Diário de 83
28 Recordações
Encino, Califórnia – 14:20 hrs
28 de agosto, 1983
Foi difícil… mas eu consegui. Algo que o Michael precisava. Que ele queria muito.
Eu estava limpando o meu quarto. Eu sei que eu podia pedir a um empregado, mas eu mesmo quis fazer isso, foi invenção minha. Assim que terminei, tranquei a porta e saí pelos corredores afora, precisava telefonar pra alguém.
Achei o telefone do corredor e disquei.
— Alô?
— É o Morten. Poderia passar pra Janet?
— Um momento, senhor.
Não demorou muito, eles já me conheciam bem, logo a Janet atendeu.
— Morten?
— Aprendeu a falar meu nome?
— Não me enche, ou eu volto a te chamar de palmito.
Eu ri.
— Tá, tudo bem… Olha, eu tô com tudo pronto aqui.
— Ai, meu Deus… você fez aquilo mesmo? Você tá dormindo onde?
— No meu quarto ainda, ué.
— E ele não desconfia de nada?? Como você fez? Tipo… sei lá, vocês transam, não é?
— Q-quê… — okay, pela primeira vez ela conseguiu me fazer ficar vermelho de verdade. Suspirei e tentei me recompor — Não é da sua conta. Desde o início do meu plano, eu não deixei ele entrar no meu quarto.
— Hum… Michael é mais esperto do que parece, ele com certeza desconfia de alguma coisa.
— Desconfia nada, ele passou o mês todo saindo, deu tempo de fazer muita coisa.
— Você tá ligado que tá mexendo na estrutura do prédio dele, não é?
— Não mexi na estrutura, mexi na estética. Ele mesmo disse que eu podia redecorar como quisesse, não fiz nada demais. Vem hoje pra cá, o Michael só vai chegar à noite.
— Quem mais vai estar aí?
— Não sei, não sou próximo dos teus irmãos, só chamei você.
— Hum… quer que eu chame os outros?
— Se você quiser. Diz que não é aniversário, nem estou fazendo isso na data certa, é só pra ele ter alguma coisa especial nesse mês.
— Ei, relaxa… meus irmãos nem são tão dedicados assim às testemunhas.
— Beleza… — suspirei — Diz que é um presente seu e meu, tudo bem? Se disser que é só meu, não sei o que eles podem pensar…
— Fica tranquilo, eles são mais desligados que poste de via pública.
Segurei um sorriso.
— Tenho que ir agora. Fica combinado assim?
— Antes de escurecer, eu tô por aí. Não sei se os outros virão, mas eu vou.
— Certo. Até mais…
Desliguei. Bom, uma coisa estava feita, agora faltava convencer meus amigos a participar dessa loucura.
Saí para procurar os caras. Achei o Magne no quarto, pintando mais um daqueles quadros esquisitos dele, era o tal "pé" na arte moderna que ele tinha.
— Por que você não trancou a porta?
— Porque eu tô pintando a porta entreaberta e você tá me atrapalhando — ele revirou os olhos e voltou a se concentrar na tela. Ora o pincel ia no godê, ora no quadro. — O que você quer?
— Lembra do lance que eu te falei no meu quarto? Sobre o presente que os irmãos do Michael queriam dar…
— Irmãs.
— O quê?
Ele reclinou para trás e voltou à postura ereta.
— Você disse que era um presente das irmãs dele.
Travei por alguns instantes. Drittsekk, que vacilo. Magne me olhou com um olhar conformado.
— Diz a real… Esse presente não é delas, não é? É seu.
— Ah, não fala merda…
Ele sorriu.
— Eu sabia! Por que você não disse antes? Que besteira.
— Vocês iam encher o saco, pensa que eu não sei? Eu só quero agradecer ao Michael pelo que ele fez pra gente até agora.
Magne deu ombros.
— Tudo bem, cara. Isso não é nada demais.
Eu fiquei em silêncio. Eu não estava muito convencido daquela resposta, mas talvez o Magne estivesse falando isso por causa das conversas que ele já teve comigo, sobre a família dele, sobre a morte do pai... É duro dizer isso, mas a morte deixa a gente mais maduro.
— Sério?
— Sério. Você quer ajuda com o presente?
Eu suspirei e passei a mão nos cabelos.
