Notas iniciais
Sinceramente, eu não queria ter feito aquilo.

A chuva havia voltado agora. Estava mais forte que antes, agora com direito a raios e trovões. Júlia estava olhando o quintal através da porta dupla de vidro da sala, Aaron estava tentando consertar um pequeno rádio que ele havia achado na casa. Giovanna estava dando uma olhada no quarto do casal, e eu estava agora, no quarto da criança. A persiana branca estava fechada, a beliche azul estava desarrumada com alguns papéis em cima. Me aproximei da escrivaninha de madeira e observei a superfície: livros, jogos, CD's, computador, e um cartão de viajem. Li o cartão de viajem que indicada férias no Havaí para março de 2013, talvez, eles planejassem viajar em breve. Observei pela brecha da persiana o jardim, que estava muito calmo agora. Tudo continuava igual, molhado por causa da chuva, porém, haviam muitas folhas espalhadas pelo chão por causa do vento agora, e nem sinal de zumbis. Peguei um globo de neve na mesa e observei o interior: um papai noel e uma hiena voavam em círculos. Giovanna entrou no quarto no momento em que eu observava um pôster de 'The Walking Dead' na parede ao lado da janela.

– Eu e Júlia ficaremos no quarto do casal, e vocês podem ficar aqui, ok?

– Tudo bem, está ótimo. — respondi.

Saímos do quarto e encontramos Aaron ainda tentando consertar o rádio a pilha.

– Conseguiu? — perguntei.

Ele bufou.

– Não, estava quase... lá. Droga! — ele soltou o rádio. — Alguma coisa nova?

– Não, a casa está limpa e poderemos ficar aqui por um tempo. — respondi.

– Isso é bom. Amanhã poderemos sair para buscar os mantimentos e verificar a vizinhança, que tal? — ele perguntou.

– Pode ser.

– Há algumas madeiras aqui ao lado da casa, podemos utilizá-las para fechar a casa. — Aaron parecia entusiasmado.

– Isso é ótimo, vamos fechar as janelas e a parte frontal da casa, quem sabe isso pode nos defender. — eu disse.

– Sim, sim.

– Jú, ficaremos com o quarto do casal, certo? — perguntou Giovanna.

– Demorou! — Júlia respondeu.

Aaron não pareceu gostar da ideia.

– Ei, por quê não posso ficar com ela?

– Porque você é homem, e ficará com Jimmy no outro quarto. — Giovanna respondeu.

– Que ótimo... — sussurrou Aaron. Ele se levantou e foi até a cozinha.

– Júlia, me ajuda com umas roupas no quarto? — Giovanna foi em direção ao quarto.

– Claro. — Júlia a seguiu e fechou a porta.

Aaron voltou com um martelo e alguns pregos em mãos.

– Achei isso na cozinha, poderemos usar amanhã.

– Ah, que legal. — respondo sem interesse.

Ele notou isso.

– Precisamos de mais munição, comida e outras coisas.

– Não se preocupe, amanhã iremos procurar por tudo isso. — avisei enquanto observava a chuva cair lá fora através da porta de vidro. — Quando a chuva parar, vamos começar com as barricadas.

– Pode ser. — ele disse. — É, cara... Você vai fazer o que em questão ao seus amigos?

– Não sei ainda. Achamos um lugar bom para ficar e seguro, não podemos deixar para trás. Sabe, Giovanna tem razão, ele quis ir então, que vá. — dei com os ombros.

– É, também penso assim. — ele concordou. — Mas, se fossem meus amigos... Eu com certeza iria atrás.

– Você é você, eu sou eu. Nada igual. — me virei e fui em direção ao quarto, deixando Aaron furioso.

Bati algumas vezes na porta até Júlia abrir e me deixar entrar.

– Cadê a nossa privacidade? — perguntou Giovanna sentada na cama.

– Hã... Desculpe. — fiquei envergonhado.

– Eu estou brincando. — ela riu. — Mas então, o que faremos por enquanto?

– Quando a chuva parar iremos barricar a casa, amanhã Aaron e eu iremos atrás de suprimentos. — respondi enquanto olhava para o quadro atrás da cama.

– Ah, então nós vamos. — Júlia disse.

– Preciso que fiquem. É mais seguro aqui. — rebati.

– Mas... — Giovanna hesitou. — Ah, tudo bem.

– Que horas provavelmente deve ser? — perguntei.

– Cerca de duas da tarde? — Júlia chutou.

– Aposto que sim. — sussurrei.

***

A chuva parou e Aaron e eu saímos da casa. Carregamos as madeiras para as janelas, fechamos todas as janelas da casa por completo cautelosamente.

– Sabe fazer ligação direta? — perguntei ofegante quando terminei a última janela.

– Sei sim, por quê? — Aaron perguntou.

