Deveres Do Coração

12 A Luta Pelo Recomeço


Notas iniciais
Capítulo dedicado à Kcau.

“O tempo é rei; a vida, uma lição. Um dia a gente cresce e conhece a nossa essência, ganha experiência... Aprende o que é raiz e, então, cria consciência.”
Chorão.

Capítulo 12 – A Luta Pelo Recomeço

Logo quando Sasuke Uchiha entrou na mansão onde seus pais moravam, horas depois de ter chegado de Hokkaido, ele percebeu algo diferente no ambiente. Não era um cheiro novo ou algum objeto decorativo inusitado que lhe chamou a atenção; era algo mais sutil e menos perceptível, intangível. A áurea do lugar parecia mais densa e silenciosa que o normal, como se fosse o prelúdio de uma notícia ruim.

Normalmente, a casa de Fugaku e Mikoto era extremamente quieta e solitária, afinal, só viviam o casal e algumas empregadas para auxiliar na administração das tarefas domésticas. Como os dois filhos já possuíam moradias próprias e os mais velhos raramente paravam no conforto aconchegante do lar, a construção sempre se encontrava vazia. Não era novidade encontrar aquele local abandonado.

Mas havia algo...

Algo que o moreno não conseguia colocar uma razão para distinguir.

Ele largou as malas no hall de entrada, ignorando completamente as outras bagagens que ainda estavam no carro, e andou até a sala de estar, esperando encontrar algum sinal de vida pela residência. Seus passos, que antes ecoavam pelo cômodo estéril, ficaram silenciosos depois que ele passou a andar pelo tapete cor de marfim que cobria o chão de madeira castanha, mas ele não reparou na mudança sonora; só pôde reconhecer a figura esguia de seu irmão mais velho, sentado no sofá de veludo imaculadamente branco. O homem estava com os cotovelos apoiados nos joelhos e os dedos das mãos entrelaçados. Os cabelos longos, antes presos em um rabo de cavalo frouxo, estavam soltos e desorganizados em volta do rosto delicado. A postura pensativa fazia jus ao comportamento, pois Itachi nem pareceu notar a aproximação do outro.

— Itachi? – ele chamou baixo, com medo de sobressaltar o mais velho.

O empresário não teria agido com tanta cautela, se não tivesse percebido a seriedade da expressão preocupada na feição do outro.

O primogênito Uchiha não ouviu e continuou perdido em pensamentos até sentir um toque leve em seu ombro direito, assustando-o.

Olhando para o lado, ele encontrou a face curiosa e contida de Sasuke. O caçulo podia não perceber, mas quando agia daquela maneira, fazia o homem mais velho se lembrar do irmão quando este ainda era uma criança, pois os olhos ficavam ligeiramente arregalados e as sobrancelhas se erguiam em expectativa silenciosa, enquanto as íris negras brilhavam em ansiedade e toda a postura estoica parecia evaporar como fumaça.

— Onde estão ’kaa-san¹ e ’tou-san²? – indagou novamente, depois de uma pausa muito longa de sossego.

— Lá em cima. – ele respondeu simplesmente, dando de ombros e brincando com um fio solto no punho direito de sua camisa social.

O mais novo franziu o cenho em estranhamento, pois Itachi estava agindo de uma forma nada usual, como se quisesse se manter distante daquela realidade.

— Aconteceu alguma coisa que eu precise saber? – tornou a inquirir, começando a se irritar com aquele jogo de perguntas e respostas vagas. Ele podia reclamar da impaciência de Naruto, mas era tão ansioso quanto o psicanalista loiro.

Outra pausa silenciosa, dessa vez, mais longa que as anteriores. Quando Sasuke começou a achar que seu irmão não lhe responderia, o homem começou a falar:

— Eu contei para o papai. – disse curto e sem clareza; quase com receio de dizer o que estava acontecendo.

O caçulo esperou que o outro continuasse, mas como nada veio à tona, ele teve de se segurar para não gritar. Itachi estava conseguindo lhe tirar do sério.

— O que você contou ao papai? – tornou a perguntar. Sua voz irritada retumbou por toda a sala de estar, quebrando o devaneio do irmão, que finalmente pareceu acordar para o momento.

O professor de filosofia apoiou as costas no encosto estofado do sofá, batendo o pé esquerdo ritmicamente no chão e esfregando o rosto cansado. Ele parecia não ter dormido bem nos últimos dias, mas, levando-se em conta que o primogênito sofria de insônia, não parecia ser uma novidade o homem estar tão desgastado.

Havia apenas algo distinto, como o estado de espírito dentro daquela casa.

