Diário de 2070

3 27 de Janeiro de 2070


Hoje era o dia de aula de história. E o professor Diaz, não apareceu. O que sinceramente é muito estranho. Normalmente eu o encontro em algum trecho do caminho e conversamos até o colégio. Havia dias em que ele me chamava para entregar-me uns livros de sua época. Lembro quando ele me deu o primeiro volume da novela de Sherlock Holmes, e junto me entregou alguns ships que continham séries e filmes que falavam deste personagem. Levou alguns meses para terminar o livro e assistir a tudo aquilo, depois fiz anotações sobre ambos. Ao terminar, ele me entregava outro, o segundo volume, e se passavam mais algum tempo lendo.

– Alunos. — chamou a diretora entrando na nossa sala, sempre quieta. — Lamento informar, mas, o professor de vocês faleceu de desidratação.

Todos nós nos entreolhamos. Eu me assustei choraria se tivesse lágrimas. Mas naquela hora, já não tinha nem chão. Isso era impossível, logo ele morrer de desidratação? O professor tinha embaixo de sua casa uma espécie de rio subterrâneo, ele nunca morreria de desidratação. Ao menos...

– Portanto, até acharmos outro professor, todos estão livres nos dias de aula de história. Dispensados. — Ela se manteve imóvel enquanto os alunos se retiravam comentando sobre o assunto, quando eu passei por ela, senti uma mão fria e esquelética tocar me o ombro. — Você, não. Venha comigo.

A sala estava vazia já, quando saímos dela, pegamos um elevador ao lado da sala e descemos 3 andares, passamos por um corredor largo e entramos numa sala no final. Era a sala da diretora. Ela se sentou na sua cadeira, de forma em que apenas uma mesa nos separava, me convidou para sentar na cadeira de frente pra ela, e foi o que eu fiz, deixando a sacola no chão, ao meu lado.

– Como sabe, você é aluna favorita do professor.

– Era. — corrigi de cabeça baixa. Quando eu fazia isso na frente do professor, ele dizia que meu cabelo cobriria o meu rosto, se eu tivesse cabelo, e que tal gesto delatava vergonha, timidez, e as pessoas o faziam para esconder o rosto com o cabelo, que já ninguém tem.

– O quê? — Perguntou, descrente de que eu a havia corrigido.

– Eu era a aluna favorita.

– Porque? Vocês brigaram?

– Não, senhora. — Respondi, ainda cabisbaixa. — Ele morreu.

–Ah, claro. — Disse como se houvesse esquecido do fato. Porém, com uma frieza que exalava de seus olhos. — Enfim, você era a aluna favorita dele, e por ser muito velho, ele já tinha deixado um testamento e cartas endereçadas, que, por lei, só devem ser abertas pelo dono e seu correspondente. Mas, por lei também, foram abertas, por precaução do governo. Não acharam nada nas cartas, mas tem uma endereçada à você, e o testamento também a menciona. Ele deu a casa e a água, outrora dele, para você. Isso que é sorte.

– Diretora, ambas sabemos que meu intelecto é superior ao de muitas pessoas. Então, diga logo, quem o matou?

A diretora olhou nervosa pro canto da sala e me respondeu, tomada novamente pela frieza.

– A sede o matou. Assim como mata muitas pessoas.

– Como ele morreu de sede se me deixou toda sua água?

– Ele estava economizando! Está na sua carta, ele estava guardando água justamente para você. Se quiser ir mesmo a fundo, senhorita, então digamos que foi você quem causou a morte dele!

– Se formos bem mais a fundo, saberemos quem o matou de verdade.

– CHEGA! A partir de hoje você terá a casa dele e toda a água que ele guardou em seu nome. Como não trabalha, não pagará impostos, mas metade da água vai para o governo. Fique feliz por isso. Agora saia!

Peguei os documentos e a carta e os coloquei na sacola, e saí. Esperando o trem que me levaria para casa, abria a carta violada pelo governo e comecei a ler.