— Não, tá tudo certo. Eu só queria que vocês estivessem lá. Vocês podem?
Magne assentiu.
— Quer que eu fale com o Paul?
— Quero… se não for pedir muito.
— Não tem problema.
Depois daquela conversa, nós ficamos em silêncio. Magne, aos poucos, voltou a se concentrar em seu quadro, e eu fiquei lá, absorto em pensamentos. Fechei o punho, meu coração acelerou, minha palma começou a suar. Eu pensei, em um segundo, na possibilidade de contar a ele, de contar sobre mim, sobre o Michael, ou talvez apenas sobre mim… mas me faltava o impulso. Olhei pra ele por alguns segundos, e ele arqueou a sobrancelha.
— Quer falar mais alguma coisa?
— Não.
Me retirei sem pensar duas vezes. Não, eu não estava pronto. E, mesmo que estivesse, não era justo levar o nome do Michael junto, talvez ele não fosse querer a mesma coisa. As pessoas têm tempos diferentes pra aceitar as coisas, e o Michael ainda estava processando.
Saí pra esfriar a cabeça. Andei pela cidade, com a minha câmera no pescoço, e fui me distrair pelas lojas de discos. Thriller estava quase fora de estoque, era incrível o nível absurdo de admiração que ele obteve tão jovem. Xeretando os poucos discos que ainda tinham na prateleira, encontrei o álbum do Duran Duran no meio deles. Segurei uma risada e lembrei da nossa brincadeira.
— Preciso tirar uma foto disso…
Puxei a câmera e fiz o "click", Michael iria achar engraçado ver uma banda de synth pop escondida no meio dos discos dele.
Saí da loja sem levar nada, apenas uma foto que talvez arranque algumas risadas. Atravessei o sinal, passei na frente da loja do velho Morty e me lembrei da aventura que tivemos naquele dia… em como o Michael havia soltado a voz, em como ele era péssimo no pinball, em como ele ficava adorável com um bigode de chantilly. Entrei e pedi um milkshake igualzinho ao daquele dia, com bastante chantilly, e fui até a máquina de jogos. Tirei uma foto dessa combinação, estava me fazendo bem demais fotografar tudo que me lembrava ele, e relembrar todas aquelas coisas.
— Morty! Como você está?
— Estou bem, senhor Morty! Estou de saída, outro dia passo aqui e fico mais tempo.
— Vá, rapaz, corra! A vida é rápida…
A vida é rápida…
Tudo o que me lembrava ele me fazia bem, e a vida era muito rápida pra ser perdida com joguinhos. Tive uma ideia: tiraria fotos de tudo que me trouxesse uma recordação legal, e mostraria ao Michael, sem rodeios, que eu não consigo parar de pensar nele.
E, falando em recordações, resolvi passear pelas ruas onde ficava o pub preferido dele. Segui a avenida e novamente atravessei a faixa, de dia a fachada parecia mais acolhedora.
Adentrei. O sininho da porta tilintou, ninguém me deu atenção. Àquela hora, o pub estava quase vazio, uma música calma tocava no fundo. Eu tirei algumas fotos e fui até o bar.
— Só um copo d'água.
A balconista saiu pra pegar o meu pedido. Eu dei uma olhada de relance à minha volta e todas as memórias retornaram. Michael havia subido naquela mesa, depois nós subimos por uma escada lá nos fundos e descansamos no teto. Mirei a lente da câmera nas mesas vazias, não queria incomodar nenhum cliente, mas então senti uma mão tocar o meu ombro.
— Ei…
Me virei rapidamente. Era uma loira bem bonitinha, eu não me lembrei dela de início, mas aquela voz não passou despercebida.
— Já te vi antes?
Ela sorriu.
— Não é legal tirar foto dentro de estabelecimentos, hein? Sua sorte é que a dona é amiga do seu amigo.
— Meu… o Michael?
Ela riu.
— Karen.
— Karen! Isso… desculpa, eu tô com a cabeça nas nuvens hoje. Você é a maquiadora dele, não é?
— Isso! Eu vi vocês cantando "Come Together". Eu adorei.