— Eu contei a ele sobre o porquê de não querer me casar. – pausa longa, mas, diferentemente das outras vezes, ele continuou. – Eu assisti você desde que nasceu, Sasuke... Quando você era criança, era fácil te proteger dos desejos materialistas do papai e das ordens morais dos anciões do clã, porque eu ainda tinha as responsabilidades e os privilégios de um sucessor... Quando eu renunciei, na adolescência, passei todos os meus problemas para você. Fui egoísta, mas eu também tinha desejos; eu queria viver a minha vida conforme as minhas vontades, e eu sabia que o que eu ansiava também não seria facilmente aceito pela nossa família, ainda mais para a posição que eu deveria ocupar.

Sasuke ficou quieto, ouvindo a tudo com o rosto contorcido em confusão, pois ele não estava conseguindo entender para onde todo aquele desabafo iria. Itachi prosseguiu:

— Minha decisão influenciou a sua felicidade, não é, Sasuke? – perguntou, dando um sorriso amargo. – Eu esperava que você fosse mais esperto e não tomasse os caminhos que escolheu seguir, mas eu te vi, ano após ano, sacrificar tudo em nome do clã; deixar de lado o seu coração por causa de obrigações, que lhe disseram ser necessárias e corretas, e esquecer completamente dos deveres que deveria ter para consigo mesmo. Eu pensei que você poderia tomar as minhas dicas, mudar as tradições, se importar menos com os outros e mais com o que você quer!

O mais velho voltou à posição anterior, encarando o tapete marfim, analisando com atenção dispersa casa fio macio abaixo de seus pés. Sua voz, voltando a deslizar pelo local como seda, tranquila e ao mesmo tempo marcante:

— Eu te assisti por anos, vendo-o se afundar por um propósito inútil! Você ficou doente e se transformou em um moribundo por causa de sua incapacidade de contradizer a nossa família! – raiva tomou conta do timbre normalmente suave à medida que as palavras saiam de sua boca. – Seu sofrimento era tão notável e físico, que passou a afetar todos que vivem a sua volta e só você foi incapaz de perceber, tão concentrado que estava em sentir dó de si mesmo...

— Você não sabe de nada, Itachi! – interrompeu com um rosnado. – Cale a sua boca! – exigiu, começando a perder a cabeça, enraivecido pelas declarações ofensivas.

— Eu decidi acabar com isso, Sasuke. – ele se levantou para poder encarar os olhos negros, tão parecidos com os da mãe, de frente.

O empresário se sentiu incomodado com toda a situação e ele teve que controlar ao máximo a vontade de se encolher diante da figura do irmão mais velho. A postura repreensiva e a altura do homem, que era alguns poucos centímetros mais alto, faziam-no se sentir como uma criança sendo censurada pelo pai. Itachi possuía as mesmas linhas de expressão de Fugaku, o que tornava ainda mais evidente a sensação de impotência para com o tom autoritário, pois o lembravam de quando era mais novo e criticado pelo patriarca.

— O que você quis dizer com isso? – perguntou, demonstrando todo o seu receio.

Em sua mente, Itachi havia surtado de vez e contado para toda a sua família que o atual presidente da Sharingan Corporation estava se relacionando com um homem, quando ainda estava casado com Sakura. Seus pensamentos corriam desesperados em sua cabeça, deixando-o tonto. A preocupação, a raiva, o medo, tudo girava em seu interior com uma velocidade impressionante.

Sasuke estava correndo para resolver a sua vida e ele não precisava de outro fator que o impedisse de alcançar seus objetivos. Tudo estava uma bagunça e parecia que, à medida que o tempo passava, ficava ainda pior. Quem era Itachi para interferir em suas escolhas dessa maneira? Ele não conseguia aceitar que seu irmão se impusesse dessa forma, atirando-lhe justificativas para fazê-lo entender qual era o ponto de agir como um insano intrometido. O que o homem contou para seus pais poderia bagunçar toda a família; os anciões ficariam loucos e o mandariam para o Alasca com o propósito de evitar que suas atitudes desestruturassem ainda mais as tradições do clã.

Ele tinha um plano para impedir todo esse caos e, então, o mais velho aparecia e acabava com tudo, era inaceitável!

— Me inspirei no seu exemplo, Sasuke. – o homem continuou, mas o outro parecia não querer mais prestar atenção ou ouvir qualquer declaração vinda dele. – Decidi que não quero viver a minha vida da mesma maneira que você vive a sua. Você me fez enxergar que, sim, eu também acabei entrando em um caminho de mentiras, mas não quero permanecer nesse lugar solitário, pois, apesar de viver a vida que escolhi, ainda falta alguma coisa. – os orbes negros de Itachi se tornaram distantes. – Eu quero ter almoços de domingo com toda a minha família e festas de final de ano ao redor de todas as pessoas que amo, sem ter que separar a vida que gostariam que eu tivesse com a vida que tenho – pausa. –, entende?

