Deveres Do Coração

9 Decisão Inevitável


"Não podendo suportar o amor, a Igreja quis ao menos
desinfetá-lo e, então, fez o casamento."
Charles Baudelaire.

Capítulo 9 – Decisão Inevitável

Sasuke aparentava total desinteresse para a obra bonita diante de si, mas em seu interior, ele estava fascinado com os enormes vitrais coloridos da Catedral de Notre-Dame¹. O ambiente extremamente espirituoso e o silêncio reconfortante do local o relaxavam da tensão que o acompanhava nos últimos meses. Esse breve momento de calmaria emocional clareou a sua mente e organizou os seus pensamentos de maneira que ele só acreditou ser capaz de fazer com Naruto.

Ele não era católico e, muito menos, devoto a qualquer crença religiosa, mas ele admitia que o ambiente tivesse um efeito balsâmico aos seus sentidos.

O Uchiha se sentou sozinho em um dos bancos de madeira, encarando profundamente a rosácea, que parecia cintilar etérea, devido aos raios solares que brilhavam no exterior da construção. Sakura havia ido até uma pequena loja de suvenir nas proximidades, a fim de comprar o máximo de lembranças que podia carregar.

Pensando na esposa, ele percebeu, há algum tempo, que ela parecia mais distante. A mulher de cabelos cor-de-rosa deixou de insistir em um diálogo nas poucas vezes em que estavam juntos, já não lhe perseguia como uma sombra e só dizia o estritamente necessário. A moça apenas se levantava de manhã, tomava o seu café e, se não tivesse nenhum compromisso agendado, voltava a dormir. À noite, a mesma cena se repetia; quando ele chegava do escritório, o jantar estava guardado, apenas esperando por ele.

Mentalmente, ele agradecia esse espaço, mas no fundo, o Uchiha estava começando a estranhar o comportamento. O moreno via claramente que algo estava errado quando os lábios rosados sorriam levemente, mas o ato não chegava a atingir os olhos. Confabulando sobre os motivos que a levaram a agir desta forma, o corvo só pôde deduzir que a sua própria indiferença deve ter se refletido no jeito da mulher... Ou ela simplesmente estava chateada com o seu pequeno vexame na festa de arrecadação da família Hyuuga.

Ele não fazia ideia, mas também não se importara em vasculhar os porquês.

Lembrar-se daquele fatídico dia, fê-lo se lembrar de outra pessoa e em suas palavras. Embora, a ciência dos sentimentos do Naruto o acalentasse, ainda existia aquela dor surda em seu peito, afirmando que ainda se sentia infeliz e solitário.

Sasuke já não sabia mais o que fazer. Nos últimos aproximados três meses, ele tentou esquecer o psicanalista, dedicando-se mais à esposa e se concentrando ainda mais em seu trabalho, mas ele simplesmente não conseguia. Quando o moreno se dava conta, ele estava vasculhando a memória do celular atrás das fotos que já tiraram juntos e revivendo todos os momentos bons que passaram.

Saudades.

E agora, nesta viagem, tudo parecia ainda pior. O sentimento de perda aparentava ser maior com a sensação das milhas de distância que os separavam, porque fazia toda a situação complicada – emocionalmente e, ainda mais, fisicamente. O fato de a maioria dos europeus serem loiros lhe deixava louco, porque toda vez que via um tufo dourado pelas ruas, ele se mudava para olhar, na esperança de ser o Uzumaki.

O Uchiha sabia que era um pensamento idiota, mas parecia que sua inconsciência falava mais alto quando se tratava de Naruto.

“Eu tenho que superar isso!”, pensou consigo mesmo, em total desespero.

