Deveres Do Coração

5 Compreensão Superficial


"Só existe uma lei no amor: tornar feliz a quem se ama."
Stendhal.

Capítulo 5 – Compreensão Superficial

No dia seguinte, Sasuke recebeu uma ligação de Amaru, secretária de Naruto, informando-lhe que todas as suas consultas foram passadas para outra psicanalista, chamada Hyuuga Hinata. Ele conhecia a herdeira de um dos administradores mais respeitados de Tóquio, Hyuuga Hiashi. A linda mulher de longos cabelos pretos azulados nunca levou o jeito para o mundo dos negócios, e contrariando toda a sua família, decidiu se formar em psicologia e se especializar em psicanálise.

Ela era ótima, mas não era quem o Uchiha queria.

Horas mais tarde, ele ligou para o consultório, perguntando sobre o Uzumaki, a fim de esclarecer o motivo da troca. A justificativa era perfeita para ter um pretexto para ouvir a voz rouca e afetuosa do homem. O moreno ainda estava bravo pela briga anterior, mas a saudade que sentia, parecia ser ainda maior com o fato de estarem separados agora; ele apenas queria algo para que pudesse se sentir ligado ao amante. Sem as consultas, ambos não tinham mais nada que o unissem.

Amaru foi bem categórica e disse que não poderia passar o telefonema porque o chefe havia acabado de embarcar para os Estados Unidos. A informação quase fez o corvo esbravejar em nervosismo e pânico, mas a jovem logo o tranquilizou e alegou que a razão da viagem era que o psicanalista foi chamado para um congresso na sua área de atuação. O problema era que nem ela sabia o informar quando ele voltaria, porque Naruto decidiu, repentinamente, que queria tirar férias e todos os seus pacientes foram passados para a Dra. Hinata.

Na semana seguinte, Sasuke estava tão nervoso que nem seus funcionários conseguiam se aproximar, pois tudo eram motivos para escárnios, reclamações e brigas. O moreno acreditava, por orgulho e como forma de retaliação, que todo o seu estresse era culpa do Uzumaki. Como vingança sobre o rompimento inesperado, ele devolveu tudo o que ganhou do homem, inclusive a cópia da chave do apartamento que estava em sua responsabilidade, através de um entregador da Sharingan Corporation. Ele só não conseguiu entregar algumas roupas que pertenciam ao loiro, as quais ele havia pegado emprestado ao longo dos anos e nunca quis se desfazer dos itens.

A ação o satisfez por mais sete dias, até que ele se arrependeu.

Agora, com mais de um mês inteiro sem ver, nem ouvir sobre o psicanalista, ele estava procurando "porquês" para ter algo do escritor perto de si, embora não tivesse quase mais nada. O Uchiha poderia ter ido até o apartamento – mesmo que seu verdadeiro dono não estivesse lá – e deitado na cama que tantas vezes se amaram, apenas para poder sentir o cheiro de laranjas nos lençóis coloridos; quem sabe abraçar a figura macia de Kurama; o que lhe fez lembrar ser inútil, já que Naruto deveria ter deixado o gato na posse de outra pessoa, enquanto estivesse ausente.

— Amor! – ele ouviu a voz feminina da sua esposa interromper os seus pensamentos.

Era noite de quinta-feira e o corvo estava sentado em sua cama, com as pernas cruzadas em seus tornozelos. Ele tinha acabado de chegar do trabalho e se preparava – ou ao menos era o que deveria estar fazendo – para um banho longo e relaxante.

— Sim? – olhou para os olhos verdes da mulher. Com a falta do Uzumaki na sua vida, seu relacionamento com Sakura havia melhorado consideravelmente, mas não o suficiente para dar-lhe a devida importância.

De certo modo, ele havia entendido o que o psicanalista quis dizer sobre precisarem parar o que estavam fazendo. Não era o correto e estava os prejudicando. Ambos estavam perdendo o controle sobre a situação toda e sobre suas vidas já há muito conturbadas, embora internamente, Sasuke não se importasse desde que significasse ter sempre o Naruto ao seu lado.