Não.

Sasuke não estava entendendo nada! Antes, ele até queria tentar ignorar as palavras do seu irmão mais velho, mas algo nas palavras do outro lhe capturou total atenção: "... separar a vida que gostariam que eu tivesse com a vida que tenho...?", perguntou-se atordoado. O corvo não estava conseguindo ver o ponto daquela conversa maluca. Por um momento, ele acreditou que Itachi tivesse dado com a língua nos dentes, mas agora, não tinha tanta certeza. Havia algo maior no que estava sendo dito pelo irmão.

— Eu assumi, para ’tou-san e ’kaa-san, que eu estou com Deidara desde os tempos de colégio e exigi que os dois o aceitassem como membro da família, porque fora dessa casa, longe da vida que o clã queria que eu vivesse, ele é a única pessoa que eu tenho ao meu lado. Ele é a minha família quando não estou nesse universo regido de regras e tradições e é com ele que divido o meu tempo, mas eu não quero que as coisas continuem assim; eu quero que ele participe das nossas reuniões de família e... – esfregou o rosto, tentando amenizar o cansaço que aquela conversa estava lhe proporcionando, pois as últimas horas já haviam tomado o melhor dele. – Eu quero que as pessoas saibam o quanto eu o amo e o quanto ele é importante para mim. Eu quero que você, a mamãe e o papai entendam e compartilhem isso comigo... – terminou com um suspiro, tomando naquele fôlego, a energia para continuar a encarar os olhos de Sasuke.

O mais novo estava estático, surpreendido e, no mínimo, chocado. Nada do que Itachi falou, foi o que ele esperava.

Sem palavras para descrever seu sentimento para com a atitude do homem, o presidente da Sharingan Corporation agiu da maneira que falasse tudo o que precisava: ele o abraçou, apertando os braços em torno da figura imponente, como há muito tempo não fazia.

O empresário nunca imaginou que o irmão vivesse, assim como ele, um romance às escuras. Itachi era tão discreto, que mesmo depois de tantos anos, ninguém chegou a desconfiar do envolvimento de Deidara com o primogênito Uchiha. Não era à toa que o professor de filosofia era considerado um prodígio; sua inteligência o fazia analisar com antecedência as consequências de qualquer ato, como se fosse uma fórmula matemática com resultados exatos e pré-definidos, e tomasse uma precaução. Sasuke tinha certeza que ele usou toda essa esperteza para camuflar seu namoro com o loiro de maneira que nenhum fio solto pudesse ficar à vista de olhos bisbilhoteiros.

— Eu não posso dizer "não" para isso. — sussurrou, dando alguns tapas firmes nas costas do outro, antes de se afastar.

Itachi parecia surpreso e ele mal teve tempo de ter uma reação. Não era para menos, o mais novo, depois que entrou na adolescência, nunca foi de demonstrar afeto ou carinho, mesmo que a situação pedisse; o máximo que ele faria, normalmente, em uma ocasião como essa, era pegar em seu ombro e se distanciar, soltando um pequeno grunhido de consentimento. A atitude o fez reparar melhor no caçulo e, olhando-o de cima a baixo, ele finalmente pôde perceber que havia algo de diferente.

Sasuke parecia mais tranquilo...

A aparência o fez parecer mais velho, não fisicamente, mas emocionalmente mais maduro; mais sábio. Uma sobrancelha negra se ergueu em questionamento mudo, enquanto o professor se inquiria como não havia percebido a mudança logo que o outro entrou pelo arco que separava o hall de entrada da sala de estar.

— Você parece... – começou, mas não terminou a sentença, voltando apenas a encarar os olhos escuros de seu irmão.

— Eu pareço...? – incentivou em resposta.

— Aconteceu alguma coisa que eu precise saber? – fez a mesma pergunta que Sasuke, quando ele começou aquela conversa.

— Aconteceram muitas coisas que você precise saber, mas eu preciso saber primeiro onde estão ’kaa-san e ’tou-san... Você estar aqui me poupa de ter que recontar a história novamente e... — ele respirou fundo para tomar coragem para admitir. — Eu preciso de você aqui, ’nii-san.

