Deveres Do Coração

6 Soma de Mágoas


"No ciúme existe mais amor próprio que verdadeiro amor."
François La Rochefoucauld.

Capítulo 6 – Soma de Mágoas

Naquele dia, Sasuke não voltou para casa.

Ele dirigiu o seu Lamborghini Murcielago em direção ao apartamento de Naruto, pois estava tão eufórico sobre a conversa do pai, que se esqueceu de qualquer briga que os dois tiveram no dia anterior pelo telefone. A necessidade de compartilhar esse acontecimento e a felicidade de saber que Fugaku se orgulhava dele era tanta, que não pensou duas vezes antes de estacionar o carro na vaga reservada especialmente para ele no prédio simples.

Automaticamente, ele procurou no chaveiro a cópia da chave do apartamento do amante e como não encontrou, lembrou-se que havia devolvido o objeto para o dono. O Uchiha tocou a campainha e esperou impaciente para que o outro atendesse. Quando a porta se abriu ele se deparou com o loiro vestindo somente uma calça moletom preta e larga, que caia frouxamente pelo quadril delgado.

— Sasuke? – olhos azuis se arregalaram.

— Você não vai acredi-

Sua fala fora bruscamente interrompida pela visão de Sabaku no Gaara, na sala de estar da casa do Uzumaki, colocando uma camiseta off-white¹ no corpo para cobrir a nudez. Imediatamente seu humor mudou para um mais escuro e a força do seu ciúme bateu em seu peito de forma tão impactante, que ele cambaleou para trás.

— O que ele está fazendo aqui? – as palavras pausadas e forçosamente calmas pareceram alarmar ainda mais o loiro.

— Naruto, eu vou indo. – orbes verdes encararam o moreno profundamente, sem qualquer hesitação. – Mais tarde eu estarei de volta. – ele pegou as chaves do próprio carro em cima da mesa de café no centro do cômodo e passou pela porta; nem ao menos incomodado com a presença do Uchiha.

— Sas-

— O que ele estava fazendo aqui? – a pergunta foi repetida com mais impaciência, depois que o ruivo sumiu de suas vistas.

— A pergunta correta é: o que você está fazendo aqui? – ele contra-atacou, não querendo vocalizar algo tão óbvio, pois o incomodava dizer ao homem que amava que estava com outra pessoa.

— Primeiro responda a minha pergunta! – rosnou.

A ira correndo por suas veias era tanta, que ele mal tomava ciência sobre as suas ações. Ele agarrou fortemente um punhado de cabelo loiro nas mãos, de maneira que não causasse muita dor, puxando o rosto bronzeado para mais próximo do seu. Um dedo de distância os separava. Íris negras avaliavam o azul cobalto de forma analítica, querendo descobrir o que se passava pela mente do outro. Sasuke só conseguia ver que algo estava incomodando o mais novo pela cor mais escura dos olhos normalmente cerúleos, uma vez que nada mais passava pela expressão impassível.

— Você não tem que me forçar a responder uma pergunta que já sabe a resposta!

A certeza de algo é completamente diferente de se ter uma suspeita. As palavras do loiro confirmaram o que o Uchiha mais temia e o choque da informação foi tanto que ele teve que se afastar. Seu olhar – pela primeira vez desde que saiu da pré-adolescência – transbordavam emoções que nem sabia ser capaz de sentir. Todas as entranhas se retorceram e ele sentiu a forte sensação da bile subindo pela sua garganta. Todo o ar dos seus pulmões fora embora e ele ofegava audivelmente. Orbes azuis diante de si mostravam um sentimento que ele não conseguia definir, mas era algo semelhante à dor, tristeza e havia alguma outra coisa que ele não conseguia definir.

“Eu estou perdendo ele...!”, era o que a sua mente e coração gritavam.

— Por quê? – ele perguntou com a voz fraca, cerrando os punhos nas laterais de seu corpo.

