"Desenvolver força, coragem e paz interior demanda tempo. Não espere resultados rápidos e imediatos, sob o pretexto de que decidiu mudar. Cada ação que você executa permite que essa decisão se torne efetiva dentro de seu coração." — Dalai Lama.

Capítulo 13 – Rumo

"Você vai voltar para o apartamento onde mora com a Sakura e vai continuar convivendo com ela da mesma forma que sempre conviveu."

Sasuke fez exatamente o que seu pai mandou exceto que as coisas eram um pouco mais diferentes agora. Ele voltou para casa, carregando todas as suas malas novamente; cansado e frustrado. Em sua vida, nunca pensou que seria tão difícil alcançar a felicidade. Para Itachi parecia ter sido muito mais fácil. Ele só descartou a liderança do clã e se abdicou do trono da Sharingan Corporation para conseguir viver sossegadamente com a pessoa que amava. Infelizmente, tudo era menos simples para ele, porque não tinha mais para quem transferir suas responsabilidades. A quem mais poderia recorrer, senão seus familiares? Ninguém. O problema, é que os interesses dos seus parentes não eram os mesmos que os dele.

Sua esposa arregalou os olhos como pratos ao vê-lo na sala de estar, com toda aquela bagagem a sua volta. Sua preocupação era nitidamente maior, que o próprio Uchiha sentia naquele momento, pois ela não esperava seu retorno, pelo contrário, esperava não mais vê-lo ao redor por um tempo, justamente porque sabia que Sasuke procuraria Naruto tão logo voltasse para Tóquio.

— O que aconteceu? – ela conseguiu balbuciar, enquanto descia as escadas do apartamento duplex, segurando firmemente o corrimão de vidro.

Ela usava um short jeans com estampa floral e uma blusa de malha branca, que caía frouxamente em seu tronco magro. Os cabelos róseos estavam presos em um coque frouxo com vários fios soltos para emoldurar o rosto delicado e os pés, descalços contra o piso de mármore.

— Eu não poderei abandonar a presidência da Sharingan Corporation. – ele declarou simplesmente, abstendo-se de esfregar o rosto para ver se o ato amenizava a fadiga que tomou conta de seus ossos, da sua pele e do seu interior.

Sakura refletiu um instante, pois aquela declaração parecia significar um mar de possibilidades. Ela não sabia o que pensar e, Sasuke também não ajudava ao permanecer com aquela cara pacífica e indiferente, sem lhe dar o espaço necessário para decifrá-lo.

O moreno começou a andar até o bar no canto da sala, assumindo uma pose indolente e despreocupada que contrastava completamente com a real gravidade da situação. Ele pegou um copo de vidro e derramou conhaque com uma pressa “quase” desesperada sob os olhares atentos da esposa. Era perceptível a necessidade do corpo masculino em relaxar e o álcool parecia ser o seu único alento para aquele momento.

— O que quer dizer? – ela perguntou, seguindo-o como a velha consorte chata e grudenta que foi no passado. – E o Naruto?

Ela estava curiosa e se o homem não a respondesse em breve, Sakura não seria responsável por seus atos. Como forma de respeitar o que o ex-marido estava passando, ela estava até tentando frear a avalanche de indagações, sabendo que não era a hora certa para aquilo, mas ela não saberia dizer o quanto aguentaria, visto como sua impaciência crescia a cada instante com a atitude reticente e vaga. Na sua mente, ela se imaginou pegando o colarinho do Uchiha e o chacoalhando até obter as respostas que queria. Talvez, a gravidez não estivesse fazendo bem ao seu humor, que desde sempre foi um pouco descontrolado.

— Exatamente o que significa. – sentou-se no sofá forrado de tecido granitê creme e tentou soltar os músculos presos em uma postura descontraída. – Ficar com Naruto não vai ser tão simples como eu imaginei... – esfregou a testa com a ponta dos dedos.



Apesar das dificuldades, ele se manteve firme e forte, cumprindo todas as demandas de Fugaku e esperando que o tempo corresse mais depressa, porque cada segundo longe do Uzumaki era uma nova tortura.

Se em sua adolescência, alguém lhe dissesse que ele amaria alguém mais do que a si mesmo, o Uchiha soltaria um riso debochado. Para ele, não havia maneiras de algo do tipo acontecer, porque sempre foi muito autocentrado, egoísta e individualista. No entanto, a situação havia mudado. Ele era capaz de olhar além do próprio umbigo e ponderar os desejos e as ânsias do próximo, sem se colocar acima de ninguém.

E quem mais sentiu essa diferença foi a sua esposa.

O empresário não passou a amá-la como a modelo queria, mas a proximidade dera uma nova profundidade para o relacionamento.

Ela ainda se sentia abandonada por sua paixão não correspondida e ele, vazio sem o seu verdadeiro amor por perto. Mais uma vez, a união entre o casal era conveniente, juntos se apoiavam mutuamente sem cobranças desnecessárias ou dramas exagerados. Quando Sasuke pensava que não seria mais capaz de suportar a ausência de Naruto em sua vida, a mulher se aproximava com a barriga cada vez mais evidente pelas camadas de roupas e um sorriso suave, lembrando-o das responsabilidades e dos deveres maiores a serem cumpridos antes da bonança. A criança não tinha culpa dos seus atos egoístas e ele não seria tão cafajeste ao ponto de fazê-la pagar por erros que não havia cometido.

— Vocês estão vendo aqui? Esses são os bracinhos. – a obstetra analisou a imagem que mostrava na TV pequena, apontando com o dedo da mão livre na parte a qual comentou.

O Uchiha estava com os olhos um pouco arregalados ao tentar associar aquela forma distorcida ao seu filho ou filha. Ele parecia uma criança recém-descobrindo o mundo; seu tronco estava ligeiramente inclinado para frente – demonstrando involuntariamente todo o interesse no que a médica dizia – e seus lábios estavam um pouco abertos, mostrando à Sakura que o homem estava um tanto perplexo.

Ela riu disfarçadamente e voltou a olhar para o televisor, encarando com carinho a prova física de que finalmente seria mãe. Seus olhos marejaram e ela coçou o nariz com as costas da mão, tentando empurrar o choro de lado por saber que aquilo acabaria com toda a magia do momento ao chamar atenção para algo tão desnecessário.

— Pelo que estamos vendo, o bebê está saudável e se desenvolvendo superbem. – a doutora continuou, movendo o leitor sobre a barriga arredondada e digitando algo em seu computador.

A curiosidade preencheu o moreno e ele se encontrou mordendo a carne do beiço para se impedir de lançar uma enxurrada de questões. Seu interior estava agitado com dúvidas incessantes e seus orbes escuros ponderavam entre o equipamento de última geração e a profissional vestida com um uniforme verde claro. Só aqueles pequenos fragmentos de informação não eram suficientes para saciar a sua cede e ele queria saber tudo sobre o bebê.

De repente, ele começou a ficar aborrecido, porque estava pagando o hospital mais caro, apenas para ser deixado no escuro e na ignorância perante algo tão importante. Aquele lugar deveria ter ultrassons melhores, porque aquele não mostrava detalhe nenhum da criança. “Nem a cor do cabelo dá para ver nessa tela horrível!”, pensou com incoerência, tamanha a sua urgência.

Sakura encarou o esposo com certa preocupação, afinal, o rosto que antes estava desorientado, agora dava pequenos indícios de contrariedade. Talvez, as trocas de humor da jovem estivessem afetando o empresário em mais maneiras do que ela poderia imaginar.

