Diário de 83
21 Meus Amigos Idiotas
Notas iniciais
Encino, Califórnia – 09:32 hrs
18 de junho, 1983
Acordei com uma dor de cabeça fodida.
Remy me despertou pra que eu pudesse receber o Michael quando ele chegasse, eu mesmo havia pedido pra que ela me acordasse, não queria perder a sua chegada. Ela preparou o café da manhã perfeito pra uma pessoa doente e o levou na minha cama. Eu estava sem nenhum apetite, mas me forcei a comer.
— Obrigado, Remyzinha.
— De nada, querido! Precisa de mais alguma coisa?
— Não, tudo bem. Daqui a pouco eu vou descer, o Michael já deve estar vindo do aeroporto.
— Certo, me chame se precisar.
Assim que ela saiu, comi o resto da comida, me levantei com todo o desgosto do mundo e me vesti com qualquer roupa que achei no closet: uma calça confortável e escura, casaco de lã, meias e chinelos (a próxima etapa é um jornal de palavras cruzadas e um encontro na igreja com uma vovó). Depois de quase ter sufocado com aquele casaco idiota, eu desci as escadas e o aguardei da janela.
O carro chegou. Era um Volkswagen Rabbit 83, preto, horroroso — sério… eu, com o dinheiro dele, compraria um Mustang ou uma Porsche vermelhinha. Olhei de longe antes de me aproximar e arqueei a sobrancelha quando vi 2 seguranças carregando malas extras. Lembro que o Michael não tinha levado muita coisa.
— Mas… será possível…?
Sussurrei, eu não estava acreditando. Michael foi o último a sair; antes dele, duas pessoas se retiraram do carro, dois caras que eu conheço bem.
— Drittsekk…
Sussurrei, quase sem fôlego. Não sei de onde tirei forças, mas consegui me deslocar até a porta sem parecer um zumbi, atravessei a primeira portaria e parei pouco antes de chegar na segunda. Eles já estavam dentro dos territórios do The Lindbrook, na área a céu aberto, cada um com uma mala e uma mochila. Eu realmente não sei de onde meus pulmões tiraram forças, mas eu consegui gritar…
— Venner!!
— Morten!
Mags deu um toque em Paul, que virou os óculos escuros em minha direção e sorriu. Os dois correram e eu fiz o mesmo, mas Michael foi mais rápido e os puxou pela mochila.
— Ei, ei, ei, ele tá doente!
Eu segurei uma risada e levantei um pouco os braços em sinal de rendição.
— E você não avisa nada, né? — indagou o Mags pra mim.
— Cala a boca, cabelo de miojo, é só uma alergia ao clima.
— Sei… playboy de Kongsberg.
— Ei, podemos pelo menos fingir que somos adultos? — foi a vez do chato do Paul falar.
— Me acompanhem — disse Michael aos caras, em seguida virou pra mim. — Morten, você sabe que eu não posso ficar doente de jeito nenhum. É melhor você voltar pro quarto, ficar aqui fora vai piorar o seu quadro.
— Eu também senti sua falta…
Revirei os olhos e segui pra dentro do condomínio. Fui direto pro quarto e não ouvi mais nada, pelo visto os caras ficariam em outro andar, é o certo na situação em que eu estou, me sentiria muito culpado se colocasse todo mundo pra ficar de cama. Assim que me cobri com o edredom, pensei em como seriam nossas vidas a partir de agora: eu melhoraria, trabalharíamos com o Branca e torceríamos para a sorte e a fama sorrirem pra gente. Quanto ao Michael e eu, as coisas seriam difíceis com duas pessoas que eu definitivamente não quero que saibam de nada perambulando por aí. Mas eu daria o meu jeito.
x ----- x
20:10 hrs
Eu tinha acabado de jantar no meu quarto quando ouvi duas batidas na porta.
— Entra…
Michael girou a maçaneta e abriu, cruzou os braços e ficou me observando de longe.
— Comeu bem?
— Sim, dona Remy realmente cozinha bem demais.
— E você tá se sentindo melhor?
Me espreguicei.
— Sim, sim. Eu não tô mais tossindo que nem um condenado.
— Legal. Seus amigos estão na sala, não quer apresentar eles a mim?
— Eu não vou transmitir meus germes a vocês, não?
Ele riu e negou com a cabeça.
— Seu exagerado. Desculpa ter te isolado, eu realmente não posso adoecer agora, mas eu espero que você melhore logo.
— Obrigado, eu também espero.
Ele suspirou.
— Eu senti sua falta.
