Notas iniciais
Temos um assassino aqui?

Acordei instantaneamente no mesmo lugar que eu estava. Minha cabeçava estava latejando muito agora, e estava com dificuldades para respirar direito. O guarda havia sumido do telhado, e eu estava sozinho. Me levantei tonto, não conseguia enxergar direito também, a neblina havia se dissipado e agora estava tudo calmo como antes. Caminhei devagar até a sala dos funcionários e me apoiei na mesa para não cair, peguei alguns sinalizadores da mala e desci até o saguão de entrada da prefeitura. A minha tontura havia passado, mas as dores estavam fortes ainda na altura do estômago. As portas de carvalho da prefeitura estavam escancaradas, e o piso estava cheio de pó das explosões. Calmamente, sai da prefeitura e parei em frente ao relógio que estava em pedaços na avenida, espero que o barulho causado não atraísse infectados.

Eu havia esquecido de Aaron, apenas lembro dele ter caído do telhado quando o soldado o atingiu. Provavelmente ele estaria morto agora, e Júlia não sabia de nada. Sentei em frente à farmácia enquanto recuperava o fôlego perdido, quando ouvi algumas vozes não muito distantes. Olhei para a esquina com a visão um pouco borrada, um cara estava vindo em minha direção.

– Aonde você pensa que vai? — perguntou o cara.

Foquei a visão nele e percebi de quem se tratava.

– Aaron. — tossi. — Seu grande filho da....

– Pensou que iria se livrar de mim? — a perna dele jorrava sangue demais agora.

– O que houve com a sua perna? — perguntei.

– Quando fui jogado do telhado, cai em cima de um andaime de construção. Foi a minha sorte, agora eu poderia estar morto se não fosse pelo andaime que sustentou a minha queda. A janela estava aberta, então entrei em um escritório e fiquei lá por algum tempo. — ele se apoiou na parede.

– Que sorte, eu não estava afim de dizer à Júlia como você havia morrido. — soltei um sorriso fraco.

– Vá se ferrar. — ele riu.

– Oi? — chamou uma garota na esquina.

Ela usava uma blusa de frio rosa, shorts curtos, cabelo castanho claro, tinha olhos grandes e muito bonitos. Saquei o revólver e mirei nela.

– Calma, eu não sou um deles. — ela me acalmou.

– Quem é você e o que quer? — perguntei enquanto pressionava a barriga.

– Meu nome é Beatriz... Estou passando um tempo aqui nesta farmácia e... Vi o estado de vocês e resolvi ajudar.

– Não precisamos da sua ajuda. — Aaron sussurrou.

– Hã... — ela hesitou.

– Espere, espere... Você teria alguns panos para estancamento de sangue e alguns analgésicos para dor? — perguntei curioso.

– Provável que sim, a farmácia foi pouco saqueada. — ela disse. — Venham comigo!

Fiquei em pé e a seguimos pelos fundos da farmácia. Ela entrou e fechou a porta.

– Bem, estamos passando o tempo aqui. Já estamos aqui há uma semana e está tudo bem. — ela disse enquanto checava as gavetas do caixa.

– Estamos? — perguntei.

– Sim, estamos. — um garoto havia aparecido das sombras, assim, de repente. Ele usava camiseta de manga comprida preta, Jeans, all star de caveira, touca cinza e um anel de osso. — Quem são eles?

– Ah, uns conhecidos que encontrei aí na frente. — ela voltou com alguns curativos e remédio. Ela passou o remédio na perna de Aaron que estava gemendo de dor, e cobriu a perna com o curativo branco. — Assim ficará melhor.

– Por que deveríamos confiar neles? — o garoto perguntou.

– Emanuel, eles estavam na prefeitura quando eles chegaram.

O garoto nos fuzilou com um olhar, pensei que ele iria pular em nós e nos matar.

– Sei... — ele desconfiou.

Aaron sentou-se agora. Beatriz pegou alguns comprimidos azuis e me deu.

– Tome-os. Vai ficar melhor pela manhã.

– Ah, ok. — tire-os da embalagem e os tomei. — Argh!

– Por quê vieram para cá? — Aaron perguntou.

– Ah, parecia seguro pelo o que fiquei sabendo. — Beatriz sentou-se atrás do caixa.

– Até demais. — olhei para o chão. — Desde que chegamos aqui, não avistamos nenhum infectado, só alguns mortos.

