Diário de Sobrevivência
27 Diário 4 - Canni
O sol lá fora havia sumido. O tempo havia fechado e estava ficando mais frio agora. Everthon continuava a sorrir para mim no fundo da sala, e Derby ainda me observava com expressão de dúvida. Eu sabia que essa proposta era perigosa, mas era em parte, o que eu queria. Queria ajudar a defender o lugar e as pessoas, mas isso poderia valer a minha vida. Uma parte minha queria ir e ajudar, e outra hesitava sobre o assunto. Minhas mãos tremiam e a garganta estava seca, fitei os dedos por alguns segundos.
– Então cara, vamos. Era o que nós queríamos desde que chegamos. — Everthon se aproximou.
– Eu aceito. — respondi seriamente. — iremos.
– Ótimo, eu sabia que podia contar com vocês. — Derby sorriu e tirou um rádio de baixa frequência do bolso. — Joe, poderia vir aqui por um instante? Sim, sim é sobre aquilo mesmo. Tudo bem.
– Isso vai ser demais. Imagina só: nós acabando com zumbis e fugindo da cidade enquanto levamos os mantimentos e uma horda tenta nos matar. — Everthon sorria.
– Ei, ei, calma aí. Vamos com calma, não torça para que isso aconteça. — rebati.
– Ah, qual é? Está com medo? Isso vai ser demais. — Everthon se afastou.
Joe entrou na sala após alguns segundos.
– Estou aqui.
– Ótimo, sabe a missão? Eles estão preparados. — Derby sorriu. — Podem ir.
Joe nos indiciou a saída e caminhamos juntos até o pátio na ala leste.
– Certo, as armas vocês levarão consigo amanhã. Irão obedecer todas as minhas ordens sem exceção, ouviram? A missão é simples, — ele pegou um marcador azul no bolso e começou a fazer anotações na lousa branca. — Iremos direto ao ponto na cidade, um hipermercado e depois talvez, até algumas outras lojas na zona sul. Só precisamos entrar, pegar tudo, e dar o fora de lá. Simples.
Fitei Everthon por alguns segundos, ele estava animado.
– Quero vocês no estacionamento aberto às sete em ponto, sem atrasos. — Joe batia o marcador na mão. — Alguma dúvida? Ótimo, podem ir.
***
Como eu havia pensando. Estávamos de volta no nosso quarto escuro, Everthon estava sentando em cima da mesa observando a chuva forte e os raios que caíam lá fora. Ele usava uma camiseta xadrez preta com as mangas cortadas e um jeans surrado, e parecia preocupado com algo.
– Espero que eles estejam bem, Jimmy e os outros.
Levantei da cama e me sentei.
– Devem estar. O garoto, Jimmy, é bem inteligente. Devem estar abrigados em algum lugar.
– Devem estar bem longe. Afinal, três meses já. Na boa, espero que estejam bem porquê o inverno vem aí e tudo mais.
– O que importa é que estejam bem e longe daqui. — rebati.
– Parece que o John está tendo problemas com os infectados na ala norte. — Everthon sussurrou. — Um acabou entrando e ele quase não conseguiu dar conta dele.
– Ele dá conta. Por quê o alarma não soou?
– É apenas um, não há motivos para pânico desnecessário. Só se fosse uma horda, aí sim ele soaria. Vou dormir, até amanhã. — Everthon subiu na cama e ficou quieto.
Observei a chuva cair por alguns minutos e então me deitei e acabei adormecendo.
***
Acordei às seis horas da manhã e vesti o uniforme camuflado, acordei Everthon que logo se vestiu também. Ainda estava escuro e haviam apenas indícios do sol nascendo no horizonte. Uma garoa super fina caía e estava frio agora. Saímos do quarto e atravessamos os corredores estreitos do lugar.
– Bom dia. — respondi enquanto passávamos por John.
Entramos no corredor central da ala.
– Oi. — avistei Zoe se aproximando.
– Ah, vejo que já estão acordados.
– É, vamos nessa missão. — rebati.
– Também vou, estou procurando por Ashley há quase vinte minutos, vocês a viram?
Fiz que não com a cabeça.
– Droga. — Zoe bateu o pé na parede. — Enfim, deveriam ir comer algo. — ele tocou meu ombro enquanto se afastava. — Será um dia longo.
– Louquinha de pedra. — Everthon observou.
Eu ri e continuei em direção ao refeitório.
O refeitório estava praticamente vazio. Apenas um pessoal da missão estava comendo em uma mesa no centro, eles riam enquanto Matthew fazia imitações de alguém. Não íamos muito com a cara deles desde que chegamos aqui, eles faziam certo tipos de piadas que não eram legais. Quase arranquei o braço de Matthew uma vez mas fui impedido por Everthon, aquele dia foi louco.
