Havíamos descido do trem. Estávamos caminhando por uma pequena estrada de terra paralela à linha do trem, era estreita e bem esburacada. A placa indicava que havia um posto policial nos arredores, próximo à Wuddsburry

– Estamos perto? — Everthon perguntou.

– Quase, só mais algum tempo. — eu observava o mapa agora.

Atravessamos a avenida Smith e continuamos na estrada por uns treze minutos até avistarmos grandes muros em nossa frente. Os muros tinham cerca de dez metros de altura, e em cada esquina dos muros, haviam torres de observação. Dois números "8" estavam pintados ao lado do portão gigantesco. Dois guardas armados estavam do outro lado portão, observando cautelosamente cada passo nosso. Dentro dos grandes muros, haviam um edifício de cinco andares bem espaçosos cada, as janelas estavam todas fechadas.

– O que querem? — perguntou o soldado da direita que mirava em nós.

– Viemos pela transmissão. — respondi.

– Tudo bem, por favor, nos deem as suas armas e avancem devagar. — pediu o guarda da esquerda, que usava Jeans amarrotado e regata azul.

Colocamos as nossas armas embaixo do portão e eles as recolheram, o portão se abriu lentamente e nós entramos no pátio. Haviam alguns carros, uns bancos, e algumas pessoas nos observavam a medida em que entrávamos.

– Nos sigam, e não tentem nada, os guardas estão de olho. — o guarda de azul apontou para a torre leste, que estava sendo vigiada por dois guardas de uniforme cinza.

Nós os seguimos edifício adentro, passamos por um corredor amplo: até a metade, as paredes eram pintadas de preto. Uma fita amarela dividia as cores, preto e cinza nas paredes. O número oito era perceptível ao lado da última porta do corredor, que era uma porta de vidro ampla.

O guarda da direita entrou na penúltima porta de vidro, nos deixando apenas com o outro guarda, que por sua vez era careca e usava jeans.

– Agora, vocês irão conhecer os nossos líderes: Dakota e Derby. Eles são irmãos gêmeos e fundaram este lugar, devemos tudo à eles. — o guarda sorriu.

– Como funcionam as coisas por aqui? — perguntei.

– Eles irão tirar todas as suas dúvidas, não se preocupem. — o guarda respondeu.

Entramos na sala e a porta se fechou instantaneamente atrás de nós, era um escritório médio, bem iluminado, todo revestido em madeira: estantes, mesas, janelas, e outros móveis. Havia um tapete de urso pardo no chão, o que me deixou curioso.

– Aguardem no sofá. — o guarda apontou para um sofá verde de camurça. — Eles já vêm.

Sentamos no sofá e contemplamos a sala por alguns instantes, não parecia que tudo isso, ou melhor, todo esse lugar, estava aqui há tanto tempo.

Um homem loiro adentrou na sala e sorriu para nós quando nos viu.

– Prazer, me chamo Derby. — ele apertou a minha mão.

– Canni. — fechei a cara.

– Everthon. — Everthon sorriu.

– Bem, eu sou tecnicamente o líder desse lugar junto com a minha irmã, Dakota que está no treino de facas agora. — o cara caminhou até a escrivaninha. — Presumo que tenham vindo até aqui por causa da transmissão, pois é, não foi nada fácil nos colocar no ar. Entretanto, pelo visto conseguimos, depois de transmissão cerca de vinte e sete novos sobreviventes chegaram até nós.

Ele se sentou na poltrona e observou cuidadosamente a pena em sua mesa.

– Vocês podem ficar aqui, entretanto, terão que ajudar no andamento da comunidade. Terão moradia, suprimentos e segurança e em troca, quero apenas os seus serviços quando precisos. Sabe? Defender o lugar, defender não só a si mesmo quanto defender as crianças e mulheres que aqui estão. Certo?

Assentimos com a cabeça.