– Ah, nós vimos dois e tivemos que matá-los. — Beatriz disse.

– Estranho isso, até demais. — Aaron sussurrou.

– Bem, é... Precisamos ir. — avisei. — Nossas namoradas nos esperam.

Beatriz fez cara de tédio.

– Onde vocês estão abrigados?

– Final da rua Lison, há um ônibus fechando a rua, é fácil de achar. — informei.

– Ah, tudo bem. Se precisarem de algo a mais... Nos procurem, estaremos bem aqui. — ela avisou.

– Eles não irão . — o garoto soltou um sorriso sarcástico.

– Cala a boca Emanuel. — Beatriz ficou furiosa.

– Ah, obrigado. — Aaron saiu da farmácia.

– É, obrigado. — eu disse.

– Disponham. — ela riu.

***

Passamos pelo ônibus escolar e adentramos no terreno da casa, tudo estava como antes. Entramos pela sala dos fundos e fechamos a porta de vidro.

– Quem está aí? — perguntou Júlia com a voz abafada no quarto.

– Nós, podem sair. — sentei no sofá.

Elas saíram do quarto e vieram em nossa direção.

– O QUE ACONTECEU COM VOCÊ, AARON? — Júlia gritou.

– Eu estou bem. Cai do telhado da prefeitura por causa do bombardeio, mas não foi queda alta.

Júlia foi para a cozinha com Aaron.

– Você está bem? — Giovanna parecia confusa.

– Estou, levei uma pancada na cabeça e na barriga. Encontrei uma garota numa farmácia e ela nos medicou, ela fez o curativo de Aaron.

– Garota? Que garota? — Giovanna perguntou.

– Uma tal de... Beatriz. Ela foi gentil em nos ajudar, e disse que se nós precisarmos ela poderá nos ajudar. — coloquei o braço nos olhos.

– Hum... sei. — ela parecia brava.

– O que foi? — perguntei.

– Coisas boas não acontecem em farmácias, você sabe disso. — ela foi para o quarto.

Eu ri.

– Ei cara. — Aaron entrou na sala. — E o guarda que nos bateu, o que aconteceu à ele?

– Não sei, quando acordei ele não estava mais lá. — informei.

– Temos que ter cuidado, podemos ter sido seguidos. — Aaron parecia nervoso.

– Espero que não. — sussurrei.

Júlia voltou até nós.

– A explosão deve ter atraído infectados num raio de 4 KM, devemos dobrar o cuidado agora.

– É. — tirei o braço dos olhos. — Vamos ter que fazer menos barulho e vigiar melhor.

– Sim, sim. — Aaron concordou.

– Vem, vou te ajudar a trocar de roupa. — Júlia puxou Aaron para o nosso quarto.

– Todos vamos morrer. — Giovanna disse quando se aproximou.

– O que você quer dizer?

– Você sabe, estamos infectado já. Mesmo se nós morremos sem sermos mordidos, iremos nos transformar. O ar traz o vírus até nós, é por isso que eles se tornam infectados nos filmes sem ao menos, serem mordidos. — Giovanna explicou.

– É, eu sabia disso já. Mas se nós não morrermos de nenhuma maneira, ficaremos bem. — eu disse.

– Já estamos mortos. Se nós sobrevivemos até o final, um dia iremos morrer por causas naturais. Pela lógica, não há motivos para continuar aqui. — ela observou o vidro.

– Calma, temos que sobreviver, apenas isso importa. — a acalmei.

– Droga, como Everthon deve está? E Canni? — Giovanna perguntou nervosa.

– Não sei, queria saber também. — respondi

– Espero que eles consigam sobreviver.

– Ah, eles vão, pode ter certeza. — respondi

– Eles não precisam voltar para nós, até porquê, jamais nos encontrariam aqui, mas sei lá...

– Se nos encontrarem será muita sorte. — observei o teto.

A televisão no canto da sala começou a emitir chiados e passou a transmitir a imagem de uma mulher. Ela estava em frente a uma parede branca em um local pouco iluminado, ela usava uma regata branca e um comunicador no ouvido, cabelos loiros lisos e olhos verdes.

– Já está gravando? — ela perguntou.

Ouvi um "uhum." Júlia e Aaron se aproximaram de nós.