Sasuke apoiou os cotovelos nos joelhos e afundou o rosto nas mãos, remoendo ainda mais o desgosto. Ele não sabia o que faria, caso não conseguisse esquecer o outro homem. O pensamento de sofrer a vida toda, da maneira que estava agora, deixava-o à beira de um ataque de pânico. Nem o pensamento de Hinata Hyuuga, sua nova psicanalista, poderia acalmá-lo, porque nenhuma das seções anteriores estava surtindo efeito. Ela não era uma má profissional, o problema era que ele mesmo não conseguia se ajudar.

— Sasuke-kun?

A voz suave de Sakura interrompeu seus devaneios agitados, fazendo-o erguer a cabeça para encontrar os olhos verdes.

— Está tudo bem? – ela continuou com incerteza na voz.

— Sim... – murmurou, olhando com curiosidade para as sacolas grandes que ela carregava. – Comprou muitas coisas... – comentou casualmente.

— Tinha tanta quinquilharia bonitinha, que eu não resisti... – ela riu e sentou ao lado dele no banco comprido de madeira. – Veja! – entregou-lhe uma das sacolas.

— O que é isso? – ele pegou algo que se assemelhava com um pote feito de papelão, havia palavras em francês escrito no exterior com o desenho de alguns gatos e da Torre Eiffel². O topo tinha uma tela de metal e na lateral uma pequena manivela. Era bonito, mas estranho.

— Comprei para o Naruto. – deu de ombros. – É uma caixinha de música.

— Naruto? – franziu a testa em confusão.

O Uchiha enrugou os lábios, observando novamente o objeto. Nos últimos cinco dias a esposa sempre comprava algo para o loiro em sua ronda consumista – o que já era muito esquisito. No primeiro dia, ela havia comprado um cachecol grosso de lã azul marinho da Louis Vuitton³ e uma pequena réplica banhada a ouro da Torre Eiffel; já no segundo dia, a mulher apareceu com uma pasta de couro preta, também da Louis Vuitton, e um pequeno quadro com uma imagem vintage que retratava Paris em 1960; no passeio seguinte, ela comprou óculos escuros da Gaultier e uma caneca amarela com os dizeres “Eu amo Paris”, e, depois, uma camisa prateada da Lanvin e um relógio de mesa laranja com várias imagens dos principais pontos turísticos do país.

E agora isso...

Sasuke ainda tentou dissuadi-la de comprar tantos presentes para o loiro, mas parecia apenas ter entrado por um ouvido e saído pelo outro.

— Você sabe que ele não se importa com esse tipo de coisa, Sakura, não sei o porquê de você estar comprando tantas “lembrancinhas”. – fez aspas com a mão para a última palavra, pontuando os próprios dizeres da esposa.

— Nunca é demais mostrar que você se lembrou dele em sua viagem, Sasuke. – murmurou, com um olhar perdido, fazendo o outro franzir a testa em desconfiança. – E pelo pouco que me contou sobre ele, tenho certeza que ele vai gostar de tudo o que eu comprei. Você me disse que ele era uma pessoa simples e que gosta de cores vibrantes. – enumerou nos dedos. – Tudo o que escolhi foram baseadas nessas características.

— Você comprou Louis Vuitton, Lanvin e Gaultier, onde está a simplicidade nisso? – rolou os olhos.

Ele não sabia o que pensar sobre essa atitude da mulher. Sua suspeita aguçada não estava lhe dando as hipóteses mais bonitas, logo, ele definiu que detestou essa ideia de comprar presentes para Naruto.

— As peças são simples! – retorquiu com um tom de obviedade. – Pare de reclamar, até parece que você não gosta do homem! – bufou irritada.

O Uchiha franziu o cenho e ergueu uma sobrancelha, observando o rosto feminino analiticamente como se houvesse, repentinamente, crescido um novo olho. Sakura nunca havia falado com ele nesse tom de quem conversa com um retardado mental. Ele teria aberto a boca em descrença, se não tivesse autocontrole o bastante para se conter.

— O quê? – ele perguntou, sentindo-se estúpido por um momento. O moreno ainda observava a mulher como se a visse pela primeira vez em toda a sua vida.

