💔Devolva Meu Coração💔

1 Devolva Meu Coração


Notas iniciais
Uma das coisas que mais surpreendentes na Yuki, além da memória de elefante, é sua sinceridade extrema e vontade de expressar seus sentimentos e emoções. Isso é mostrado diretamente em sua carta, quando escreve da mesma forma como se estivesse falando. Obs. O nome "Anne" é um apelido. Yuki nunca se importou com o gênero que este normalmente representa.

"E mesmo sorrindo por aí, cada um sabe a falta que o outro faz."

— Caio F. Abreu

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“Hey, Anne!”

Sabe, de todas as formas que pensei em começar essa carta, a primeira foi essa. Normalmente as pessoas não usam esse tipo de saudação. Eu sei, porque em todas as poucas cartas que recebi na minha vida, nenhuma começava assim. Na maioria das vezes, o palavreado é mais formal e, como cartas são utilizadas para promover a comunicação entre aqueles que estão muitas vezes longe um do outro, a intimidade se torna menor, e a formalidade cresce ainda mais.

“Querido ‘fulano’...” Eu deveria escrever desse jeito, não acha? E de preferência usando o seu verdadeiro nome, já que você provavelmente pensa que te chamar como sempre chamei é algo inadequado, levando em consideração todos esses anos em que não vemos nem um fio de cabelo do outro. Mas, pessoalmente, eu prefiro continuar te chamando de Anne, e prefiro ainda mais fingir que ainda possuímos aquela intimidade de quando éramos crianças, quando brincávamos de esconde-esconde no pomar do tio Heitor e você saia por aí gritando “Hey, Yuki!”, até me encontrar e sair correndo atrás de mim, me alcançar e nos jogar no chão enquanto me abraçava com força para eu não fugir.

Você provavelmente não se lembra disso, ou não se importa em lembrar. Será que ainda sabe quando foi a última vez que nos falamos? Foi por telefone, alguns meses depois de você ter ido embora. Aquele decididamente foi mais um dia que anotei na minha lista de “Os Dias Mais Tristes da Minha Vida”, já que você estava ainda mais diferente do que antes, e eu sei que alguém da sua nova família deve ter colocado muita minhoca na sua cabeça, porque você foi muito frio e, resumindo tudo, disse que nunca mais iria falar comigo.

Você lembra, Anne? De que na véspera do dia em que foi embora você me prometeu que nunca deixaríamos de manter contato e de que seríamos sempre amigos? Lembra de como eu fiquei inchada de tanto chorar e de como eu ralei os joelhos quando tentei fugir da realidade de que não teria mais você perto de mim? E do beijo que você me deu, você se lembra?

Eu sei que provavelmente essas memórias já foram apagadas da sua mente. Desde aquele incidente na sua escola, você não foi mais o mesmo, e começou a se esquecer das coisas. Eu nunca entendi o porquê disso. Até hoje, mesmo que eu insista, Donninha nunca me contou o que realmente aconteceu naquele dia, mas eu posso imaginar, mesmo que não tenha certeza de que o que eu pensar está correto ou não. Você sofreu muito pelo que aconteceu naquele dia, e eu entendo que queira apagar das suas memórias tudo o que aconteceu. Mas... Por que também apagou as coisas boas? Nas nossas conversas, eu te contava sobre coisas que já havíamos feito, e você não se lembrava de várias delas. Tantos momentos maravilhosos que passamos juntos... Por que apagá-los também? Por acaso eu... Tive alguma coisa a ver com o que aconteceu naquele dia? Nunca consegui realmente saber, e essa é uma dúvida que me persegue desde o dia em que nos falamos pela última vez.

E eu sei que você nem deve mais se lembrar de que eu existo e não se interessaria em ler essa carta, por isso não vou enviá-la. Meu baú de lembranças é muito mais acolhedor para ela do que sua lixeira, lugar para onde devem ter ido todas as outras cartas sem resposta que te mandei.

Talvez seja um pouco clichê, mas desabafar escrevendo cartas para você se tornou algo essencial para aguentar o rumo que minha vida tem tomado. E mesmo que eu tenha desenvolvido um pouco de ódio de você, não consigo me esquecer daquele menino carinhoso e gentil, que arrancava sorrisos do meu rosto até quando eu estava chorando.

Por aquele menino que eu ainda vivo, Anne. Mesmo que eu já esteja me perdendo, é com ele que ainda sonho todas as noites quando vou dormir, e é por ele que eu rezo quando olho para as estrelas brilhantes na escuridão. Isso que mantém todas as lembranças que tenho dele bem guardadas dentro de mim.

