Deveres Do Coração
14 Pressupostos Indefinidos
Notas iniciais
“Não espere por uma crise para descobrir o
que é importante em sua vida.”
Platão.
Capítulo 14 – Pressupostos Indefinidos
O som suave de uma melodia ambiente, que preenchia todo o espaço do elevador, foi bruscamente interrompido por um apito irritante, seguido do alto barulho das portas de alumínio e aço sendo violentamente abertas. O homem, que ocupava sozinho a máquina, caminhou até o hall do andar onde ficava o seu antigo apartamento, fazendo o toque seco dos seus sapatos contra o piso frio de mármore ecoar por todo o local vazio e estéril. As luzes, cujo sensor se ativava com a presença de movimentação, acenderam-se automaticamente para iluminar o cômodo e facilitar o caminho para aquele que parou diante de uma porta com o número 46 incrustado na madeira castanha.
Com calma, o moreno afundou o dedo no botão da campainha, ouvindo do lado de fora, o ruído estridente do dispositivo e, logo depois, o bater constante de passos correndo pela casa. Ele até tentou segurar um sorriso, mas não conseguiu evitar que os cantos de seus lábios se erguessem em reconhecimento, diversão e carinho. Seu peito involuntariamente se enchendo de alegria e calor, devido àquela recepção sempre tão entusiasmada e afetuosa.
Pelo tempo em que a entrada demorou a ser aberta, Sasuke entendeu que a pessoa estava tentando se recompor antes de tomar uma atitude. Balançando a cabeça negativamente, ainda achando graça do comportamento do seu filho, ele optou por fazer o mesmo e simplesmente esconder sua expressão suave em uma máscara de frieza e impassibilidade, sabendo que não duraria muito até que denunciasse suas verdadeiras emoções.
Alguns segundos depois, o som bruto das chaves girando na fechadura provocou um eco pelo hall, antes que a porta fosse escancara por um garoto de seis anos de idade. Os grandes olhos cinzentos estavam sérios e causavam um contraste gritante com a pele pálida do rosto infantil e os cabelos negros desfiados. Katsumi era a versão em miniatura de Sasuke Uchiha e se fosse mais alto e mais velho, seria o seu reflexo no espelho. Se não fosse pela cor incomum dos olhos da criança e por ter sido gerado na barriga de Sakura, era possível que duvidassem da maternidade da modelo, uma vez que o moleque havia herdado poucas características físicas da mãe.
— Otou-san¹! – saudou com um entusiasmo controlado, fazendo uma pequena reverência em respeito.
— Está pronto, Katsumi? – perguntou casualmente, entrando na sala de estar espaçosa e puxando o filho pela nuca para um abraço desajeitado. A cabeça morena bateu em sua barriga e os braços magros enlaçaram o seu quadril com força. Ele sabia que o garoto estava com saudade, embora fizesse o possível para escondê-lo a fim de agir como um verdadeiro homem de seu clã. Assim como a mãe, o menino era sentimental e não conseguia esconder as emoções por muito tempo, e Sasuke não seria tão cruel a ponto de fazê-lo agir como um adulto, quando era apenas uma criança.
Afinal, ele sabia o quão ruim era manter tudo engarrafado. O Uchiha estava lutando para que Katsumi fosse sincero com seus sentimentos e vontades, mas por ironia do destino, a criança também tendia a camuflar tudo para conseguir a admiração paterna. Agora, quem estava tentando mudar era o próprio Sasuke, para que o moleque visse o quanto era amado e que não precisava recorrer aos mesmos erros que o pai havia cometido no passado.
— Sim. – a voz infantil soou abafada, porque ainda se encontrava com a cara afundada no abdômen do mais velho.
— Cadê a sua mala? E onde está a sua mãe? – ele perguntou, arrastando o garoto junto consigo, que tropeçou as cegas por ainda estar agarrado ao homem. O menino riu, enquanto o empresário colocava as chaves do carro na mesa de canto da sala e avaliava as duas mochilas em cima do sofá.
— Katsumi, era seu pai quem estava na porta? – uma voz feminina gritou no andar de cima, seguida de um bem-humorado "quem mais seria?" e outro "cala a boca, idiota, eu não perguntei para você!", o que fez Sasuke balançar a cabeça negativamente; entediado com aquela discussão constante entre sua ex-mulher e o atual namorado, Sai.
O som de um casal de passos descendo as escadas, fez com que o Uchiha olhasse para cima e encontrasse um par de olhos verdes o encarando com fúria indisfarçada.
— Achei que não fosse chegar nunca! – ela resmungou, colocando as duas bolsas que estavam em cima do sofá, no chão perto da porta. – Estamos atrasados e não podíamos sair e deixar Katsumi sozinho até você chegar! – exclamou com raiva, fazendo pai e filho rolarem os olhos, enfadados com o discurso que estava por vir.
— Eu não sou mais um bebê, mãe! – o garoto chiou como se estivesse cansado de repetir sempre a mesma coisa.
— Para mim, você vai ser sempre um bebê. – ela respondeu, dando um beijo no topo da cabeça morena e pegando mais duas malas grandes que estava atrás do sofá.
— Eu tenho seis anos, não sou mais um bebê! – teimou, quase batendo o pé no chão de raiva, ao mesmo tempo em que arrumava os cabelos que a mulher bagunçara.
