Notas iniciais
Bom, primeiramente peço que não me matem... Gerard cuidará disso mais tarde. Sinto por ter desaparecido, me desliguei totalmente do site quando voltei às aulas e infelizmente tenho que dizer que continuarei sumindo quando não estivermos na época de férias. Agradeço por terem a paciência de esperar e me desculpo pela ausência. Enfim, espero que gostem do capítulo... Um novo personagem (muito esperado) vai entrar na história agora. Aproveitem a leitura!

28 de dezembro de 1889,

Retomando o fato narrado a alguns dias atrás, posso dizer que vem sendo gratificante retornar a lembrar em linhas tortuosas feitas à mão, cada memória e vítima que atravessou minha pacata vida.

Fui até o terreno em busca da conclusão de meu primeiro e um tanto quanto fracassado trabalho (já explicado anteriormente o motivo de tal decepção), isto claramente baseado em uma ideia minha do que, supostamente, “dera errado”. É certo que poderia realmente ser um fracasso apenas se descoberto, mas a falta dos prazeres que sofri ao não ver minha primeira vítima gritando e rebatendo-se em minhas mãos, já não era, para mim, uma concepção de acerto. Via exatamente seu contrário.

Por fim me dirigi até a parte qual o mato era maior para que fosse dificultado a possível atenção que o fogo ocasionasse. Sim, o ato utilizado fora o da carbonização, assim já não existiriam muitos modos de descobrirem a quem possivelmente pertencia aquele corpo.

Como passei muito tempo em busca do crime perfeito, antes de esquartejar o pútrido objeto de prazer, removi, um por um, os dentes que poderiam denunciar sua identidade. De momento eles estavam todos sobre a mesa na qual o fato aconteceu. Não havia limpado a tal objeto de madeira, muito menos aos resquícios que poderiam facilmente me causar certo tempo de repouso atrás de algumas imundas grades, onde encontram-se cubículos divididos entre o máximo de criminosos possíveis.

Devido a este fato que havia lembrado (o da não limpeza do ambiente), me vi obrigado a agilizar meus planos naquele local coberto pelo mato. Assim, ajoelhei-me e tirando a mala de minhas costas, peguei dentro da bagagem a imunda e asquerosa trouxa aparentemente vinda de uma carnificina e abrindo-a joguei seu volume entre a vegetação elevada.

Colocando imensa sinceridade nas palavras a seguir, posso dizer que a parte cuja mais me preocupara fora o crânio. Apesar de mutilado na parte superior ainda encontrava-se em um perfeito estado. Uma visão horrenda a olhos simples, já para mim, a mais esplendorosa visão dentre poucas que vi na vida. Incrivelmente repulsivo. Fascinante. As entranhas em um estado gelatinoso que eram visíveis na parte violada da cabeça decapitada, já nos ouvidos uma possível formação de vermes, os olhos, por sua vez, encontravam-se fechados e a boca entreaberta. Analisava cada mísero detalhe daquele elemento enquanto segurava-o pelos cabelos laterais ainda existentes, localizados próximo à orelha, já que a estrutura principal onde encontram-se a maioria dos poros capilares era inexistente.

A cena acima poderia entrar facilmente em um filme onde o personagem principal fosse um aborígene, que ao estar segurando uma cabeça humana, possivelmente iniciava seu ritual voodoo. A ideia faz com que meu pequeno senso de humor apareça... Talvez ainda fosse uma boa explicação utilizar-me de ritual como uma desculpa.

Finalmente retirei o resto dos materiais necessários de minha mala, lavei o que restava da carcaça com querosene e acendi meu isqueiro vermelho, muito bem conhecido por meus maços de cigarros. Uma leve aproximação já foi o necessário para que o fogo continuasse por sí só, e ali queimava o que restou de uma história de vida.

Precisava de mais daqueles tubinhos brancos viciosos, e também reorganizar meus pertences, uma vez que estes estavam fora da mala. O único objeto que fiz questão de colocar novamente na mala fora o lençol que, antes do digamos... Incêndio, fora removido de baixo da carne apodrecida. Tal pedaço de pano guardava mais histórias do que muitas vidas, era como uma relíquia. Tais manchas não seriam limpas, não pelo fato de que o lençol não retornaria a seu branco natural mas sim pelo fato de que lá estava o tipo de mancha que a água jamais removeria.