— É menino ou menina? – ele perguntou de supetão, ansioso e irritado com a incompetência da obstetra, que já deveria ter vomitado tudo o que ele queria saber, assim que eles entraram na sala de exames.

A doutora se assustou um pouco com o tom imperioso e impaciente. Ao olhar para trás, ela encontrou um par de olhos negros a encarando com fúria. A médica estava acostumada a receber tratamento semelhante das mulheres, que eram um pouco mais instáveis e energéticas devido aos hormônios e não dos homens, que no geral se mantinham quietos e isolados, por se sentirem um pouco deslocados com o ambiente claramente feminino. Diferentemente do comum, aquele futuro pai parecia estar mais aflito que a esposa.

Sakura encarou o teto, entediada e um tanto confusa. "O que a paternidade fez com o Sasuke-kun que eu conheci?", questionou-se silenciosamente.

— Bom, nesse estágio da gestação é possível dar um palpite. Quanto melhor o ângulo do bebê dentro da barriga, maior é a possibilidade de acerto. — ela empurrou a sonda com mais força na barriga da modelo, fazendo-a se remexer desconfortável com o cutucão. O movimento brusco pareceu ter feito o feto se remexer e ela buscou, através dessa oportunidade, uma chance de poder descobrir o sexo da criança.

— Qual é a porcentagem de você acertar? – seu tom era quase negociador. A natureza empresarial se intrometendo até nos momentos mais improváveis, fazendo com que Sakura rolasse os olhos.

— Sasuke-kun, por que não esperamos mais um pouco? Ainda está cedo... – ela tentou dissuadir, mas foi interrompida.

— De 60 a 70%. – a médica respondeu. Pela forma como o bebê estava se desenvolvendo, ela até tinha uma suspeita.

— Hn.

Depois da reviravolta em sua vida, Sasuke nunca mais temeria correr riscos. Uma pequena possibilidade a favor dos seus propósitos já era o suficiente para fazê-lo se arriscar. Não importava se a obstetra errasse, o que importava mesmo era se dar o benefício da dúvida. Ele aprendeu melhor do que ninguém que o medo de se aventurar só trazia perdas. Por receio de prejudicar a sua família e por ter acreditado piamente que Naruto jamais se afastaria, ele evitou lutar pelo que realmente queria.

Um único erro, que trouxe diversas consequências.

Agora ele estava sozinho, correndo atrás de algo que abdicou no passado, trabalhando para evitar que seus deslizes prejudicassem as outras pessoas novamente e reconhecendo que, se tivesse feito tudo mais cedo, as coisas seriam menos complicadas.

Uma vez que a oportunidade se vai, é muito mais difícil chamá-la de volta. E dessa vez, ele não perderia mais tempo; não esperaria mais tempo...

— É um menino. – a obstetra sorriu, dizendo com uma convicção tão forte que convenceu até a si mesma.

Tanto Sasuke como Sakura tiveram a mesma reação: ambos pararam como se refletissem sobre o que acabaram de ouvir e se entreolharam. Dentre eles, a mulher foi a primeira a tomar uma reação, devido à empolgação:

— Você ouviu isso, Sasuke-kun? O nosso bebê é um menino! – riu, acariciando a parte da barriga onde não estava melada de gel. – Espero que ele seja tão bonito quanto você. – comentou ao mesmo tempo em que corava como uma colegial apaixonada. Certas coisas não mudavam.

Ele só conseguiu dar um pequeno aceno de cabeça, enquanto cruzava os braços e fechava os olhos. Por mais que ele tentasse controlar, um pequeno sorriso despontou em seus lábios e sua mente vagou cada vez mais longe e alheio à conversa entusiasmada entre as duas mulheres. O Uchiha só conseguia pensar no que ensinaria ao seu filho; no que ambos fariam juntos...

Sasuke não conseguia focar seus pensamentos em uma única linha de raciocínio, tantos eram os devaneios que tinha de uma só vez.



Sasuke ajeitou a gravata e apertou o nó, deixando-o bem rente à gola da camisa branca. Hoje seria um dia importante e ele queria estar mais do que impecável. Seus olhos estavam focados na imagem refletida no espelho, mas estavam longe de enxergar o que estava à sua frente.

Em uma análise dos meses anteriores, o moreno se deu conta de que a gestação não mudava somente o sexo feminino, transformava também um homem. De repente, todas as suas atitudes adquiram um significado duplo, porque antes de pensar em si mesmo, ele pensava também no filho.

Infelizmente, como Fugaku, ele tendia a ser um pouco controlador e arrogante, ditando ordens e esperando ser obedecido sem questionamentos, mas por saber o quão desagradável era receber esse tipo de atenção, Sasuke tentaria ser um pouco mais ponderado na criação e educação daquela criança. Ele não queria que o menino passasse o mesmo que ele havia passado na infância e na adolescência. Deixaria claro que, apesar de ser distante e transmitir certo descaso em suas ações, ele jamais seria indiferente.

Ao pensar em seu próprio pai na pele de um futuro pai também, compreendeu os motivos que levaram Fugaku a agir como agiu no passado. Por mais que o velho aparentasse desprezo, seu afeto se mostrava em pequenas atitudes veladas. A concepção de carinho do homem se resumia em orientar seus filhos para que pudessem se defender e viverem sozinhos. O mundo é cruel e a vida é bem dura para aqueles que não sabiam ser independentes, por isso, o patriarca sempre fez questão de ensiná-los com certo distanciamento, a fim de não torná-los crianças muito submissas.

Naruto dissera aquilo há anos. Seu psicanalista, aparentemente desligado e distraído, era bastante perspicaz. De fato, para entender Fugaku era preciso perceber e interpretar com cuidado as ações. Lembrar-se do passado, fê-lo ter vislumbres de como o velho Uchiha sempre cuidou de seus filhos, mesmo quando os dois já estavam crescidos e criados. Dar-lhe férias e forçá-lo a viajar há alguns meses não era só uma forma de fazer com que ele se desse melhor com Sakura, era a maneira que encontrou de lhe proporcionar um descanso. O homem aparentava não pagar nem meio olhar aos seus assuntos, mas ele era muito mais perceptivo do que demonstrava.

Pensar em ser pai estava lhe fazendo entender o verdadeiro significado por trás da palavra e, ao mesmo tempo em que era uma responsabilidade a qual ele temia, sempre foi algo que desejou muito. Dos poucos sonhos que teve ao longo da vida, ele conseguiu, através de muito esforço, realizar pelo menos três: tomar a frente da empresa de sua família; continuar a linhagem Uchiha; e conseguir a admiração de Fugaku e Itachi.

Outro desejo, que foi adicionado recentemente à sua pequena lista de anseios, era ter Naruto de volta. Dia após dia, Sasuke fantasiava o momento em que poderia voltar para casa; para onde realmente pertencia... E era com essa ambição em mente, que ele seguia vivendo.

— Sasuke-kun! – uma voz feminina gritou entusiasmada.

O homem estava lendo em seu escritório e assim que ele viu a figura pequena e barriguda da esposa entrar pela porta, ele baixou a haste dos óculos para observá-la melhor.

— Sim? – perguntou calmamente, soltando o livro em cima da mesa de mogno e a assistindo parar com um sorriso gigantesco estampado no rosto delicado.

— Ele está um pouco inquieto hoje! – respondeu, pousando as mãos na barriga saliente. – Sinta! – ordenou, aproximando-se do marido, erguendo a blusa e agarrando o pulso pálido para fazê-lo tocar seu ventre sem nada que atrapalhasse o tato.