— Está vendo? Um bebê! – retrucou, assistindo com diversão a postura arredia do moleque, que a olhava com os orbes cinzentos brilhando com indignação. – Ele é tão parecido com você, Sasuke... – murmurou com cansaço, balançando a cabeça negativamente como se estivesse cheia daquela situação toda; o que, obviamente, não era verdade.
— Não coloque a culpa do temperamento dele em mim! – destacou, inocentando-se. – Eu nunca respondi a Mikoto dessa forma. Aliás, esse comportamento birrento e mimado é seu típico, Mebuki-san que o diga. – resmungou, olhando para Katsumi e apontando as mochilas menores perto da porta para que ele as pegasse.
— Que seja... – ela não admitiu, mas sabia que era verdade, pois vivia reclamando sobre a mãe ainda a tratar como criança, mesmo que já tivesse o seu próprio filho para cuidar. – Nada de dormir tarde, Katsumi. Nas últimas férias você demorou demais para retomar o ritmo e eu não quero isso. Não o deixe comer besteira demais, Sasuke, você se tornou um pai mole e deixa o menino fazer o que ele bem entender. Isso não fará bem para a saúde dele...
Foi interrompida.
— Sakura? – o Uchiha chamou entediado. – Relaxa... – pediu como se ela sofresse de algum tipo de retardo mental, assistindo o menino pegar as duas malas de couro de forma desajeitada e praticamente correr para fora do apartamento a fim de fugir do discurso monótono da mãe.
Era sempre a mesma coisa.
Sakura abriu a boca para responder, mas a fechou, desistindo de replicar aquele pedido, que mais soara como uma demanda mal-educada. Ela apenas balançou a cabeça negativamente com força, empurrando os pensamentos irritados de lado, e bufou, afastando-se dos dois homens, que agora se encaravam em um cumprimento mudo.
— Onde está o pinto pequeno? Não veio com você? – Sai perguntou com diversão, apoiando-se no corrimão de vidro da escada.
— Não. – respondeu secamente. Ele não tinha nada contra o homem, mas lhe indignava ouvi-lo apelidar o seu namorado dessa maneira. – Não o chame assim, afinal, Sakura é quem anda de mau humor, devido a sua falta de pênis. – jorrou, virando-se e saindo do apartamento, sem querer ouvir a resposta do pintor e atual companheiro de sua ex-mulher.
Katsumi o olhava com expectativa e segurava as alças das bolsas, apoiando-as no chão para suportar o peso.
— Podemos ir agora? – implorou com um tom choroso.
— Vá se despedir da sua mãe primeiro. – ordenou, apertando o botão para chamar o elevador e ouvindo os passos do garoto correr ansiosamente para dentro de casa de novo, a fim de obedecer à ordem antes que seu pai o deixasse sozinho.
O menino retornou alguns segundos depois, a tempo de pegar o som da campainha e das portas metálicas se abrindo. Sasuke as segurou, assistindo o filho pegar as mochilas pesadas com dificuldade. Ele percebia a inaptidão dele para segurar as malas, mas não fez nada para ajudá-lo, pois em sua visão, Katsumi tinha que aprender a se virar sozinho logo cedo. O moleque era uma criança e não um inválido, por esse motivo, ele o deixava se atrapalhar sozinho até aprender a lidar com suas próprias responsabilidades.
Os dois ficaram em silêncio e, quando chegaram na frente do recente modelo do Mercedes Classe S², o Uchiha destravou as portas e, dessa vez, ajudou o garoto a colocar as bolsas dentro do carro. O mais novo subiu em sua cadeira, presa no banco traseiro, e apertou o cinto de segurança, mesmo que sua vontade fosse acompanhar o pai no passageiro. Era muito mais emocionante ficar no banco da frente, mas teimar agora, só o atrasaria mais e lhes renderiam uma discussão desnecessária.
Quando pararam em um conjunto de prédios mais simples, cerca de meia hora depois, ambos saíram do veículo. O menino, novamente com a posse das mochilas, praticamente correu para dentro, tropeçando e se batendo com o balançar das malas. Era engraçado e Sasuke quase gargalhou ao ver o garoto parar para ajeitar as alças em suas mãos pequenas e voltar a correr, a fim de segurar o elevador, enquanto o homem demorava em sua caminhada tranquila.
Às vezes, Katsumi achava que seu pai fazia de propósito.
Depois de muita demora, na opinião da criança, que se remexia em inquietação e ansiedade, os dois chegaram ao andar do apartamento onde ficava na maior parte das férias de verão. Durante o ano letivo, ele ficava com sua mãe e durante alguns finais de semana e parte das férias, ele morava com o pai. Sua vontade era passar mais tempo com Sasuke, porque ele realmente se divertia nesses tempos breves, mas confessava que sentiria muito mais falta de Sakura, se fosse obrigado a ficar tanto tempo longe.
E, de certa forma, o Uchiha mais velho entendia o sentimento do garoto, pois, por mais ligado que fossem, nada seria capaz de enfraquecer um elo que unia o filho de sua mãe, por isso, aceitou com facilidade o acordo imposto pelo advogado da Haruno no momento do divórcio, mesmo que significasse passar menos períodos com a criança. Colocando-se no lugar do garoto, ele também escolheria Mikoto sobre Fugaku, sem sombra de dúvidas.
Ao abrir a porta do apartamento, que era minúsculo em comparação ao que um dia viveu com a ex-mulher, ele assistiu Katsumi arrastar as mochilas para dentro e resmungar baixo sobre sentir suas mãos latejarem. Ao ver as marcas nas palmas pequenas, que agora estavam vermelhas, devido a fricção do tecido contra a pele, ele se sentiu um pouco mais maleável sobre a situação.