Itachi ponderou por um segundo; o seu irmão nunca havia pisado em seu próprio orgulho para pedir algo a alguém. Era estranho para o homem mais velho ver a mudança repentina, ainda mais tão radical. Em um curto espaço de tempo, o empresário demonstrou afeto de maneira física e ainda solicitou apoio, assumindo a sua inaptidão para lidar com o que quer que venha pela frente. Independentemente do que o atual presidente da Sharingan Corporation acreditava, ele sabia que o caçulo seria capaz de encarar o que estava por vir, mas de qualquer forma...

— Tudo bem. – assentiu, mesmo não sabendo exatamente o que seu irmão queria, e caminhou até o bar em um canto da sala. – Papai e mamãe estão no escritório desde que contei sobre Deidara. – comentou, pegando dois copos old fashioned³ e inserindo várias pedras de gelo. – Eu não sei dizer como ele tomou a notícia, porque a expressão dele ficou em branco assim que terminei de falar. Você conhece o ’tou-san; normalmente ele ficaria louco e começaria a esbravejar pela casa, ameaçando a mim e ao Deidara, mas nada disso aconteceu... E eu não sei o que esperar. – assumiu, cortando duas fatias de laranja.

— Eu juro que nunca imaginei você e o Deidara juntos. Vocês vivem se bicando por qualquer motivo. — sentou-se em uma das poltronas espalhadas pelo cômodo.

— Como se você e o Naruto não brigassem o tempo inteiro. — respondeu, dando um sorriso de escárnio e derramando o uísque para ambos. — Eu te conheço, Sasuke, e o pouco que sei do Uzumaki-san já me diz que ele também não é uma pessoa fácil de lidar. É irônico, mas talvez os filhos de Fugaku tenham nascido com uma propensão a gostar de loiros, olhos azuis e personalidades explosivas e impulsivas.

Os dois riram um pouco e Itachi entregou um dos copos para ele. Depois de uma pausa reflexiva, o mais novo tomou um gole, antes de considerar dizer o que estava pensando:

— Não se preocupe com o papai. – ele viu as sobrancelhas do irmão se franzirem em questionamento mudo. – Eu tive uma conversa com ele há alguns dias e... Enfim, eu acho que ele vai entender melhor do que se espera. – murmurou, apertando o objeto de vidro entre os dedos com mais força; inseguro. – Eu não posso dizer o mesmo sobre mim... – lambeu os lábios secos. – Há muita coisa em jogo.

Os irmãos ficaram em um silêncio desconfortável, cada um perdido em seus pensamentos.

— Você se decidiu, não é? – Itachi perguntou, quebrando a quietude extenuante.

— Sim... – respondeu simplesmente, tomando outro gole da bebida forte. O líquido desceu queimando sua garganta, mas o sentimento era bem-vindo, porque o distraía da angústia e ansiedade interior; talvez, os dois procuravam naquilo o alívio para as emoções conturbadas, porque tanto um quanto o outro estavam inseguros sobre o que viria a seguir.

Itachi não disse nada. Sasuke sabia o significado das consequências de suas decisões, sem que precisasse de alguém que apontasse suas falhas. O primogênito havia desistido de tudo no passado para poder viver uma vida ao lado de Deidara; infelizmente, sua escolha afetou completamente a vida de seu irmão mais novo, que abdicou de todos os seus direitos e deveres para consigo mesmo a fim de arcar com as responsabilidades jogadas pelas tradições da família. Ao mesmo tempo em que o professor de filosofia lamentava o que fizera, não podia/queria mudar o rumo que sua vida tomara.

Ele e Deidara viviam vidas opostas; os dois moravam em casas separadas, desempenhavam funções em áreas e em empregos diferentes e tinham personalidades completamente distintas. A única semelhança que compartilhavam era o sentimento que nutriam um pelo outro e o trabalho comunitário que faziam na Akatsuki. Por não ser mais considerado o herdeiro direto do trono da Sharingan Corporation, rapidamente os jornalistas deixaram de focar sua atenção nele para se dirigirem constantemente em Sasuke.

O homem mais velho até pediria desculpas, mas seriam palavras vazias, visto que não tinha culpa sobre os resultados de sua escolha. Jamais poderia imaginar que, 17 anos depois, o caçulo também se apaixonaria por alguém do mesmo sexo. Essa era uma daquelas situações inexplicáveis da vida, cuja influência não adveio de quaisquer decisões do passado e de outras pessoas, mesmo que, de certa forma, tudo o que aconteceu com Sasuke era responsabilidade dele mesmo, de Fugaku, de Mikoto, de Itachi, dos anciões, de Naruto... Em uma rede entrelaçada de caminhos contraditórios, mas interligados.

