Diário De Um Sobrevivente

2 Portas são um problema.


Notas iniciais
Agora sim, tá no ritmo total! Nicolas, Geovanne e Taís estão na delegacia... o que tem lá dentro? Vem conferir!

Claro que tinha que ter alguma coisa pra ajudar, não podia faltar.

A porta estava trancada.

– Sério isso? – eu disse, com uma indignação evidente – Só é o que me faltava!

– Relaxa a cuca aí, maninho – respondeu Geovanne, era incrível o como ele conseguia permanecer com a expressão de sempre, praticamente achando graça.

– E o que fazemos agora? Voltamos? – Taís parecia tão desapontada quanto eu.

– Vocês não me ouvem mesmo, não é? – perguntou Geovanne enquanto saia de sua posição em direção a Taís e esticava a mão em direção ao seu cabelo cacheado – Lembrem que alguém manja das malandragens aqui.

A partir daí já pude perceber o que ele faria. Realmente ele “manjava” de algumas habilidades. Geovanne passou metade da sua infância como uma criança de rua, não que ele não tivesse pais, eles simplesmente o deixavam solto o dia todo, como se não se importassem. Pela experiência do lado fora de casa, ele acabou aprendendo uns truques e algumas coisas com meninos em condições parecidas as dele, até que quando ele tinha seus doze anos, eles começaram a querer envolvê-lo em assaltos de casas vizinhas, pois acreditavam que ninguém desconfiaria dele. Felizmente ele soube dizer não a esses outros garotos. Isso lhe rendeu uma bela surra, que o deixou com a cara roxa por quase uma semana.

Foi assim que eu o conheci e viramos amigos. Eu estava na oitava série e ele na quinta, pois tinha repetido. Ele mal ia a escola, só andava com aqueles outros meninos e, de um dia para o outro, ele simplesmente parou e passou o dia sozinho de cabeça baixa. Um dia, na saída, eu o vi sendo ameaçado pelos mesmos garotos do antigo grupo – meu sangue ferve quando vejo esse tipo de coisa. Na época, ele já era mais alto que eu e mais corpulento, só que permaneceu com a cabeça baixa e não respondeu a nenhum dos insultos. Eu não me segurei e fui até lá. Empurrei o garoto que estava a sua frente, fazendo piada com algo (que minha raiva não me permitiu entender) e apontando o dedo, com força, o que lhe fez cair.

Ele devia ter seus quatorze anos, assim como eu, tinha a pele mulata, olhos verdes e sobrancelhas grossas (acho que as sobrancelhas assustavam mais que ele em si).

Nesse momento, Geovanne levantou o olhar pela primeira vez, um olhar de espanto, como se não esperasse por aquilo (nem eu esperava). Os outros do grupo começaram a vir em minha direção enquanto o Mr. Sobrancelha começava a se levantar com dificuldade (espero que tenha torcido o pé, no mínimo).

Peguei o braço de Geovanne com uma força maior que tinha e o puxei para fora dali. Ele não protestou e veio. Os dois meninos, aparentemente mais jovens foram ajudar o mais velho, que recusou com ignorância e acabou caindo de novo. Não consegui conter a risada, e Geovanne acabou rindo junto.

Depois de nos afastar dos estranhos – pelo menos pra mim -, conversamos sobre isso, e ele acabou me contando sua história. Fiquei feliz por ele ter dito não a eles e me propus a ajudá-lo no que precisasse, principalmente na escola, já que ele já tinha repetido um ano por causa das faltas. Desde então estamos sempre juntos.

– Terra para Nick, alô alô? – Taís estava passando a mão de um lado para o outro na frente do meu rosto, o que me fez levar um pequeno susto – O que você acha da ideia do Gê?

– Hã? O-o que foi?

– Ele quer abrir a porta com o meu grampo de cabelo – foi aí que reparei seus cachos um pouco mais armados -, e a gente quer saber o que você acha!

– É maninho do mundo da Lua, fala aí o que tu pensa. Eu posso abrir isso em dois palitos.

– Okay, okay, pessoal. Acho uma boa, mas vamos fazer uma coisa primeiro...

Olhei de um lado para o outro, a rua completamente deserta. Será que em três dias as pessoas conseguiriam se espalhar tão rápido? Ou estavam trancafiados em suas casas?

A rua tinha uma grande extenção e era bem espaçosa, o que era bom e ruim ao mesmo tempo. Nos daria espaço pra correr, mas ficaríamos vulneráveis a vista de qualquer um. Haviam muitas árovres pelo menos, e a casa mais próxima devia estar a mais ou menos quinhentos metros da rua em viemos.

– Como você precisa de tempo – comecei -, vamos precisar ser mais cuidadosos, então vamos bater na porta e prestar atenção se algum barulho se propaga por lá, para pelo menos saber se tem algo próximo à porta.