— Às vezes, nós temos que fazer pequenos gestos que demonstrem o nosso apreço pelas pessoas... – ela se remexeu, desconfortável com rumo da conversa, mas, mesmo assim, não a interrompendo. – Eu tenho certeza que ele vai gostar de tudo o que você entregar para ele, mesmo que tenha sido eu quem escolheu. – ela voltou a guardar a caixinha de música na sacola. – Vamos. – ela se levantou, dirigindo-se para a saída da catedral.

Sasuke observou, atordoado, as costas da esposa, enquanto ela se afastava, e assistiu, como se nada visse, o quadril arredondado requebrando de um lado para o outro, ao mesmo tempo em que os fios cor-de-rosa esvoaçavam levemente.

Sakura estava, definitivamente, estranha.

Fora a distância que ela estava impondo a ele, a mulher também começou a dizer coisas suspeitas, como essas de agora. Essa situação lhe dava uma grande sensação de déjà vu, pois o fazia lembrar vagamente das atitudes de certo loiro de olhos azuis. Diferentemente do Uzumaki, desta vez, ele não estava sentindo que uma grande parte de si estava sendo tirada, mas ainda assim era incômodo. A moça esteve com ele em uma grande parte da sua vida e imaginar-se sem ela, era inédito.

(***)

Ele estava sozinho no quarto do hotel.

No dia anterior, o casal havia saído de Paris e partido para o Litoral Sul, mais especificamente em Nice Côte d’Azur. Já era o oitavo dia de viagem e ainda faltavam sete para poder voltar para casa, e, apesar da falta de vontade, ele tinha de admitir que estava tendo um bom tempo. As paisagens bonitas o distraiam. Na verdade, esse período longe estava lhe dando a oportunidade perfeita para analisar todo o seu relacionamento com Naruto e Sakura.

Ele caminhou até a varanda, sentando-se em uma cadeira de palha para observar o mar límpido, apreciar o barulho das ondas quebrando na areia branca e curtir a brisa quente. O clima o lembrava do amante – o céu claro não se comparava àqueles olhos profundos, mas era o suficiente para dar um alento ao seu coração angustiado.

Sasuke brincou com a barra da camiseta branca semitransparente que um dia pertencera ao Uzumaki. Não havia mais o cheiro familiar e cítrico de laranjas, porque ele já havia usado diversas vezes e Sakura já havia lavado a peça incontável vezes mais, mas, ainda assim, era um consolo.

Ele sentia falta...

O Uchiha olhou para cima, encarando a imensidão do céu. A clareza de sua mente o fez tomar uma decisão importante, que ele percebeu que não teria como escapar. Quando essa viagem acabasse, ele pediria o divórcio e correria atrás daquele que lhe era mais importante na vida. Ele não conseguia se imaginar vivendo longe do dobe por mais tempo, porque acreditava que acabaria enlouquecendo se o fizesse.

Ele jogaria para o alto o cuidado que teve com sua reputação. Ele não queria saber o que os repórteres enxeridos diriam sobre a sua sexualidade ou se isso repercutiria negativamente para a Sharingan Corporation, apenas passaria a presidência para Shisui, porque ele necessitava ser feliz. O corvo já não estava se importando mais sobre o que sua família pensaria, porque, naquele momento, a sua felicidade era mais importante.

Porém, ainda havia um problema chamado Sabaku no Gaara, que ele resolveria assim que chegasse a Tóquio.

Ao longo dos anos trabalhando, ele conseguiu juntar uma boa quantia em investimentos, por este motivo, já não corria o risco de ficar desamparado caso a família o deserdasse. Ele era um administrador reconhecido e tinha certeza que qualquer empresa daria um rim para tê-lo como funcionário. Surpreendentemente, ele não estava tão assustando com a perspectiva de um futuro sem a corporação que ajudou a construir, quanto pensou que estaria.