Antes que o primogênito pudesse continuar suas divagações, ouviu uma voz profunda e grave quebrar o silêncio neutro do cômodo:

— Itachi? – chamou, mas antes que pudesse continuar, viu o filho caçula se levantar em alerta. – Sasuke? Já voltou de sua viagem? Onde está a Sakura? – o timbre forte comandava, mesmo que o patriarca da família não estivesse dando ordem alguma.

— Sakura ficou em casa, eu precisava conversar com o senhor. – anunciou com o tom tremulando levemente em nervosismo. Ele torceu as mãos e as enfiou nos bolsos da calça, evitando que seu pai notasse a linguagem corporal insegura.

O mais velho daquela sala ergueu uma sobrancelha, analisando o homem com astúcia. Depois de ponderar um minuto, virou-se para Itachi.

— Venha até meu escritório. – exigiu, dando as costas para os dois a fim de liderar o caminho até sua sala pessoal.

— Eu prefiro que o senhor chame a mamãe e diga o que tem a dizer na frente de Sasuke, ele já sabe de tudo. – anunciou, ficando em pé também.

A postura do primogênito estava rígida, como se fosse um soldado prestes a receber ordens, mesmo que sua face continuasse imparcial. Os orbes negros brilhavam com determinação e força, demonstrando que o homem estava pronto para qualquer baque – à rejeição ou bronca. O mais novo assistiu com admiração a tentativa frustrada do outro em tentar relaxar, porque, embora estivesse temeroso, Itachi não iria vacilar, não iria voltar atrás e também não desistiria tão fácil das resoluções que tomou para sua própria vida; como da última vez, quando anunciou para toda a família que estava renunciando a direção da Sharingan Corporation e a liderança do clã para seguir seus sonhos.

Itachi às vezes o fazia se lembrar de Naruto. Os dois tinham essa tendência avassaladora de seguirem o coração, por mais que doesse e machucasse largar o que era importante, apenas para tomar posse do que era essencial. Para essa dupla, não existia nada que se relacionasse a baixar a cabeça; ambos chamavam a atenção para suas necessidades, anunciavam o "foda-se" e corriam atrás da felicidade, independentemente do que pensavam as outras pessoas.

"Será que Deidara é assim também?", questionou-se. Ele se sentia intimidado ao ver os outros ao redor não ponderarem tanto, quando ele só conseguia pensar no que suas atitudes poderiam acarretar para seus ideais, metas e sua família. Sasuke se sentiu ainda mais mesquinho, egoísta e infantil.

Estava mais do que na hora de agir como um homem.

— Há quanto tempo ele sabe? – Fugaku perguntou levemente irritado. Ele não esperava esse imprevisto em sua vida monótona e calculadamente programada. Ele odiava quando as situações saiam do seu controle.

— Menos tempo que vocês, se lhe consola saber. – o mais velho retrucou secamente.

— Não aja todo pretensioso agora, Itachi. – rosnou, apontando para os sofás e as poltronas. – Sentem-se. – ordenou e gritou com impaciência. – Naomi! – chamou uma das jovens que trabalhavam na mansão, que veio correndo para atender o patriarca. – Chame Mikoto, onegai. – fez um gesto de descaso com a mão esquerda, dispensando-a.

A mulher pequena saiu correndo e, alguns minutos depois, a matriarca surgiu pelo arco que dividia a sala de estar com o hall de entrada. Como sempre, a figura da senhora estava impecável; seu corpo magro estava coberto por uma calça flare branca, que alongava a sua silhueta curta e cobria a bota de cano curto e salto médio. Fora a aliança dourada em seu dedo anelar, ela usava anéis de pedras de minério, como turmalina e ágata negra. Ela nunca foi ligada a joias caríssimas e, sim, à beleza de uma peça. Acessórios feitos de rochas brasileiras eram relativamente mais baratas, mas possuíam formas exóticas e excêntricas, além de terem significados profundos, e como uma boa supersticiosa, a matriarca acreditava piamente nessas crenças.

— Me chamou, querido? – perguntou, colocando a mão no ombro do marido, antes de se afastar e estancar no meio do caminho até o sofá. – Sasuke?

— Mãe... — o caçulo nem teve tempo de respirar corretamente, pois a morena atirou os braços sobre os seus ombros em um abraço apertado. — Mãe? – chamou novamente, começando a corar de vergonha pela demonstração acalorada de afeto e pela falta de ar.

— Eu estava com tanta saudade! – ela afundou o nariz nos cabelos negros, fazendo sua voz sair abafada, enquanto balançava o homem como fazia quando ele era um bebe. – Você não apareceu mais em casa depois daquele dia. Eu fiquei tão preocupada, achei que estivesse bravo comigo, mas eu não sabia... Eu não sabia que se sentia daquela forma. Me desculpe! – foi falando em um só fôlego, derramando sua angústia.