– Nick... – era Taís – Quanto tempo você se preparou pra isso? – Ela realmente parecia pasma.

– Eu nunca...

– Mas você tem tudo pensado já! Como?

– Eu só penso no que já vi em diversos filmes... e no que achava idiotice... e uso o que acho lógico.

– Uau! – exclamou Geovanne – Você é demais, maninho. Eu mesmo nem tinha pensado em nada disso.

– Obrigado, eu acho – Espero que eu não tenha soado ignorante. – Vamos fazer isso!

Voltamos a nossa formação, mas eu e Geovanne trocamos de lugar. Eu estava com a maior faca que tínhamos, segurando-a o mais firme que podia. Ele bateu na porta de ferro da delegacia três vezes e fez com que o som se propagasse por pelo menos um quarteirão comum.

Esperamos ansiosamente, torcendo para que nada fizesse barulho do lado de dentro. Depois de dois minutos corridos, Geovanne começou a fuçar no local onde uma chave deveria ser colocada. Demorou cerca de trinta segundos até que ouvíssimos um suave som de “clique” e uma pequena brecha fosse aberta imediatamente.

Taís, que estava do lado contrário a Geovanne, empurrou a porta fazendo- a abrir completamente, assim, consegui enxergar dentro da delegacia.

Estava extremamente escuro lá dentro. Toda a luz que entrava vinha de pequenas janelas retangulares próximas ao teto e davam um tom de suspense àquela sala.

Eu nunca cheguei a ver uma delegacia de dentro, até aquele momento. Fiz sinal para que os dois que estavam me acompanhando ficassem atentos, e me aproximei para ter melhor visibilidade. A maior parte da iluminação era vinda da porta e minha sombra praticamente cobria toda a entrada.

Entrei em passos lentos, me confortando com o pensamento “batemos na porta e não teve nenhum barulho. Tudo está seguro”. Mas não era muito bom me prender àquele pensamento.

Todo cuidado era pouco.

Não era como eu imaginava que seria uma delegacia. Ela era bem espaçosa, o piso variava em preto e branco como os dos anos 1950, se não me engano. A minha direita, dois bancos compridos da cor bege — devia ser lá onde as pessoas esperavam para ser atendidas. Do outro lado, armários de ferro esverdeados, com etiquetas de “Boletins de Ocorrência” e datas de anos anteriores. Na outra extremidade, uma mesa marrom e larga bem no centro da parede com uma cadeira de couro logo atrás e uma placa em cima dela, provavelmente com o nome do delegado da unidade, que eu não conseguia ver por causa da escuridão.

Mais portas, que beleza! Eu já estava muito feliz com portas hoje, uma de cada lado da mesa do delegado, idênticas a da entrada. Só queria que não fossem iguais em um aspecto... que não estivessem trancadas.

– Nick, já podemos entrar? – disse Taís mostrando a cabeça na porta

– Sim, venham. – respondi.

– Que escuro, né não? – Empolgado como sempre, Geovanne entrou .

– Quem trouxe o celular? Podemos usar o flash dele – sugeriu Taís.

– Ótima ideia, Tata. – Geovanne a chama pelo apelido quando está realmente entretido. — Eu trouxe! – Ele colocou a mão no bolso e retirou um celular de cinco polegadas e ligou o flash bem na minha cara.

– Ei! Quer me cegar, seu bobão?!

– Calminha ae, brother. Você devia ver sua cara!

– Isso ninguém pode negar – disse Taís sem nem disfarçar as risadas.

– Haha, vou morrer de tanto rir – ironizei e depois todos rimos como se não houvesse amanhã.

Talvez não houvesse mesmo.

– Certo, o que fazemos? – Taís observava toda a sala, quase dando uma volta no seu prório eixo.

– Temos duas portas, e alguma deve dar aonde queremos. Aqui já é óbvio que não tem nada que possa nos ajudar – Ás vezes eu falava tão sério que me assustava, mas acho que eles já estão acostumados.

– Eu vou olhar aquela mesa no centro, delegados sempre têm alguns apetrechos nessas pequenas gavetas. – Taís estava totalmente certa. Adorava esse lado eficiente dela.

– Tudo bem, aproveite e vigie a porta. Geovanne, vamos para a porta da esquerda primeiro. – Ele assentiu e foi em direção a porta.

– No três? – ele perguntou.

– No três. – afirmei.

– Vocês dois, tomem cuidado. – recomendou Taís.

– Você também, Tata – respondeu Geovanne, sorrindo para ela. Ele voltou a atenção para a porta e começou:

– Um... Dois... Três!

Aquelas portas faziam muito barulho, mas pelo menos aquela não estava trancada.