Suas divagações foram interrompidas pelo som do seu celular vibrando em cima de uma pequena mesa de vidro ao lado de onde estava sentado; no visor brilhante do aparelho, ele conseguia ler “Itachi U.” abaixo de uma imagem do homem de cabelos compridos dormindo com a boca aberta. Embora, Sasuke tivesse tentado bater a foto para ter uma lembrança cômica do mais velho, o outro ainda parecia bonito com todos os fios negros bagunçados adornando o rosto, deixando-o parecido aqueles modelos selvagens com cara de “vem me pegar” que se veem nas propagandas da Emporio Armani.

O Uchiha pegou o celular e apertou o botão para abrir a mensagem de texto.

[ Abra o seu e-mail, acho que você vai se interessar pelo que mandei. ]

Seco e direto. As sobrancelhas negras se franziram em desconfiança. Fechando a tela de SMS, ele abriu o aplicativo para acessar o seu e-mail pessoal e com alguns toques na tela, ele encontrou o que procurava. Após esperar um instante para carregar, ele viu o que seria uma notícia colada no corpo do texto e uma imagem pequena, que ele reconhecer ser de Gaara com Naruto. Involuntariamente, Sasuke rangeu os dentes em fúria, antes de clicar na foto para ampliá-la.

A fotografia mostrava o rosto do seu amante em uma expressão chateada e os profundos olhos azuis cerúleos em um tom mais escuro; já o proprietário da Suna Enterprises Communication possuía a feição contorcida em aborrecimento. Os dois pareciam estar envolvidos em uma briga séria, porque o moreno podia ver que a mão pálida segurava o braço do outro com uma força de causar contusões. Os olhos negros se estreitaram, enquanto toda a sua figura estremecia com a força da sua raiva. “Quem esse cara pensa que é?”, pensou enfurecido, esquecendo-se completamente que há meses atrás, ele agiu da mesma forma.

Sua ira era tanta, que ele mal prestou atenção na matéria, passou os olhos pelas palavras e entendeu que os veículos de comunicação especulavam que o relacionamento recente entre o loiro e o ruivo não estava nada bem. O Uchiha ficou preocupado com o olhar de tristeza incontida na feição do psicanalista. O Uzumaki era uma pessoa que poderia ser comparada a um raio de sol, e a aura sombria que cobria este homem da fotografia não combinava nada com a figura que conhecia. Franzindo os lábios finos, o moreno não perdeu tempo em fechar o aplicativo e discar o número familiar.

O toque soou cinco vezes, quando Sasuke estava começando a ficar impaciente com a demora, a pessoa do outro lado atendeu:

Moshi-moshi? – a familiar voz rouca murmurou em um tom sonolento.

— Dormindo a esta hora, dobe? – respondeu com um sorriso mínimo.

— Sasuke? – perguntou totalmente desperto e com um leve toque de suspeita em seu tom.

— Como você está? – lambeu os lábios secos.

O moreno estava com o coração acelerado. A saudade era tanta que parecia partir seu coração ao meio. A viagem necessária o fez pensar com clareza no que estava acontecendo, mas também nublou a sua percepção para os sentimentos que comprimiam o seu peito. Agora, ele só conseguia sentir as emoções que o cercou por dias, de forma quase insuportável. O corvo ainda estava preocupado com a imagem que vira em seu e-mail, mas ele sabia que precisava ir com calma, caso o contrário, Naruto apenas esbravejaria e não diria absolutamente nada.

— Eu estou bem e você?

— Eu sinto sua falta... – suspirou resignado.

— Eu também sinto saudade sua... – murmurou o loiro com sinceridade, surpreendendo o Uchiha, que arregalou minimante os olhos.

— Não achei que fosse admitir isso com tanta facilidade... – brincou.