– Vamos precisar, no final desta rua tem um ônibus escolar. Poderíamos usá-lo para fechar a rua, que tal?

– Ótima ideia, faremos isso. — ele se animou. — Cara, essa cidade está parada demais, não acha?

– Achei estranho também, porém ótimo ao mesmo tempo. — respondi. — Vamos até o ônibus.

Entramos no ônibus escolar cinza claro que estava abandonado no meio da avenida. Sentei no primeiro assento enquanto Aaron fazia a ligação direta no veículo. Depois de alguns minutos, ele conseguiu ligar o ônibus e saímos de ré. Ele entrou numa rua à esquerda e fez o retorno em volta da pequena praça da cidade.

– É difícil controlar isso! — ele disse.

– Imagino. Temos que ir logo, podemos atrair atenção. — avisei.

Ele voltou até a nossa rua, atravessou o ônibus na rua de maneira que possamos passar apenas pelas calçadas. Ficamos num pequeno espaço que era tomado pela igreja e nossa casa. Descemos do possante e o observamos.

– Ótimo, isso vai ajudar. Precisamos fechar a calçada da igreja, e fazer uma espécie de portão na nossa calçada. — Aaron disse.

Observei a casa ao lado da nossa: havia uma garagem com a placa informando "Oficina do Tony", me aproximei e observei as listras de óleo espalhadas pelo chão.

– Aaron, vamos abrir isso aqui. — apontei para o portão da garagem.

– Certo, já sei como. Espere um segundo... — ele entrou no ônibus e voltou com um pé de cabra. — Estava ao lado do acelerador, irá servir.

Ele quebrou o cadeado médio que trancava o portão e abriu devagar o portão. A garagem estava vazia, haviam vários armários de ferramentas e algumas mesas de trabalho. Haviam muitos pneus no centro da garagem, o que era até normal para uma oficina.

– Opa! Isso poderá nos ajudar. — eu disse enquanto pegava um pneu.

– Como? — perguntou Aaron.

– Coloque na calçada, usaremos como defesa também. — eu disse.

Terminamos de por todos os pneus na calçada da igreja.

– Vou procurar por uma fita para ver se conseguimos amarrar estes pneus. Pegue algumas pedras e as coloque em cima deles, ok? — perguntei enquanto corria para os fundos da casa.

Entrei na casa e fui até a cozinha. Abri os armários e não havia nada, abri as gavetas e achei uma fita cinza de longa durabilidade.

– Está tudo bem? — perguntou Giovanna. — Escutei sons de veículo.

– Está sim, já volto. — corri para fora da casa até Aaron que estava colocando uma última pedra grande em cima da pilha de pneus velhos.

– Pronto, isso deve fechar. — informei-o.

Passei todo o rolo de fita em volta dos pneus de forma que formassem um objeto só.

– Arame seria bem-vindo, também. — Aaron disse.

– Vamos procurar por isso. — eu disse.

***

Era noite, havíamos achado algumas velas na cozinha e as acendido. Estávamos conversando na sala de estar no fundos, enquanto ficávamos de olho lá fora. Aaron estava com um revólver em frente à porta de vidro e fazia a nossa segurança agora.

–... Então, ela disse que nunca mais queria pisar no colégio. — terminou Giovanna enquanto ria.

– Você fez mesmo isso? — perguntei enquanto ela assentia. — Caraca.

– Vocês acham que há outros sobreviventes nesta cidade? — Júlia mudou de assunto.

– Não sei, mas não vamos baixar a guarda. — disse Giovanna.

– Podem haver outras pessoas sim, mas não vi nenhum infectado por aqui e isso é bem estranho. — fiquei preocupado.

– Isso é bom, não? Assim podemos passar o nosso tempo aqui sem nos preocupar tanto com os infectados. — Júlia disse enquanto observava Aaron às vezes.

– Amanhã iremos averiguar a situação e tirar as provas reais. — disse Aaron.

– Vou dormir, estou bem cansada. — Júlia saiu da sala e foi para o quarto.

– Ela está bem? — perguntou Giovanna à Aaron.

– Como assim? — ele parecia confuso.

– Sobre a amiga dela que morreu, Everthon havia me dito.

– Ah... Ela já está melhor, parou de chorar, porém, às vezes eu a pego com os pensamentos longes. — Aaron disse.

– Entendo. Ela ficará bem. — Giovanna disse enquanto beijava a minha bochecha e ia dormir. — Até amanhã.

Ficamos em silêncio por algum tempo.

– Será que ficaremos aqui por um bom tempo? — perguntou Aaron.

– Espero cara, não aguento mais mudar de lugar. — respondi.

– Vamos à delegacia pegar munição e depois até a prefeitura, que tal? — perguntou Aaron.

