Diário de Catarse
2 A dor
Notas iniciais
A dor se acomodou em meu peito, em meu estômago e em meus pulmões. Ela me ensinou a notar, com assombro, as batidas do meu coração, a observar, minimamente, o sabor dos alimentos e a desfrutar, com emoção, o ar que opera meu organismo.
A dor se acomodou em meu cérebro, sentada em meu sono, em meus olhos e em minha fala. Ela me deu pesadelos, colocou a raiva em minhas palavras, a expressão vaga em meu rosto e a distância entre mim e as pessoas.
A dor me deixou cruel, me tirou o emprego, a família, a vontade, os pudores e me encheu de ácido. Afastou-me de quem não entendeu e me aproximou de quem estava longe. A dor me mostrou que os bons existem e que ela os atrai. Ela me mostrou que, infelizmente, é assim com os maus também.
A dor me disse, ao pé do ouvido, que um dia vou vê-la de novo. Sussurrou quase inaudível:
“E se acabar agora ou em trinta anos que diferença faria? Você nunca será feliz nos anos seguintes, como não foi nos anteriores. Deixe de bobagem, é inútil tentar. Está apenas me prolongando.”
Criei uma capela particular e me ajoelhei diante dessa frase. Quanto mais a repetia, mais era verdade.
A dor me encerrou em mim, trazendo uma ideia branca de futuro, uma ideia de nada e um grande vazio. Ela trouxe confusão, perda da identidade, dos ideais e dos prazeres.
A dor me deu espinhos e viseiras. Alguns fugiram com medo, outros se achegaram a mim com tesouras afiadas. Conheci o amor, o carinho, o perdão e a atenção. Conheci o abandono, o desdém e a impaciência. Conheci o ser humano em sua bondade e em sua maldade.
A dor me apresentou aos mais bonitos e aos mais feios corações e dei de ombros ao pensar no medo que alguns sentem do que não compreendem.
Eu bati na dor e dela apanhei.
Descobri que um abraço quebra suas pernas, que um beijo derrete seus olhos e que uma fala doce a dissipa por completo. Apenas um mísero detalhe de bondade que recebo ou doo pode matá-la por um dia inteiro, mas um mísero detalhe de maldade a ressuscita por uma vida inteira.
Fico bêbada de dor, dopada de dor, grogue, perdida e à deriva na dor. E é aí que não vejo nada. Ela pode cortar a minha língua e me impedir de falar, pode anestesiar minha mente e me deixar no piloto automático. Tomando total controle de mim, faz-me seu instrumento e eu causo dor.
Eu bati na dor e dela apanhei.
A mente está em construção, constante destruição. Outras portas, paredes, dispensas e quartos. Hóspedes expulsos e acolhidos. Casa suja, casa limpa. A mente está viva. Sobreviveu, é forte e é surpreendente. Dá orgulho e fé.
A dor vai voltar. Ela sempre volta. Hoje, em algumas madrugadas, em dias de chuva ou de frio. A dor vai voltar. Ela sempre volta. Hoje, amanhã, em algumas semanas... ela está em algum lugar.
E eu estou na porta.
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