— Sim, foi um dia legal… Você vem sempre aqui? — eu dei ombros e sorri — Eu sei, eu sei, pergunta previsível…
— Não, tudo bem! — ela riu novamente — Às vezes venho descansar a mente, mas geralmente estou com o Michael. Ele gosta daqui, é acolhedor, não é um strip club nem nada do gênero, e ultimamente ele tem comentado que vir aqui lembra o dia em que vocês cantaram juntos.
— Ele disse isso?
Aquela informação fez o meu coração palpitar forte, porém consegui disfarçar com uma expressão tranquila. Karen sorriu.
— Sim, muitas vezes. E você? Veio fazer o quê aqui?
O meu copo d'água finalmente chegou. Tomei um gole e suspirei.
— Só recordar. Falando no Michael, sabe o The Lindbrook? Passa lá hoje às seis, o aniversário do Michael é amanhã, mas a irmã dele e eu estamos planejando uma surpresa pra hoje.
— Hum, está bem! Não tem problema mesmo?
— Claro que não, ele te adora! Sei que ele vai ficar feliz em te ver lá — tomei o resto do líquido do copo e o deixei na bancada com o dinheiro, em seguida me afastei. — Vou deixar seu nome na portaria, okay? Não esquece, hoje às seis.
— Okay. Tchau, Morten!
O sininho tilintou e novamente eu estava fora. Eu não acreditava mais em acasos, acreditava em propósitos, e tudo o que me ocorreu naquele dia foram pequenos pedaços de um propósito maior. Agora eu estava cheio de fotografias de recordações, eu só precisava revelá-las e transformar aquilo em um presente que com certeza o deixaria feliz.
Corri para alguma loja de revelação.
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19:56
Michael havia chegado tarde naquela noite, mas eu já havia planejado tudo, já havia planejado qual seria a primeira coisa que seus olhos alcançariam quando ele pusesse o pé dentro de casa.
Ele tirou os sapatos, repousou o casaco cuidadosamente na poltrona e, provavelmente, desconfiou do silêncio da sala. Deixei uma série de fotografias espalhadas na mesinha de centro, as fotos do nosso karaokê na loja do velho Morty. Uma em específico marquei com canetinha: "tirei essa foto hoje".
Ele sorriu, eu sei que sorriu, ele parecia confuso e feliz, como se estivesse relembrando e não soubesse o porquê. Havia mais uma série de fotos penduradas no apoio da escadaria. Michael foi subindo cada degrau, relembrando cada aventura. Dessa vez as fotos eram dos nossos ensaios no jardim dele, e a última foto era do seu catálogo mais recente: "você não me mostrou essa flor", escrevi com uma seta.
Quando ele chegou no andar do meu quarto, deixei uma porção de fotos coladas na porta, todas as demais que não estavam pelo caminho: dos nossos rolês malucos, das coisas aleatórias que eu via pelo caminho, fotos que eu tirava dele escondido só pra zoar, acho que naquele momento palavras não eram necessárias.
Por fim, ele entrou. Estava escuro. Quando ele acendeu a luz, o pessoal e eu gritamos.
— Surpresa!!
Vi o momento em que os olhos dele se iluminaram. Não sei se pelo presente ou por ver todo mundo ali (ou os dois), mas eu me senti retribuído. Na sala estavam eu, meus amigos, Karen, a dona Remy, Janet e mais alguns dos irmãos dele: Tito, Marlon, Jackie e La Toya. E o presente… bom, era uma coisa que eu achei a cara dele.
Por mais rico que o Michael fosse, ele nunca teve realmente uma casa que tivesse o espaço necessário pra dançar, e dançar era a paixão dele, mas o seu cantinho se resumia a afastar os móveis e aumentar o som. Eu escolhi o único lugar na casa dele em que eu tinha controle total, em que eu sabia que ele não entraria sem minha permissão: o meu quarto. A sala estava limpa, como se a cama, o armário e os outros móveis nunca tivessem estado lá, havia espelhos de corpo do piso até a janela alta por toda parte, meu quarto se resumiu a um colchão no canto e às minhas mochilas de roupas, e, pra finalizar, joguei temporariamente os móveis de última hora em um quarto de hóspedes. Já que era um "não aniversário", nada mais justo que armar uma mesa no centro com alguns dos quitutes preferidos dele, cortesia da dona Remy, para "não comemorar".
— Feliz… er… não aniversário! — comentei.