Ambos ficaram em silêncio, enquanto Sasuke se concentrava em sentir qualquer impulso. Ele estava um pouco desconcertado em tocar a mulher tão intimamente, desacostumado àquele tipo de contato depois de tanto tempo, mas tentou ignorar o sentimento para se atentar exclusivamente a qualquer movimento do filho.

Seus pensamentos foram calados quando ele sentiu um solavanco forte, que fez a região tremelicar violentamente. Os orbes negros se arregalaram, enquanto encaravam com perplexidade as íris esverdeadas.

Sakura sorriu.

Com a curiosidade aguçada, ele levou a outra mão até o estômago da mulher para sentir outro abalo na pele. Era a primeira vez que experimentava tal sensação, porque em todas as outras vezes, o Uchiha estava trabalhando ou não estava por perto para sentir o menino se mover. Sasuke não sabia o que dizer, pois a emoção que tomou o seu ser era indescritível...

— Ele é bem agitado. – ele comentou tentando parecer casual e indiferente, mesmo se sentindo surpreso e emocionado.

A situação era tão nova, que ansiedade bateu sobre ele, fazendo seu coração falhar uma batida, antes de acelerar de vez.

— Eu acho que ele está um pouco impaciente. – ela sorriu amplamente, observando o brilho quase infantil nos olhos escuros.

— Ou mal-humorado... – supôs, franzindo o cenho ao sentir outro forte impulso bem onde sua palma estava parada.

Como birra, o corvo empurrou levemente a barriga da esposa, dizendo indiretamente que o menino não tinha razão para estar tão irritado, afinal, o moleque estava no conforto quente da barriga da mamãe, superprotegido, enquanto ele lia e relia contratos longos e cansativos.

Sakura estranhou um pouco a atitude tola, esquisita e anormal do homem, mas ficou quieta, apenas observando aquela troca singela, curiosa para saber o que se passava na cabeça do ex-marido, até que um forte chute a fez agarrar o ventre, um pouco chateada com aquela movimentação incessante.

— Ai! — franziu a testa, massageando a barriga com ambas as mãos. Pelo visto, o menino iria puxar o mesmo comportamento arredio do pai.

Ela estava tão concentrada em acalmar o bebê, que não reparou no sorriso satisfeito que tomou conta do rosto masculino. Sem seu consentimento, o moreno deu outro cutucão perto de seu umbigo e segundos depois, ela sentiu outro movimento violento. Os chutes eram tão firmes, que era possível ver a pele se mexer por causa do ataque interno. Não doía, mas também não era agradável, no entanto, aquela interação entre pai e filho era tão surpreendente, que Sakura não reclamou. Enquanto Sasuke empurrava seu estômago, a criança dava outro impulso, como uma resposta muda para as provocações.

E Sakura se sentiu encantada e hipnotizada pelo comportamento quase infantil do homem, que brincava com o bebê sem a usual máscara de frieza.

Era engraçado que mesmo não tendo nascido ainda, os dois parecessem nutrir uma ligação que transcendia o seu entendimento. Ainda que o Uchiha não interagisse frequentemente com a criança, ocupado demais com a presidência da Sharingan Corporation e inapto às demonstrações físicas de afeto, o menino parecia compreender e entender inconscientemente a presença paterna, tornando-se agitado quando Sasuke se dirigia a ela, como se quisesse dizer indiretamente que estava ouvindo também. O homem não falava com o seu ventre, não cantava e muito menos passava a mão em seu corpo para que o bebê também se sentisse acariciado – era demais esperar essas atitudes de alguém tão resguardado –, mas ele demonstrava todo o seu carinho na forma como batalhava para garantir um futuro promissor para seu primogênito.

Sasuke estava abrindo mão de sua própria felicidade por causa do garoto e, talvez, o filho tomasse nota deste fato também.



"Antes de essa criança nascer, eu vou te dar a liderança do clã. Você já tem idade e maturidade o suficiente para cuidar desta família."

A cerimônia de sua posse havia sido simples; apenas os que pertenciam aos Uchiha compareceram à reunião. Depois de um longo discurso sobre a forma como havia coordenado e administrado as finanças e os problemas internos daquela geração, Fugaku admitiu que se sentia orgulhoso pelo posto ocupado ao longo dos anos, mas que já era hora de deixar a cadeira principal para seu caçula. Finalmente, ele se sentia pronto para abdicar do posto, uma vez que Sasuke lhe havia provado competência, ao cuidar de um dos maiores legados deixados por Madara.

Sua primeira ação, assim que tomou a liderança, foi remanejar a ocupação dos cargos do conselho. Antigamente, apenas os mais velhos ocupavam a bancada no topo da pirâmide hierárquica Uchiha, o que tornava as tradições ainda mais rígidas e quadradas. Agora, com a reorganização, os jovens também passaram a ter o direito de dar a sua opinião na tomada de decisões. Muitas regras no Japão haviam mudado, mas eles ainda mantinham alguns costumes que não acompanharam as mudanças culturais do povo japonês e Sasuke fez questão de modificar essa situação.

A princípio, muitos demonstraram certo receio em aceitar as novas demandas, mas acabaram acatando as ordens sem demasiados questionamentos. Os únicos que pareciam ainda irredutíveis eram os anciões, que não gostaram nada das modificações. Contudo, o empresário estava indomável e ele faria o que deveria ser feito, principalmente por seu filho, que ocuparia o seu lugar no futuro. Ele queria deixar tudo pronto para quando a criança nascesse a fim de dar ao seu garoto uma infância livre de regras que o impedissem de ser feliz.

O presidente da Sharingan Corporation queria dar a oportunidade que não foi lhe dada na época e com seu jeito arrogante e dominador, ele conseguia tudo o que queria, porque ignorava todas as dúvidas que lhe lançavam, tendo a mão firme sobre suas escolhas e sobre todos, exceto...

— Eu quero que você faça parte do conselho. – Sasuke não perguntou, ele simplesmente jogou a demanda e esperou pacientemente por uma resposta de consentimento.

Itachi ergueu uma sobrancelha, debochando do gênio autoritário. Seu irmão caçula estava começando a acreditar que por ser líder do clã, podia sair por aí lhe ditando ordens. Ele era o mais velho acima de tudo e o mínimo que Sasuke deveria fazer, era lhe pedir uma opinião. Pelo visto, ele teria que dar um corte para que este percebesse qual era o seu verdadeiro lugar.

— E se eu disser "não"? — cruzou os braços e se encostou confortavelmente no estofado da cadeira.

O homem franziu a testa com aquela resposta. Seus olhos negros cavaram a figura imponente do mais velho e analisaram a expressão apática do outro, tentando ler o que se passava na mente surpreendente. Itachi era alguém imprevisível e ainda mais difícil de entender, isso sempre frustrou Sasuke, que tentava até hoje compreender as razões que guiavam as decisões daquele que sempre considerou o seu herói.

— Eu não lhe dei o benefício da dúvida. Você vai fazer parte do conselho e pronto. – bateu o pé direito ritmicamente no carpete bordô, tornando-se impaciente com aquele “bate e rebate”. Seria tudo tão mais simples, se o primogênito simplesmente aceitasse seu convite.

A figura do professor parecia descontraída, apesar da linguagem corporal fechada. Ele rodava a cadeira de um lado para o outro tranquilamente, como se ponderasse com calma a ordem do caçula. Aquela prudência era tanta, que estava começando a puxar outro nervo do irmão caçula.