— Você vai tomar banho? – viu roupas mais confortáveis separadas em cima da cama do casal. – Só quero avisar que o jantar está pronto. Desça quando terminar, ok? Quero conversar com você sobre nossa viagem de aniversário! – disse com animação.

— Tudo bem. – ele tentou sorrir, para retribuir a felicidade da mulher, mas o gesto saiu visivelmente forçado.

Ele se levantou para colocar os sapatos no armário do closet. Feito o que precisava, caminhou até o banheiro, arrancando a gravata azul marinho sufocante e a camisa branca, da mesma forma que fizera com as outras peças para jogá-las no cesto. O moreno não perdeu tempo em entrar no chuveiro, com a esperança de que a água morna, quase fria, o fizesse relaxar.

O embarque para Paris estava marcado para cerca de um mês e ele mal conseguiu confrontar o amante sobre o que estava acontecendo. Seu peito se apertou involuntariamente ao pensar nos olhos azuis cerúleos e no sorriso radiante de Naruto tão longe de si. A falta que o loiro fazia em sua vida era tanta, que ele sentia como se uma grande parte havia sido tirada da sua vida, sem nada que pudesse preenchê-la.

Colocando a cabeça debaixo da cascata de água fria, ele pensou sobre a ironia de toda a situação. O Uzumaki terminou o caso extraconjugal que tinham com o intuito de amenizar os problemas da vida do Uchiha, mas o engraçado era que o corvo ainda sentia que a corda ainda estava apertando o seu pescoço de tal forma, que era difícil respirar.

Ele precisava de Naruto em sua vida.

(***)

— Eu optei por comprar as passagens de ida e volta, sem qualquer vínculo com agências de viagens, desta maneira teremos mais liberdade para escolhermos o que faremos em Paris. A companhia me ofereceu um guia turístico, mas eu logo descartei, pois quero ter a opção de escolher os lugares que iremos visitar, além de termos mais privacidade durante os passeios. – ela enrolou o macarrão de arroz no hashi¹, antes de levar o alimento para a boca. Sakura mastigou por um tempo para poder continuar. – Nos outros dez dias de suas férias, podemos ir para Hokkaido. Vou fazer uma pesquisa das melhores pousadas do lugar para que possamos ter alternativas variadas, caso não quisermos sair do quarto. – ela sugeriu com um toque de esperança na voz, fazendo Sasuke adivinhar rapidamente para onde os pensamentos da mulher estavam caminhando.

A ideia fê-lo perder a fome, fazendo-o olhar enojado para o harusame² em sua tigela. Um mês sem sexo o fez procurar a esposa, mas a experiência era tão frustrante, que ele não se sentia saciado. Era como uma ação automática, seu corpo respondia aos estímulos, mas sua mente estava sempre longe, lembrando-se de como os gemidos de outra pessoa soavam em seus ouvidos e como a figura bronzeada parecia se encaixar perfeitamente na dele.

— Fico feliz que esteja tão empolgada com a viagem. – ele a olhou, tentando não transmitir os seus pensamentos. A esposa deu um sorriso contente, antes de voltar o olhar para a comida.

— Você acha que essa salada e o salmão ficaram muito salgados? Eu tentei acertar o ponto desta vez, mas nunca fica igual ao da sua mãe... – ela deu um muxoxo.

— Está ótimo. – ele mentiu com um sorriso forçado.

Sakura não tinha aptidão para a cozinha e frequentemente queimava os alimentos, ou salgava, ou adoçava demais o gosto. A única coisa que ela acertava era no seu café. No início, ele se irritava profundamente com a falta de habilidade da esposa, mas depois de conhecer Naruto e aprender sobre as desenvolturas desastrosas do Uzumaki para a culinária, Sasuke desistiu de se importar muito. O psicanalista sabia apenas preparar pratos simples, sem muitos ingredientes, temperos e segredos.

— De qualquer forma, eu estou muito feliz que você tenha tido esta ideia de viajarmos juntos, porque teremos a oportunidade de nos aproximar mais. Estamos há tanto tempo casados e nos últimos sete ou seis anos, eu sinto que estamos um pouco distantes, tanto que outras pessoas começaram a reparar e espalhar boatos sem sentido... – ela mordeu o lábio inferior, remexendo ohashi com insegurança. A frase final foi o suficiente para atrair a atenção do Uchiha.