— Katsumi? – chamou-o com um tom sério, fazendo o menino se virar um pouco assustado. – Vá. Eu levo suas malas para o seu quarto. – declarou, fazendo-o abrir um sorriso brilhante igual ao da mãe, uma vez que ele nunca seria capaz de fazer uma expressão como essa em hipótese alguma.
— Arigatou³, otou-san. — agradeceu, antes de correr para a cozinha, como se soubesse de antemão onde o outro morador daquele apartamento se encontrava.
Da sala, Sasuke pôde ouvir os gritos, enquanto caminhava para o quarto do seu filho: "chichiue⁴!", "hey, moleque, você demorou!", "otou-san se atrasou, porque estava trabalhando!" e "o seu pai é um bunda mole!". Depois de colocar as mochilas em cima da cama de solteiro do cômodo onde ficava o antigo escritório de Naruto, ele se dirigiu para a cozinha para se defender da acusação do namorado.
— Veja lá como fala de mim para o meu filho, usuratonkachi. — resmungou, tentando ignorar o pedaço de mochi⁵ assado envolto a um pedaço de nori⁶ que lhe era estendido, mas acabando por não resistir a iguaria por muito tempo. Não se comparava a um onigiri⁷, mas era tão bom quanto.
Katsumi já devorava o terceiro bolinho de arroz, sentado comportadamente na cadeira, enquanto olhava o casal com diversão indisfarçada. Ele admirava o seu pai e sonhava ser como ele um dia, mas ele adorava quando o seu padrasto dava uma lição de moral no mais velho, porque era um dos raros momentos em que o via perder o ar estoico e a compostura.
— Seu pai está ficando velho e sensível, Katsumi, por isso se ofende com tanta facilidade. – concluiu com deboche, assistindo a carranca emburrada se aprofundar ainda mais. – Não se preocupe, teme, eu estava brincando. A sua bunda não é mole. – disse, aproximando-se e apertando um dos globos das nádegas do namorado com vontade e lhe dando um beijo na têmpora, antes que o Uchiha pudesse se afastar.
O menino pegou o copo de suco, fingindo tomar, enquanto escondia as bochechas vermelhas de vergonha. Ele amava o loiro, mas odiava quando o seu padrasto agia dessa forma na sua frente, porque era constrangedor.
Sasuke se afastou, estalando a língua com mau humor e se sentando de frente para o filho, não o encarando nos olhos, sentindo-se igualmente sem graça. Ele já havia chamado a atenção de Naruto sobre ele agir dessa maneira na frente de uma criança, mas o homem sempre retrucava, dizendo que o garoto tinha que se acostumar com assuntos que envolvessem o sexo o quanto antes, pois era algo natural entre os seres humanos e não havia motivos nenhum para se envergonhar. Ele não entendia esse pensamento liberal, porque fora criado de forma diferente, mas sendo um psicanalista, que compreendia a mente humana como ninguém, o loiro deveria ter os seus motivos, então, ele tentava não os questionar deliberadamente.
O Uzumaki os assistiu com um sorriso leve no rosto, pensando no quanto os dois (pai e filho) eram parecidos e ao mesmo tempo tão diferentes.
Se no passado, ele havia hesitado em aceitar o Uchiha de volta, junto com um bebê no reboque, hoje, ele não saberia viver sem essa dupla em sua vida. Ambos eram a cor, o significado e a amostra do que havia deixado de aproveitar em sua infância, quando havia perdido a sua própria família em uma tragédia...
(***)
— Por que o papai e o chichiue, o Itachi-nii e o Deidara-senpai⁸ namoram meninos e, não, meninas? – a voz infantil interrompeu o silêncio acolhedor da mansão Uchiha.
Fugaku, que estava sozinho com o garoto de cinco anos do lado de fora, abaixou o jornal que lia para encarar os orbes acinzentados do neto. Katsumi estava ajoelhado à sua frente no piso de taco de madeira, olhando-o com curiosidade e esperando uma resposta que saciasse a sua dúvida.
O menino tinha essa mania de chamar o tio de irmão, porque ouvia Sasuke se dirigir dessa forma e achava que podia fazer o mesmo. Em sua mente de criança, fazia todo o sentido nomear o mais velho dessa forma, e "ai" de quem tentasse explicar a confusão dessa demanda, pois o novo herdeiro do clã entrava em uma série de divagações para provar o seu ponto, sejam esses errados ou não.
— Por que a pergunta? – tentou ganhar tempo, voltando a encarar o jornal, mas não tendo concentração o suficiente para voltar a digitalizar e compreender as palavras, tão centrado que estava no garoto.
— Meus amigos disseram que meninos só podem namorar meninas. – explicou, incomodado que seu avô não o olhava, enquanto ele falava.
Soltando um suspiro, Fugaku dobrou as folhas ralas e as colocou ao seu lado, ajeitando-se no zabuton⁹ onde estava sentado. Ele levou tanto tempo para fazer isso, que começou a deixar Katsumi impaciente.
— E você concorda com eles? – o velho senhor perguntou com simplicidade, focando seus olhos no menino. A força das íris escuras parecia ter batido no garoto com a mesma intensidade de um golpe de vento bruto, pois o fez se desequilibrar com a repentina sensação de insegurança e falta de apoio.