— Eu estou tentando seguir em frente, Sasuke. – o loiro disse com uma voz tranquila que contradizia com as suas emoções. – Eu preciso te esquecer. – pausa reflexiva. – Você deveria fazer o mesmo.

Ele não suportava ouvir Naruto dizer que o deixaria para trás como se fosse nada, a ideia dele desistir do amor que sentiam era enlouquecedora, o seu corpo estremeceu ainda mais na ânsia em se controlar, já que suas emoções praticamente berravam em seu interior desnorteado. Ele se sentia como uma panela de pressão pronta para explodir, tamanha a intensidade do seu desespero.

— Você não precisa disso. – íris negras procuravam em volta algo que pudesse fazer o Uzumaki mudar de ideia. – Você sempre me teve, desde quando nos olhamos pela primeira vez eu sabia que seria seu, mas eu só não posso decepcionar a minha família e prejudicar a empresa... Eu estou com a Sakura, mas eu não a amo como você! – a última frase pegou o outro completamente desprevenido, fazendo-o arregalar os olhos em surpresa.

— Por que você faz isso? – o loiro se sentou no sofá, sentindo as pernas fracas. Ele agarrou a própria cabeça, afundando os dedos nos cabelos dourados. A postura do homem mais novo era tão inconsolável e miserável quanto os sentimentos do Uchiha.

— Faço o quê? – seus lábios se apertaram, tentando conter a vontade de abraçar o corpo encolhido do amante. Ele precisava ir com calma com Naruto nesse momento.

— Você me amar não muda nada, Sasuke. ABSOLUTAMENTE nada! – fúria escorreu pelo tom rouco do homem mais novo.

— Está fazendo pouco caso do que eu sinto por você! Eu NUNCA fui tão aberto emocionalmente como estou sendo agora e eu nunca disse a ninguém o que eu sinto, e, quando abro o meu coração pra você pela primeira vez, você me diz que não muda nada? O que significou, então, todas as vezes que você disse que me amava? – ele rosnou, sentindo o peito se comprimir ainda mais, angústia crescente com a rejeição do psicanalista.

“A que ponto nós estamos chegando?”, Sasuke se indagava freneticamente.

— Dói saber que me ama, sabe por quê? – gritou. – Porque o fato de você me amar, não é suficiente! – sua voz se elevava cada vez mais. – Eu não te tenho, porque você pertence à sua família... E à Sakura, ela também faz parte da sua família. Eu sou apenas o seu psicanalista, um amigo para todas as horas, mas eu nunca vou ser sua família, porque você nunca vai me deixar fazer parte dela... – as palavras foram perdendo a força na medida em que falava. Soou tão quebrado, que o coração do Uchiha pareceu ter parado. O empresário tentou abrir a boca para responder, mas não sabia o quê, então, Naruto continuou. – E mesmo que você diga que me pertence, sabe que isso não é verdade, porque não é para mim que você volta no final do dia, não sou a primeira pessoa que você vê quando acorda e nem a última quando vai dormir... – o loiro fungou ao mesmo tempo em que os olhos começaram a marejar, e, isso aumentou ainda mais o desespero do outro. Ele não sabia o motivo, mas só de imaginá-lo chorando era quase insuportável. – Deus, só de imaginar o que vocês fazem em uma mesma cama é enlouquecedor!

— Chega, Usuratonkachi.

— Eu sou um psicanalista que ajuda as pessoas a tomarem controle sobre suas vidas, suas emoções e seus desejos; eu deveria solucionar as questões que outros não conseguem resolver. – as mãos bronzeadas tremiam ao cobrirem os orbes azuis. – Que tipo de profissional eu sou se eu não consigo fazer tudo isso nem para mim mesmo?

— Dobe...

