Diário De Um Serial Killer
9 Tentativas prescindíveis
Notas iniciais
31 de dezembro de 1889,
Lembro que foi nesta mesma época, virada de ano, vasta desculpa para me desviar de meus objetivos e pensar em alguma diversão que não envolvesse muitas complicações. Queria relaxar, e principalmente: esquecer e me livrar dos atormentados pensamentos. Estes que não me deixavam em paz... o tal garoto que completou com dinheiro próprio o necessário para meus cigarros, aparecia, sem saber, em meus sonhos e desejos mais mórbidos. Mal sabia que estava lá ou talvez soubesse. Jovem e inocente alma. Tentei ao máximo... me distraí com diversão barata na esperança de substituí-lo. Prostíbulos com as mais belas damas da época poderiam me fazer bem, afinal, nunca havia sentido o mínimo de atração por alguém do mesmo sexo. Talvez fosse um espírito maligno apossando-se de meu corpo com a intenção de punir-me pelos meus pecados.
Pecados, devo admitir, bem vistos aos meus olhos que buscavam infinitamente por algo maior para contento e diversão própria. Como em um açougue, pedaços de carne expostos em busca de compradores, algo realmente deplorável quando utilizados animais, e inacreditavelmente deplorável quando feito por mulheres. Acredito que utilizar-se do próprio corpo como um modo de adquirir sustento é algo para a última instância. Não condeno aquelas que possuem prazeres ao fazer isso, quem seria para condenar alguém, não é mesmo?
Basicamente, tudo o que busquei durante esse tempo foram vítimas esquecidas, quais não fariam falta a ninguém. Meus pensamentos sobre diversão, não envolviam relações sexuais estabelecidas com pedaços inúteis de carne já apodrecidas pela sociedade. Apesar de jovens (pelo menos sua maioria), já estavam mortas. Cá entre mim e esta folha desgastada que só me é separada por este instrumento com o qual escrevo... Mulheres, moças e jovens, toda e qualquer criatura do sexo feminino deveriam presar-se, não vender a única coisa que lhe separa do mundo espiritual e mantém todas nesse plano. O corpo é muito mais do que um gerador de fortunas próprias, desde aquelas que se prostituem até mesmo as que vivem em função de grandes cargos. O desgaste físico e emocional é, provavelmente, o mesmo em ambas situações. Apesar de que em minha, muito alarmante mente, tudo depende do contexto em que se está envolvido.
Um prostíbulo a pouco mais de três quilômetros do centro da cidade era o local mais perto que aparecia em minha mente. O andar pela madrugada gélida e solitária me levou até lá com passos compassados e lentos, sem pressa ou motivação. Por mais que soubesse que teria um pouco de minha diversão, tinha ciência de que algo estava vagamente mais vazio do que o normal dentro de meu rancoroso e vingativo peito. Aquelas orbes de tons entre o avelã e verde apareciam a cada segundo que se passava em minha mente... o suor em minhas mãos aumentava conforme a minha vontade de procurá-lo e tomar consciência do por que alguém que, aparentemente não possui tantos pecados, foi colocado na vida de um atormentado e descontrolado louco sem princípios. Ninguém faz por merecer, de algum modo acontece pelo simples fato de que esse era o mais correto ou, ao menos, o mais simples modo de colocar as coisas no lugar. Talvez aquele fosse o lugar dele, ocupando espaço na mente de um médico insano que cometeria loucuras em busca de soluções para tirá-lo dali.
Minha caminhada até a casa fora pacificamente tranquila, sem nenhuma surpresa ao longo do caminho. Chegando lá, fui apresentado à todas as damas disponíveis no momento, todas atacando olhares insinuantes e sedentos por afeto verdadeiro. Elas buscavam ali, quem um dia as tiraria de tal vida, o príncipe qual se apaixonaria por elas removendo-as de tais condições e em um segundo momento, só buscavam um modo de conseguir dinheiro para continuarem vivas.
De alguma forma, é necessário admitir que possuíam esperança. Pensam e sonham que futuramente frutos bons tendem a cair das árvores que plantaram a anos atrás. É possível caracterizar tais sonhos como algo lindo e ingênuo, mesmo que muitas delas já houvessem riscado tal palavra de seus dicionários pessoais.
