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Haviam finalmente chegado ao Haveli. A penumbra da noite não era capaz de esconder a beleza do local. Nanda estava visivelmente vislumbrada com o tamanho e a decoração rebuscada daquele lugar. Era possível ver um lindo jardim por uma das portas laterais. Os traços de uma arquitetura real histórica se uniam delicadamente a uma decoração contemporânea chique, mas incrivelmente aconchegante aos olhos. Logo na entrada era possível notar uma cadeira almofadada diante de uma pequena mesa com um jornal em cima.

Nanda entrou de vez e girou o corpo lentamente tentando olhar todos os ângulos da mansão. Uma grande escada e um lustre luxuoso se revelaram ao centro da sala. Haviam alguns andares conectados por colunas e arcos no estilo tradicional indiano, formando varandas e um pátio interno onde havia uma linda fonte em formato de estrela. Não tão distante havia uma cozinha com várias empregadas. Era um local muito grande e com vários criados circulando por ali.

— Baba, vou com o Bhuv para o quarto. Não esqueça de ir ler pra gente antes de dormir. O senhor sempre esquece. — disse Anika puxando o irmão e carregando os livros entre os braços.

— Certo. — disse Dharam desviando o olhar, sabendo que dificilmente cumpriria o combinado.

— O que eu faço com isso? — disse Nanda com o sherwani encharcado de café nos braços.

— Lave. — disse ele saindo sem olhar para trás.

— Eu não sei lavar roupas. Eu era garçonete, não lavadeira! — insistiu ela, transparecendo um certo desespero.

Dharam revirou os olhos e deu alguns passos para trás chamando uma de suas empregadas. Ele pediu então para que trouxesse uma bacia de água e sabão. A criada assustada se apressou e trouxe o que lhe foi pedido.

— Ensine ela a lavar esse tipo de roupa. Não deixe que ela estrague o tecido. — instruiu Dharam.

— Sim chefe. — disse a funcionária.

Nanda passou a mão na base do pescoço e engoliu em seco. Era óbvio que não havia necessidade dele fazer questão que ela lavasse aquilo tendo tantas funcionárias pela casa. Além disso, tudo não havia passado de um acidente, não fazia sentido ser punida por isso. Ela então a contra gosto, juntou todas as suas forças e esfregou o sherwani até a última mancha de café sair. A criada então levou o traje para secar e acabou não retornando a tempo. Devido a demora, Nanda acabou dormindo escorada em um saco de grãos próximo a cozinha.

— Devíamos acordar ela? — sussurrou uma das empregadas da casa ao notar a garota dormindo no chão.

— Nahin. Não se meta nisso. — respondeu outra.

Nanda acordou logo pela manhã, sentindo o corpo dolorido. Respirou fundo e saiu pelo Haveli tentando encontrar a empregada que havia levado o sherwani para secar. Ela a encontrou não tão longe dali e impôs que ela devolvesse o traje, pois precisava cumprir de vez a missão que lhe foi dada, devolvendo a roupa limpa para Dharam. A funcionária, apesar de ter ficado um pouco confusa, buscou e entregou a ela o sherwani seco. Nanda então se agarrou ao traje e foi andando pela mansão até encontrar sem querer a entrada para um tipo de escritório, mas quando se aproximou escutou algumas vozes. Sem pensar duas vezes, ela se abaixou um pouco diante da porta e olhou pelo buraco da fechadura, notando a presença de Dharam e uma senhora no interior do cômodo.

— Se não fosse aquele incidente infeliz, eu não teria trazido ninguém pra cá. Foi uma questão de princípios. Ela foi demitida por minha causa. Ela é um pouco rude, mas eu tenho certeza que isso deve ser só uma casca por causa dos maus tratos que passou naquele lugar. O velho ergueu a mão para ela na minha frente! — disse ele indignado.

— Isso não é problema seu filho! Tome cuidado com esse tipo de aventureira. Se fingem de indefesas que aspiram cuidado, para se infiltrar e destruir famílias. Você é o chefe dessa vila. A reputação da nossa família é mais importante que qualquer coisa. Não se envolva com essa criatura! — disse a velha de forma hostil.

— Primeiro, eu tenho o dever de defender qualquer pessoa que eu julgue precisar de ajuda. Segundo, que eu jamais teria um caso com esse tipo de garota. Eu tenho outros planos pra ela. Não seja paranoica. Apesar dela ser um pouco rude, ela sabe lidar com crianças. — esbravejou Dharam com os braços cruzados.

— Ela vai tentar seduzir você filho, esse tipinho não vai perder essa oportunidade. Eu conheço esse tipo de garota. Muitas delas desgraçaram a vida de muitos parentes seus. — insistiu a velha forçando um choro.

— Chega! Eu não aguento mais esse assunto. — gritou ele batendo na mesa.

Nanda se afastou da porta horrorizada e enojada com o que tinha acabado de ouvir. Um sentimento péssimo tomou conta do peito dela e mesmo desnorteada ela andou por alguns metros longe dali e ao se aproximar de um dos grandes pilares, escorou e deslizou as costas até chegar ao chão.

Ela permaneceu ali encolhida sem saber o que fazer por um bom tempo. Até que ela ouviu alguns passos e olhou de relance para trás, notando que Dharam finalmente estava saindo do escritório. Ele passou a ir na direção dela ao notar que ela estava por ali. presença por ali passou a ir em sua direção. Nanda então se levantou rápido, limpando o rosto e erguendo o nariz. Por um momento nem parecia que ela era apenas uma garota de jeans rasgado e uma camisa de uniforme com a marca da cafeteria.