– Uma boa, quero ver o que houve naquele lugar.

– Vou vigiar um pouco agora, pode ir descansar.

***

Acordei Aaron no dia seguinte. Ele se levantou rapidamente e pegou suas armas. Avisei a Giovanna que estávamos saindo, ela assentiu e corri até o quarto para colocar minha jaqueta novamente. Saímos de casa e passamos pela barricada improvisada, a cidade toda estava coberta de neblina e eu mal conseguia enxergar até o final da rua.

– Cara que neblina! — Aaron observou.

Olhei para ele com cara de tédio.

– O que foi? — ele perguntou confuso.

Chegamos até a prefeitura e paramos em frente a porta de carvalho dupla.

– Trouxe o pé de cabra? — perguntei.

– Opa! — ele sacou o pé de cabra e quebrou a madeira na horizontal fazendo com que a porta ficasse aberta.

Adentramos no saguão da prefeitura, era um saguão comprido e largo. O piso era preto e branco, haviam sofás, mesas centrais, mesas de atendimento e uma porta que levava para uma escada nos fundos. Porém, uma coisa me chamo ua atenção: vários corpos de infectados formavam uma pilha no lado direito do saguão, próximo a uma estátua de Napoleão. Havia muito sangue no chão, indicando que corpos foram arrastados e jogados ali.

– Droga. — coloquei a mão no nariz.

– Que cheiro péssimo. — sussurrou Aaron.

– Vamos continuar. — o chamei a medida em que ia em direção à porta da escada. Atravessamos a porta e subimos até o andar superior: um corredor com três portas. Cada uma com uma placa indicativa "Funcionários", "Arquivos", "Crimes". Passamos direto pelo corredor estreito e chegamos até a parte superior do saguão principal, onde estavam os corpos.

– O que é isto? — Aaron se abaixou e abriu uma mala, dentro haviam alguns sinalizadores. — Uou!

– O que isso está fazendo aq... — fui interrompido por sons de helicóptero e por vozes vindo da entrada. — Se abaixa!

Aaron e eu nos abaixamos e ficamos observando pela brecha da cerca.

– Que cidade de merda. — disse um soldado que usava conjunto completo do exército cinza.

– Pelo menos aquelas coisas não estão aqui. — bufou o segundo soldado.

Eles se aproximaram da pilha de mortos e verificaram a situação com as armas em mãos.

– Quem fez isso teve um trabalho grande, hein? — observou o segundo soldado.

– Que seja, vamos subir. — disse o primeiro soldado.

– No três nós corremos para o corredor, certo? — sussurrei.

– Eles vão nos pegar! — sussurrou Aaron.

– Confie em mim! — sussurrei. — No três. 1...2...3. Já!

Levantamos rapidamente e corremos em direção ao corredor.

– Ei, ei lá em cima! — gritou um soldado. — pegue eles!

Entramos na sala dos funcionários e olhamos ao redor: apenas uma mesa com cadeiras. Corremos até uma escada que havia aos fundos e subimos até o telhado. A neblina continuava forte, estava mais densa agora. Subimos em cima da sala da porta e sacamos nossas facas, quando os soldados apareceram, pulamos em cima deles e cortamos as suas gargantas.

– Essa foi por pouco, mas de onde eles surgiram? — perguntou Aaron ofegante.

– Acho que sei a resposta. — apontei para um tanque de guerra que passava pelo arco de entrada da cidade. O tanque levantou o cano frontal e mirou em nós. — DROGA, SE ABAIXA!

Puxei Aaron rapidamente até a parte de trás do telhado na hora em que um tiro do tanque atingiu a torre do relógio da prefeitura. A parte de cima da torre, junto com o relógio, cedeu em direção a praça. O som foi forte e alto, voaram pedaços de concreto para todos os lados e uma fumaça amarela subiu até nós. A poeria nos fez tossir por uns segundos, então caminhamos até a beirada do telhado frontal e observamos a praça: estava tudo destruído. A fonte ficou em pedaços, bancos se reduziram a pó, flores sumiram, e o concreto se espalhava por todo o quarteirão da praça. O tanque que atirou havia se retirado da cidade, por algum motivo. Aaron ainda tossia bastante e havia ficado sem fôlego algum. Aaron estava próximo a beirada frontal do telhado e eu estava recarregando a minha arma, quando um soldado com taco de beisebol apareceu de lugar nenhum e acertou Aaron nas costas, ele caiu do telhado diretamente lá para baixo. Tentei atirar no soldado, porém, a minha arma falhou e o tiro por algum motivo, não saiu. Corri na direção do guarda com a faca, mas ele foi mais rápido e me acertou na barriga com o taco, fiquei sem fôlego e cai no chão. Ele me acertou com o taco na cabeça e desmaiei.