– Como toda sociedade, temos regras. São coisas básicas... — Derby sorriu. — São coisas que se vocês seguirem, poderão continuar morando aqui. Olha que legal, não? Primeiro de todas as coisas, nós não somos preguiçosos. Todos aqui acordam as sete da manhã, com exceção dos guardas, e fazem as suas atividades diárias para ajudar no funcionamento do lugar. Mulheres saem para fazer suas plantações e outras coisas, homens produzem o que precisamos, treinam no galpão, e nos defendem de ameaças exteriores. Item dois, temos o nosso conhecido... Como posso dizer... 'toque de recolher'. Acho que todos sabemos que os zumbis aparecem em maior quantidade durante a noite, não? Ou seja, oito e meia da noite todos tem de estar em seus aposentos. Se forem pegos foram do horário na rua ou em qualquer lugar, iremos conversar. Se ocorrer novamente, irão ser expulsos. Entenderam?

– Certo. — respondi desconfiadamente.

– Sim. — Everthon assentiu.

O que mais... — ele levou a mão ao queixo. — Hum... O que os guardas disserem é uma ordem, não importa o que. Vocês irão ser direcionados todos os dias para suas atividades diárias pelos guardas, questão de segurança. O café da manhã é das 07h30 até 08h, depois disso as atividades serão iniciadas. A pausa para o almoço é das 12h até as 13h, e o jantar das 17h30 até 18h30. Vocês irão ficar no mesmo dormitório, provavelmente na Ala B. Devemos manter o silêncio sempre, e de preferência, usar pouca energia principalmente durante o dia.

Everthon observou o chão.

– Agora, vocês irão passar por uma triagem para sabermos se não foram mordidos ou coisa do tipo. Após isso, poderão tirar o resto do dia livre para conhecerem e se adaptarem ao lugar, recomendo que leiam o quadro de avisos e o quadro de atividades no saguão principal todos os dias para saberem quais serão as atividades do dia. — Derby se levantou. — Detalhes finais, o saguão da área C é restrito para qualquer pessoa não autorizada, vulgo vocês. E se ouvirem um sinal tocando, é sinal de ameça, esperem nos quartos até segundas ordens. A água não é toda de vocês, e os banhos são cronometrados, por isso, usem bom senso. Agora, deem o fora daqui.

Nos levantamos e saímos da sala até o corredor, o guarda de antes nos indicou um caminho por uma porta de vidro até o andar superior. Paramos em frente a uma porta de metal com número oito, o guarda pediu para que entrássemos. Uma mulher loira que usava jaleco branco estava sentada atrás de uma mesa, notei alguns tubos de ensaio espalhados em cima da mesa. A mulher sorriu quando entramos.

– Olá, prazer Dakota. — ela apertou as nossas mãos.

– Cann...

– Não me importo, apenas fiquem com as calças.

Tiramos nossas camisetas e acessórios. O guarda estava parado em frente a porta e segurava um fuzil de combate. A mulher nos examinou e constatou que estávamos livres de mordidas ou arranhões, porém, nos obrigou a tirar sangue. Ela sacou seu tablet e mexeu nele por alguns instantes.

– Pronto, isso é tudo. As amostras ficam comigo e vocês estão cadastrados no banco de dados. Agora, por favor, saiam daqui. — ela nos indicou a saída.

Alcançamos o corredor, algumas pessoas passavam pra lá e pra cá e todas nos ignoravam. O guarda pediu que o seguíssemos até a saída do edifício, disparamos em direção a outro edifício à oeste do atual. Nas portas duplas havia o nome "Ala A — Dormitórios", adentramos no corredor principal que estava vazio e fomos até o final do corredor. O guarda nos indicou o quarto de número 6, ele se virou e saiu, iríamos ficar ali agora. Haviam duas beliches nas paredes do quarto, mesa de estudos, tapetes e armários para roupas. O relógio digital em cima da mesa indicava que eram três da tarde agora, e me perguntei como aquilo funcionava nos dias de hoje.

Uma voz feminina começou a soar em um alto falante na parede repentinamente.

– Por favor, para todos os sobreviventes que chegaram neste lugar nos últimos três dias, se dirijam até o refeitório na Ala A dentro de trinta minutos. Obrigada.

Everthon caminhou até a porta do banheiro, que ficava ao lado da janela.

– Isso é o paraíso! — ele gritou.

– É o que veremos. — respondi. — Se troca aí, que nós iremos até a Ala A.

O lugar cumpria tudo que foi dito na transmissão, pelo menos até agora. Eu estava meio que 'com o pé atrás', mas acho que isso iria passar com o tempo, porém, não costumo confiar em ninguém, e agora não seria diferente.