— Eu não sou o orgulhoso da relação, teme, este cargo eu deixo para você. – resmungou, começando a ficar irritado. – Eu só cansei de tentar mentir e enganar a mim mesmo.

— O que quer dizer? – franziu as sobrancelhas em confusão.

— Eu não quero dizer nada... – pausa. – Esqueça o que eu disse...

— Não dá para esquecer! – retrucou começando a ficar nervoso ao sentir que a declaração do loiro era, de alguma forma, muito importante. – Eu quero saber...

— Por que está me ligando? – tentou desconversar.

O Uchiha respirou fundo e revirou os olhos, sabendo que se apertasse os botões errados na conversa, Naruto simplesmente desligaria o telefone e ele ficaria irritado por uma semana inteira, só pela ação do outro.

— Só queria saber se está tudo bem... – o moreno mordeu o lábio inferior, sentindo-se levemente inseguro. – Eu vi uma notícia sobre você e o Gaara... – jogou com falsa indiferença.

— Ah... – pausa. – Sobre isso, você não tem o que se preocupar... – respondeu vagamente.

— Você sabe que as coisas não funcionam assim, eu sempre vou me preocupar com você... – bufou. Ele não sabia lidar com esse homem misterioso. Naruto era escandaloso e sentimentalmente explosivo, tão expressivo, que até o tom de voz lhe dizia o que o outro sentia.

— Eu lidei com você por quase sete anos, bastardo. O que te faz pensar que eu não saberia lidar com o Gaara? – respondeu sem qualquer delicadeza.

— Não me compare com ele! – rosnou com raiva, tendo a sensação constritiva em seu peito outra vez.

Sasuke sabia que nunca havia sido alguém muito manso com o Uzumaki. Eles tinham brigas horríveis e algumas terminavam em agressão de ambas as partes.

— Não estou te comparando com ninguém, idiota...

— Por que você me ama? – murmurou.

— O quê? – o loiro retorquiu surpreso pela pergunta aleatória.

O empresário quase podia ver as sobrancelhas claras franzidas em estranheza e a boca ligeiramente aberta com a falta de reação.

— Por que você me ama? – repetiu como serenidade.

A linha ficou muda por incontáveis minutos, levando-o a acreditar que o outro tinha desligado na sua cara. Ele olhou para o celular, vendo o visor ainda contar o tempo da chamada, e tornou a colocar o aparelho sobre a orelha.

— Naruto?

— Eu não sei. – pausa. – Eu só te amo como, às vezes, te odeio. – riu. – Você é muito mais do que expõe para as pessoas, Sasuke. Eu me apaixonei por quem você se mostra, assim como também por quem você se esconde. Eu amo as suas razões, as partes que lhe fazem agir como age. Eu desejo tudo sobre você, suas qualidades e seus defeitos... – o moreno ouviu o som do outro respirando fundo, antes de continuar. – Eu simplesmente te amo, porque toda vez que você sorri, eu me sinto a pessoa mais sortuda do mundo, pois eu sei que é só para mim... – fungou, a voz se tornando mais embargada à medida que continuava. – Você é o único... – e o moreno teve a certeza que o amante chorava, ele sentiu a própria respiração sair trêmula, enquanto ouvia um soluço. – Quem vai ficar no seu lugar agora? Ninguém pode suprir a falta que você me faz; ninguém pode preencher o buraco que você deixou... Ninguém...

O Uchiha sentiu os próprios olhos pinicarem, enquanto a garganta coçava. Ouvir palavras tão cheias de emoções estava o transportando para um mar de sentimentalismo que nos últimos dias só experimentara com o homem do outro lado da linha. Ele pigarreou, tentando tornar a voz o mais normal quanto possível. Agora ele entendeu o que o Uzumaki quis dizer quando citou que parou de enganar a si mesmo: nenhum dos dois conseguiria alguém que sanasse a falta que o outro deixara.

Porque Uchiha Sasuke pertencia ao Uzumaki Naruto.