Ele permaneceu em silêncio, seu olhar era um misto de perplexo e maravilhado, eu sei que era, eu conhecia aquele início de um sorriso.
— Mike, agora é a hora que você reage — disse um dos irmãos dele.
Michael suspirou, se aproximou das paredes, viu os espelhos de perto, arrastou as meias discretamente pelo piso encerado, em seguida olhou pra gente.
— Vocês não existem…
Eu ouvi atentamente, mas um impulso automático me fez reagir com ações. Me aproximei e o abracei. Janet veio logo em seguida, e logo após, a Karen. Quando me dei conta, até mesmo a dona Remy estava nos abraçando. Os únicos a ficar de fora foram Paul e Magne, que se contentaram em observar a cena com um sorriso no rosto.
— Eu amo todos vocês, todos. Eu amo, amo, amo vocês.
— E a gente te ama, magrelo — disse o Tito.
Ele sorriu e nos apertou como deu em um abraço que, lenta e naturalmente, foi se desfazendo.
— Agora você vai poder treinar ou se divertir em um espaço melhor.
— E você estava dormindo onde, Morten? Você gosta de inventar coisas…
Estampei meu melhor sorriso arteiro.
— Eu me virei, mas agora quero um quarto novo.
— A gente pode falar sobre isso depois e comer logo? — brincou Marlon.
Nós rimos e Michael assentiu. De repente aquela sala ficou barulhenta, começamos a conversar, Karen contou algumas das histórias dela com o Michael, os irmãos dele também tinham vários relatos interessantes, os caras e eu falamos um pouco da Noruega, dona Remy contou sobre o Brasil, e o Michael, obviamente, estava mais interessado em testar o seu presentinho que ouvir a gente. Ele tentou alguns passos, deslizou pra um lado e pro outro, brincou com suas irmãs… Eu não intervi nisso, era o momento dele com a família e eu jamais interromperia.
As horas se passaram e, aos poucos, os convidados foram se despedindo, Paul e Magne foram dormir, apenas restaram nós dois. Michael estava com insônia, então resolvi ficar do seu lado até que ele fosse dormir. Fomos ao quarto dele, nos cobrimos, Michael deitou a cabeça no meu colo e descansou. Eu ainda estava comendo uns docinhos da festa com uma mão, e afagando os cachos escuros dele com a outra.
— Hmm… dona Remy cozinha muito bem! Vê só, isso se chama brigadeiro… tipo a patente do exército, mas são apenas bolinhas de chocolate com confeitos. Que nome maluco pra um doce.
— Gosto dos brigadeiros de frutas que ela faz, eu não sou muito chegado a chocolate.
— Que preconceito, eu gosto de… quer saber? Deixa pra lá, eu ia comentar uma coisa, mas acho melhor não…
Ele revirou os olhos e sorriu.
— Você ia me chamar de chocolate. Vai, tudo bem, eu não vou me ofender. Você gosta, não gosta?
— Se eu gosto? — me aproximei, deitando ao seu lado. Levei os lábios até o seu ouvido, beijei lentamente e vi quando ele fechou os olhos, quando sua pele arrepiou — Michael, eu te devoraria…
— Seu pervertido — ele revidou, rindo baixo. — Eu te amo. Ei, amanhã, o que acha da gente estrear a minha sala de dança? Posso te ensinar alguns passos.
— Eu sou meio travadão, não sei rebolar — eu ri —, mas posso aprender, e eu vou ter um excelente professor.
— Ah, não sei não. Dizem que eu ensino mal…
— E você ainda quer tentar me ensinar?!
Ele gargalhou.
— Sim! Quem não sabe, pratica!
— Me ferrei então… — eu ri. Me aproximei e beijei os seus lábios — Boa noite, baby boy. Estou cansado.
— Eu vou ficar lendo um pouco. Boa noite.
— Vê se não dorme tarde.
Tirei a minha camisa e usei para cobrir os meus olhos, em seguida tentei dormir um pouco. Ele desligou as luzes, deixou apenas a luminária acesa e ficou acordado por mais tempo. Antes de adormecer, senti sua mão acariciando meu braço, ele se aproximou e deixou um beijo na minha fronte.
— Obrigado por hoje… — ouvi o seu sussurro, e sorri.
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