— Eu errei em ter deixado tudo isso chegar nesse ponto. Eu deveria ter te ignorado desde o começo, quando você começou a flertar e a me olhar com esses olhos e a lançar esses seus sorrisos... – disse com raiva, abaixando os braços e fechando os punhos do lado do seu corpo. – No começo era ótimo ter algumas noites de prazer com você, era conveniente e suficiente para mim tanto quanto era pra você, mas eu me apaixonei e tentei me contentar com apenas te ter por algumas horas... – um suspiro cansado. – Eu me coloquei no seu lugar para ver que, realmente, sua situação é muito complicada para assumir o que temos e eu tentei não pressioná-lo, mesmo que meu desejo fosse outro...

— Naruto... – ele começou, mas foi interrompido.

— E Gaara me mostrou que se eu não podia fazer nada, eu deveria tomar a iniciativa e acabar com aquilo que poderia estar nos prejudicando. – mordendo o lábio inferior, ele prosseguiu. — Até que ele confessou que sempre me admirou e que gostaria de receber a chance de me fazer feliz e de fazer tudo o que você não pôde; tirar essa falta que você me faz nos momentos que não consegue estar do meu lado...

— Cala a boba... – pediu Sasuke, franzindo o cenho e sentindo seu interior se agitar cada vez mais com o rumo da conversa. As palavras eram intoleráveis de se ouvir.

— Ele não é você, mas está me fazendo bem e...

O Uchiha não deixou que ele terminasse, caminhou a passos rápidos em direção ao amante e puxou-o pela nuca para colar os lábios juntos. O toque não era reconfortante. Era bruto, rancoroso e desesperado. Os dentes bateram juntos de forma dolorida e ambos os rostos estavam contorcidos em uma careta de desagrado. O loiro bateu os punhos no peito do homem mais alto com força, mas a dor não foi o suficiente para fazê-lo se afastar, pelo contrário, o corvo levou a outra mão para segurar com ainda mais firmeza o rosto que lutava para sair do controle apertado.

— Cala a boca! – o moreno rosnou de encontro à boca vermelha e irritada pelo atrito nada carinhoso.

O Uzumaki levou as mãos para puxar o cabelo negro e afastar o contato. Olhos azuis estavam afogueados pela raiva, embora houvesse um grande “quê” de desejo, que se acendeu devido à saudade de terem ficado tanto tempo longe.

— Você sente o que eu sinto agora? – o puxão foi tão forte que fez o outro cambalear. As costas vestidas com o terno caro bateram na parede atrás do corpo mais alto. – Me diga, Sasuke, como você se sente sabendo que a pessoa que você ama compartilha a mesma cama com outra pessoa? – a coxa bronzeada pressionou entre as pernas do outro.

— Eu pedi para você calar a boca. – olhos se estreitaram em aviso.

— Consegue me imaginar gemendo o nome de outro?

Não aguentando as palavras ditas em um tom cruel, mas também não querendo afastar a pressão deliciosa no seu pênis, o Uchiha mordeu o lábio do outro com ânimo para fazê-lo sangrar.

O loiro gemeu de dor, ao mesmo tempo em que ofegou de prazer. Ele ainda riu friamente, fazendo o moreno ainda mais irritado, embora o sentimento não tenha durado muito, pois Naruto soltou as mãos do cabelo negro e levou a palma esquerda para massagear a ereção por cima do tecido fino da calça social, levando-o a gemer. O corvo empurrou a pélvis para frente e afastou mais as pernas, querendo sentir ainda mais daquele afago erótico. O corpo pálido se sentia ainda mais sensível e Sasuke não sabia se era devido à falta daquele que amava, ou se era porque a esposa não era tão ousada no sexo como o amante, e que, por esse motivo, não se sentia devidamente satisfeito.

— Por que você gosta de me torturar tanto? – o nariz fino do rosto cheio de cicatrizes brincou com o lóbulo da orelha, sentindo o perfume marcante do mais velho. – Eu achei que tivesse deixado claro quando disse que estava tudo acabado, mas você gosta de continuar me tentando, me chamando para você como uma verdadeira puta desesperada... – ele abriu a calça que o empresário usava em movimentos rápidos e enfiou a mão por dentro da peça para acariciar o membro rígido.