Mikoto teve medo que o desentendimento de meses atrás pudesse afastar seus filhos. Quando Itachi continuou aparecendo nos almoços de domingo e Sasuke havia sumido, ela temeu que tivesse perdido um dos seus garotos por uma declaração impensada. Fugaku só arriscou o amor dos meninos para lhes dar tudo o que queriam e precisavam, infelizmente, o dinheiro não pode comprar tudo e isso inclui a felicidade e o apreço das crianças. Até hoje, ambos se sentiam distantes do pai, pois este passou grande parte da vida trabalhando como louco pela empresa da família, tentando ampliar as conquistas de seus ancestrais. A mulher não poderia culpar o marido, ele só fez o que pensou ser seu dever.

— Tudo bem, ’kaa-san... A culpa é minha, eu não deveria ter descontado a minha frustração em vocês... – lambeu os lábios secos, afastando-se. – Eu não seria capaz de ficar bravo com a senhora. – deu um sorriso pequeno, mas sincero.

A matriarca arregalou os olhos, assistindo o seu filho sorrir pela primeira vez em muitos anos. Seu coração falhou uma batida e, logo, um grande sentimento de gratidão tomou conta de seu interior, contente de que teve a oportunidade de ver a criança que Sasuke um dia já foi naquela figura crescida e madura. Mikoto achou que jamais veria aquele gesto novamente e isso a entristecia profundamente.

— Certo, vamos acabar rápido com isso... – Fugaku os interrompeu, esfregando os olhos com o polegar e o indicador, tentando amenizar a dor de cabeça iminente. – Itachi, eu e sua mãe conversamos muito a respeito do que nos contou... – começou, fazendo uma leve tensão se formar entre os irmãos, enquanto Mikoto abria um sorriso ansioso. – É nossa responsabilidade fazer com que Deidara se sinta incluído na família. Você tem direito a isso, assim como ele. Mas, fique sabendo, que nem todos os Uchihas aceitarão bem a sua escolha...

Itachi o cortou:

— O importante é que meus pais aceitem o meu namorado... – ele tentou segurar um sorriso, mas os cantos dos lábios, que sempre estavam apontados para baixo, tremiam com o seu esforço para se manter impassível.

— Você já não tem obrigação nenhuma com a família; você que arque com as suas decisões... – sua expressão, normalmente rígida, estava tranquila. – Sua única ligação é conosco – apontou para os presentes na sala. –, ou seja, comigo, como pai; Mikoto, como sua mãe; e Sasuke, como seu irmão; nós te aceitamos como é. Você é meu filho e já é um homem crescido e criado, a única expectativa que posso depositar em você é que seja feliz. Sua escolha te faz feliz?

Sasuke sentiu os olhos arderem e um bolo gordo se formar em sua garganta. Ele remexeu as mãos de maneira incomodada e se perguntou: "O senhor dirá o mesmo para mim, ‘tou-san?".

— Sim, muito. — a voz suave soou com a certeza grave de uma convicção de ferro.

— É o que importa para mim e para a sua mãe. – declarou com finalidade, batendo as palmas no braço da poltrona onde estava sentado, preparando-se para se levantar.

‘tou-san?— Sasuke chamou, fazendo um gesto com a mão esquerda, pedindo silenciosamente que o patriarca não se levantasse ainda. — Eu também tenho algo a contar.

Fugaku voltou a se encostar no estofado, um pouco surpreendido e cansado. Ele estava impaciente, mas o sentimento provinha do incômodo latejante de sua cabeça. O homem era velho e já havia se aposentado há muito tempo para passar por aquele tipo de estresse. O chefe do clã Uchiha acreditava que só precisaria tomar decisões daquele porte enquanto estivesse na liderança da Sharingan Corporation e seus filhos ainda eram seus dependentes, mas parece que ele se precipitou ao acreditar nessa verdade utópica.

Ser pai estava muito além de preparar e ensinar seus rebentos para a vida.

— Diga, Sasuke. – incentivou, vendo como o mais novo estava nervoso.

O empresário limpou o suor das mãos na calça de sarja e engoliu em seco. Ele não sabia por onde começar. Talvez, pudesse iniciar a novidade pelo que considerava ruim e depois jogar a notícia sobre a gravidez de Sakura a fim de aplacar o impacto de todas as informações que precisava dizer aos seus pais. Sasuke planejou toda a sua conversa antes de chegar à mansão, mas todo o cálculo feito se esvaiu, quando ouviu o que Itachi tinha para contar.