— Você sabia sobre as notícias sobre eu e o Naruto? – ele teria arregalado os olhos, se sua postura não fosse tão estoica.

— Sim, mas logo acreditei que eram besteiras. – orbes verdes olharam com tristeza singela e confiança para os negros do homem. – Os rumores envolviam Naruto e ele é um homem; tudo bem que todos sabem que ele é homossexual, mas você não é. A mídia é como um bando de abutres procurando por escândalos, como sempre fazem com Brad Pitt e Angelina Jolie. Eles usaram a amizade que cresceu com os anos de consultas como um alicerce para ganhar dinheiro e eu fiquei supercontente quando o Uzumaki organizou uma coletiva e esclareceu todas as dúvidas, negando toda e qualquer fofoca! – ela riu. – Ele tratou o assunto com tanto humor que até eu achei graça sobre a situação. Fiquei um pouco chateada que eles envolveram você em algo tão vil!

O moreno suspirou, conhecendo o jeito hiperativo e bem humorado do outro. Eram raras as vezes que o loiro estava com a cara amarrada e isso apenas acontecia quando os dois brigavam. No entanto, o rosto fechado durava por pouco tempo; só até que o Uzumaki voltasse a satirizar e sacanear com tudo outra vez. O psicanalista não se importava com a sua falta de reação para com as brincadeiras, continuava a conversa unilateral, tagarelando sobre qualquer assunto, independentemente das respostas monossilábicas. O escritor falava com o corpo inteiro, pois gesticulava muito e fazia caretas para intensificar as narrações sobre algo que viveu durante o dia. A lembrança quase o fez sorrir; quase, porque ele se lembrou das palavras da esposa e se sentiu culpado sobre o fato dela confiar tanto nele, quando na verdade, ele não merecia.

— Típico. – optou por dar um sorriso de escárnio, mascarando os seus sentimentos obscuros, fazendo a mulher rir divertida.

— Ele é um pouco intimidante, principalmente pelo jeito energético, mas eu gosto dele! – seus olhos se fecharam um instante, antes de se abrirem quando se lembrou de algo. Grandes orbes esmeraldas o encararam com curiosidade. – Depois que o escândalo sobre vocês dois se acalmou, ele apareceu saindo com aquele empresário... Qual é o nome dele mesmo? – ela bateu no queixo no a ponta do indicador, pensativa.

— Sabaku no Gaara. – ele rosnou antes que pudesse se controlar, enquanto apertava ohashi inconscientemente. Sakura não percebeu o tom furioso do outro.

— Isso! – ela riu, voltando a comer. – Acho que os dois formam um casal bem fofo. Você sabe se os rumores sobre eles são verdadeiros? Quero dizer, você e Naruto são amigos há tanto tempo, tenho certeza que ele deve ter contado alguma coisa. – ela se inclinou para frente com a perspectiva de ter uma fofoca quente em suas mãos, sem a noção de como o rumo da conversa estava se tornando perigoso à medida que o humor do Uchiha escurecia.

— Não. – Sasuke desviou o olhar, tentando desviar os pensamentos angustiantes sobre o possível romance entre o seu amante e o ruivo. – Ele não me fala muito sobre sua vida pessoal. – mentiu.

— Que estranho! – ela soou pensativa. – Acho que eles estão tentando esconder por medo de que a Suna Enterprises Communication sofra com um possível escândalo. A sociedade não está acostumada ao homossexualismo, embora eu ache que os dois não deveriam ter medo de se assumir, porque, mesmo que muitas pessoas possam condená-los, ainda existirão aqueles que aceitam sem qualquer tipo de preconceito. Eu, por exemplo, acredito que o Uzumaki e o Sabaku formam um casal perfeito, você já viu as fotos dos dois juntos?

— Hn. – a paciência do corvo estava chegando ao limite, ouvi-la romantizar o amante com outro cara não era nada agradável e sua mente já estava construindo imagens perturbadoras, como ambos se beijando ou, pior, indo para a mesma cama juntos. Seu corpo tremia levemente com a energia do seu ciúme e, a fúria que parecia correr pelas suas veias, fazia-o enxergar tudo em vermelho.