A sensação da pele quente bombeando seu pênis, quase fez o moreno gritar, mas ele engoliu o som antes que saísse por sua garganta. Fazia tanto tempo que ele quase se esqueceu da sensação da pegada firme em torno de si. Ele olhou para baixo, assistindo, com os olhos semicerrados e nublados pela paixão, os dedos deslizarem por sua carne. O prazer era tanto que ele teve de se apoiar no ombro forte do outro, afundando os dedos e as unhas curtas na cútis dourada como forma de retaliação por Naruto estar o fazendo se sentir tão entregue e ao mesmo tempo tão angustiado com suas declarações atrozes.

Quando o loiro começou a afagar seus testículos, ele não conseguiu conter o som necessitado e vergonhoso que escapou pela sua boca, que logo foi capturada com igual carência pelo amante. O Uchiha sentiu suas roupas serem afastadas, ficando somente com a camisa e paletó abertos, indicando que o outro estava eliminando as restrições que o atrapalhava para, logo depois, tirar a própria calça e boxer que vestia. O psicanalista abraçou o corpo que era pressionado com força contra a parede e ergueu uma das pernas leitosas para facilitar o acesso à entrada enrugada tremendo de antecipação.

Havia uma pressa nas ações dos dois que vocalizava todo o desespero que sentiam, como se procurassem, naquele contado íntimo, acabar com aquela agonia de estarem tanto tempo separados. Naruto o penetrou sem qualquer cuidado, sem uma preparação e nem uso de lubrificante. A ação fez o corvo morder o lábio inferior de dor, para se impedir de gritar, e os olhos involuntariamente se encheram de lágrimas. O incômodo era tanto que ele teve que ranger os dentes com força para se controlar. O mais velho não reclamou porque queria isso tanto quanto o Uzumaki. A aflição era tanta que anestesiava outros sentimentos negativos, como todo o ciúme que ardia dentro do seu peito, juntamente com a raiva e a mágoa.

Antes que o empresário pudesse de acostumar com a invasão brusca e nada delicada, o loiro começou a se mover. As estocadas eram fortes e violentas, fazendo as costas pálidas baterem na parede imaculada e branca com agressividade. Com o tempo, a sensação dolorosa deu lugar ao prazer, já que as gotas de pré-gozo que saiam pela ponta do pênis do loiro, dentro do canal apertado, faziam com o que a penetração se tornasse cada vez mais fácil. Suor escorria pelas têmporas de ambos. Os dois se beijavam eventualmente, cortando o ato apenas para recuperar a respiração perdida e soltarem pequenos gemidos.

O loiro ergueu mais as pernas de Sasuke para aprofundar e intensificar o vai e vem de seus impulsos, fazendo com que seu membro estimulasse a próstata do moreno, que segurou o seu ombro com força renovada. Involuntariamente o mais velho movia o seu corpo de encontro ao do outro para atender a sua própria necessidade. O ato fez com que o prazer se aprofundasse, juntamente com a vontade de sentir o homem a sua frente.

Com os movimentos limitados, o Uchiha tentou tirar o paletó, a camisa e a gravata – pendurada frouxamente em seu pescoço – completamente abarrotados. Ele lambeu a pele dourada, provando o gosto salgado do suor, antes de morder a carne e chupar todo o lugar que poderia alcançar. Suas mãos apalpavam as costas e corriam até a bochecha macia da bunda, onde apertou com vontade, puxando a pélvis para tê-lo cada vez mais fundo dentro de si. Ele grunhiu, apreciando a sensação de estar preenchido.