E a história se repetia; o caçulo assim como Fugaku, também odiava perder o controle sobre as situações.

— Eu e a Sakura vamos nos separar. – começou em um fio de voz rouco, pigarreando para tornar o seu timbre mais firme, repetiu. – Vou me separar da Sakura.

Mikoto arregalou os olhos, mas antes que ela pudesse expressar a sua discordância e indignação, seu marido a interrompeu:

— Posso saber o por quê? – inquiriu com o cenho franzido, confuso pela decisão inesperada. — Vocês acabaram de comemorar o aniversário de casamento. – olhou para o teto de maneira pensativa, ponderando a informação. – Ela está te traindo. – afirmou, estreitando os olhos, preparando-se para jorrar a sua ira.

— NÃO! – praticamente gritou, alarmado com a expressão de fúria no rosto idoso. – Pelo contrário... – demorou, lambendo os lábios secos mais uma vez e encarando o teto imaculadamente branco da sala, analisando as cantoneiras de gesso com falso interesse e se perdendo em pensamentos de remorso. — Eu estou traindo a Sakura.

A única mulher do cômodo levou a mão direita para cobrir a boca aberta. Decepção brilhou em seus orbes negros, porque ela não criou os seus filhos para tomarem aquele tipo de atitude. A morena fez o possível para ensinar o valor do amor e do respeito para os dois. "Em que parte eu falhei com você, Sasuke?", perguntou-se em desalento. Colocando-se no lugar da nora, a matriarca poderia imaginar a dor da jovem e seu coração se apertou em pesar.

Fugaku perdeu a fala por alguns minutos, olhando o caçulo com o cenho franzido em confusão e desagrado. Embora estivesse irritado, ele ficou quieto, esperando entender o que estava acontecendo. Anos atrás, o patriarca teria gritado sem sequer saber de justificativas, mas o homem diante de si não era mais uma criança e muito menos um adolescente inconsequente para tomar decisões precipitadas. A velhice lhe deu calmaria ao espírito e, hoje, ele ficaria em silêncio para que pudesse compreender.

— Eu não a amo. Nunca amei. – engoliu em seco, mais uma vez, e continuou. – Sakura era a união estável que todos esperavam que eu tivesse. A "Primeira Dama" perfeita para me ajudar a coordenar o clã, quando o senhor decidisse abandonar a liderança. A Sakura me lembra um pouco a mamãe: elegante, fina e diplomática; características fundamentais para acompanhar o líder que eu era suposto ser; além de respeitar o meu espaço e minhas decisões, mesmo que não concordasse com as minhas atitudes. – respirou fundo. – Tudo teria caminhado conforme o meu planejado, se eu não o tivesse conhecido... Minha perspectiva de vida era permanecer casado com a Sakura, ter filhos, porque mesmo não a amando, nossa relação era conveniente e pelo grande espaço que eu tinha, jamais me senti incomodado ou aprisionado a algo que não queria. – colocou as mãos no rosto e o esfregou, tentando amenizar a tensão de sua expressão. – Quando eu coloquei os olhos em Naruto, a primeira coisa que pensei foi: ele é o tipo de pessoa que sempre quis ao meu lado de verdade! Eu me forcei a esquecer de Sakura, da nossa família, porque eu não conseguia me manter longe daquele sorriso alegre, daquele olhar determinado e da sua presença quente... Pela primeira vez na minha vida, eu me senti vivo perto de alguém; senti que poderia ser o Sasuke que sempre fui e não o Sasuke que esperavam que eu fosse...

O Uchiha mais velho apertou os punhos, enquanto Mikoto deu vazão aos seus sentimentos. Lágrimas quentes escorreram pelas bochechas pálidas da mulher; seu peito apertado, porque ela jamais imaginou que seu filho pudesse estar sofrendo tanto. Ela apertou as mãos onde ficava o seu coração, agora comprimido, e, embora a emoção fosse negativa, lá no fundo, havia uma felicidade intensa, porque jamais pensou que Sasuke pudesse fazer declarações tão bonitas e amar uma pessoa tão densamente. Ela via no olhar ônix, o peso sincero de suas palavras.