Fechei, a agora leve, mala ocupada apenas pelo fino pano e uma embalagem fazia na qual estava o líquido inflamável e tão apreciado pelo fogo. Logo depois coloquei meu querido isqueiro em seu lugar de origem e me lembrara que necessitava de mais daqueles viciantes rolinhos de papel preenchidos com nicotina. Voltei ao bar em busca de alguém que pudesse me vender a mercadoria sem cair sobre meus braços ou regurgitar em meus tênis. Aquele mesmo maço que havia pego da primeira vez ainda encontrava-se exatamente no mesmo lugar, pegando-o, verifiquei se havia sido violado e milagrosamente não fora tocado, permaneci então com o mesmo e, esplendidamente, quando levantei os olhos para entregar o dinheiro a alguém, deparei-me com ele.

Tal estava a enxugar taças por trás do mesmo imóvel pedaço de madeira e colocando-as organizadamente em uma de suas prateleiras, levantando-se na ponta do pé para conseguir alcança-la, fazendo-me perceber sua pequena estatura enquanto estava, obviamente com as costas viradas para mim. Vi-me obrigado a chamar sua atenção com uma pequena limpada de garganta e em uma pequena questão de segundos, iniciamos um diálogo:

“Sim?” Disse enquanto checava um de seus copos interiormente.

“Gostaria de pagar pelo maço de...” Apesar da falta de uma última palavra, que não saíra pelo fato de que em tal instante seus olhos focavam-se nos meus, era perfeitamente possível entender o que havia dito. Olhos estes perfeitamente arredondados, na forma de uma amêndoa e suavemente esticados em seus cantos, dando-lhe a impressão de um olhar cansado devido as perceptíveis, mas fracas olheiras que haviam abaixo daquele tão lindo espectro, colorido por anjos em um maravilhoso tom mesclado entre verde e avelã, era um olhar melado como mel e brilhante como tal. Nunca em toda vida havia visto tal tonalidade. Hipnotizante e novamente, fascinante. O rosto mais alargado na parte inferior destaca as linhas firmes e perfeitas que eram envoltas por fios de cabelos em um castanho extremamente escuro, que por sua vez, contrastava com sua pele alva e límpida que compunha em sua extensão o mais belo rosto que já havia visto, era jovem com alguns pelos faciais e de uma beleza extrema. A boca bem feita, rosada e extremamente convidativa abrira um sorriso encantador, revelando sua maravilhosa dentição, sorriso este que movia toda sua face, fazendo-me notar em seu nariz que fora dilatado em consequência, arredondado na ponta mas ainda sim era fino e incrivelmente bem esculpido. “Seis dólares” disse, fazendo com que sua grossa, rouca e maravilhosa voz me distraísse de minha meticulosa análise.

Comecei a procurar dinheiro em meus bolsos e, devido a esta ação fiz com que minha visão descesse, encontrando seus braços que apoiavam-se no balcão. Fortes e chamativos, formas que compunham tatuagens eram visíveis por toda suas extensão, umas coloridas e outras simplesmente feitas com o simples preto ou marrom mas ainda sim eram em grande quantia e todas pareciam possuir importantes significados, precipitei-me ao começar a imaginar onde mais ele poderia possuir mais das belas marcas ao longo do corpo e devo admitir que meus pensamentos fora um dos mais sujos. Achei apenas alguns trocados, estes que compunham o troco adquirido por meio do transporte que me levara até ali. Faltavam-me dois dólares e ao perceber isso noticiei que meu vício teria que aguardar um pouco mais para ser saciado, o garoto observava meus movimentos com uma das sobrancelhas arqueada. Viu-me no desespero ao contar as poucas moedas e também percebeu que não havia o suficiente. Dei meia volta e dirigi-me a saída sem meus cigarros, quando sua maravilhosa sonoridade vocal atingiu, em cheio, meus tímpanos. “Pode levar, digo, também possuo vícios e sei como é.” Mal sabia aquela maravilhosa e jovem alma que estava em risco a partir daquele momento e que sua vida poderia custar-lhe muito mais do que aqueles simples centavos restantes.

J.E.

Notas finais
Espero que tenham gostado e que tenha compensado minha ausência! Não revisei o capítulo então deve haver algum erro, avisem caso encontrem algo. XO