De alguma forma, o menino sentiu como se tivesse feito algo errado e, por isso, estava prestes a receber as consequências de suas atitudes impensadas. Com medo do que sua resposta acarretaria, ele simplesmente se remexeu incomodado e olhou para o lado, não tendo a coragem necessária para retrucar o seu avô.
Ele gostava muito do homem, mas às vezes, Fugaku o assustava.
— Eu perguntei se você concorda com eles. – não era mais uma pergunta, era uma demanda firme e seca. Apesar do timbre anormalmente suave, Katsumi pôde notar a agressividade da frase, fazendo-o estremecer dos pés à cabeça.
— Não sei... – sussurrou, abaixando a cabeça, não tendo a decência de olhar o mais velho nos olhos, sabendo que sua resposta não o agradou como gostaria, uma vez que podia sentir as ondas de descontentamento exatamente em sua direção.
Irritado, Fugaku agarrou o rosto do menino, fazendo-o erguer a cabeça para encará-lo e o sobressaltando. Os dedos magros, enrugados e calejados, escavaram a pele macia das bochechas com força, enquanto o senhor aproximava a sua face da criança para que ela não tivesse para onde fugir.
— Olhe para mim, quando responder as minhas perguntas. – ordenou com um tom baixo e rígido.
Sua insegurança e medo eram tão grandes, que o primeiro impulso de Katsumi foi fechar os olhos. O coração batia em seu peito de forma tão frenética, que ameaçava sair pelo tórax. Um bolo enorme se formou em sua garganta, enquanto seus olhos marejavam. Ele odiava se sentir assim, mas era inevitável, quando seu avô transmitia toda aquela agressividade pelo olhar e pela linguagem do corpo.
Por um momento, ele pensou que iria levar um tapa.
— Eu vou refazer a pergunta e você só sai daqui, quando me der uma resposta aceitável! – rosnou. – Você concorda com os...
Foi interrompido bruscamente por um grito estridente.
— NÃO!
O menino o olhava com mágoa e um certo "quê" de raiva. Fugaku entendia o sentimento, mas não se sentia tocado pela angústia presente nos globos de chumbo que eram os olhos do seu neto e agora lançavam lágrimas outrora reprimidas. Dando um sorriso satisfeito, ele soltou o rosto do garoto e o assistiu abaixar a cabeça, tentando engolir os soluços e o choro descontrolado. Sasuke, quando era pequeno, também reagia assim às suas repreensões, embora não fosse tão aberto emocionalmente como Katsumi. O seu filho esperava levar a bronca, antes de correr para a mãe e Itachi para pedir apoio...
Ao menos até entrar na adolescência.
Suspirando ao ver o corpo pequeno tremelicar com a força que ele fazia para conter a demonstração física do seu descontrole emocional, o homem alisou os cabelos negros em uma carícia suave e puxou a face pálida novamente, com mais delicadeza dessa vez, para limpar a trilha molhada da bochecha saliente.
— Fico feliz em saber que não concorda com eles, porque seus amigos estão errados, Katsumi. – enalteceu, lambendo os lábios seco pelos gritos que dera.
— Por quê? – ele perguntou com a voz fraca e trêmula, sentindo-se melhor e mais encorajado com o apoio comedido do mais velho.
— Porque o amor não tem regras. O amor não tem religião, não tem raça, não tem idade e também não tem gênero. O amor simplesmente ama, entendeu? – seu tom estava estranhamente leve agora.
Talvez, ser avô havia lhe tornado mole.
O garoto parecia levemente confundido, mas ele tinha certeza que o menino pensaria bem em suas palavras. Seu neto era uma criança inteligente e muito perspicaz, em breve entenderia o significado de suas declarações.
— Quando as pessoas disserem que o amor entre um homem e outro homem é errado, Katsumi, olhe-as nos olhos e diga o porquê de não concordar, como fiz questão que fizesse agora. – continuou, olhando profundamente para os orbes do mais novo. – Pois, se não as encarar nos olhos, elas pensarão que você não sabe ou não tem certeza sobre o que está dizendo. – ensinou com sapiência. – Desviar os olhos significa fraqueza e incerteza e você não quer que as pessoas duvidem das suas convicções, não é?! – mais afirmou que perguntou, assistindo-o balançar a cabeça em negação com veemência.
Katsumi queria ser como seu pai e seu avô.
(***)
Sakura estava sentada em uma das muitas tendas de lona montadas ao redor do pátio do Jardim de Infância onde Katsumi estudava já há dois anos. O menino estava crescendo rápido e ela já sentia saudades da época em que ele era só um bebê pequeno.
Abanando-se com um leque, pois a brisa suave do dia não era o suficiente para espantar o calor do sol – anormalmente quente para um dia de outono –, ela olhou em volta à procura do cabelo preto familiar, que parecia ter sumido em torno das inúmeras crianças que brincavam ao redor.
Como se ouvisse o apelo inconsciente da mulher, uma cabeça muito parecida com a do seu filho entrou em seu campo de visão. Embora, não fosse exatamente quem ela caçava em meio a tantas pessoas, Sasuke vinha caminhando em sua direção, vestido tão impecável como sempre, denunciando que havia acabado de sair do trabalho.
Ela admirava o esforço que o ex-marido fazia a fim de evitar se tornar ausente na vida do primogênito – batalhando para conciliar as horas entre a empresa e o garoto.
Quando ele parou ao seu lado, tranquilo e indiferente, a mulher pôde ler a pergunta silenciosa em seu olhar: onde está Katsumi?
— Não me pergunte, ele correu para lá – apontou. – e até agora não apareceu. – disse despreocupadamente.