— Naruto é, sobretudo, o homem que eu amo, mas também foi a minha válvula de escape para uma vida cheia de fachadas. – seu fôlego tremulava e ele tentava, a todo custo, impedir de expressar mais do que devia. – Eu adoro trabalhar na Sharingan Corporation, aquela empresa é a minha vida, e meu carinho pelos Uchihas também não é uma mentira, mas meu casamento e a imagem que tenho de manter para preservar a empresa e a família são apenas falsas aparências que me vi obrigado a adotar. – afirmou, olhando profundamente para os olhos da figura paterna. – E eu não quero continuar com isso, porque acabei perdendo uma das únicas pessoas que me importo e que me é extremamente importante. Por causa do meu relacionamento com Sakura, Naruto se afastou. E eu tentei... – pausa. – Tentei o máximo que pude para esquecê-lo, mas não consegui; pelo contrário, só me vi ainda mais preso e ligado a esse idiota que chamo de amante... – deu um sorriso amargo. – Não consigo mais fingir...

O empresário estava tão absorto dentro dos orbes do pai, que se sobressaltou quando sentiu um toque suave em seu ombro esquerdo. Itachi sorriu suavemente e apertou o controle sobre o irmão, tentando passar o conforto que ele precisava. Agradecido, o caçula agarrou o antebraço do professor de filosofia e assentiu com a cabeça, dizendo silenciosamente um "obrigado" e que "estava tudo bem".

— Eu só quero avisar que, independentemente do que digam, eu vou atrás de Naruto, mesmo com a gravidez da Sakura.

A última declaração surpreendeu a todos da sala. Mesmo o primogênito prodígio dos Uchihas estava com os olhos um pouco arregalados.

— Sakura está grávida? — Itachi perguntou com o costumeiro timbre suave, embora seu interior estivesse desnorteado.

Mikoto e Fugaku viram-se interessados na resposta, também confusos com o desenrolar dos acontecimentos.

— Eu e a Sakura conversamos e decidimos que vamos criar essa criança como pais separados. Negociaremos futuramente como ficarão as visitas... – foi interrompido pela voz grave do seu pai.

— Vocês decidiram me dar uma enxaqueca hoje? – o mais velho deles perguntou carrancudo, enquanto massageava as têmporas com o propósito de amenizar o incômodo latejante que só aumentava. — Vocês conseguiram, sozinhos, quebrar todos os paradigmas dessa família, que têm se mantido por séculos! Parabéns! – praticamente gritou em um tom irônico e ao mesmo tempo mal-humorado.

Sasuke se encolheu internamente pelas declarações secas e rígidas, enquanto Itachi já estava prestes a retrucar, quando o patriarca decidiu continuar, emudecendo todos da sala.

— O principal herdeiro dá as costas para a liderança da família, deixando toda a responsabilidade para o irmão caçula. – rosnou. – Me aparece, anos mais tarde, namorando um colega do Colegial. Além de ter se formado em Filosofia, ido morar em um apartamento minúsculo no Centro de Tóquio e dar aulas como um professor de classe baixa, ganhando um salário chinfrim e ajudando uma instituição social nos tempos livres, sem qualquer fim lucrativo. — esbravejou, levantando-se e andando de um lado para o outro no cômodo, como um leão enjaulado e enfurecido. — E você, Sasuke? Trai a sua esposa, vai se separar quando ela ainda está grávida e ambos vão criar uma criança como pais solteiros... E meus dois filhos estão envolvidos emocionalmente com homens! – ergueu as mãos para o alto num gesto mudo de clemência por calma.

— Fugaku... — começou a mulher, limpando o rosto molhado. Seus orbes negros brilhavam determinados, pois pela primeira vez em sua vida, ela estava pronta para interceder pelos filhos.

Ele ergueu o dedo indicador, pedindo silêncio. Ele trocou um olhar com a esposa e o que ela deve ter visto nos orbes do homem que amava, fê-la se manter calada. A expressão sempre relaxada da matriarca estava tensa e ela acenou positivamente com a cabeça, adotando uma postura anormalmente séria e uma aura atipicamente grave.

— Sasuke, você vai me ouvir e vai fazer tudo o que eu mandar, entendeu? – o tom lembrou o mais novo de quando ele era uma criança sendo repreendida pelo pai.

Os músculos do empresário ficaram tensos e ele se preparou, levantando-se e ficando na defensiva, enquanto olhava para a careta rígida do velho senhor. O atual presidente da Sharingan Corporation aguardou o pior ao ver as ondas hostis que o homem emanava.

Notas finais
’kaa-san¹ - forma simples, carinhosa e abreviada de “okaa-san”, mãe. ’tou-san² - forma simples, carinhosa e abreviada de “otou-san”, pai. Old Fashioned³ - copo redondo e curto, de 240 a 350 ml. Onegai⁴ - por favor. Calça Flare⁵ - inspirada nos modelos dos anos 1970, com o corte justo e a barra solta e larga. Também é chamada de “calça boca-de-sino”.