E Uzumaki Naruto pertencia ao Uchiha Sasuke.

— Eu fico me perguntando quem vai ficar no telefone comigo até o amanhecer? – o loiro continuou, demonstrando todo o sofrimento que sentia. – Quem vai defender o Kurama quando eu brigar com ele por ter aprontado? Quem vai me chamar de dobe? Eu me sinto tão perdido sem você...

O moreno não suportava mais ouvir, ele limpou uma lágrima silenciosa que rolou pelo seu rosto com raiva por estar tão sensível. Ele não era assim.

— Chega, dobe! – ralhou com a voz mansa. – Quando eu voltar, nós vamos conversar sobre isso. – prometeu.

— O que quer dizer com isso?

— Depois... – retrucou com um sorriso verdadeiro, como se Naruto pudesse ver a sua felicidade.

— Eu odeio quando você faz isso. – resmungou em um timbre mal-humorado.

— Faço o quê? – ele quase riu com a imagem mental que seu cérebro imediatamente construiu de um Naruto emburrado e com um beicinho.

— Esse mistério todo...

— Espera mais um pouco e você vai saber... — respirou fundo, experimentando a sensação de aconchego que havia há tanto perdido.

— É este mais um pouco que me incomoda... — resmungou. — Não dá para você me dar uma dica?

— Não... — retorquiu com a voz monótona.

— Nem uma palavrinha? — tentou novamente.

— Não... — mordeu a própria língua para se impedir de rir.

— Sasuke! — gritou indignado. — Você é um bastardo filho de uma... — grunhiu. — Eu só não completo a frase, porque gosto muito da Mikoto-san.

— Se você está tentando me convencer, saiba que não está funcionando. — deixou escapar um riso leve.

— Eu não estou tentando nada! — exclamou, bufando.

— Hn. — resmungou como se dissesse "sei..." ironicamente.

O Uchiha pode ouvir o barulho da tranca do quarto. Dando um suspiro resignado, ele continuou:

— Tenho que desligar, nos falamos depois... — murmurou, fazendo o Uzumaki dar um suspiro cansado, como se adivinhasse o porquê da finalização repentina da conversa.

— Ok. — respondeu em um tom sério e emburrado. — Se cuida. — desligou, sem esperar qualquer sinal do corvo.

O moreno franziu o cenho, chateado com a despedida seca. Naruto estava ficando mal acostumado, pois estava desligando o telefone na sua cara mais vezes nesses últimos três meses do que ele podia contar nos dedos das duas mãos. "Mal educado e bruto", reclamou em pensamentos, enquanto assistia a familiar cabeleira cor-de-rosa caminhar pelo cômodo, jogando o chapéu de palha em cima da cama e a camisa chemise, que usou como saída de praia, em uma poltrona no canto. A pele da cor pêssego já estava adquirindo uma leve tonalidade bronzeada, destacando ainda mais os cabelos coloridos e os olhos verdes-esmeralda.

— Mais tarde vamos jantar no Le Petit Nice⁷. — anunciou sem pagar qualquer olhar para o marido, antes de se trancar no banheiro.

Sasuke ergueu uma sobrancelha, não entendendo absolutamente nada.

(***)

Quando o casal entrou no espaçoso restaurante, Sakura ofegou ao lado do esposo, admirando a paisagem bonita da varanda. Os dois caminharam lado a lado – ainda com certo distanciamento – para a mesa reservada encostada ao parapeito de vidro e aço inoxidável. Do local, eles podiam visualizar o mar e ouvir o suave ruído das ondas quebrando na costa, além de ter um vislumbre privilegiado da cidade, com suas construções simples e neutras, uma mistura irreverente de moderno com greco-romano antigo. Os edifícios eram altos e possuíam muitas colunas para sustentar telhados com telhas de concreto vermelhas. Era uma visão romântica e apaixonante. Uma pena que ambos estavam em companhias erradas.