Ouvir aquilo me deixou sem palavras. No meio do meu silêncio, ele umedeceu os lábios e desviou o olhar do meu.
— Te espero lá embaixo.
Assim que ele saiu, busquei tomar fôlego e me levantar. Eu ainda estava cansado, mas ficar na cama o tempo todo não iria melhorar minha situação.
Me cobri com uma manta e fui me arrastando até a sala de estar. Estava escuro, apenas a TV estava acesa. No sofá estavam o Magne e o Paul, Michael estava na poltrona (se os caras soubessem o que a gente já fez nesse sofá…). Fui até eles e fiquei no canto mais isolado, o sofá que o Michael tinha era enorme.
— Você tá bem? — Mags perguntou, dessa vez sem usar o norueguês. É até melhor assim, pra o Michael não se sentir isolado.
— Sim, eu tô assim desde o início do mês, então é normal que eu esteja melhorando agora. Uma hora esse vírus tem que passar.
— Isso se for um vírus, né? — dessa vez foi o Paul.
— É, pode ser uma minhoca que entrou pela sua orelha e colocou ovos na sua cabeça.
— Idiota, minhocas não põem ovos.
— Tecnicamente elas põem sim, mas eles ficam envolta em um casulo, protegidos — Paul devolveu.
Michael riu timidamente com a nossa conversa idiota. Isso me lembrou que eu precisava apresentá-los a ele.
— Michael, esse aqui é o Magne, o tecladista. Ele parece um poste, mas é o mais novo entre a gente.
— Poste é o meu p…
— Aquele ali é o Paul, ele faz as composições e toca guitarra.
Paul esticou o braço e cumprimentou Michael, que sorriu em resposta.
— Gente, esse é o Michael. Ele é o cara do Thriller, de Beat It, de Billie Jean…
— A gente sabe. Ele tá estourado em Londres.
— Como é ter todo esse sucesso? Pra mim isso é loucura demais — Magne comentou.
Michael riu e assentiu.
— É maravilhoso, mas também é difícil. Tem que saber lidar com a perda total do anonimato ou você pode enlouquecer.
Eu suspirei. Desde janeiro eu tenho acompanhado isso, Paul e Mags não fazem ideia do 1% do que é ser famoso. Ao mesmo tempo que eu quero muito, eu me pego questionando se é esse mesmo o meu sonho.
— Tem algum conselho pra quem tá começando? — Paul perguntou.
— Façam por amor ao trabalho, não ao dinheiro. Tomem cuidado com as ofertas, nem todos estão dispostos a ajudar. Ah, e fiquem longe das drogas.
— Essa última parece que veio do meu pai.
Paul brincou, e todos nós rimos.
— Mas é bem sério, não é difícil encontrar artistas que vão por esse caminho. Normalmente eles não duram muito. Pra lidar com a fama, você precisa pensar a longo prazo.
— Eu também penso assim.
— Ei, vamos parar com o papo chato e assistir a alguma coisa legal? — eu indaguei, apontando pra o controle remoto.
— Por mim, tudo bem — disse o moreno, pegando o controle e o colocando nas mãos do Mags. — Podem escolher, eu não conheço muitos programas de televisão.
Magne pegou o controle e começou a mudar de canal. A noite seguiu em tranquilidade, nós batemos um papo enquanto assistíamos aos programas mais bizarros da TV; eu tive a ideia de acompanharmos um reality show sobre obesidade nos Estados Unidos, e o Paul, dando uma de engraçadão, pediu uma pizza. Nada mais conveniente…
— Vocês assistem isso na Noruega?
— Nah, lá é sobre os casais mais velhos de Oslo.
— É, lá é cheio de velho — brincou o Mags. Eu ri em seguida.
— Vocês não acham estranho comer essas coisas enquanto vêem esse programa? É como assistir acidentes de avião estando em um vôo — Michael murmurou, ele parecia realmente assustado com a nossa brincadeira; abraçou as próprias pernas enquanto seus olhos cintilavam o brilho da TV, era como ver alguém assistindo a um filme de terror.
— Relaxa, não é como se você fosse ficar enorme por comer esse pedacinho de pizza — eu peguei um pedacinho só, meu corpo ainda rejeitava alimentos muito pesados.
— Parece maldade…
— Teu amigo não sabe brincar — murmurou Magne, e eu apenas ri baixo.
— Ele é assim mesmo, vai acostumando.
Queria fazer um carinho naqueles cachinhos escuros, mas Michael estava longe de mim, então só pude lamentar na minha. Os caras acabaram com aquela pizza, Michael comeu pouco, e eu, quase nada também. Dormi que nem senti, acordei alguns instantes depois, com o moreno acariciando meu cabelo.
