Notas iniciais
Boa leitura!

Caroline se olhou no espelho por um instante. Deslizou a mão pelos cabelos, tão sedosos, que escorriam numa suavidade ondulada até se encontrarem no coque rebuscado preso por pequenos enfeites de uma delicadeza infinita. Admirou as formas do rosto, tão formosas, tão realçadas. Tudo brilhava com uma perfeição de porcelana naquele dia, inclusive ela. Perguntou-se se haveria brilho nos seus olhos também. Sem dúvida estavam belos, por entre cílios tão longos e curvados. A maquiagem que usava imitava a sutileza, o equilíbrio; a perfeição não pode ser dissonante. O vestido, leve, fino, deixava o busto à mostra, e os detalhes em renda finalizavam o tom magnífico de elegância e graça.

Imersa nos detalhes, nas partes, nos pontos, a mulher em frente ao espelho quase parecia outra pessoa. Respirou fundo. Constrangeu uma lágrima que não chegou a cair. Ajustou mais uma vez o tecido ao corpo. Olhou para o buquê de lírios ao seu lado com uma sensibilidade que quase a levou às lágrimas mais uma vez. Pegou as flores com cuidado, consciente da textura e do perfume. Aproveitou o que seriam seus últimos momentos a sós em quanto tempo? Ela não sabia quanto tempo. Não sabia se queria estar só naquele momento decisivo, mas acima de tudo não sabia se desejava estar acompanhada pelo resto da sua vida. O casamento. Parecia tanta coisa, tudo aquilo. As crianças com ternos e os arranjos nas mesas, toda a comida preparada e as lembrancinhas cuidadosamente embaladas. E havia o futuro... que parecia estender sobre ela asas com o peso de plumas. Porque o que poderia dar errado? Ela se perguntava. Não encontrava respostas verbais, audíveis. Mas havia um suspiro, um ruído, algo que a fazia temer desesperadamente. O desconhecido.

Pensou no noivo. Caçoou de si mesma pela simples perspectiva de temer algo ao lado dele. A confiança era um traço de seu relacionamento. E ela gostava de imaginá-lo sorrindo; sim, ele adorava sorrir. A forma como ele ficava com raiva nos cantos dos olhos; não na voz, não nas mãos, mas a expressão que ele sempre fazia e como comprimia os olhos, como era familiar... Tudo era conhecido, tudo era seguro. E ela riu de si por duvidar.
Já estava pronta quando ouviu uma das madrinhas chamando do outro lado da porta. Trocaram sorrisos, esperanças e confidências, tudo num único momento silencioso feito de expectativas. Caroline saiu para o pequeno corredor que conduzia às escadas. Estava na casa dos pais, na casa onde crescera. Estava tudo muito bonito, meticulosamente acolhedor no dia mais importante de sua vida. Mas enquanto deixava para trás cada degrau, se sentia cada vez menos no presente, cada vez menos em si. As lembranças do passado misturavam-se com imagens do futuro. A sensação de que o futuro não a pertencia, suas decisões não a pertenciam, nem sua respiração parecia pertencê-la naquele momento, tão suspensa estava. Cada passo que dava se tornava mais alienado do chão sob seus pés.

E então ela chegou ao pé da varanda, em frente à porta onde todos a esperavam do outro lado. Onde seu grande dia esperava para acontecer. E pensou no amor de infância, no amor da juventude, e naquele que sentia agora. Lembrou de como era sentir-se fora de si e como era sentir-se exatamente no lugar em que deveria estar. Um rosto antigo e amado resplandeceu sob a luz da memória. Lembrou-se de Marcus e de como um dia acreditara amar para sempre outra pessoa além da que prometeria amar para sempre agora. Reviveu, estática e inexpressiva, beijos apaixonados e momentos sem fim em lugares só deles. E entendeu mais uma vez as razões pelas quais não faziam mais parte da vida um do outro. Indagou se ainda o amaria se o visse. Mas esperava não vê-lo. Havia feito um bom trabalho esquecendo-o; o tempo é a maior distância de todas.

Agora seu coração pulsava estranhamente, leve e apressado. Reparou enquanto as crianças ajeitavam-se à sua frente para entrar. Uma carregava a cesta com pétalas de rosa, e havia também os pequenos noivos, cada um seu devido lugar. O padrinhos quase terminavam sua participação. A fila que a precedia se movia rápido demais, assim como a vida. Alguém deu o sinal para que entrasse. A marcha nupcial soava pesada e antiquada. Seus pés se moveram apenas o suficiente para avançar um passo, e depois outro. Quando alcançou o gramado, ela olhou para trás. E então todos olharam para ela, encantados, numa admiração apaixonada, com olhares que ela não podia suportar. Fixou os olhos à frente, e encontrou o noivo. Desejoso, emocionado, amável. O peito subindo e descendo apressadamente. Suspirou e quase traiu um sorriso. Seus passos se tornaram mais rápidos, cadenciados. Segurou o buquê com mais força e endireitou a postura. Pensou em tardes de sol, noites de amor e abraços de conforto nos momentos difíceis ao longo dos anos. E por um segundo acalmou-se. Mas ela olhou para trás.

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