— Por que não convida o papai? Acredito que ele seja mais apropriado para o cargo que eu. – aconselhou, mas pela reação de Sasuke, que fez um bico amuado e quase corou timidamente, ele entendeu o que podia ter acontecido. No entanto, ele não fez questão de admiti-lo, pois queria ouvir da boca dele a aceitação de sua derrota.

‘tou-san não aceitou. Disse que está muito velho para isso e que eu e você já demos dor de cabeça o suficiente para ele. — assumiu em um quase sussurro. Era um custo doloroso admitir que houvesse falhado em tentar dobrar o pai.

Para Itachi, o mais novo parecia uma criança cujo doce lhe foi negado. Ele quase riu dessa percepção fora de ordem, pois a atitude cabisbaixa não combinava em nada com a personalidade que o homem insistia em mostrar para as outras pessoas. Ele sabia que aquela era uma reação natural de um velho Sasuke, que ainda se mantinha escondido dentro de uma casca endurecida pelos acasos da vida.

— Eu posso negar também, você sabe. – deu de ombros, fingindo-se indiferente. – Mesmo que me obrigue, posso não comparecer às reuniões e também, ignorar as suas demandas, otouto. – ele colocou o antebraço no apoio da cadeira, tamborilando os dedos de forma reflexiva e não perdendo um único movimento de seu irmão.

Sasuke estreitou os olhos e rosnou em frustração. Aquela conversa não estava funcionando da maneira como ele havia planejado.

— Você não pode me deixar sozinho, ’nii-san! Eu quero – preciso”, corrigiu-se mentalmente. – que você tenha participação nos assuntos da nossa família. – insistiu de maneira autoritária.

Sua vontade era acabar logo com aquela conversa, obtendo o que queria de uma vez, sem maiores questionamentos; mas parecia que Itachi tinha outros planos, provocando-o e alongando esse diálogo enfadonho como forma de divertimento às suas custas.

— Se quer fazer diferente de outros lideres, aprenda a pedir “por favor”, Sasuke. – a expressão séria do homem fez com que o outro adotasse mais cautela em sua linguagem corporal normalmente arredia. – Não faça como o ’tou-san ou os anciões, que fazem demandas e esperam que os outros simplesmente abaixem a cabeça. Você já passou por isso e sabe como é desagradável fazer algo que não quer. Olhe para a sua vida e aprenda também com os erros das outras pessoas. – aconselhou, levantando-se. – Quando você fizer um pedido decente, eu vou pensar carinhosamente no seu caso.

Quando o outro virou as costas, Sasuke perdeu a postura rígida, murchando consideravelmente com o tom repreensivo. Ele sempre considerou o mais velho como uma segunda figura paterna. Com Fugaku sempre muito distante, ele acabou se apoiando na única pessoa do sexo masculino que representasse algo semelhante a um pai. Itachi era um dos únicos que o aconselhava, ensinava e repreendia em um tom paternal que dobrava a sua personalidade arisca ao meio. Se não fosse pelo primogênito, ele não saberia dizer o que seria de si mesmo. Só o chateava que, mesmo depois de chegar à fase adulta, seu irmão continuava o tratando como uma criança.



Mais para frente, ele compreendeu o que o homem quis lhe dizer com aquelas palavras. Ao refazer o pedido, Itachi já tinha uma resposta na ponta da língua. Ele aceitou a sua solicitação sem segundos pensamentos, embora raramente interferisse em alguma decisão do caçulo. O apoio silencioso era um claro sinal de aprovação e confiança, uma vez que nunca houve necessidade de chamar a atenção do irmão para algo que este deixou de fazer.

Na verdade, todos do clã estavam impressionados com tudo o que ele andava fazendo em tão pouco tempo.

Embora parecesse corrido, o moreno sentia como se os dias se arrastassem lentamente, à medida que tudo se encaixava. No entanto, finalmente Sasuke pôde experimentar a paz e a leveza da tranquilidade que tanto procurou. Não era completa, porque ainda faltava Naruto, mas era melhor do que qualquer outra época do passado. Mesmo quando eles se encontravam às escondidas, o sentimento de alívio que compartilhavam não era o mesmo. Havia sempre a preocupação e o receio constante em estar sendo seguidos ou observados. Era cansativo viver com medo.

No final, Sasuke tinha que agradecer o seu psicanalista por tê-lo abandonado, porque se não fosse por essa decisão, ele jamais tomaria a coragem para ser transparente com a família. Era muito confortável ter uma esposa prestativa e disposta, um caso extraconjugal que suprisse suas necessidades e uma rotina inquestionável, apesar de mantê-lo infeliz. Sem querer, Naruto o empurrou para a beira de um precipício, que o fez enxergar que era tarde demais para não se jogar. A comodidade lhe dava segurança, mas era naquela incerteza que a sua plenitude morava; ou ele encarava a realidade e corria atrás do que queria, ou optava por um futuro miserável.

E se Sakura não tivesse pedido o divórcio, ele seria incapaz de seguir adiante em algum dado momento, porque o Uchiha voltaria a procurar por Naruto e, com certeza, seria rejeitado novamente e novamente, até que ele não aguentasse mais seguir com uma qualidade de vida insustentável e quebrasse de maneira humilhante perante os seus parentes. Quem sabe, ele desprezaria a imagem do seu primogênito, porque o garoto o lembraria de um casamento fracassado, que o distanciou da única cor que existia em sua vida. E, em suas suposições, talvez o seu desempenho na Sharingan Corporation decaísse, porque ele passaria grande parte dos dias se lamentando por uma decisão que não quis tomar. Um dia, ele se tornaria uma pessoa amargurada, que não daria orgulho ao seu pai, ao seu irmão e ao seu filho.

E nem a Naruto. Nem ninguém.

Graças à sua esposa e ao seu amante, ele não havia se tornado alguém desgraçado e vazio. Agora, ele podia desfrutar melhor de uma vida que ele sempre sonhou em ter.

Batidas leves na porta o acordaram e uma voz feminina e baixa chamou. Apertando os olhos, Sasuke se revirou debaixo do edredom para encontrar uma cabeça cor-de-rosa espreitando pela fresta na porta. Esfregando as pálpebras para amenizar o sono, ele se sentou.

— Sakura? – perguntou com a voz rouca pela falta de uso.

Ela deu um sorriso brilhante e sem se importar, acendeu as luzes do seu quarto – ambos dormiam separados agora – e entrou, ignorando a forma como o marido semicerrou os orbes, irritado com a claridade. Ela caminhou até a cama do homem e subiu na mesma, para engatinhar até que seu rosto estivesse a milímetros da face pálida. Receoso e um pouco assustado, o moreno tentou se afastar, mas não conseguiu, porque dois punhos delicados agarraram a sua camiseta para mantê-lo no lugar.

— O-oi, o que você está fazendo?! – indagou, começando a lutar contra as mãos pequenas que o seguravam, mas que eram tremendamente fortes.

— Eu preciso comer aquele bolo que comemos na França, no nosso último aniversário de casamento! – exclamou com urgência. – Por favor, Sasuke-kun, se eu não tiver isso AGORA, eu e o bebê vamos MORRER! – fez beicinho. – Estou com tanta vontade que até sonhei com ele.

— Sakura... – rodou os olhos com impaciência. – Com certeza há algum bolo na geladeira, eu não vou sair para buscar – olhou de relance para o relógio digital na cabeceira. – nada às duas da manhã. – retrucou, puxando os braços da mulher para fazê-la soltar suas roupas.