Ela estaria louca se estivesse em outro lugar, mas se tratando do conhecido Aoyama Gakuin Kindergarten¹⁰, Sakura não tinha como ficar paranoica, pois era um ambiente totalmente habitual para o moleque de quatro anos de idade.
Naquele dia, a escola estava realizando um Undokai¹¹, campeonato de jogos que acontecia em todos os colégios do Japão no outono, onde as famílias dos alunos também eram convidadas para fazer parte do evento a fim de promover maior interação entre pais, filhos e mestres. Quem preparava todas as atividades da feira eram os próprios estudantes, que recebiam notas pelos trabalhos feitos.
Katsumi ficava em pólvora quando aconteciam as gincanas, pois, por ser naturalmente agitado, aquela era uma das formas que ele encontrou para canalizar a energia excessiva.
Lançando um olhar de soslaio para o ex-marido, Sakura bufou:
— Você deveria ter vindo com outra roupa, vai ser ruim participar das brincadeiras dentro de um terno, sufocado por uma gravada e pisando com sapatos sociais. – resmungou.
— Desculpe, – retorquiu ironicamente. – mas não é como se eu tivesse tido tempo para passar em casa. – terminou mais humildemente, coçando a nuca para minimizar o seu embaraço. – Ali está ele.
A poucos metros de distância, Katsumi parou de correr e passou a andar, respirando com dificuldade e tentando parecer tão tranquilo e indiferente quanto o pai, mas era impossível, uma vez que suas bochechas estavam coradas pelo exercício, sua tez estava suada e seu fôlego, curto.
— Otou-san, Okaa-san¹²... – murmurou, engolindo em seco para se recuperar.
— Você demorou, onde estava? – Sakura perguntou um tanto irritada. – Fiquei aqui sozinha, esperando por você... – fez beicinho, fazendo o menino sorrir, achando graça da atitude infantil, vindo de uma adulta.
— Não dependa muito de mim, Okaa-san, eu já sou um menino grande e já sei me virar sozinho, você também precisa aprender a fazer o mesmo... – retrucou, arrancando uma risada de Sasuke.
— Levando puxões de orelha do próprio filho, Haruno? – o ex-marido provocou, recebendo um tapa o braço como resposta.
— Cala a boca! – chiou indignada.
Antes que os dois pudessem continuar aquela discussão sem sentido, uma menina pequena se aproximou, fazendo Katsumi corar violentamente ao reconhecer a garota. A reação chamou a atenção da mulher, que encarava a cena com concentração, enquanto o Uchiha apenas olhava ao redor com indiferença, aparentemente distraído.
— Katsumi-kun, temos que nos preparar para a corrida de cem metros, você não vem? – ela chamou com a voz fina, típica de crianças daquela idade.
Quando os olhos dela encararam Sasuke, a menina corou timidamente, fazendo Sakura erguer uma sobrancelha em estranhamento. De certa forma, não era de se surpreender que o homem atraísse a atenção até das meninas mais novas, uma vez que aquela atitude misteriosa do empresário atraia as curiosas como o pólen chama as abelhas, mas ainda assim era esquisito.
A pequena tinha as íris tão negras, que dependendo do ângulo e da luz, chegavam a brilhar violáceos. Os cabelos longos eram um tom que lembravam avelã e estavam presos em um rabo de cavalo escorrido até a cintura. A pele cor pêssego parecia ser aveludada ao toque e o tom suave destacava ainda mais os fios que emolduravam o rosto delicado.
Seu filho tinha um bom gosto, ela tinha que admitir.
— Eu já vou. – ele se forçou a responder, visto o quanto estava sem graça.
A garota sorriu e saiu correndo em direção às amigas, que a esperavam alguns metros à frente. Virando-se para mãe, ele deu um sorriso constrangido e puxou a blusa da matriarca, indicando que queria sussurrar-lhe algo no ouvido. A ação atraiu a atenção de Sasuke dessa vez, que os olhou com curiosidade.
Depois de escutar o que ele tinha para dizer, Sakura encarou as costas da menina que havia acabado de se afastar, tentando segurar a gargalhada divertida que ameaçava escapar de sua garganta. Enrugando os lábios, ela respondeu, não sendo tão discreta quanto o menino esperava:
— Não se preocupe, seu pai tem esse efeito sobre as mulheres, mas eu tenho certeza que se ela não gostasse de você também, ela nem teria se dado ao trabalho de vir te chamar, né?! — perguntou, dando uma piscadela e fazendo Katsumi corar cor-de-rosa como os cabelos da mãe.
Ele lançou um olhar de soslaio para o pai, um pouco preocupado que ele tivesse entendido o que as palavras da mulher queriam dizer, e correu para se preparar para a nova competição.
— O que ele disse? – perguntou, sentindo a curiosidade lhe coçar um nervo.
— Parece que nosso bebê está crescendo. – ela mordeu o lábio inferior, enquanto sentia os olhos marejarem, fazendo o Uchiha rolar os olhos, entediado com o sentimentalismo excessivo.
— O que quer dizer com isso? – perguntou, não tendo paciência para decifrar os jogos de declarações vagas.
— Ora, você não percebeu? – ela bufou novamente, vendo a sobrancelha negra se levantar em descaso, numa resposta claramente negativa. – Ele agiu da mesma forma que eu, quando estava perto de você há muitos anos atrás. – riu.
Sasuke parou, variando o olhar entre a mulher e a figura distante do filho. Seu rosto em branco, quando ele indagou:
— Devo ficar preocupado?