Meu medo de seguir em frente com minhas vontades e concluir minhas buscas ali apareceu repentinamente, sem nenhum aviso prévio... não era uma hora propícia para desistir e tentar esquecer todo o ocorrido dos últimos dias.
Assim, escolhi a que mais me lembrara ele, possuía também algumas tatuagens e cabelos da mesma cor, os olhos não se aproximavam ao tom angelical de meu amado mas era um começo. Quem sabe com lágrimas, tornar-se-iam mais cristalinos. Sem mais cerimônias fomos à um local mais reservado da cidade onde, provavelmente, ninguém saberia ou buscaria por ela.
O óbvio ocorreu, estupro e posteriormente, em questão de momentos, estrangulamento. A parte posterior do abdômen foi parcialmente arrancada por um golpe intenso e irregular devido ao meu devaneio ao lembrar novamente dos braços musculosos e desejáveis do meu parceiro viciado em cigarros. Havia feito também diversas incisões pela mesma região, e três ou quatro cortes similares no lado direito com uma faca que levei no bolso por coincidência. Naquela noite a intenção era utilizar as próprias mãos para testar minha força e capacidade, porém o achado na parte frontal de minha calça serviu para tornar as ações mais excitantes.
Os gritos eram incessantes, meus tímpanos nunca presenciaram tamanhos berros de medo e descontentamento em tão curto período de tempo. A execução durou cerca de treze à vinte minutos. A deliciosa melodia aumentava a cada corte que sua região abdominal adquiria e devo dizer que não foram em pequena quantidade.
Outras vítimas foram surgindo ao longo de minhas buscas por prazer, talvez mais do que o número que eu havia cogitado. É algo tentador, mais forte e maior do que a sanidade em meu sangue. Em minha mente, a forma mais fácil de colocar um sorriso de satisfação no rosto e dar boas gargalhadas ao lembrar de faces fragilizadas e inalteradas por reações que não o medo.
A segunda mulher desconhecida que sofreu em minhas imundas mãos teve seu fim parecido com a primeira. Sua garganta foi aberta por dois cortes, um mais profundo que o outro. Desta vez abri completamente seu abdômen e assim, removi seu útero. Não era algo que pretendia fazer ou havia pensado anteriormente, apenas o fiz e senti certa felicidade ao lembrar que a remoção de órgãos internos é algo, particularmente surreal.
É claro, surreal não devido a brutalidade do ato, porém a constituição e a perfeição de nosso corpo que deixa claro o porquê de tamanho contento de minha pessoa ao ver cada mísera parte separada antes que pare de funcionar adequadamente.
A terceira dama ganhou uma incisão direta no pescoço; aparentemente a causa de sua morte foi perda excessiva de sangue pois atingi uma artéria principal no lado esquerdo de seu belo pescoço. Desta vez não havia realizado tantos cortes na área do abdômen, assim lançariam a incerteza sobre minha identidade e quantidade de pessoas mortas graças à minha pequena falta de senso. Quando executei minha terceira vítima, estava tornando a recuperar lembranças que por anos preferi guardar em algum canto do consciente em um baú que não possuía chave, mas de alguma maneira, ele começou a abrir, trazendo imagens de meu irmão com lágrimas nos olhos. Devido a minha raiva interior e ódio crescente, no mesmo dia, mais uma mulher foi morta. A garganta foi aberta por dois cortes, e uma quarta vez, o abdômen foi aberto por um corte longo, profundo e irregular (talvez minha mente deu origem a mais imagens minhas quando pequeno, e assim a irregularidade foi novamente inevitável). Dessa vez, o rim esquerdo e grande parte do útero foram removidos.
O grand finale veio com a quinta jovem. Desta vez admito que superei os limites da insanidade. Mais uma garganta foi cortada... até a coluna vertebral, e o abdômen quase esvaziado, praticamente sem nenhum órgão. A pulsação de seu coração diminuía a cada segundo e a irritação diante da demora de sua última batida aumentava, então pelo enorme corte já feito, minha mão entrou em colisão com o resto de suas entranhas até encontrar o mesmo, que ainda pulsava fracamente. Pressionei as artérias ao seu arredor e então arranquei o músculo de seu corpo.
A coloração vermelho vivo e tons rosados me deixavam em êxtase. Era como segurar uma bomba relógio que explodiria a qualquer momento. Jurava que desta vez havia esquecido os preciosos olhos constituídos por esmeraldas carameladas, mas definitivamente estava engando.
J.E.
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