– Ei, olhem quem chegou do apocalipse. — Matthew zombava.
– Cale a boca Matt, eles ainda devem estar constrangidos pela última vez. — Uma cara moreno dizia enquanto todos riam em torno da mesa.
Passamos direto e me virei quando alcancei o balcão.
– A última vez? Qual foi mesmo? Não lembro.... — todos na mesa se viraram até mim. — Ah, a vez em que eu quase quebrei o teu braço Matthew?
Todos se viraram até Matthew e começaram a balbuciar algo que não entendi.
– Vamos. — Chamou Everthon. — Não vale a pena, vamos sentar no fundo.
Pegamos nossos cafés e fomos para uma mesa perto das janelas. Tomei o café enquanto olhava a fina garota cair, Matthew me observava com expressão de ódio mortal. Apenas ignorei enquanto ele continuava a soltar sussurros. Observei o relógio na parede, indicava que eram seis e cinquenta, cerca de dez minutos para nos encontrarmos com ele no estacionamento.
– Vamos. — Everthon se levantou.
Saímos do refeitório sob olhares dos outros e caminhamos até a saída.
***
Alcançamos o estacionamento a tempo de ver Joe arrumando as armas em um caminhão. Zoe sorriu ao me ver e correu até nós.
– Prontos? Isso não é demais? — ela parecia agitada.
– Hã... Acho que sim, talvez. — respondi.
Ela deu um soquinho no meu braço.
– Qual é? — ela arrumou o cabelo castanho claro dela atrás da orelha. — Nossa primeira missão, digamos...
– Canni, você, Everthon e Zoe vêm comigo. — Joe apontou para um carro prateado próximo a uma árvore. — John, você vai com os outros, ok?
– Tudo bem. — John entrou no caminhão e deu sinal para que o guarda da torre abrisse o portão, e saiu em disparada.
Entramos no carro, Joe dirigindo, Everthon ao meu lado e Zoe na frente.
Joe alcançou a estrada que cortava a floresta. Ele atropelou uma infectada que estava na estrada na saída.
– Opa, olha a infectada aí. Adoro isso, posso atropelar quem eu quiser sem ser preso. — Joe riu.
Zoe soltou um sorriso de canto.
– Ah, foi engraçado vai. — Joe riu.
– Vamos entrar por onde? Fiquei sabendo que a maioria das rodovias de acesso estão bloqueadas. — Everthon perguntou à frente.
– Vamos pelo oeste e descer até o sul pelas estradas. O oeste está aberto pelo que soube de relatórios. — Joe disse enquanto nos observava pelo retrovisor.
– Certo, e se algo der errado? — perguntei.
Houve um silêncio de alguns segundos.
– Bem, não acho que irá. Mas caso dê errado, temos que dar continuidade ao plano haja o que houver. — Joe disse seriamente enquanto focava na estrada.
Entramos na alça de acesso à estrada e Joe acelerou mais. Passamos pela placa que indicava "São Paulo — 334 KM — Oeste", e continuamos em frente. Zoe pareceu se assustar a medida em que passamos por uma horda de infectados que comiam um cervo a beira da estrada. Alguns nos observaram e correram atrás do nosso carro, e outros nem nos notaram.
Zoe abriu o porta luva do carro e começou a fuçar em uns panos.
– Olha o que eu achei!
Observamos Zoe por alguns segundos até ela tirar uma espécie de câmera.
– É uma daquelas câmeras de impressão Instantânea! — Zoe sorriu.
– Uma polaroid. — observei.
– Isso. Ainda tem bateria — ela ligou a câmera e começou a fuçar. — Nossa quanta foto, fotos de comida, animais, e festas. O dono era muito gato, na boa.
Nós caímos na risada.
– O que foi? É verdade. Vem vamos tirar uma foto. — Zoe apontou a câmera para nós.
Everthon sorriu para a câmera.
– Essa é a hora certa para isso? — perguntei. Era tarde, ela já havia tirado a nossa foto.
– Ei, mas o que? — perguntei.
– Ficou ótima, exceto por ti Canni, que saiu com a boca aberta. — ela ria. Ela imprimiu três cópias da polaroid e deu para mim e Everthon. — A outra é minha.
Observei a foto por alguns segundos e então a guardei no bolso.
Zoe era uma garota legal, e muito bonita. Algo dentro de mim sabia que eu deveria me aproximar dela, e era isso que eu planejava fazer. Joe continuou dirigindo em silêncio. E algo me dizia que aquela missão não seria fácil.
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