— Sasuke, você está bem? – ela perguntou alarmada quando viu o hashi quebrar na mão do marido, tamanha a força que ele usava para segurá-los.

— Eu não quero falar sobre o meu psicanalista e esse empresário de merda, Sakura! – sua voz retumbou pela sala de jantar em um tom tão frio, que a mulher recuou, completamente alarmada. A boca da mulher se abriu para falar algo, mas nenhum som saiu. – Não quero saber se ele está romanticamente envolvido com outra pessoa, porque nenhuma dessas informações me interessa! – sua mão socou a mesa com tanta intensidade que todos os recipientes pularam, juntamente com a figura feminina à sua frente.

O Uchiha saiu da sala com passos firmes, caminhando para o escritório e passando pela porta para batê-la fechada, fazendo com que os vidros do grande apartamento estremecessem. A mulher de cabelos cor-de-rosa observou o lugar que o marido ocupava boquiaberta, não entendendo o motivo da ira repentina do homem.

(***)

Sasuke andava pelo cômodo de um lado para o outro, parecendo um tigre enjaulado. Seus punhos estavam cerrados e ele frequentemente olhava o aparelho celular em cima da mesa, tentando decidir se deveria ligar para o homem que estava perturbando a sua cabeça ou simplesmente deixar quieto. Sem se questionar muito, semelhante a um viciado em abstinência de sua droga, ele agarrou o telefone e discou os números que havia memorizado há anos.

O toque soou duas vezes, antes que de cair na secretária eletrônica.

— Naruto, você está em casa? Se estiver, por favor, me atenda! – ele esperou até que o barulho de alguém retirando o aparelho do gancho chamou sua atenção.

Teme?— o apelido, dito naquele tom rouco pareceu lavar a sua alma de todo o tormento que sentia. Repentinamente seu coração parecia tão leve, que batia muito mais depressa, e ele quase sentiu a vontade de sorrir.

— Hey, dobe. – lambeu os lábios secos, refletindo sobre o que dizer. Só ligou para ouvir a voz do outro e para ter alguma certeza que ainda mexia com homem, assim como ele mexia consigo.

Está tudo bem? Você parecia angustiado.— ouviu ao longe o som de tecidos farfalhando, ele olhou para o relógio e constatou que o outro deveria estar dormindo, porque eram quase duas da manhã.

— Por que sua secretária eletrônica estava acionada? – ignorou a pergunta do outro. Ele não estava bem, porque para estar bem, ele precisava do amante ao seu lado, entretanto, o Uchiha jamais admitiria isso em voz alta.

Voltei de Nova Iorque há poucos dias e não me lembrei de tirá-la.— Sasuke quase podia ver o loiro morder o lábio inferior enquanto coçava a nuca, como em todas as vezes que ele se lembrava de que havia esquecido algo.

— Hn. – os dois ficaram em um silêncio incômodo. O moreno não sabia o que dizer para manter a conversa e Naruto, pela primeira vez em tempos, não estava balbuciando sem parar. – E como foi a viagem? – perguntou, procurando reivindicar as palavras do psicanalista.

Por que você me ligou?— o homem ignorou completamente a pergunta.

— Hn.

Sem “Hn” para cima de mim, você não deveria estar me ligando!— vociferou, irritado.

— Você poderia ter ignorado o meu telefonema, pois sabia quem era. – as palavras do homem estavam começando a lhe tirar do sério. O Uzumaki tinha a capacidade de transportá-lo para uma montanha-russa de emoções; quando acreditava que estava começando a se sentir melhor, algo sempre o deixava nervoso novamente.

Poderia, se você não estivesse me ligando a 01h45min da manhã! Eu pensei que fosse algo grave...

— É grave! – Sasuke interrompeu; sua voz transmitindo todo o desespero que acumulou por tanto tempo. Por um, longo e demorado, mês. – Eu preciso ver você, dobe! – em sua garganta se formou um nó e os olhos pinicavam. Seu corpo sozinho estava procurando encontrar a libertação de tantos sentimentos guardados.

A linha ficou silenciosa do outro lado e por um momento o Uchiha pensou que o loiro havia desligado o telefone.

