Dia.
1 Capítulo Unico
Acordo e escovo os dentes com uma pressa fora do comum, na cozinha tomo um café reforçado e saio correndo para o ponto de ônibus. É sábado de manhã, mas tenho coisas pra fazer e pessoas pra encontrar.
Na bolsa levo uma muda de roupa extra, uma garrafa de água, uma sombrinha para o caso de chover. Levo também minha carteira quase vazia e barrinhas de cereal para aplacar minha fome futura.
Subo no ônibus e coloco os fones de ouvido, contenho minha vontade de dançar sobre o som de músicas que tanto amo e que de tanto escutar já decorei letra e ritmo. Desço no ponto final. Olho para ambos os lados antes de atravessar a rua, lembro de tirar os fones pra prestar atenção na cidade ao meu redor, não quero acabar esbarrando em algo por estar desligado na música.
Chego ao meu curso.
Ainda é cedo, muito cedo. Cheguei são nove horas, ele começa às uma da tarde, mas se eu me importo? Não. Ajudo a recepcionista a varrer a frente do lugar, converso com a moça da cantina, pego um livro emprestado no pequeno acervo e folheio páginas e páginas até chegar alguém da minha turma. Nós conversamos sobre o mundo, sobre nós mesmos, rimos e fingimos chorar de comentários maldosos que nós mesmo fazemos um do outro. Drama, é isso, gostamos de um drama.
Logo me vejo cercado de colegas, todos se juntam para conversar ali na recepção. Somos chamados atenção e vamos para o quintal conversar enquanto esperamos a aula começar.
Meu celular desperta e corro para o banheiro, tenho que trocar de roupa. Calças e camisas pretas de materiais confortáveis e leves, cabelos presos em coques feitos as pressas e lá vamos todos nós para a sala no final do corredor.
Alonga o pescoço, os braços, as pernas, alonga até a cintura num rebolado engraçado. Três pulinhos pra se soltar, recitar as vogais para aquecer a voz. “Mais alto, mais alto” grita o instrutor, “não perca o tom” ele adverte.
Sentar no chão, ouvir a explicação. Todos de pé, a aula vai começar. Mova seu corpo para lá e para cá, se solte! Crie! Imagine! Se desconstrua para depois se reconstruir!
“Atenção!” exclama o instrutor enquanto andamos pelo espaço, ele tem um exercício para fazermos. Ouvimos atentamente sem parar de andar. Oukay, entendido, temos que improvisar. Escolha sua dupla, pois o meu é trio, uma amiga faltou.
“Faremos assim, que tal?” diz o garoto ao apresentar sua ideia. Assentimos. Hora de ensaiar, dois minutos? Meus Deus, não vai dar. O professor voltou. Muito bem, hora de apresentar.
Eu vou por aqui, vocês por ali. Se encontramos no centro, brigamos, rodamos, caí no chão. Rápido alguém caía em cima de mim! Parabéns amigo, você entendeu. Ufa! Acho que o professor não percebeu. Acabou? Acabou. Professor nos manda sentar, ele comenta nosso erro. Droga. Não conseguimos disfarçar. Um elogio? Sim! Um elogio pelo pensamento rápido? Amém!
Intervalo! Com os ossos doendo saímos todos em disparada. Banheiro, água, barrinhas de cereal. Nada muito pesado pra não passar mal. Volta pra sala, deita no chão. Aproveita o ventilador, pois o calor está do cão.
“Falta alguém?” indaga o professor. Na mesma hora entra a atrasilda, pede desculpas e se junta a nós no chão.
Mais um exercício, agora de voz. Minha garganta não está boa, levo bronca. Nada de água gelada pra mim. Acabou a aula? Mais já? Ahh, que pena. Hora de tomar banho, sair suado assim nem pensar? Filinha na porta do banheiro, o último vai secar. Não ser o último devo lembrar.
De banho tomado, espero ali na frente. Hoje tem peça? Vou assistir. Sentados todos ali na recepção, esperamos até as oito da noite pela apresentação. Começaram uma fila? Melhor ir até lá. Espera. Espera. Espera. Vai começar.
Nossa, eles são bons. Ops, ficaram fora do foco de luz. Olho para trás, o diretor parece zangado. É fundamental, tem que relevar. História legal, faltou concentração. Suspiro quando a peça acaba. Que confusão. Faço questão de lhes parabenizar pela apresentação, criticar depois, fora da multidão.
Hora de ir pra casa. Pegando o ônibus das nove e meia chego em casa às onze. Chego em casa, troco de roupa. Esquento a comida no micro-ondas e estou a jantar quando mãe entra e me diz pra não chegar tão tarde da próxima vez, já é a decima quinta vez que ela me diz isso apenas por dizer, apenas por não querer admitir que estou crescendo.
Deito na cama, não está na hora de dormir. Recebo uma mensagem, é um “oi, amr”. Respondo ele e conversamos, falo sobre meu dia, ele está estranho. Pergunto o que há, ele diz “nada”. Pergunto se ele tem algo que queira falar, ele diz “não”. Eu o digo que não acredito nele, ele diz a verdade. Eu desligo o celular e viro de lado. Fecho os olhos e tento não chorar, não posso chorar, não quero chorar… Mesmo assim não nego a mim mesmo que estou triste.
Foi um grande dia hoje. Drama, sim, eu gosto do drama. Eu suspiro aliviado e tento até sorrir, afinal...
Amanhã é domingo, é dia de sair com quem ama. É dia de se sair para o cinema ou algo assim. Amanhã é domingo e eu ficarei em casa. Hoje é domingo, pois já passou da meia-noite e eu ficarei em casa vendo as detentas de Litchfield lidarem com elas mesmas. Porque ele terminou comigo.
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