(***)
O quarto estava silencioso e escuro, apenas alguns poucos filetes de luz adentravam o cômodo através das rasas aberturas de uma persiana. No entorno mal iluminado, era possível distinguir duas figuras na cama. Um homem loiro estava deitado de bruços em meio aos lençóis azuis emaranhados e, ao seu lado, um moreno descansava na posição fetal, com o braço direito jogado em cima das costas bronzeadas do seu parceiro e o nariz escondido entre os fios dourados que compunham a cabeça de Uzumaki Naruto.
Um movimento no colchão, onde ficavam os pés de Sasuke, acordou o homem em um sobressalto, fazendo o psicanalista também despertar com o seu pulo nada singelo. Os olhos negros digitalizaram na escuridão, o motivo que o levou a sair do mundo dos sonhos tão repentinamente, e encontraram uma criança pequena, de aproximadamente três anos de idade ajoelhado no canto da cama, segurando um gato alaranjado em um abraço apertado. Kurama parecia querer se contorcer para sair da prisão apertada, mas não o fazia, talvez por saber que seu esperneio violento machucaria o menino.
Um pouco desorientado, Naruto seguiu o foco de atenção do Uchiha e o que encontrou, quase o fez rir. Contrariando a sua vontade, ele apenas mordeu a língua, assistindo a chupeta azul do garoto se deslocar levemente, enquanto o felino bufava e estreitava os olhos para a cara divertida de seu dono; o animal parecendo constipado com a situação toda.
— O que você está fazendo aqui, Katsumi? – Sasuke perguntou, procurando a roupa íntima pelo chão do quarto para poder se levantar e levar o filho de volta para o quarto ao lado.
Os orbes acinzentados variaram entre a cama e o seu pai, como se só isso dissesse o que queria, mas o moreno não captou a mensagem, apenas pegou a cueca que estava no carpete e a vestiu o mais dignamente que pôde sob os olhares atentos do menino, que parecia indiferente ao incômodo do homem, por não ter ciência, ainda, dos motivos da nudez.
Contrariando a vontade do namorado, o Uzumaki deu duas palmadinhas no colchão ao seu lado, fazendo Katsumi sorrir brilhantemente e engatinhar até o lugar indicado pelo seu padrasto, arrastando Kurama junto. O gato começou a chutar o garoto com as patas traseiras, sem usar as garras, mesmo sabendo que o moleque não o deixaria ir, tão acostumado com as birras do bichano mal-humorado.
— Naruto...
Sasuke começou com um tom repreensivo, mas foi interrompido pelo namorado, que ajudava o pequeno a se ajeitar na cama.
— Deixe-o, Sasuke, ele está se sentindo sozinho, você não reparou? – o psicanalista perguntou com um timbre suave e indicativo, apontando com um movimento facial, os bracinhos em volta do animal de estimação, que havia desistido de tentar se soltar.
O Uchiha parou para reparar na linguagem corporal do menino. Katsumi afundou o rosto rechonchudo em seu travesseiro, como se procurasse o cheiro do pai para se sentir acalentado, enquanto se apertava ainda mais em Kurama e se inclinava para o carinho que seu padrasto fazia em seus cabelos. Apertando os lábios, ele focou a sua atenção nas íris claras do namorado, vendo-os brilhar em alegria indisfarçada.
Ele era incapaz de dizer "não" para isso...
— Ele precisa aprender a dormir sozinho, Naruto... – tentou, vendo-o voltar a deitar na cama e embalar o seu filho nos braços, cujas pálpebras abriam e fechavam constantemente com a sonolência.
— Não seja tão duro com ele e consigo mesmo, Sasuke. – disse, dando tapinhas no espaço vago do colchão, indicando que o homem deveria voltar a deitar. – Você já foi uma criança e sabe o quão desagradável é se sentir sozinho no meio da noite, tente ser mais compreensível. – pediu, vendo o mais velho o estudar com o olhar.
Dando um suspiro resignado, o empresário voltou a se ajeitar na cama.
— Ok, mas só dessa vez. – resmungou, sentindo Kurama sair do abraço de Katsumi, agora que ele estava dormindo, e procurar um lugar no travesseiro de Sasuke, em um ponto acima de onde a cabeça da criança repousava.
— Ma, ma... – Naruto devolveu com descaso, aconchegando-se debaixo das cobertas quentes.
E, mais uma vez, os quatro (contando com o gato) voltaram a dormir em paz...
(***)
— Eu estou indo encontrar o Gaara no Tapas Molecular Bar¹³... — Naruto disse, segurando o celular entre a orelha e o ombro direito, enquanto enfiava no bolso interno do blazer de caxemira caramelo, a carteira.
— Não vai, não! — a voz do outro lado rosnou. — Ainda mais carregando o MEU filho!
Sasuke deveria estar quase convulsionando na cadeira do escritório para ir buscá-lo. Ele quase podia imaginá-lo, todo ciumento e irado, com a face contorcida em contrariedade e o corpo tenso de raiva. O Uchiha nunca mudaria, mesmo tendo passado tudo o que haviam passado juntos, o homem ainda continuava alguém possessivo, principalmente quando se tratava de Sabaku No Gaara.
O moreno só faltava arrancar os próprios cabelos, quando o via mandando e-mails para o ruivo, falando com ele pelo telefone...
