca culparei.
— Me deixe em paz... — pedi com educação.
— Só quando os olhos de Moony pararem de atormentar meus sonhos. — ela grunhiu e entrou na caverna.
Aquela pequena e bruta frase desferida pela minha irmã me destruiu por dentro. Moon. Pequena Moon. Nossa irmãzinha descansa em paz no Paraíso hoje em dia, mas gostaria que ela estivesse conosco.
“Argh, esqueça!” — disse à mim mesma, enquanto lágrimas insistiam querer sair dos meus olhos.
Depois de ouvir aquelas palavras, estava decidida em simplesmente sair dali.
— Pai, estou saindo. Vou para a floresta aqui perto. — avisei da entrada da toca, enquanto Midnight me encarava com seus amedrontadores olhos amarelos, que um dia já foram inocentes.
Papai, que estava comendo a carcaça de ontem junto à mamãe e Nix, parou de comer e veio em minha direção.
— Eu já disse que não quero mais você com aquele lobo. — ele rosnou.
Rolei os olhos. Eu não ia procurá-lo, inferno. Só queria ficar em paz por um instante. Com um longo suspiro, continuei a falar:
— Não estou indo procurá-lo, se é o que você está insinuando. Digamos que o clima entre mim e Midnight não esteja lá essas coisas.
— Oh... Desculpe, filha. Eu não sabia que vocês haviam brigado. — ele encolheu a cauda, algo raríssimo.
— Está tudo bem. Foi uma discussão irrelevante. — sorri amigavelmente. — Mas você sabe que palavras bem ditas machucam bem mais do que ferimentos reais.
— Pode ir, então. — ele lambeu minha bochecha. — Mas não volte muito tarde.
— Obrigada, pai. — disse e comecei a correr. De novo.
Enquanto corria, o vento sacudia os meus pelos. Era como se eu estivesse livre por um momento. Eu não sabia muito sobre as florestas daqui, então assim que achei uma, adentrei nela. Era uma floresta de pinheiros, muito bonita e fresca por sinal.
Então, comecei a sentir um cheiro. Era algo suave. Resolvi seguir o odor misterioso, obviamente. Sou uma loba curiosa. Caminhei um pouco, farejando o ar com perícia, e acabei chegando numa clareira. Mas não era apenas uma clareira chata qualquer. Ela abrigava uma espécie de jardim, cheio de... violetas, eu acho? Não sou uma boa conhecedora de plantas. Mas elas eram a fonte do cheiro.
Por impulso, me joguei nas flores e comecei a rolar sobre elas. Aquilo era tão bom! Era como se todos os meus problemas tivessem sumido. E o cheiro que saía delas era maravilhoso. Estava rindo, de barriga para cima, ingenuamente. Eu estava totalmente vulnerável para qualquer inimigo que resolvesse me atacar.
Mas quer saber? Não ligo.
Que me ataquem se quiserem. Este é um dos poucos bons momentos que tive desde que cheguei aqui. Continuei rolando despreocupadamente, até que ouvi passos.
Ok. Esqueça a parte de eu não ligar se me atacarem. Eu ligo sim.
Rapidamente fiquei de pé. Sacudi meu pelo — que estava cheio de pétalas roxas — e comecei a andar cautelosamente pela região.
— Há alguém aí? — perguntei para o nada.
Sem resposta. Olhei para os lados, verificando se eu não estava louca. Juro pela Deusa Loba que ouvi passos.
“Hum, deve ter sido minha imaginação, afinal.” — pensei e me virei de costas, para voltar a deitar nas flores.
Eu só não contava que seria derrubada por um lobo nesse meio tempo.
— Argh! Saia de cima de mim! — vociferei para o estranho, enquanto meus olhos estavam fechados.
— Não se deve dar as costas para um inimigo, princesa.
Radius?
Abri meus olhos e sim, era ele mesmo, com um sorriso estampado no focinho.
— D-desculpe... Eu não sabia que era você. Pensei que era um estranho. — eu disse e senti minhas bochechas corarem. Saco.
— Não se desculpe. Você só estava se defendendo. — ele deu uma piscadinha e saiu de cima do meu corpo, sentando-se próximo a mim.
Me deitei de lado, para poder continuar olhando-o.
— Então... Não sabia que conhecia este lugar. Eu até queria te trazer aqui ontem.
Percebi que Radius estava nervoso. Sua cauda não parava no lugar e ele tentava evitar o contato visual. Seria por minha causa?
Claro que não. Não seja estúpida.
— Bom, na verdade eu meio que não conhecia essa floresta. — contei. — Foi só o primeiro lugar que eu achei para... hum... fugir da minha família. Não num sentido ruim. É difícil explicar.
Radius estava com uma expressão confusa. Se o assunto não fosse sério, talvez eu estivesse rindo.
— Por que fugir de sua família? — ele riu.
— Não é bem de toda a família, mas sim de uma de minhas irmãs. — suspirei. — Digamos que ela não goste muito de mim. Tivemos uma discussão agora pouco, então eu resolvi ficar sozinha por um tempo.
— Hum... Eu estou atrapalhando nessa sua coisa de ficar sozinha?
— Bom, está. Mas acho que isso é uma coisa boa. — sorri. — E quanto à sua alcateia?
— Ah, bem... Eu saí. — ele disse secamente.
— Mas por quê?
— Talvez eu fique melhor sozinho.
— Ninguém fica melhor sozinho. Todos precisamos de alguém ao nosso lado, Radius. — eu disse enquanto me levantava.
Sentei ao lado de Radius e o olhei por alguns instantes, enquanto ele parecia confuso e feliz. Então fiz o que eu queria fazer desde ontem: me aconcheguei nele. Eu estava com medo de ele recuar, mas fiz mesmo assim, e para a minha surpresa, ele retribuiu.
— Você poderia ser esse alguém. É a única loba que eu tenho ao meu lado. — ele disse, enquanto ainda estávamos juntos. — Digo... Nos conhecemos ontem, mas... Somos amigos, certo?
Amigos...
— C-claro que somos! E eu irei ficar do seu lado.
Talvez eu realmente esteja apaixonada por Radius. Sinceramente, se isso que está acontecendo entre nós não for amor, então eu não sei o que é.
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