Diário De Um Sobrevivente
2 Quinta-feira, 27 de dezembro de 2050
Sinceramente, não sei de onde estou arranjando forças para escrever essas palavras. Como afirmei antes meu futuro tornou-se muito mais incerto aqui. E mudou completamente. Afinal não é todos os dias que se tem pedidos de roubos. Fazem três dias, com esse, que estou sem comer, pois o dinheiro que eu tinha se esgotou. Meu estômago está um buraco vazio que me mata. Não tenho mais vontade de sair as ruas, muito menos disposição e força para isso. A única água que tenho para beber foi uma garrafinha de quinhentas ml que restou de minha última compra. Minha cabeça doí e minha barriga reclama roncando. Já pensei em tentar entrar para um clã de última hora, mas seria complicado de ser aceito, alias já assaltei até mesmo um clã da união estadunidense. Confusão. Realmente estou perdendo o único sentimento restante, a esperança. Não importa o quanto me esforce aqui, pareço girar em círculos sem chegar a lugar algum. Quanto poderei voltar a viver dignamente? Que pecados cometi para estar aqui? Irei morrer sem nem mesmo ter a chance de ver minha irmã sorrindo novamente, ou até a garota que eu paquerava na escola? São tantas as perguntas sem resposta...Nenhuma dessas pessoas mereciam estar aqui. Por pior que o ser humano possa ser, aqui é tudo muito...cruel. Se olhar pela janela verá sangue inocente sendo derramado em vão pela rua, sem ser lembrado por alguém.
Não tenho a mínima ideia do que acontece ao morrer nesse mundo. Muitos afirmam ao morrer aqui ocasionará sua morte na outra realidade também, afinal onde meus pais estão provavelmente podem observar meu corpo paralisado de olhos fechados em repouso. Mas são só boatos. Realmente não tenho nenhuma certeza de que meu corpo está parado na outra realidade paralela ou se fui transportado para cá, e muito menos saberei se a morte daqui resulta no fim de tudo. De qualquer forma morrer é algo indesejável por mim. Muitas pessoas logo quando chegaram aqui, resolveram cometer suicídios em uma tentativa absurda de virem-se livres. No fim, acho que somente facilitaram para o resto de nós terminarmos com essa guerra logo. Eu sei o quanto é ruim ver a morte de milhares dia após dia. Mas também sei que se essa guerra ocorresse na realidade comum muitos mais morreriam. É por esse motivo que os governantes decidiram enviar-nos para cá. Se essa terceira guerra mundial ocorresse no “mundo normal” destruiria cidades, mataria muitas pessoas. Nem por isso afirmo ser a favor das ações feitas. O melhor seria haver um acordo em paz entre as alianças disputantes impedindo quaisquer tipos de ataques. Mas a alma humana parece gostar de ver a desgraça. Isso desde a idade antiga.
Um sorriso acabou de vir a minha mente. Não me pergunte o porquê. Talvez minha mente já deve estar ficando insana e relembrando do meu passado. Era o sorriso enorme de uma menina que eu admirava. Ela possuía cabelo curtos liso com comprimento no queixo e franja de corte reto. Mas era incrivelmente bonita. Eu gostava dela, apesar de somente conhece-la de vista. Sabia seu nome, entretanto ela não me conhecia. É o tipo de amor platônico e ridículo de um adolescente praticamente solitário na escola. Enfim, eu havia até mesmo me esquecido disso por estar sempre roubando e buscando dinheiro. Quando penso em amor aqui, torna-se algo ridículo mesmo. É como falar em igualdade em um mundo tão desigual.
Ah, minha cabeça não se cansa de latejar. Quanto tempo mais aguentarei? Preciso me alimentar. Sei que o ser humano pode passar algum tempo sem comida e poucos dias sem água. Mas eu não estou mais suportando. Esta é a segunda vez que passo por isso. A primeira vez foi logo em que cheguei aqui. Aliás, a última ação feita por mim antes de acordar nesse lugar fora ter ido a uma festa de um desconhecido que recebi convite através de um e-mail. Não me recordo dos acontecimentos na festa somente lembro de meu pai deixando-me em um salão de eventos. Após isso minha memória se apagou completamente e recordo apenas de acordar na rua no asfalto somente com a roupa do corpo, meio a inúmeras outras pessoas desconhecidas. A maioria eram homens adultos, e haviam poucas garotas e mulheres. Fiquei muito perdido e confuso. Estava em uma cidade completamente desconhecida, não tinha um local para repousar e sem noção das proporções dos fatos. Na hora pensei até ter ficado bêbado na festa e ter saído andando por aí até chegar onde permanecia. Contudo seria improvável, primeiro porque os prédios ao redor eram diferentes, não havia anúncios luminosos espalhados para todos os cantos, eram simples e antigos. Segundo pela presença de muitas pessoas reunidas ali. Era quase impossível todos terem ficado bêbados e irem ao mesmo lugar. Deduzi estar acontecendo algo completamente estranho. Acabei tomando noção dos fatos com o tempo pelos murmurinhos dos que recordavam-se de uma parte da festa e tinham informações suficientes para explica-los.
Fiquei debaixo da cobertura que fazia parte de um ponto de comércio conhecido hoje. Estava frio, chovia. Fiquei com a roupa molhada enquanto o vento congelava os ossos. Vi garotas entrarem em desespero e terem crises de choro. Já outros ficaram nos lugares em que acordaram, incrédulos, paralisados com a situação. Eu apenas me protegi da chuva e fiquei observando ela cair. Era tudo que podia fazer. Não sabia onde estava, não conhecia nenhuma daquelas pessoas, e nem o motivo de estar ali. Desejava somente ver minha família. Admito, fiquei com medo. Muito medo. Foram várias emoções juntas: solidão, abandono, medo e dúvidas. Apesar disso fiquei ali, sem reação. Minha mente enfrentava milhões de pensamentos, mas meu corpo ficara estático. Foi assim até eu adormecer.
Posso escutar barulhos de chuva nesse momento também. Está escuro e chove muito, meu desejo é sair nas ruas desesperadamente e conseguir comida. Porém terei de arranjar forças e esperar a chuva cessar-se. A única atitude a fazer por ora é esperar, tendo, pelo menos, uma pequena chama de esperança.
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