Naruto fez com que as pernas leitosas enlaçassem a sua cintura, para que ele pudesse segurar o rosto bonito entre as mãos e encarar os olhos negros tão fascinantes. O corvo observou a fome, a paixão ardente e o amor naqueles orbes como uma alavanca para o seu orgasmo, que já estava próximo por causa da estimulação constante no ponto mais sensível do seu reto. Ele soltou um gemido entrecortado e seu corpo estremeceu em espasmos irregulares, o interior do seu abdômen se apertou, enquanto ele lançava a sua liberação. O moreno se agarrou no corpo do loiro, sentindo o sêmen preenchendo o canal da sua traseira. Por um momento ou dois, ambos ficaram na mesma posição, tentando recuperar o fôlego, até que o Uzumaki decidiu se afastar.

Sasuke suspirou audivelmente com a perda repentina do calor.

A cabeça loira afundou no seu pescoço pálido, mas os corpos ainda estavam longe. O Uchiha queria puxá-lo para mais perto, mas parou o impulso quando ouviu a voz rouca lhe sussurrar no ouvido.

— Isso não deveria ter acontecido...

Gotas quentes atingiram a pele da sua omoplata e ombro, fazendo o Uchiha se desesperar outra vez. Ele trouxe o mais novo para um abraço, sentindo os soluços tremularem o tronco definido e forte do companheiro. Ele não sabia o que dizer para acalmá-lo, e também não tinha a mínima ideia do que fazer para acalentar o coração do loiro.

— Perto de você, faço tudo errado. – fungou. – Eu te machuquei, não foi? – enxugou os olhos com as costas da mão e sem olhá-lo nos olhos, girou o corpo do empresário para olhar o estrago que havia feito. Ele viu o líquido pegajoso branco, levemente rosado devido ao sangue, escorrer pela coxa leitosa. Imediatamente ele se arrependeu. – Descul...

— Naruto, chega. – pediu em um tom de basta e se virou para pegar os braços bronzeados e erguê-lo. – Eu pedi por isso também! – passou os polegares pelo rosto com cicatrizes, a fim de apagar as manchas de lágrimas. – Eu não sou uma garota indefesa e se eu quisesse pará-lo, eu teria feito. Você sabe disso!

— Desculpa. – ele pediu mesmo assim, abaixando a cabeça para não ter que encará-lo. A vergonha e o arrependimento o corroendo por dentro.

— Pare de se desculpar, dobe! – seus olhos suavizaram e ele deu um beijo casto na boca vermelha.

Ambos permaneceram quietos, oprimidos pela força do silêncio incômodo, novo e constrangedor. Suas mentes derivando para caminhos opostos, até que Naruto decidiu tomar uma atitude, antes que fosse tarde demais.

— Vá tomar um banho e se vista. Você precisa ir embora, porque em breve o Gaara estará de volta. – ele se abaixou e pegou a calça moletom e a boxer laranja que estavam jogadas no chão.

O humor do Uchiha mudou drasticamente com a menção do ruivo.

— Você não vai deixá-lo, não é? – seus punhos se fecharam tão apertados que os nós dos dedos ficaram brancos e ele sentiu a vontade louca de socar o rosto bronzeado até que este ficasse irreconhecível.

— Não. – caminhou até o banheiro adjacente ao quarto principal do apartamento pequeno.

Apesar de o Uzumaki ter tanto dinheiro quanto o moreno, ele não era ostensivo. Sua casa possuía dois quartos, um ele usava como dormitório e o outro como escritório – que quem aproveitava era Sasuke, porque o loiro gostava de escrever sentado no chão e com o notebook na mesa baixa de café no centro da sala de estar. Havia uma cozinha ampla e espaçosa, mas com a decoração discreta, sem móveis opulentos, e dois banheiros, um no corredor e outro ligado ao aposento do amante.

Kurama estava deitado na grande cama de casal, com a cabeça depositada em cima das patas dianteiras. Quando o animal o viu entrar pela porta, ele jurou que o felino, com brilhantes pelos alaranjados, lhe lançou um brilho irritado e chateado pelo olhar acobreado. Ele se aproximou do gato, sorrindo minimamente.