— Você queria que eu deixasse Katsumi sozinho? Eu tenho certeza que ele e Kurama destruiriam o apartamento em menos de cinco minutos. – brincou, abrindo a porta do banco traseiro para tirar o menino de quase três anos, que olhava a tudo com curiosidade e entusiasmo.
— Você poderia ter o deixado comigo! – resmungou ainda mais indignado com a situação.
Naruto estava fazendo o possível para não rir do chilique extremamente infantil do namorado. Ele achava que só mulheres conseguiam ser inseguras desse jeito, mas ao ter que lidar constantemente com as crises de ciúmes, percebeu que homens também podiam ser paranoicos.
— Você está trabalhando, Sasuke. Katsumi só iria atrapalhar, ainda mais nessa idade terrível, ele simplesmente não sabe parar quieto! Se você não estivesse na Sharingan Corporation em pleno sábado, você poderia estar aqui comigo, hum? – convidou, esperando ouvir o homem dizer que estaria ali, daqui à uma hora.
— Não. Não poderia! – ele retrucou teimosamente.
O Uzumaki deu um suspiro, pegando o enteado nos braços, fechando a porta do carro e entregando as chaves para o manobrista. Ele pegou o telefone na mão, depois de ajeitar o menino nos braços e começou a caminhar para dentro do edifício, fazendo uma careta para o ambiente extremamente ostensivo e chique. "Com certeza, não vendem comida decente nessa espelunca!", ele pensou com uma carranca mal-humorada.
Gaara e Sasuke tinham essa mania irritante de fazê-lo vir para esses ambientes apinhados de burocracia desnecessária. Um talher para cada prato, um copo para cada bebida... Até os pratos eram divididos em repartições inúteis: aperitivos, entrada, prato principal, sobremesa. Uma série de regras regurgitantes.
— Então, se você não estivesse na Sharingan Corporation em pleno sábado, você poderia estar em casa, cuidando do SEU filho, enquanto eu viria jantar com o MEU melhor amigo. – rebateu, já prevendo de antemão a resposta do outro. Ele sabia que o seu namorado só estava no escritório para alavancar os negócios, que caíram consideravelmente depois da confusão sobre a descoberta de seu novo relacionamento, mas mesmo assim, ele precisava de uma pausa, principalmente agora que tudo estava melhorando.
— Não! – o empresário respondeu como se a ideia fosse absurda.
Outro suspiro e Naruto teve o suficiente.
— Ok, Sasuke. Me ligue novamente quando sair do modo criança birrenta. – e desligou, sem esperar respostas.
Alguns passos mais, ele finalmente encontrou o que procurava. O casal conversava distraidamente e trocava olhares profundos, enquanto se servia de alguma bebida alcoólica qualquer. O moreno, que acompanhava Sabaku No Gaara, era o mais entusiasmado dos dois, mas de qualquer forma, isso não o surpreendeu de fato, pois ele conhecia o empresário melhor que ninguém e já esperava aquela atitude meio blasée, mesmo quando se tratava do namorado.
— Você não tinha um restaurante mais luxuoso para indicar? – ele os surpreendeu, tão distraídos que estavam em sua troca.
O cara com um penteado estranho foi o primeiro a se virar com a boca escancarada em choque, e o ruivo nem ao menos se dignou a olhá-lo, pegando o que parecia ser uma garrafa de vinho branco, para tornar a encher a sua taça.
— Achei que esse combinava com seus gostos sofisticados. – o homem retrucou com um leve tom de sarcasmo, tentando segurar um sorriso, antes de tomar a atenção no ex-namorado.
Quando os olhos esverdeados encontraram os azuis cerúleos, seu coração falhou uma batida, antes de correr uma maratona de vez. O primeiro amor, a gente nunca esquece, e Gaara sempre seria afetado por aquele loiro, independentemente do tempo e do fato que seu coração agora pertencia à outra pessoa.
— Achei um pouco pobre. – fez uma cara de nojo, antes de abraçar o seu melhor amigo, mal lhe dando tempo para se levantar. – Estava com saudades de você. – sussurrou no ouvido de Gaara, apertando o braço esquerdo em torno dos ombros largos, já que o outro estava ocupado em segurar Katsumi, que inclusive olhava a cena com desagrado puro.
— Que lindo... – murmurou uma terceira voz, enquanto o dono pegava o guardanapo que estava em suas pernas para limpar as lágrimas, fazendo com que o empresário rolasse os olhos e o Uzumaki ficasse um tanto indeciso sobre o porquê de o outro estar chorando. – Um reencontro entre dois amigos, depois de tantos anos...
Bufando, o Sabaku se afastou, para grande alívio de Katsumi, que enrolou os bracinhos gorduchos em volta do pescoço de seu pai possessivamente. Nenhum dos adultos parecia ter reparado na linguagem corporal ciumenta do mais novo.
— Naruto, deixe-me apresentá-lo...
Foi interrompido por Naruto.
— Você é o famoso Rock Lee? – perguntou com entusiasmo, recebendo um menear afirmativo com a cabeça. – O cara que roubou o meu melhor amigo? – apontou.
— Eu estava tão ansioso para conhecê-lo, Uzumaki-kun! – exclamou.
Os dois se abraçaram com energia, o que assustou Katsumi, que olhava a tudo com confusão e medo, e fez Gaara se sentir momentaneamente excluído, uma vez que ambos pareciam se comunicar como se tivessem se conhecido a vida toda. O ruivo não sabia se sentia ciumento com Naruto ou com o seu próprio namorado, ou se deixava tudo como estava e só prestava atenção naquela troca esquisita. Para desencargo de consciência, ele decidiu pela última opção.