— Mas, não quero qualquer bolo! – choramingou. – Tem que ser aquele que comemos na França! – teimou como uma criança birrenta.

Ele zombou, bufando algo que deveria ser parecido com um riso debochado.

— E você quer que eu vá até lá para buscar? – ironizou, enquanto arrumava seu travesseiro para voltar a dormir, sem se importar com a esposa balbuciando sem parar sobre a tal sobremesa que ela queria.

— Deve ter em algum lugar pelo Japão. Por favor, Sasuke-kun! – fingiu uma fungada, mas nada do que fazia parecia tocar o coração frio do homem. – É aquele que despedaça na boca e tem recheio de creme e que até você, que odeia coisas doces, não o achou tão ruim assim.

— Hn. – grunhiu, deitando-se e virando as costas para a esposa.

Ele se lembrava do bolo, chamava-se Mille-Feuilles¹, mas ele não diria isso a ela, pois sabia que Sakura o obrigaria a buscar a comida sem se importar em fazê-lo sair do conforto quente da cama. Ela havia adquirido um temperamento completamente explosivo na gravidez e isso fazia com que o Uchiha sentisse falta da antiga personalidade flexível e tranquila da esposa.

E havia outro porém também, muito mais importante e que lhe custava para admitir é que, depois de tudo o que aconteceu, ele desaprendeu a dizer “não” para a mulher. Devido ao seu atual estado, vulgo gestação, e o sentimento de gratidão que nutria por ela – que o faziam sentir como se devesse mundos e fundos para satisfazê-la –, Sasuke era incapaz de negar qualquer coisa, por mais absurdo que fosse.

— Eu sei que você sabe de que doce estou falando... – ao ver que estava sendo ignorada, o sangue lhe subiu para a cabeça. – SASUKE! – berrou e rosnou ao mesmo tempo.

— O quê?! – perguntou com impaciência. “Porra, quando ela vai calar a boca e vai me deixar dormir?", pensou irritado. — Faça você o maldito bolo!

O olhar choroso que ele recebeu foi o suficiente para fazê-lo se levantar da cama. Bufando e resmungando, o moreno só foi capaz de pegar um sobretudo preto, antes de marchar para fora do quarto, sabendo que se não cumprisse a demanda, Sakura daria um jeito de fazer com que ele buscasse o que queria. O corvo não se deu ao trabalho de vestir uma roupa adequada, só saiu da casa, pegou o carro e dirigiu sem hesitar até a mansão onde seus pais moravam. Mikoto acordou com a entrada barulhenta do seu Lamborghini Murcielago e logo veio ao seu encontro, preocupada e prestativa como sempre. Ao explicar a situação, a matriarca apenas riu e se ofereceu para fazer a sobremesa, pois compreendia melhor do que ninguém aquela necessidade urgente de comer algo e não ter como saciar a vontade.

O doce demorou muito mais do que o previsto para ficar pronto e, quando o homem voltou para casa, já estava amanhecendo. No cansaço da espera, a Haruno tinha dormido na cama do marido mesmo, acalentada pelo cheiro familiar sempre presente, mas que lhe fazia tanta falta. Chacoalhando-a com delicadeza, Sasuke a viu teimar para continuar a dormir e de repente, como se recordasse do motivo que a levara até ali em primeiro lugar, os grandes orbes verdes o encararam com ânsia.

— Cadê? Cadê?! Você o encontrou? Por que demorou tanto? — perguntou, levantando-se e caminhando apressadamente até a cozinha.

Sasuke só encarou o teto com tédio, nem se dignando a responder, mas seguir e assistir a figura feminina dar pequenos pulinhos quando viu o bolo em cima da mesa circular. Ela estava tão eufórica, que só pegou uma colher para avançar em direção à travessa, sem se preocupar em cortar um pedaço que se adequasse com o tamanho de sua fome. Sakura abraçou o vasilhame grande e começou a comer como se sua vida dependesse disso.

— Obrigada, Sas'ke. – disse com a boca cheia mesmo. – Eu nem sei como agradecer, já não estava aguentando mais essa vontade... – resmungou, fungou e tentou engolir ao mesmo tempo.

Franzindo as sobrancelhas, o Uchiha estranhou o tremor que passou pelo corpo pequeno e redondo, devido à barriga gigantesca. Olhando atentamente o rosto delicado, o homem percebeu que ela estava chorando, enquanto encarava a sobremesa como se esta fosse a salvação de sua existência. Ele definitivamente não entendia as mulheres e isso o deixava atônito. Sua mãe não o havia preparado para esse tipo de coisas, porque Mikoto nunca agiu dessa forma descontrolada.

Ou ao menos, era o que acreditava.

— Está ruim? – perguntou, um pouco sem graça por não saber como lidar com a situação.

— Não, está uma delícia! – fungou outra vez, secando o rosto molhado com as costas da mão. – Obrigada de novo. Você não sabe o quanto eu queria esse bolo... Eu teria feito se tivesse essência de baunilha em casa... – ela simplesmente não conseguia parar de chorar e mastigar. – Falando nisso, onde conseguiu encontrar?

— Eu não comprei, eu pedi para ‘kaa-san fazer. — deu de ombros. — Agradeça a ela e não a mim. — virou-se para caminhar até o quarto, não havia dormido nada aquela noite e o sono o deixava ainda mais irritado.

— Vou agradecer. – ela retrucou com um sorriso suave nos lábios, sabendo que, por mais que não admitisse, Sasuke se sentia orgulhoso por ter realizado algo "quase" impossível em nome do seu filho.

O homem se fazia de arrogante e indiferente, mas na realidade era o completo oposto disso. Seu ex-marido era alguém de poucas palavras, mas de atos significativos e, quando se passava a avaliar esse lado discreto, o relacionamento interpessoal com o Uchiha ficava ainda mais fácil. “Talvez, esse seja o segredo de Uzumaki Naruto para lidar com Uchiha Sasuke”, Sakura pensou, levando outra colherada bem recheada para dentro da boca.



"Quando o menino nascer, você vai fazer um inventário no nome dele, na qual discrimina que todas as suas ações passem a ser do meu neto, assim que ele atingir a maioridade ou você morrer."

A princípio, ele não entendeu muito bem o porquê de ter que fazer tudo isso, mas parecia que Fugaku tinha toda uma estratégia montada para combater qualquer influência externa em sua vida pessoal ou profissional. Dessa forma, ninguém, nem mesmo os anciões, poderiam mexer ou mudar qualquer coisa na Sharingan Corporation, pois ele continuaria sendo o acionista majoritário e presidente, independentemente do controle que os velhos tivessem dentro da empresa. Era assim que seu pai evitou um golpe dentro do clã. O antigo chefe tinha muitas inimizades dentro do conselho, por viver peitando os velhos, e mesmo com dois filhos, o patriarca teve que tomar uma atitude para evitar qualquer tipo de contratempo. Agora, ele estava ensinando ao seu caçulo como driblar os próprios parentes.

Foi aí, que Sasuke percebeu como os seus familiares foram sugados pela ambição de um cargo que não era tão glorificante quanto parecia. O dinheiro e o prestígio eram bons, mas lhe tiravam a liberdade. Ele sempre sonhou em comandar o legado Uchiha, mas o propósito desse desejo sempre foi movido pela ânsia de conseguir alguma admiração do pai. No final, ele conseguiu a compreensão paterna através de seus esforços e sacrifícios, assim como Itachi, que mesmo abdicando de muito, tinha o orgulho do patriarca, porque correu atrás dos seus sonhos e anseios.