— Hey, garoto, há quanto tempo... – sussurrou tão baixo que a voz saiu praticamente inaudível. Ele ainda ficava envergonhado quando Naruto o pegava conversando com o bichano, como se a bolinha peluda pudesse entender o que dizia; era comum do loiro ser idiota a ponto de fazer algo tão estúpido, não, ele.

O Uchiha justificava a sua atitude pelo afeto que sentia do animal, porque ele era a única ligação para a relação que tinha com o Uzumaki. Kurama era como um filho para o casal. Quando ele chegou perto do felino, o gato se levantou da cama, virou-lhe as costas com a calda erguida e correu para fora do cômodo em uma postura arrogante, com o nariz rosado levantado para o ar e o olhar presunçoso. Sobrancelhas negras de Sasuke se franziram em confusão.

— Não me pergunte o porquê, mas ele está irritado com você. – o amante estava encostado no batente da porta do banheiro, com os braços cruzados na frente do peito tonificado e uma toalha laranja enrolada na cintura.

O homem e sua fixação por essa cor extravagante.

Devia ser por este motivo que quando o corvo viu Kurama filhote no Pet Shop, com toda a sua figura pequena tingida pelas variantes desse tom, lembrou-se imediatamente do amante. Ele quase riu com a memória. Diferentemente dos irmãozinhos, que lutavam pela atenção de um possível dono, os olhos acobreados olharam para ele com descaso absoluto e ainda bocejou em preguiça, enquanto fingia que o humano que o observava, nem existia. A personalidade do animal lembrou-lhe de si mesmo.

Ele nem pensou duas vezes quando decidiu adotar o gato.

— Eu acho que a bola de pelo sente a sua falta. – Naruto murmurou pensativamente.

— Hn. – caminhou com passos pesados até o outro, focando o olhar no tecido que cobria sua genitália. Olhos negros encaravam a figura do amante com fome e desejo indisfarçado.

Vendo a postura predatória, o coração do Uzumaki começou a palpitar rapidamente e ele colocou ambas as mãos na frente do corpo para protegê-lo do possível ataque.

Teme, você precisa tomar um banho, porque está fedendo a porra! – gritou, olhando os lados freneticamente a procura de uma rota de fuga. Antes que pudesse se afastar, sua cintura foi agarrada por braços fortes e pálidos.

— Eu não ligo para o meu cheiro se vamos estar sujos outra vez, assim que eu terminar com você. – afundando a mão direita nos fios dourados, observando com diversão as bochechas com cicatrizes ficarem rosadas.

— Se você não me largar agora e entrar nesse banheiro, juro que eu mesmo te jogo dentro do chuveiro! – colocando as duas mãos no rosto delicado do homem para impedi-lo de alcançar os seus lábios, amassando a face bonita.

— Desde que você entre comigo, eu não vou me importar. – segurando os pulsos com força, ele chupou a carne do lóbulo da orelha, fazendo o homem ofegar.

— Sasuke, o Gaara vai chegar a qualquer minuto! – sua pélvis automaticamente voou de encontro ao quadril do moreno, como se seu corpo, sem a sua autorização, pedisse para que saciasse o prazer que estava começando a se construir no seu baixo-ventre.

— Isso não é problema meu. Quero mais é que ele chegue e...

O Uchiha foi separado bruscamente pelo loiro, que reuniu toda a sua força para se afastar. De repente, todo o humor do quarto ficou mais sério e o olhar azul estava novamente tingido de cobalto.

— Tome o seu banho e depois saia. – a voz saiu ainda mais grave e rouca. – E não me procure mais!

Ele assistiu lívido, Naruto vestir uma boxer limpa da cor branca, a calça moletom que usava anteriormente e uma camiseta laranja de malha fina. Com passos firmes, saiu do quarto e de longe, o empresário pôde ouvir o barulho da porta de entrada batendo. O Uzumaki saiu e o deixou sozinho no próprio apartamento, porque Sasuke não conseguia controlar a língua e a personalidade possessiva.