Estava bem mais escuro do que na entrada, porém Geovanne já estava com o flash posicionado. Não era necessária luz para saber que ali era onde ficavam as celas.

Eram quatro que formavam um corredor não muito longo. Mas tinha algo estranho...

– Cara, estão abertas – Geovanne parecia estar lendo meus pensamentos.

Na verdade, eu não tinha pensado, nem por um segundo, em possíveis prisioneiros, nem o que faria caso encontrássemos algum.

– Isso é bom ou ruim? Talvez eles tenham simplesmente sido libertados quando começou. – sugeri.

– Talvez, e tudo aqui está em ótimas condições. Nada destruído, nem sangue, como eu achei que fosse estar, cara.

– Verdade, sem falar que a porta da frente estava trancada... Estranho.

– Estranho – repetiu ele.

Seguimos o corredor até o fim e viramos à esquerda, único caminho possível, e mais uma porta. Usamos o mesmo esquema da última porta e encontramos o vestiário, muito amplo por sinal. As paredes eram todas cobertas por azulejos quadriculados brancos e lisos, o chão com piso ante-derrapante azul-esverdeado, bancos de madeira brancos se enfileiravam no centro do recinto e vários chuveiros simples no final.

– Será que tem água corrente? – Perguntei.

– Vamos ver! – exclamou Geovanne e tomou a dianteira.

Nossos passos ecoavam e isso era muito estranho, ao mesmo tempo que era emocionante. Eu simplesmente adorava esse som.

Realmente havia água corrente, e isso era bom. No entanto, era gelada. No apartamento de Dan também tinha, mas a pressão da água já estava começando a diminuir.

– Vamos voltar. Ainda temos a outra porta para olhar. – disse Geovanne enquanto desligava o chuveiro.

– Você está certo. – concordei.

Na volta reparei mais nas celas. Eram apertadas, com uma privada sem tampa no canto que parecia não ser limpa desde quando os dinossauros deixaram de viver nesse mundo. Havia também uma beliche simples com um colchão fino e lençóis brancos que, aparentemente, estavam sujos. Me pergunto se realmente só duas pessoas ficavam em cada cela. Na maioria dos noticiários sempre estavam super lotadas, chegando até mesmo a 50 pessoas por cela. Como cabiam, eu não sei, mas devia ser bem agoniante. Talvez fosse apenas uma parcela do que deveriam pagar, aliás, se estavam ali, foi por que fizeram alguma coisa considerada errado, certo?

Bem, agora não é hora de julgar ninguém.

Algo estava estranho com o silêncio... estava diferente de antes.

Chegamos à porta da qual viemos e nenhum sinal de Taís. Nem precisamos trocar palavras, Geovanne correu para a entrada.

– Ela não está aqui fora, Nick! – a expressão dele... Ele ia gritar por ela!

– Não grite, Geovanne! – eu disse, tentando o máximo não gritar com ele. – Precisamos de calma pra saber o que aconteceu. Pense bem, ela não gritou, nem tem sangue nem nada aqui. Eu sei que não sabemos nada dessas coisas, mas pelos que matamos agora há pouco, nenhum deles parecia querer, muito menos conseguir, arrastar ninguém.

– Verdade. Tenho certeza que ela não saiu daqui. – Antes que eu pudesse manifestar a interrogação na minha cabeça, ele apontou para dentro da delegacia, mais especificamente para a porta que não havíamos explorado ainda.

Estava aberta.

– Por que ela entraria antes que voltássemos? – perguntei.

– Talvez ela tenha ouvido alguma coisa – sugeriu.

– Não acho que ela seria tola... Venha, vamos achá-la. Já demoramos muito aqui.

Geovanne assentiu e foi direto à porta, e eu fiz o mesmo.

Aquela parte da delegacia parecia ser três vezes mais escura do que a que já passamos.

Era apenas uma área retangular que dava acesso a outra porta. Geovanne foi na frente com o flash do celular, e eu cuidei de fechar a porta atrás de nós. Pelo menos poderíamos ser avisados pelo som caso algo mostrasse interesse de entrar.

Essa porta também estava trancada.

–Ótimo, mais uma! – exclamei baixinho, com forte ironia na voz.

– Relaxa, Nico – quando ele começa a mudar os apelidos significa que até ele está ficando nervoso. – Eu dei um jeitinho maroto antes, vou dar agora – E mesmo assim, nunca perde o senso de humor.

– Portas são um problema – eu disse, bufando.

– Portas são um problema — repetiu ele, pegando o grampo de cabelo e me passando o celular.

Notas finais
Gente, o que acharam? Deixa um review, nunca te pedi nada! Não se esqueçam de falar a sua opinião sobre portas...
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.