"Penso eu. que já estarei morto como uma maçã podre e seca, quando se puser a ler esta carte, Rita, saiba que sempre a admirei por sua inteligêmcia e seu fascínio pela verdadeira história. A vida é como uma escada, uma única escada, sempre bem escondida, onde, assim como hoje, temos de deixar a esquerda livre, para as pessoas subirem, enquanto nós descemos. espero que você nunca desça tão rapidamente quanto eu, mas lembra o que eu lhe disse no primeiro dia de aula, quando notei o destaque de inteligência que tinhas? Leve isso contigo. Minha sala era na época, no primeiro andar, já descia as escadas naquela época, minha sala era a primeira à esquerda, e lá ficava minha "Nárnia", meu paraíso secreto, me fingia de criança quando sentávamos para conversar sobre o que achava dos livros que eu havia lhe dado. Guarde tais lembranças com carinho. Hoje, desço as escadas. Até o fim. De padawan, viraste Jedi. E eu tenho um pleno orgulho de você."

Algumas palavras e letras, destacadas, formavam a frase "Poço secreto tem a verdade, uma escada bem escondida, primeiro andar, primeira à esquerda, desço as escadas até o fim." Já havia entendido, pego o trem e passo pela minha casa, desço quando chego na casa dele. Ando alguns metros da estação de trem até sua sua casa, lá, tudo está intacto. A casa dele era um retângulo de metal, assim como a da maioria, tinha quatro andares, e só dois estavam acima do solo, como a da maioria. Os dois andares de baixo serviam para abrigo, as casas foram feitas assim para o caso de alguma guerra se iniciar, já que hoje vivemos em plena ameaça de guerra. Entrei no prédio e desci pelas escadas até o primeiro andar, era um corredor estreito e escuro com várias portas de aço, atravessei a primeira porta à esquerda e entrei numa sala gigante com três portas. Me posicionei de frente para elas. Primeira a esquerda, ele mencionou muito a esquerda, então supus que seria a primeira porta da esquerda para a direita, e a abri. Mais escadas. Quatro escadas na minha frente, pensei novamente na primeira da esquerda, mas pensei bem. Reli a carta. "desço as escadas. Até o fim. " "uma única escada, sempre bem escondida" Vasculhei bem o local. Tínhamos de deixar a esquerda sempre livre, não? Então fui para a direita, se quisesse descer. Mais ao fundo, na extrema direita, havia um corredor estreito, passei por ele e na minha frente havia uma única escada. Eu desci cerca de duzentos metros, até o fim.

Lá, deixei de ver o chão de aço, e passei a ver terra. Deixei de ver paredes de aço, e vi uma parede e um teto irregulares e rochosos, eu estava numa espécie de caverna. Fui andando, vasculhando o local, era enorme. Lá no fundo, longe de qualquer vestígio de metal, achei uma mesa, não de metal, como de costume, mas de madeira, nela havia pilhas de livros e mais livros numa estante ao seu lado, como nas bibliotecas antigas, estantes de madeira! Caminhei mais um pouco, e vi um... Ainda não acredito... Eu vi um... Um Rio! Litros e litros de água transparente correndo. Ao redor do rio, não era terra, havia... Grama! No teto pairava uma lâmpada que deveria agir feito o sol, eram muito antigas, serviram nos anos de guerra, quando as pessoas passaram meses nos andares subterrâneos, sem notícias de melhora. Havia uma semana de trégua a cada 6 meses, para as pessoas pegarem mantimentos. Não preciso dizer quantos morreram de sede, de fome, e quantos não recorreram a tomar a própria urina para sobreviver mais um tempo.

Aquela lâmpada funcionava exatamente como o sol, porém, apenas por uns seis meses, no máximo. Naquele rio, havia grama, até tinha uma árvore frutífera! O rio não era tão fundo, ia até a altura do meu peito, mas era largo e ia de uma ponta a outra daquele lugar, que não era tão pequena. Algumas poucas arvores se faziam ver ao longo do rio.

Agora eu havia entendido o principal. "e lá ficava minha 'Nárnia'", Nárnia, uma fuga da guerra dos humanos, um mundo secreto, que ninguém mais conhecia, com seres fantásticos, que todos nunca imaginavam existir. Ou no caso dos telmarinos, seres que pareciam já estar extintos.

Agora, aquela era a minha Nárnia.