– Não há tempo para apresentações, à todos os sobreviventes do estado: há um grupo gigante de sobreviventes à oeste na rodovia 133 próximo a divisa com o Paraná. Temos de tudo aqui... — a mulher desapareceu da tela e voltou em alguns instantes. — comida, mantimentos e etc... Venham para cá, formaremos um exército, uma cidade de livre-arbítrio, cercada por muros e protegida de qualquer ameça. — a tela começou a chiar e ela desapareceu por uns instantes até voltar. — Iremos trabalhar juntos para defender a cidade, e buscar uma cura para tudo isso. Apenas venham, juntos, faremos um novo amanhã.

A mulher desapareceu e a televisão voltou a chiar.

– Como eles conseguiram fazer isso? — perguntei abismado.

– Televisão pirata. Entram em algum estúdio e conseguem um jeito de se ligarem as satélites mais fáceis de hackear no espaço. — Aaron observava a televisão na esperança de que a mulher retornasse.

Todos o observamos.

– Isso que ela disse é verdade mesmo? Devemos confiar? — Júlia parecia confusa.

– Não, não podemos continuar à leste. Temos um local bom e seguro para ficar, podemos até tentar ir para lá depois de algum tempo. — rebati. — Mas por enquanto, não podemos deixar isso aqui para trás.

– Ele tem razão. Demoraríamos dias até chegar lá, e não temos tanto mantimento para aguentar tanto tempo. E se isso foi mentira? Se apenas quiserem nos usar para alguma coisa? — Giovanna ficou nervosa.

– Experimentos malucos... — sussurrou Aaron.

– Apenas, vamos ficar aqui e sobreviver, ok? — perguntei.

– É, pode ser. — Júlia parecia triste.

– Deve ser bem difícil hackear um satélite... — observei.

– Nem tanto, estudei um pouco o assunto... E além do mais, tudo foi abandonado as pressas e acabaram não desativando nada. Ou seja, só conectar um cabo aqui, outro ali e pronto. — Aaron disse.

– Será que eles irão voltar a transmisão novamente? — Júlia perguntou.

– Não duvido nada. — Aaron disse. — Vamos ficar atentos à televisão, ok?

Ouvimos batidas na porta, sacamos as nossas armas e fui em direção a porta. Era o garoto e a garota de hoje mais cedo, o que eles queriam? Abaixei a arma e abri a porta. O garoto usava uma espécie de espada nas costas.

– Ei, somos nós. — a garota chamada Beatriz riu. — Podemos?

– Hã.... Sim. — os chamei.

Eles entraram e fechei a porta.

– Quem são vocês? — Giovanna abaixou o arco.

– Conhecidos, nós medicamos eles hoje mais cedo. — Emanuel disse.

– É, agradecemos. — Aaron sussurrou.

– Estão melhores? — Beatriz se aproximou de Aaron.

– Sim, eles estão. — Júlia afirmou.

– É... Então, viemos para dizer que, infelizmente, por causa da explosão, alguns zumbis chegaram à cidade há alguns minutos. — Beatriz disse com um sorriso no rosto.

Aaron me fitou.

– Precisamos acabar com eles, agora. — os chamei.

– Exato. — Beatriz apontou para a saída.

Todos saímos armados até a rua. Aaron subiu no ônibus através das janelas e fitou o local.

– Há uns quatro vindo para cá, vamos.

Passamos pelo ônibus e nos aproximamos da horda. Emanuel passou correndo por nós em direção aos infectados

– Não! — hesitei em correr.

– Calma. — Beatriz me segurou pelo braço. — Ele sabe o que faz.

Giovanna soltou olhares.

Emanuel puxou a espada, girou e cortou fora a cabeça de um infectado, se abaixou e fez outro infectado tropeçar nele e cair. Esmagou a cabeça dele com o pé e o observou.

– Cuida... — Júlia não terminou a sua frase.

Ele girou rapidamente e cortou a cabeça de outro infectado que começou a se debater no chão. O último infectado foi na direção dele, ele girou a espada na mão, mirou no infectado, e a jogou na cabeça dele. O último infectado caiu morto com a espada cravada na cabeça, ele a tirou e a limpou na grama. Ele voltou até nós com a cara fechada sem dizer nenhuma palavra e cruzou os braços.

– Você é bom. — o elogiei.

Ele deu com os ombros e foi em direção à esquina.

– Vamos. — ele chamou.

Ele parecia um assassino de verdade, chegou a me dar arrepios. Nós apenas o seguimos.