Ele andou apressadamente para a sala de espera onde seus pais e seu irmão o aguardavam, no Sanno Hospital². Sakura já estava internada há quatro dias, aguardando o momento do nascimento do bebê. O parto estava programado para antes, mas pelo visto, a criança estava se sentindo tão bem no ventre da mãe, que se recusava a sair. Porém, naquela tarde, Sasuke havia recebido uma ligação da esposa, a qual anunciava que em breve estariam entrando na sala de cirurgia.

Se fosse outra pessoa, ele teria dado um pulo da cadeira ao receber a notícia, mas o moreno manteve a aparência calma, enquanto olhava para seus funcionários e anunciava que tinha de terminar a reunião o quanto antes. Ele não chegou a tempo para assistir, mas achava melhor assim, porque o Uchiha não saberia dizer se teria fibra para a experiência, visto o alto nível do seu nervosismo; suas mãos brancas suavam e ele teve de levá-las ao bolso constantemente para secar as palmas úmidas.

O último mês da gestação foi cansativo e, se Sasuke estava reclamando, não queria nem imaginar o que diria a esposa, que passou os últimos dias dormindo em um sofá, já que a cama não era confortável o suficiente para o peso da barriga. Ele também chegou a perder a conta de quantas vezes havia parado naquela mesma sala, seja de tarde ou madrugada, porque Sakura confundia dores de cólica renal e prisão de ventre com as contrações.

Esfregando o rosto desgastado, ele se virou para a sua família.

— Há quanto tempo ela está lá dentro? – indagou com a voz rouca de cansaço.

— Há quase duas horas. – Itachi foi o primeiro a esboçar uma reação.

Os quatro entraram em um silêncio tenso e cheio de expectativas. Cada um com um anseio diferente sobre o nascimento dessa criança. Mesmo seu irmão mais velho e seu pai estavam nitidamente apreensivos, enquanto Mikoto não perdia o olhar do corredor, a fim de pegar primeiro qualquer médico que passasse por eles. O primeiro neto – ou sobrinho, no caso do primogênito – sempre trazia um entusiasmo diferente.

Um tempo depois, uma comoção chamou a atenção da família silenciosamente apreensiva e todos se viraram para assistir a um homem, que abaixava a máscara de proteção e os olhava com curiosidade, caminhar até eles. Seus olhos se focaram em Sasuke e o obstetra deu uma pequena reverência para cumprimentá-lo.

— Uchiha-sama³, seu bebê e sua esposa estão bem, quer vê-los agora? Você pode ter alguns minutos, antes da minha equipe levá-los até o quarto... – foi interrompido.

— Posso ir também? – a única mulher do grupo perguntou, fazendo Fugaku revirar os olhos, não entendendo o motivo da impaciência da mulher. Nem mesmo ele, que se considerava mais emocionado que o normal, estava tão eufórico sobre o nascimento da criança.

— Sinto muito, Uchiha-san, mas só podemos dar esse direito ao marido ou outro parente próximo no caso da ausência dele. — respondeu com polidez.

Resmungando frases incompreensíveis, Mikoto parecia uma criança emburrada por ter seu pedido negado. Ela mal conseguia esperar até poder ver o seu netinho querido. Sasuke deu um meio sorriso para a mãe e sussurrou em seu ouvido para tranquilizá-la:

— Prometo que não vou ocupar muito o tempo da Sakura, assim você pode vê-la mais rápido. – a declaração fez os olhos negros brilharem.

— Sim, faça isso por mim, Sasuke-chan! Você é o único que me entende! – fechou os punhos e assentiu um gesto de motivação, fazendo Fugaku revirar os olhos outra vez e Itachi soltar o ar debochadamente.

Ele balançou a cabeça negativamente, tentando segurar o riso que queria romper o seu peito. Aquele sentimento de euforia estava querendo rasgar os seus lábios e fazê-lo rir de nada e de tudo. Os poucos passos que dera até a sala de parto nunca pareceram tão longos e, quando o empresário finalmente entrou, Sakura parecia a sombra da mulher esplêndida que era normalmente. Ela estava nitidamente cansada, com bolsas abaixo dos olhos e o cabelo rosa grudado no rosto suado e inchado. Apesar disso, ela carregava um sorriso satisfeito e um embrulho pequeno nos braços.

— Veja, musuko⁴, ‘tou-san chegou! – ela murmurou, enquanto amamentava a criança.

Como se evocado pelo chamado, o menino abriu levemente os olhos, fazendo Sasuke prender a respiração ao ter um pequeno vislumbre dos olhos escuros. Não dava para ver com detalhes, pois o ângulo não permitia, mas o Uchiha pôde perceber que os orbes não eram verdes como os da mãe. O cabelo ralo era tão preto quanto o dele e devido à pele avermelhada e a face inchada, não dava para identificar com perfeição a quem ele havia puxado, mas o moreno não estava ligando para o fato naquele momento.

Ele nem poderia abrir a boca para vocalizar o que estava sentindo e também não saberia descrever muito bem a emoção quente que percorreu pelo seu peito ao ver a pequena parte de si mesmo embrulhado naquele cobertor esverdeado.

— Não é lindo? – ela perguntou baixinho, com medo de perturbar o bebê. – Sabe o que me lembrei? Nós não pensamos no nome dele, precisamos registrá-lo. – falou, acariciando a cabeça do filho.

Se antes o raciocínio dele estava lento, devido às sensações extasiantes, de repente seus pensamentos começaram a correr com a mesma velocidade de um raio. O homem tentou pensar no que aquela criança significava em sua vida e em tudo o que ela havia trago até hoje, mesmo antes de nascer. Ele deu um pequeno sorriso e encarou as gemas de esmeraldas que eram os olhos da sua ex-mulher.

— Katsumi. – declarou. A certeza em seu tom, fazendo com que Sakura fosse incapaz de replicar.

— Katsumi Uchiha, então, eu gosto de como esse nome soa.



Demorou um mês inteiro para juntar todos os documentos necessários para fazer o inventário de suas ações em nome do seu filho. Ele precisava de toda a documentação da criança em ordem para que pudesse dar andamento ao processo. Ele nem ao menos contou com os advogados da Sharingan Corporation, pois sabia que todos os seus passos seriam reportados futuramente para o conselho, que entraria em uma ação árdua para impedir seus atos. Com um profissional terceirizado, os anciões só ficariam sabendo depois que tudo estivesse concluído.

Olhando para o lado, mais especificamente para a cadeirinha que estava em cima da mesa do escritório de Nara Shikamaru – um velho amigo dos tempos de faculdade –, Sasuke encontrou os olhos acinzentados de Katsumi, que o encarava com curiosidade, enquanto enfiava as mãos rechonchudas na boca, babando-se e molhando por inteiro. A cor incomum dos orbes do menino deveria ser uma mistura inusitada dos seus genes com os de Sakura, pois as íris tinham o contorno cinza escuro e, quando chegava perto das pupilas, tornavam-se esverdeados.

Seus cabelos de obsidiana arrepiados estavam escondidos por um chapéu azul e branco, que serviam para proteger a pele clara dos raios de sol. Sakura o vestia como um boneco às vezes, mas o Uchiha não reclamava, porque internamente ele se divertia com a aparência do garoto.

Por ser um dia importante e com muitos significados pessoais, os quais também envolviam o filho, o moreno decidiu que carregaria o moleque consigo para cima e para baixo, mesmo que significasse levá-lo a uma reunião de negócios extracurriculares entediantes.