(***)

Para dizer que ele estava irritado, era um eufemismo. O empresário andou coxeando por todo o edifício da Sharingan Corporation, por causa da dor em sua bunda, o que atraía olhares de todos os funcionários, que se perguntavam se o Uchiha tinha se acidentado de alguma forma. Mal sabiam eles, que o moreno estava dolorido desta maneira, porque o seu (ex) amante havia lhe tomado sem qualquer preparo e/ou lubrificação.

Na hora ele não se importou, mas agora se arrependia – e mesmo assim, faria de novo se lhe dessem a oportunidade.

Sasuke não conseguiu dormir durante a noite, pensando sobre o homem loiro. Na noite anterior, quando ele estava saindo do apartamento, Sabaku no Gaara entrou e o olhou como se fosse menor que um inseto. Ele não vacilou sob a afronta indisfarçada, pelo contrário, encarou-o como se seus orbes negros pudessem transmitir todos os seus sentimentos negativos para com o rapaz.

O ruivo nem ao menos perguntou sobre Naruto, ele entrou se sentindo em casa e, pelo visto ficou, esperando pelo dono da residência. Esse fato fez o moreno queimar em fúria mal contida. Seu incômodo era tanto, que toda vez que fechava os olhos, conseguia ver o dono da Suna Enterprises Communication tocando o Uzumaki e estando tão íntimo quanto ele estivera ontem. Só de imaginar, o seu estômago doía tanto, que Sasuke recusou o jantar e o café da manhã de sua esposa.

Ele sentia como se estivesse enlouquecendo e sufocando pela corda invisível dos seus problemas, que teimava em permanecer em seu pescoço, cada vez mais apertada.

O Uchiha fechou a mão em punhos com um aperto de morte, tornando os nós de seus dedos ainda mais brancos. Quando ele chegou em sua sala, a primeira reação para descontar a frustração exacerbada foi socar a mesa com tanta força que a fez estremecer, os papéis que estavam em cima da placa de mogno voaram por todo o carpete acinzentado, devido ao movimento brusco. O sentimento agonizante de não ter o controle sobre a sua vida e sobre as suas emoções era semelhante a um acesso de pânico – sua respiração saía em calças curtas e o peito parecia constrito.

Ele tentou relaxar, sentando-se um pouco para refrescar os pensamentos, mas sua principal vontade era se levantar da cadeira giratória de couro preto e voar para o apartamento de Naruto. Dizer e gritar que não queria estar casado e que ele se separaria da esposa só para poder ficar com ele, mas o senso de dever era maior. Ele acreditava que se seu pai soubesse o que o faria feliz, jamais concordaria e diria que a sua atitude imprudente levaria o sobrenome da família para a ruína. A empresa, o legado dos Uchihas estava em suas mãos e ele ainda tinha muitas responsabilidades que não poderia deixar de lado.

“Quanto tempo mais eu terei que aguentar até conseguir esquecê-lo?”, se perguntava. Sasuke não queria outro amante, ele queria apenas o seu psicanalista, o lindo loiro de olhos azuis, com corpo construído por músculos firmes e uma bunda redonda.

Ele lambeu os lábios, meio desejoso, meio aborrecido.

Já que era o desejo do loiro para que o deixasse no passado, ele o faria. Dedicaria seu tempo para Sakura e tentaria reaprender a amar a mulher de cabelos cor-de-rosa. Nesta noite, ele levaria um vinho tinto para casa, os dois teriam um jantar especial. A partir de agora, ele seria o marido que toda mulher quis ter.

Pelo menos, era nisso que Uchiha Sasuke esperava.

Notas finais
Off-white¹ - branco acinzentado, mais discreto que a tonalidade gelo.