— Está aqui o seu casaco caro. — disse ela entrando no caminho de Dharam e empurrando o casaco contra o peito dele.

— Casaco? É um sherwani. — retrucou Dharam segurando a roupa.

— Está limpo. Eu posso ir embora agora? — disse Nanda cruzando os braços e batendo a ponta do pé no chão.

— Embora para onde? Pras ruas? — questionou ele arqueando uma das sobrancelhas.

Nanda sentiu o rosto queimar de vergonha. Ela se lembrou imediatamente que havia sido demitida e que o velho Takahashi jamais deixaria ela morar de favor nos fundos da cafeteria de novo. Sem um tostão no bolso ela também ficou sem palavras. Sem resposta. A degradação havia chegado ao limite. Estar em outro país, sem teto e quase sendo acusada de ser uma golpista fez com que suas definições de humilhação fossem atualizadas.

— Onde você mora? Está me ouvindo? — insistiu Dharam passando a mão na frente do rosto da garota.

— Eu morava nos fundos da cafeteria. — disse ela com a voz trêmula olhando de relance.

— Eu imaginei. — disse ele dando um leve sorriso de deboche.

— Mas isso é problema meu. Eu dou um jeito, não precisa ter dó de mim. — disse ela dando um passo à frente.

Dharam franziu o cenho ao notar que Nanda era uma garota muito orgulhosa e que jamais pediria para ficar em seu Haveli. Com medo que ela sofresse alguma coisa pior nas ruas por sua culpa, ele decidiu dar o braço a torcer mais uma vez.

— Se eu não estivesse entrado naquela cafeteria nada disso teria acontecido. Então você pode ficar o quanto precisar. — disse ele.

— Não faz sentido. Porque deixaria uma estranha ficar na sua mansão? Eu sou tão inferior. O que viu em mim afinal? — insistiu ela, deixando transparecer uma ponta de ressentimento pelo que havia ouvido minutos atrás.

— Não seja teimosa. E antes que pense bobagem, eu estou insistindo pra que fique porque você pode ajudar a cuidar dos meus filhos. Em troca, pode se instalar por aqui e receber algum dinheiro. — disse ele.

— Me contento com um teto e comida. Até eu conseguir um emprego de verdade. — disse Nanda.

— Insisto, receberá um valor em troca de ajudar a cuidar dos meus filhos. Esse pode ser seu emprego agora. Ou não acha digno cuidar de crianças? — disse Dharam.

Eles se olharam por alguns segundos. Ela então desviou o olhar se lembrando de como os filhos dele pareciam bonzinhos. Nanda tentou buscar alguma maneira de recusar a proposta. Mas não conseguiu encontrar nenhuma objeção em cuidar deles.

— Eu não tenho nada contra suas crianças. Eu posso ajudar a cuidar dos seus filhos. — disse Nanda.

— Você vai ser a ponte entre eles e a criadagem. Estarão sob os seus cuidados a maior parte do tempo. Isso quer dizer que você terá um cargo de confiança. Não me decepcione. Mas antes que eu me esqueça, eu preciso dos seus documentos, por garantia. — disse Dharam estendendo a mão.

A garota enfiou então a mão no bolso da calça jeans e retirou um conjunto de papéis amarelados. Era basicamente tudo que ela tinha no bolso, não havia mais nada. Ela então entregou os documentos a Dharam um pouco receosa.

— Estão aqui. Mas, você não acha mais seguro contratar uma pessoa experiente com crianças? Uma baby-sitter profissional talvez. — disse Nanda.

— E acha que já que não tentei? Meus filhos espantaram uma por uma. Enfim, vou tirar algumas cópias e depois te devolvo. Será você e pronto. — disse ele enquanto colocava os documentos no bolso da camisa.

— Porque eu? O que garante que vão gostar de mim?— insistiu ela o encarando confusa.

— Eu vi vocês conversando ontem. É estranho falar isso tão cedo, mas eles gostaram de você. Você e eles parecem falar a mesma língua. — disse Dharam a olhando.

Nanda ficou calada e pensativa diante da resposta dele. Ela não sabia se tinha sido um elogio ou uma ofensa. Mas lhe restava o silêncio e ir até as crianças para começar o seu novo emprego. Ela então observou de longe Anika na porta de um dos quartos e virou as costas sem se despedir, indo na direção do quarto das crianças.

— Ei, garota! Onde pensa que vai? Você não pode cuidar dos meus filhos com esse uniforme sujo de cafeteria. — disse Dharam a julgando com os olhos de cima a baixo.

— É a única roupa que eu tenho. — disse ela surpresa olhando para o desgastado uniforme cinza manchado de café.

— Eu vou pedir para minha mãe resolver isso. Ela vai te procurar ainda hoje. Vá. — disse Dharam seguindo o trajeto contrário.

Nanda o observou ir e enquanto via ele se afastando ela pensava em como ele podia oscilar tanto. Ao mesmo tempo que era frio e mal humorado, ele conseguia diversas vezes demonstrar bondade e empatia. De certa forma ele estava comprando uma briga com a própria mãe para mantê-la ali. Seria uma jornada longa para provar seu caráter diante daquela situação.

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