Como se adivinhasse a seriedade do assunto, Katsumi permaneceu em silêncio, apenas colocando a mão na boca e olhando seu pai com os grandes olhos inocentes e curiosos. Internamente, o empresário agradecia o fato de o seu filho ser quieto, porque ele não saberia lidar com uma criança escandalosa e que chorava por quaisquer motivos. O pequeno só ficava injuriado quando estava com sono e/ou com fome, mas por essas causas, até mesmo Sasuke ficava mal-humorado. Seus pensamentos foram bruscamente quebrados pela entrada de um homem, que segurava uma pasta com uma pilha grossa de papéis.

— Desculpa a demora, Uchiha. Deixei os documentos separados esta manhã, mas Ino os guardou novamente achando que estavam largados. – informou, coçando a cabeça para demonstrar seu constrangimento, e sentou em sua cadeira de couro reclinável; confortável como sua personalidade exigia.

— Sem problemas... – comentou casualmente, pegando a parte que realmente interessava. Ele leu todos os tópicos atenciosamente, ignorando o cheiro desagradável do cigarro que o amigo havia acendido, até ouvir um espirro de Katsumi. – Apague essa porcaria, enquanto meu filho estiver nessa sala, longe dele você pode voltar a fazer o que bem entender. – ordenou, dizendo indiretamente que não gostaria de ser questionado.

Estalando a língua, Shikamaru apagou a ponta do tabaco no cinzeiro de vidro, respeitando o "pedido" do outro a contragosto.

— Quem diria que você se tornaria um pai tão zeloso. – debochou com um sorriso nos lábios. – A paternidade realmente muda os homens. – brincou.

— Vai entender melhor quando Temari engravidar. – respondeu a provocação com simplicidade, terminando de ler o acordo. Com um suspiro, ele começou a rubricar todas as páginas, até chegar à última, onde assinou o seu consentimento. – Quanto tempo acha que vai demorar até que a Tokyo Stock Exchangereconheça a mudança?

— Dois dias, no máximo. – respondeu, levantando-se ao ver Sasuke fazer o mesmo.

— Ótimo. – fez uma reverência, pegando a cadeira de Katsumi e caminhando até a porta. – Nos vemos depois, quando tudo estiver feito. Preciso ir, porque ainda tenho algo urgente a resolver. – resmungou com um “quê” de urgência na voz.

O moreno havia ansiado tanto por esse momento, batalhado tanto para a chegada desse dia, que mal conseguia respirar de tão inquieto e apreensivo. Um milhão de pensamentos corriam freneticamente dentro de sua cabeça e a grande maioria eram dúvidas e medos que só servia para deixá-lo ainda mais nervoso. Apesar da insegurança, Sasuke permaneceria firme em seu caminho, pois a sua necessidade era intensa e imensa; ele estava feliz, mas queria ser ainda mais ao lado de uma única pessoa...

Ele estava com pressa; ele não tinha tempo a perder; ele já havia demorado uma vida para fazer o que precisava ser feito.

Seus devaneios foram cortados por um tom de voz tipicamente entediado, ainda que levemente entusiasmado:

— Uchiha! – chamou, antes que o outro desaparecesse de sua visão. – Você está bem melhor, desde a última vez em que te vi. – elogiou com um sorriso divertido e sincero, pois diante de si estava outro homem, completamente diferente do que conheceu há muitos anos na aula de Legislação.

Claro, ele continuava impessoal e autoritário, mas o brilho no olhar ônix estava transformado. O Nara não era muito bom em ler o comportamento humano como a sua assistente, mas ele conheceu Sasuke bem o suficiente para fazê-lo desgostar do outro em alguns momentos. "Finalmente, o Uchiha tomou jeito nessa vida", o advogado pensou, dando um aceno pequeno de despedida, sendo prontamente correspondido pelo empresário, que até se dignou a dar um pequeno sorriso como resposta, o que surpreendeu ainda mais Shikamaru.

— Por que está me pedindo para fazer tudo isso? – perguntou com confusão. Sasuke não estava entendendo a linha de raciocínio de Fugaku, ele só queria poder largar tudo e correr para os braços do seu homem. Foda-se a Sharingan Corporation; foda-se as regras e tradições do clã... Ele só queria ser feliz.

Pela primeira vez, até Itachi parecia um pouco fora de foco. Ele encarava o pai com uma pergunta silenciosa impressa em suas feições: por que tudo isso? No raciocínio do gênio, se aceitar a sua sexualidade não fora um problema, por que não apoiar as decisões do caçula, então? Ele não conseguia entender.

O primogênito estava pronto para interceder pelo irmão, mas Fugaku escolheu aquele momento para tomar a frente da conversa:

— Para garantir o futuro da nossa família. — respondeu simplesmente, fazendo Sasuke ranger os dentes em aborrecimento.

O mais novo não conseguia acreditar que Fugaku se oporia tão fortemente a uma escolha sua em nome do clã. Decepção, raiva e tristeza estavam começando a preencher seu interior de forma tão intensa, que seu corpo todo estremeceu na procura de autocontrole. Sua maior vontade era gritar com seu pai até que sua voz sumisse; até que se sentisse entorpecido; até que aquela frustração dilacerante fosse embora. Destruía-o por dentro, saber que o homem escolhia as tradições acima dele. Sua angústia era tão densa, que ele teve que respirar fundo para evitar fazer um papel humilhante na frente do líder. Seria ainda pior se ele se deixasse levar pelas emoções logo agora que precisava se manter racional.

Engolindo em seco, ele respondeu da melhor forma que pôde:

— Eu já tenho tudo garantido... – embora estivesse firme, sua voz tremulou, devido à força das emoções que rondavam em seu peito. – Vou passar a presidência e a liderança do clã para o Shisui. – comunicou com um timbre que dizia indiretamente que não aceitaria desconversas sobre sua vontade. Não havia maneiras de que Fugaku discordasse de algo que já foi planejado com tanto cuidado.

Mas, Fugaku riu. Sinceramente, ele riu, enfurecendo-o ainda mais.

— E você acha que o conselho aceitará Shisui como líder? – perguntou com raiva. – Shisui é tão ou mais incontrolável do que um jovem rebelde, eles não aceitarão alguém que não possam dobrar com facilidade. A vontade dos anciões sempre foi controlar o clã, logo, escolherão alguém mais submisso para o cargo. Faça o que eu digo e, depois, você terá a liberdade que quer para correr atrás do Uzumaki.

Um silêncio pesado recaiu sobre o cômodo e depois de alguns segundos, que pareceram minutos, Itachi e Sasuke demonstraram alguma emoção. Ambos encararam o patriarca com surpresa indisfarçada.

— O quê? — o caçulo perguntou sem fôlego. "Eu acho que não ouvi direito!", pensou freneticamente.

Diferentemente do mais novo, que parecia ter paralisado completamente no tempo, compreensão começou a iluminar a mente de Itachi, fazendo-o não conseguir conter um suspiro de alívio. A atitude do seu pai realmente eliminava uma série de problemas que apareceriam com o decorrer dos anos. O homem não só estava garantindo o futuro da família, mas estava assegurando o futuro de seus filhos e do neto que nasceria. Seu irmão tolo só precisava se esforçar um pouco mais para entender a gravidade de sua decisão.