Naquele momento, quase fechei os olhos e voltei a dormir, estava adorando aquilo. Michael se inclinou e beijou a minha orelha, fazendo o meu corpo arrepiar completamente. Soltei um suspiro e finalmente abri os olhos.
— Seus amigos dormiram…
Eu dei uma olhada e vi os dois marmanjos dormindo abraçadinhos. Quase engasguei de rir, contudo consegui me conter.
— Minha câmera! Pega ela, pega! — sussurrei.
Michael revirou os olhos e segurou um sorriso de canto a canto, em seguida subiu as escadas e voltou, instantes depois, com a minha Canon. Coloquei o flash de propósito e tirei a foto.
— Ei!
Eles acordaram, meio desorientados. Eu gargalhei alto.
— AH AH AH!! AH… Cof, cof!!! Ah, porra…
— Idiota!
— Pode me xingar em norueguês, eu deixo.
— Os palavrões dos americanos são melhores — murmurou Paul, passando a mão no próprio rosto.
— Melhor todo mundo ir pra cama, tá tarde. Branca me disse que quer falar com os três quando o Morten melhorar.
— É melhor você melhorar logo.
— Do contrário, a gente vai fazer uma dupla e te mandar de volta em uma caixa.
— Até parece, vocês precisam do pai aqui.
Nos levantamos e subimos as escadas. Como eu desconfiava… Michael deixou os caras no primeiro andar, e eu estava no segundo. Subi as escadas e fui até o meu quarto, eu já estava com saudades da minha cama quentinha. Mal percebi quando cheguei, mas eu estava sendo seguido pelo Michael, que fechou a porta em seguida e foi em minha direção.
— Tem certeza que você quer se arriscar assim?
— Quero. Não é nada demais, vou só me sentar na beira da cama.
E ele fez mesmo. Relaxei a cabeça no travesseiro e me cobri com o cobertor. Michael mordeu os lábios e olhou para outro ponto do quarto, pensativo.
— Que foi? Você tá bem?
Ele suspirou, em seguida assentiu, sorrindo.
— Eu nunca tive… amigos. Não desses que você fica conversando besteira até tarde, come porcaria e assiste a programas esquisitos — ele riu baixo e eu o acompanhei. — Hoje foi muito legal. Mais pessoas da minha idade, que me tratam normalmente, que conversam sobre coisas… normais… e não trabalhos e projetos que também são legais, mas uma hora cansam.
Eu sorri. Nada daquilo foi planejado, e eu realmente não esperava que Michael fosse gostar dos meus amigos idiotas, mas aconteceu, e vê-lo feliz, mesmo que de forma inesperada, me fazia bem. Enquanto eu pudesse trazer mais daqueles momentos pra vida dele, eu ficaria bem. Eu estava ansioso para melhorar logo.
— Quando eu melhorar, nós quatro podemos dar uma volta por aí, só os caras.
— Vai ser legal, mas eu realmente estou com saudades dos nossos passeios, você e eu. Faz tempo que não saímos juntos.
— Hum, é verdade. Eu vou procurar um lugar legal pra irmos.
— Mês que vem eu vou conseguir um espaço na minha agenda pra nós sairmos, tudo bem?
— Sim… — eu sorri — vai dormir agora?
— Vou, eu preciso ir. Boa noite, Morten.
— Boa noite, baby… baby boy.
Michael estava pra se levantar, mas, ao ouvir o apelido que eu inventei ali de última hora, ele se virou pra mim e franziu o cenho enquanto cruzava os braços.
— É o quê?
Eu ri.
— Baby boy, ué! Você não era um bad boy em Beat It? Na vida real a gente sabe que não tem nada de “bad” em você.
Ele gargalhou e balançou a cabeça negativamente.
— Vou te fazer se arrepender disso, senhor Harket! Você vai ver.
— Senhor Jackson me ameaçando? Onde estão os meus direitos como estrangeiro??
Michael gargalhou e se aproximou de mim, induzindo algumas cócegas no meu corpo. Eu soltei uma risada e joguei um travesseiro nele.
— Se eu ficar sem fôlego e morrer, a culpa é sua.
— Idiota… boa noite.
— Boa noite.
Ele se levantou e saiu do quarto ainda sorrindo. Eu fui dormir tranquilo sabendo que ele estava bem, que ele ficaria bem, e que eu, de alguma forma, consegui aliviar a tensão dessa sua vida instável. Se dependesse de mim, eu faria mais daqueles momentos se realizarem.
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