Sentaram-se, um de frente para o outro, cada um perdido em seus pensamentos.

O garçom chegou e depois de muito analisar o cardápio, eles pediram seus respectivos pratos. Sasuke ordenou um vinho da melhor safra para acompanhar a comida, que a esposa, surpreendentemente, negou e pediu um suco natural de laranja.

— Obrigada, Sasuke. — o moreno ouviu a voz suave da esposa murmurando de forma serena, fazendo-o franzir a testa em confusão.

— Pelo o quê? — indagou, sem entender o motivo do agradecimento repentino.

— Pela viagem, por tudo... — depositou a mão esquerda em cima da palma calejada do homem, que estava estendida sobre a mesa. — Você tem feito muito por mim há mais de quinze anos e eu valorizo isso... — os lábios carnudos da mulher tremeram, denunciando a instabilidade de suas emoções.

— Por que isso agora? — ele deu um aperto instintivo, de forma suave, para demonstrar apoio. O gesto era quase um costume. Ele estava tão habituado a agir de maneira robótica, que mal reparava no que fazia.

— Eu tenho algo para te contar... — murmurou, lambendo a carne do beiço para, depois, mordê-lo com insegurança.

Sasuke estudou o rosto delicado da mulher, tentando ler os sentimentos que eram expressos naqueles orbes claros. Havia um misto de tantas palavras não ditas, que o deixou ainda mais confuso. Às vezes, o Uchiha comparava a esposa com Naruto, ambos eram gritantemente abertos como um livro, a única diferença é que Sakura conseguia se conter muito mais que o psicanalista. O Uzumaki nem ao menos tentava se segurar, ele gritava suas emoções com as palavras, linguagem corporal, olhares e tons de voz. A figura a sua frente não era assim, na presença dele, ela sempre falava manso, mantinha as atitudes e as palavras na baía, sem querer demonstrar muito, mas sempre deixando algo escapar por entre seus dedos apertados no autocontrole.

— E, então? — pressionou, observando a maneira como ela postergava.

Remexendo-se desconfortável na cadeira, a mulher desviou o olhar e empurrou uma mexa cor-de-rosa para trás da orelha, mostrando um pequeno brinco de diamante preso em uma pequena haste de ouro branco.

— Eu estou grávida. — murmurou.

Apesar das palavras suaves, a frase o atingiu como se um piano tivesse caído em sua cabeça, deixando-o tonto e desnorteado.

Notas finais
Catedral de Notre-Dame¹ - localizada na França, a catedral é uma das mais antigas construções em estilo gótico de Paris. Torre Eiffel² - uma torre treliça de ferro do século XIX, localizada no Champ de Mars, em Paris, que se tornou um ícone mundial por ser uma das estruturas mais reconhecidas no mundo. Louis Vuitton³ - empresa especializada na produção de bolsas e malas de viagens, feitas em couro e lona. O fundador da marca reinventou o formato das malas e criou um padrão de desenho diferente comparado ao que havia no século XIX. Gaultier⁴ - Jean-Paul Gaultier ficou famoso por promover o uso de saias, especialmente kilts, para os homens. Causou grande impacto nos desfiles ao usar modelos pouco convencionais, como homens idosos e mulheres gordas, modelos tatuadas e com piercings, entre outras excentricidades. Lanvin⁵ - marca francesa, que ficou famosa, devido aos seus vestidos de alta costura para crianças, e que mais tarde passou a vestir homens e mulheres adultos. Emporio Armani⁶ - uma famosa empresa de moda italiana, fundada em 1975, pelo renomado estilista Giorgio Armani. A marca fabrica diversos tipos de produtos, incluindo perfumes, cosméticos, relógios, joias e, principalmente, ternos. Le Petit Nice⁷ - restaurante localizado em Marselha, famoso pela degustação de frutos do mar. A área externa possui uma das vistas mais bonitas da região.