Eu ainda me lembro, Anne. Ainda me lembro de tudo como se fosse ontem. Eu me lembro das cores do natal, dos olhos da minha mãe, das flores na frente da porta, da casa na árvore, da caixinha de tintas, do caderno, da caixona em cima da estante, dos coelhos, das brincadeiras de casinha e faz-de-conta, dos cochilos no sofá, das dançinhas, dos aniversários, das idas ao cabeleireiro, dos sorvetes, dos abraços na cintura e de como os seus cabelos caiam no seu rosto quando você me olhava de ponta cabeça em cima do seu beliche. De tudo, Anne, eu me lembro de tudinho o que passamos juntos, de cada dia e cada momento, e é por isso que eu nunca vou conseguir te odiar de verdade ou deixar de pensar em você, porque aconteceram tantas coisas, e tantas coisas boas com a gente... E eu... Eu... – droga, já comecei a chorar de novo. Olha o que você faz comigo, desgraçado! – Eu ainda te amo tanto... Tanto que nem sei mais o que fazer comigo mesma!

Uma das coisas que eu mais queria saber é o que você faria se soubesse como eu estou agora. O que você pensaria? Será que me xingaria muito por todos os cortes que fiz no meu corpo? Será que diria que estou doente, que estou louca e que deveria procurar um tratamento mais forte? Para você ter uma ideia, é esse tipo de coisa que as pessoas andam falando para mim hoje em dia. Estou muito diferente daquela garotinha que você conheceu, que as pessoas diziam ter talento para bailarina e que um dia seria famosa por sua beleza. Muito pelo contrário do que diziam, foi isso o que me tornei: uma doente. E eu sinceramente tenho inveja de você, porque conseguiu que uma boa família te adotasse e hoje trabalha como modelo masculino para uma famosa revista de moda. Enquanto que eu já estou velha demais para a adoção e ando refazendo mais um ano naquela maldita escola.

Mas, voltando ao que estava dizendo antes, mesmo que você me odeie, Anne, saiba que eu vou continuar a te amar até o fim. Aquele menino que você era, o menino de cabelos loiros compridos, de rosto afeminado, sorriso maroto e olhos brilhantes como as estrelas, ele, Anne, aquele menino roubou o meu coração. Roubou o meu coração com a maior facilidade do mundo e ainda por cima partiu com ele para nunca mais voltar!

Por que você fez isso comigo, Anne? Por que me deu tanto amor, tantos sonhos, tanta esperança, e depois me abandonou? Por que, por quê você agiu como se eu não fosse mais nada para você? Como se você não fosse mais nada para mim?!

Eu ainda te amo tanto, e ainda espero tanto que você volte só para me ver, para me abraçar ou para pelo menos me deixar ouvir sua voz... Eu sofro tanto, Anne, sofro tanto e às vezes nem sei o porquê! As pessoas dizem que sou uma exagerada, que eu devia te esquecer, porque você está no passado e nunca mais vai voltar. E o pior é que na maioria das vezes eu concordo com isso tudo!

Eu ouço vozes na minha cabeça, Anne. Elas dizem que eu tenho que fazer coisas horríveis que eu não quero fazer! Eu tento não dar ouvidos a elas. Eu me corto, eu me amarro, eu jogo a chave pela janela e me prendo no sótão por horas até que elas finalmente calem a boca. Donninha já tentou me ajudar, ela sempre tentou, e sempre deu certo, mas recentemente eu não estou mais conseguindo. Anne, elas estão ganhando de mim! Sabe quantas vezes já acordei e descobri que havia matado animais com minhas próprias mãos e nem fazia ideia de que tinha feito isso?! Eu não estou mais aguentando, Anne, eu preciso de ajuda, eu...

Eu preciso do meu coração de volta.

Eu preciso... Anne, eu… Eu preciso de você de volta. Eu quero você de volta. Já faz tanto tempo, tanto tempo que não tenho mais ninguém para me amar, tanto tempo que eu estou me sentindo sozinha nessa casa cheia de crianças barulhentas…

Eu... Só preciso que você me ame de novo. Que você olhe para mim só mais uma vez com aqueles olhos de estrelas, porque eu sei que, mesmo que você tenha mudado, mesmo que você tenha endurecido, lá no fundo você continua sendo o mesmo menino por quem um dia me apaixonei.

Então, por favor, Anne. Por tudo o que uma vez vivemos juntos e por aquilo que aquele menino lá no fundinho ainda possa sentir por mim, por favor: devolva o meu coração.

Me devolva, porque estou sentindo que não vou mais resistir um dia sem ele.

Com toda a sinceridade do mundo, Yuki.

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Notas finais
All the love ~ ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!