— Naruto?

Não me ligue mais, Sasuke.

E desligou. Simples assim.

O moreno olhou o telefone, estupefato. Quando a ficha caiu, seu sangue ferveu de tal maneira que sua primeira reação foi jogar o aparelho para o outro lado, atingindo a parede com força. O celular se espatifou, espalhando suas peças inutilizáveis pelo chão. Passando a mão pelos cabelos, ele amaldiçoou baixinho, antes de romper para porta do escritório em direção ao quarto. Ele sabia que seria impossível dormir depois da discussão, mas estava se sentindo tão cansado que mal se suportava em pé.

(***)

O presidente da Sharingan Corporation olhava para a pilha de papéis à sua frente com um desgosto indisfarçado. Sua impaciência era tanta, que só de observar a quantidade de folhas em cima da sua mesa, já lhe causava queimação na boca do estômago. Ele tinha contratos para revisar e assinar, projetos para ler e aprovar e uma infinidade de solicitações dos seus funcionários para avaliar.

Nas últimas semanas, Sasuke havia protelado todas as decisões que havia de tomar, mas ainda assim, alguns exigiam a sua atenção extrema e ele não estava com cabeça para qualquer uma dessas coisas no momento.

— NO QUE VOCÊ ESTAVA PENSANDO?

O grito chamou a atenção do moreno, que estava sentado na sua cadeira, olhando distraidamente para a bagunça instalada no escritório. Ele viu seu pai, caminhar até ele com uma pilha de papéis na mão, o olhar em seu rosto foi o suficiente para alertar o mais novo, que se levantou automaticamente, como se estivesse prestes a se defender de um ataque.

— NO QUE VOCÊ ESTAVA PENSANDO QUANDO ASSINOU ESTE MALDITO CONTRATO?! – berrou novamente, assustando o Uchiha mais novo. Fugaku jogou as folhas diante do outro com tanta força, que as fez voar, espalhando-se pela extensão da mesa e fazendo com que algumas delas caíssem no chão.

— O quê? – seu cérebro não conseguia registrar as palavras, ele lançou um olhar para o acordo que assinou com a empresa de Shimura Danzou, a ANBU Tec., há apenas algumas semanas.

— Sasuke, o que está acontecendo com você?! – a figura altiva do homem deu um soco na mesa com tanta raiva que quase fez o rapaz recuar, mas ao invés disso, ele endureceu o olhar, desafiando o pai a explicar o motivo da gritaria toda. – Moleque arrogante. – murmurou furioso, mas com uma ponta de orgulho no fundo do peito.

— Por que não me diz o que eu fiz de errado? – a mandíbula se apertou e os lábios estavam rígidos, formando uma linha fina, acentuando a cara fechada. Odiava receber críticas do homem diante de si, porque o lembrava de quanto ele jamais seria como Itachi, o filho preferido do pai.

— Você não sabe? – fingiu espanto e riu em escárnio. – Sua irresponsabilidade cedeu uma de nossas marcas para a fornecedora, tornando-a a nossa nova concorrente! – gritou.

Do lado de fora, a secretária, Karin, lançava olhares furtivos e receosos para os dois que discutiam sem se importar com os outros. Ela roía a unha do polegar, sentindo-se nervosa pelos gritos, olhando em volta, ela percebeu que as vozes altas estavam começando a atrair a atenção dos outros funcionários que trabalhavam no mesmo piso. Correndo, ela fechou a porta do escritório, para garantir que certas informações não vazassem, já que o motivo da briga, não era para ser ouvido por qualquer um.

— O quê? – olhos negros se arregalaram em espanto. Sem perder tempo, ele juntou as folhas do contrato, procurando pela cláusula que dizia tal comunicado.

— Está na quinta página. O último parágrafo em letras pequenas. – suspirou, sentando-se em uma das cadeiras de frente para a mesa do filho.

Sasuke pegou o papel e leu atentamente a cláusula, que na verdade fazia um adendo para o oitavo parágrafo. Por incrível que pareça, ele não se lembrava de ter lido esta parte do texto e o conhecimento do fato o fez suar frio, percebendo que cometera uma falha enorme.