— Você não quer prejudicar o seu filho, quer? Torne-se líder, afirme o seu lugar dentro do clã e certifique o futuro dessa criança. Não vá tomar atitudes imprudentes, que te agradarão agora, mas que serão um problema mais para frente. Você pode abdicar de seus deveres para com a família, mas nunca deixará de ser um Uchiha. Seu vínculo aqui dentro é inquebrável e o conselho sabe disso, logo, se não tomarmos as direções certas, essa ligação será um inconveniente mais para frente. Quem dirá o que vão fazer quando souberem desse menino que está para nascer? Vão querer tomar a guarda dessa criança para garantir uma próxima liderança e o criarão de acordo como eles querer. Com um emprego qualquer, mesmo com uma boa quantia guardada na poupança, você não será capaz de evitar que isso aconteça, principalmente estando em uma união homossexual, que ainda é muito mal vista aqui. Nem a Sakura conseguirá evitar esses eventos e você sabe disso.

A cada palavra, o mais novo ia empalidecendo mais. Ele nunca havia pensado na confusão que sua escolha poderia causar em sua vida e na das pessoas à sua volta. Talvez, ele poderia ser mais feliz dentro dos próximos meses, mas o sentimento não seria pleno a longo prazo. Sasuke sabia que jamais ficaria sossegado, sabendo que seu filho estaria nas mãos do conselho.

Esfregando o rosto com as duas mãos, para amenizar a tensão de sua face, e se sentando no sofá, ele buscou uma sustentação para si mesmo diante o seu desalento. O caçula não era dramático, mas ele não sabia se sentia agradecido pela intercessão do patriarca ou se lamentava pelas consequências de seus atos. Fazer tudo aquilo demoraria praticamente um ano...

Um ano inteiro sem Naruto, fingindo viver um casamento o qual não mais existia, lutando e brigando com a sua própria vida, não só pelo amor que nutria por outro homem, mas para ele mesmo. Embora fosse duro admitir que seu pai estivesse certo, Sasuke sabia que precisava fazer tudo aquilo se quisesse viver em paz com sua consciência. Não era apenas a sua vida que estava sendo posta em discussão, mas o futuro de uma criança que nada tinha haver com aquela situação que parecia crescer como uma bola de neve.

— Eu... Não tinha pensado nisso... – balbuciou nervosamente.

— Eu sei... – encarou o mais novo com carinho. — Eu te conheço melhor do que ninguém, Sasuke. – declarou o patriarca, levantando-se, dando um aperto firme no ombro do filho e saindo da sala perante todos os olhares admirados.

Até mesmo Mikoto, que esperava essa atitude depois do olhar que recebeu instante antes daquela conversa começar, se surpreendeu com a declaração. Em poucos minutos, seu marido pensou em uma infinidade de possibilidades e arquitetou uma estratégia a fim de evitar que qualquer contratempo viesse a acontecer, a qual pudesse atrapalhar a felicidade do seu filho caçula.

Tal como um líder nato...



Sasuke estacionou o seu Lamborghini Murcielago em uma vaga à frente de um conjunto de prédios simples e pequenos. Retirando o molho de chaves do contato, ele pegou o seu celular e sua carteira, enfiando-os dentro do bolso interno do paletó. Ao sair do automóvel, ele se dirigiu até a porta traseira para pegar Katsumi, que olhava a toda aquela movimentação com uma mescla de tédio e curiosidade. O Uchiha pegou o menino no colo, tomando cuidado para sustentar a cabeça e para não batê-lo em qualquer lugar com seu jeito inábil de lidar com algo tão delicado. O bebê era tão pequeno, mole e frágil, que às vezes ele se achava bruto demais para lidar com uma criança.

Com um pequeno aceno, o Uchiha teve a entrada liberada pelo porteiro, que o cumprimentou animadamente. Katsumi tremulou em seus braços, assustado, devido às saudações energéticas do velho senhor. Alisando a cabeça com cabelos negros e ralos, ele se dirigiu até o elevador e apertou o botão para o sexto andar, sentindo-se nostálgico ao estar em um lugar que há muito tempo não visitava. Memórias e mais memórias consumiam a sua mente, algumas o faziam dar um sorriso pequeno de tão bom que era revivê-las. Ele estava um pouco ansioso, afinal, havia esperado por meses o dia em que finalmente poderia voltar para casa.

Para o lugar onde realmente pertencia, ao lado de Naruto.

— Pronto para conhecer o seu outro ‘tou-san, Katsumi? – perguntou em um murmúrio suave. Ele nunca perderia aquela mania “secreta” de conversar com quem não poderia lhe responder. – Espero que Kurama não se sinta enciumado por ter um irmãozinho. – disse outra vez, andando em direção à porta do apartamento do Uzumaki e tocando a campainha.

E, naquele momento, o tempo pareceu correr mais devagar, enquanto o seu coração batia freneticamente em seu peito. A sua pulsação corria tão rápido, que ressoava como um tambor em seus ouvidos; era tão alto e incômodo, que ele sentiu como se as pessoas ao redor pudessem ouvir e ver a forma como estava nervoso.

Mesmo não tendo a compreensão exata sobre o mundo e os sentimentos humanos, o pequeno Uchiha pressentiu o sentimento angustiante vindo do pai e apertou a manga do paletó do homem entre seus dedinhos gorduchos, dando certa tranquilidade para o mais velho. Acalentado pelo gesto inconsciente, Sasuke tomou uma respiração profunda e tentou não se questionar sobre o que estava fazendo; aquele não era o momento certo para se ter dúvidas. Já havia tomado uma decisão e correria atrás dela, tentando não pensar no caso de o psicanalista o rejeitar...

Se acontecesse, ele não sabia ainda o que faria, mas tinha certeza de algo: não desistiria tão fácil dessa vez.

Seus pensamentos foram cortados pelo som da entrada se abrindo, revelando a figura que mais amou nos últimos anos e que mais sentiu falta nos últimos meses. Se o tempo fosse capaz de parar, ele escolheria aquele momento para criar uma áurea de suspense em torno daquele reencontro, mas como não havia possibilidade disso acontecer, ambos só se olharam profundamente por longos minutos, esperando que seus olhares pudessem comunicar e conversar tudo aquilo que ficou guardado por dias e dias; noites e noites.

Naruto parecia um pouco assustado, pois, com certeza, ele não esperava encontrar Sasuke Uchiha parado em sua porta, vestido impecavelmente como sempre, parecendo prestes a hiperventilar e segurando um bebê que o olhava com curiosidade. Seu olhar claro vagou pelo moreno, como se tentasse se decidir se aquilo de fato estava acontecendo ou era algum tipo de alucinação criada pelo seu inconsciente.

Como se a palavra fosse feita de seda, o chamado duvidoso deslizou por seus lábios, suave e sorrateiro pelo medo de quebrar aquele sonho:

— Sasuke...?

Notas finais
Mille-Feuilles¹ - Mil Folhas (como é conhecido no Brasil) é um bolo de origem francesa, feito com massa folhada e recheado com creme pasteleiro. Sanno Hospital² - um dos poucos hospitais internacionais especializados em ginecologia, obstetrícia e reprodução assistida do Japão. Sama³ - é uma forma ainda mais formal que o título honorífico “san”, utilizado para tratar pessoas de altíssima posição e importância. Na comunicação dentro do comércio, as pessoas usam para demonstrar respeito aos clientes. Musuko⁴ - filho. Tokyo Stock Exchange⁵ - a Bolsa de Valores de Tóquio, chamada de Tōshō ou TSE pelos japoneses, é localizada em Tóquio, no Japão. É a terceira maior bolsa de valores do mundo em capitalização de mercado.