— Os advogados da Sharingan, quando viram, ficaram tão surpreendidos, que decidiram entrar em contato comigo para perguntar se eu sabia sobre a possível transação. – seu pai continuou.

O acordo dizia que a marca seria passada para o nome da ANBU Tec. como forma de garantir os lucros da empresa, caso a venda de televisores automotivos fabricados pela Sharingan Corporation não alcance o nível de compras estipulado no primeiro mês. A empresa de Shimura Danzou era um fornecedor e parceiro de negócios, cujo dono nunca dava um ponto sem nó. O homem sabia que a comercialização desses eletrônicos era muito mais difícil do que os aparelhos domésticos e quando forneceu a peças, exigindo trinta por cento dos lucros de todo o empreendimento, sem cobrar preços exorbitantes para as peças, Sasuke deveria ter desconfiado.

O Uchiha mais novo passou a mão pelos cabelos, bagunçando-os, enquanto olhava lívido aquele pedaço de palavras, até que uma delas chamou a sua atenção. Ele deu um sorriso malicioso, antes de jogar o papel de volta para a mesa. Seu pai ergueu uma sobrancelha em questionamento.

— Podemos tomar a marca de volta.

Fugaku olhou os orbes negros, tão parecidos com o da sua esposa, brilharem como os de um tigre em posição de ataque, totalmente provocativos e determinados. Sasuke tinha as mesmas feições de Mikoto, mas era tão destemido quanto ele próprio, diferentemente de Itachi, que fisicamente era a descrição do patriarca, mas tinha a personalidade da mãe.

— Como? – ele perguntou.

— Ultrapassando o número de vendas que estipulamos no contrato. – mostrando o papel para o homem à sua frente. – Aqui diz que a marca está sendo passada como garantia, CASO o nível de comercialização não seja alcançado. – apertando o botão para o ramal da secretária, o rapaz disse. – Karin, contate todos os chefes de cada departamento da empresa e marque uma reunião para hoje, não importa o horário, ninguém sai desse edifício enquanto não discutirmos um problema. – ele ouviu o consentimento e desligou a linha.

— Tem certeza que consegue? Temos menos de um mês. – rebateu o antigo presidente.

— Conheço alguém que diria que você nunca vai saber se não tentar. – o Uchiha mais novo sorriu com carinho, lembrando-se do homem que mais influenciou a sua vida nos últimos cinco anos.

Fugaku se surpreendeu com a expressão no rosto do filho, perguntando-se quem seria tal pessoa.

— Sakura?

— Não, outra pessoa... – Sasuke disse com reserva, atraindo ainda mais a curiosidade do mais velho.

Embora o chefe da família Uchiha estivesse considerando pressionar o rapaz para uma resposta decente, algo ainda preocupava o patriarca.

— O que está acontecendo com você, Sasuke?

— O que quer dizer? – perguntou, desconfiado.

— Você nunca cometeu erros tão graves como esse. – franziu o cenho, observando o filho se remexer, desconfortável com o rumo da conversa. – Desde o seu estágio, você sempre fez questão de exibir perfeição em tudo o que fazia aqui dentro. O que aconteceu? – repetiu a indagação.

— Nada.

— Não minta para mim! – autoridade retumbou no tom profundo e rouco do homem. – Você tem agido estranho já faz um bom tempo. É algo com o seu casamento? – as palavras fizeram os olhos negros encararem a figura paterna com receio. – Você está se desentendendo com a Sakura? Não converso muito com a sua esposa, mas conheço seu gênio só de olhar para aqueles olhos verdes. Ela é mimada, teimosa e uma pessoa muito difícil de lidar, mas como você parecia sempre saber como tratá-la, achei que ela não lhe causaria dificuldades. A partir do momento que o problema entre vocês dois começa a afetar a nossa empresa, eu me sinto no dever de interferir.

— Não é nada! Só estou com algumas preocupações na cabeça... – desviou a íris para olhar um ponto da parede às costas do homem à sua frente.

— É sobre a discussão que teve em casa há um pouco mais de um mês?

— Por que o senhor está fazendo este monte de perguntas? – vociferou, sentindo-se intimidado.

— Eu estou preocupado. – a confissão surpreendeu o filho, que o olhou como se outra cabeça tivesse crescido em seu pescoço. – Não pense que não me importo com você, Sasuke, porque não é verdade. – suspirou. – Eu posso ter errado muito na minha criação e no meu tratamento com você, e, o que você disse naquele almoço de domingo me fez ter mais certeza sobre isso. Mas, tudo o que eu fiz, foi pensando no seu bem.

— Então, por que você sempre me tratou tão diferente do Itachi? – seu peito se apertou e ele não queria acreditar nas palavras do pai, embora tudo o que foi dito estava mexendo em uma parte muito sensível em seu coração.

— Você e seu irmão sempre foram muito diferentes. – ele olhou distraidamente para os papeis em cima da mesa. – E desde pequeno, você constantemente se mostrava vulnerável às opiniões das outras pessoas e as influências externas, principalmente as que envolvem a nossa família. Eu admiro isso, ao mesmo tempo em que me preocupa, porque você perdeu uma grande parte da sua própria individualidade procurando nos agradar. Eu, desde o começo, te tratei com mais dureza, pois acreditava que dessa forma iria fortificá-lo emocionalmente e torná-lo mais independente.

— Eu... – Sasuke começou, mas não encontrava o que dizer. Seu corpo estremecia com todas as revelações ditas pelo seu pai.

— Itachi constantemente contraria as minhas decisões. – riu e balançou a cabeça negativamente em resignação. – Recusa a presidência da empresa para trabalhar em uma organização não governamental e se contenta com o salário insignificante que ganha ao dar aulas de filosofia na Tokyo University of Science³. Mora em um cubículo no Centro e prefere andar de trem ao ter seu próprio carro; além de estar com quase quarenta anos e não ter se casado ainda e sequer nos apresentou qualquer namorada... – molhou os lábios seco com a língua. – E mesmo assim, eu me orgulho dele, porque de toda a família, ele é o mais nobre e menos ostensivo. Às vezes acho que a sabedoria do seu irmão é maior que a minha... – as últimas palavras foram ditas como se ele divagasse.

O mais novo não sabia o que dizer. Viu o homem tomar uma respiração profunda, antes de continuar.

— E você sempre caminhou por onde eu acreditava ser o melhor caminho... – olhou para o filho com carinho e sorriu. – Foi para os Estados Unidos estudar em uma das melhores escolas de negócios, casou-se com uma mulher digna e respeitosa, tem administrado a nossa empresa com empenho e dedicação, fez nosso patrimônio crescer exponencialmente e fez a honra do sobrenome Uchiha. – levantou-se, caminhando até o outro para dar um cafuné na cabeça repleta de fios negros. – Embora eu me sinta orgulhoso, não me sinto satisfeito, sabe por quê? – a pergunta fora feita em um tom imperial, quase intimidante, fazendo Sasuke só acenar negativamente, sentindo-se uma criança outra vez, na época em que era repreendido pelo pai. – Porque percebi que você está sempre infeliz.

A declaração fez o corvo mudar o pescoço dão rápido para olhá-lo, que se espantou com o fato dele não ter ficado com um torcicolo. O rapaz estava lívido, as palavras o atingindo como tijolos quando compreensão amanheceu sobre ele. O atual presidente da Sharingan Corporation observou a figura paterna como se a visse pela primeira vez em muito tempo.

— De qualquer forma, apareça em casa para o almoço de domingo. – o mais velho se encaminhou para a porta. – Desde a discussão, você não foi mais nos visitar e sua mãe está chateada por isso. – avisou, antes de sair.

Sasuke só despertou de seu devaneio quando a voz da secretária rompeu pelo aparelho telefônico em cima da sua mesa.

Uchiha-san, a reunião está marcada para as 20h.— anunciou Karin.

Notas finais
Hashi¹ - palitos utilizados como talheres nos países do Extremo Oriente. Harusame² - macarrão oriental, normalmente feito de amido de arroz. Pode ser servido como salada, frito ou cozido junto a legumes e outras especiarias. Tokyo University of Science³ - uma das universidades mais conceituadas de tecnologia e ciências do Japão.