— Eu sempre fui um fã do seu trabalho e sempre que Gaara me falava sobre você, me sentia um pouco invejoso por ele ter tido a chance de conhecê-lo primeiro. – falou dessa vez em um tom mais moderado, mas ainda assim animado.
— Gaara, o seu namorado está me deixando sem graça... – o Uzumaki riu sem jeito por estar sendo elogiando, coçando a nuca e vendo o ruivo dar um sorriso cheio de diversão.
— Não se preocupe, ele faz o mesmo comigo também... – consolou, procurando a sua cadeira para voltar a se sentar, mas antes que ele pudesse fazê-lo, Naruto o interrompeu.
— Gaara, você se importa de irmos para outro lugar? Tenho certeza que Katsumi fará beicinho para todas essas comidas esquisitas que vendem aqui. – apontou para o menino, que agora mexia no cabelo do padrasto distraidamente, colando a própria cabeça na do homem para comparar a cor dos fios, antes de olhar para o cabelo vermelho do outro homem com uma cara descontente...
Ele também queria ter cabelos coloridos.
O Sabaku, que até então tinha ignorado a presença da criança, focou seu olhar verde na aparência do garoto. Ele usava um colete cinza de lã por cima de uma camisa branca de mangas compridas, dobradas até o cotovelo. Parecia uma miniatura de Sasuke Uchiha, exceto pelos grandes olhos acinzentados, que o olhavam profundamente.
— Então, esse é o filho do Uchiha? – perguntou, aproximando-se e assistindo com diversão indisfarçada o menino agarrar novamente o pescoço do Uzumaki, como se dissesse "é MEU!". – Pelo visto, ele treinou o moleque para olhar pelo o que é dele. – riu levemente.
— Eu não sei o porquê dele fazer isso. – suspirou, tentando afastar o aperto do garoto, que estava começando a sufocá-lo. – Nem com a mãe, ele faz isso. – desistiu e olhou para a criança. – Katsumi – chamou, atraindo a atenção do rapazinho, que até então, olhava Gaara como se fosse um falcão. –, você está me machucando.
Ele fez beicinho.
— Gomen¹⁴, nee, Chichiue! – sussurrou, com as bochechas coradas de vergonha.
Naruto balançou a cabeça, reparando que Gaara havia se afastado para a porta com Lee. Ele havia deixado uma boa quantia de dinheiro em cima da mesa para pagar o vinho que consumiu e saiu, sem uma palavra, para esperar pelo melhor amigo do lado de fora. Lá, eles pediram aos manobristas que deixassem os carros no estacionamento, que em alguns minutos voltariam para buscá-los.
Os três caminharam, trocando conversas fúteis sobre o tempo em que ficaram separados, contando as novidades, como se na verdade, os anos não tivessem passado. O psicanalista liderava o caminho, à procura de uma barraca qualquer de comida, que agradasse aos quatro, parando em uma que ele não ia há anos.
— Seu pai vai me matar, mas o que acha de comer Lámen, Katsumi? — riu, assistindo o menino balançar a cabeça afirmativamente e freneticamente.
— Eu gosto da ideia! — exclamou Rock Lee, já caminhando para a tenda e puxando a mão do namorado, que olhava os três com uma cara de desolação.
O trio se sentou nos bancos altos dispostos em frente ao balcão de madeira, exceto Katsumi, que estava sentado na perna esquerda do padrasto e puxava um par de hashi para brincar. Um senhor apareceu através das cortinas de pano que separavam a cozinha da área de atendimento, ostentando um sorriso e arregalando os olhos quando viu quem estava esperando para ser atendido.
— Naruto-kun! – exclamou, assustando Katsumi, que parou com os pauzinhos na mão, como se tivesse acabado de aprontar uma das grandes e fosse levar uma bronca naquele momento.
Deveria ser o costume de sempre escutar os berros: "Katsumi, larga isso!"; "Katsumi, não faça isso!"; "Katsumi!"...
O Sr. Ichiraku era o dono do local e já estava habituado a ver o homem em sua barraca há muitos anos. Ele também reconheceu Gaara, que sempre acompanhava o loiro no passado. Era como uma celebração dos velhos tempos e, por isso, a comida daquela vez fora por conta da casa.
Quando Naruto estava enrolando o macarrão para dar ao enteado, que já estava com a boca aberta, esperando pelo aperitivo, o som abafado de "A Face to Call Home" de John Mayer começou a tocar, sendo involuntariamente cantada por Katsumi, naquele inglês infantil e desajeitado, atraindo a risada dos presentes. Sinal que o Uchiha ligava tanto para o namorado, que até mesmo o filho já reconhecia o toque da chamada.
— ‘tô-chan! – ele exclamou com alegria, olhando para o padrasto.
— Sim, é o seu pai me enchendo o saco. – brincou, colocando a comida na tigela e lutando para tirar o celular do bolso. – Fala, teme. – ordenou, equilibrando o aparelho entre a orelha e o ombro, para voltar a alimentar o menino, que o encarava com curiosidade.
— Você não está no Tapas. – rosnou, fazendo o psicanalista segurar um sorriso.
— Estamos no Ichiraku, vem para cá. Achei melhor procurar por algo decente para comer. – ele disse simplesmente e ficou surpreso ao encontrar o barulho de linha encerrada. – Que bastardo!
— O Uchiha está vindo para cá? – Gaara perguntou, assistindo o ex-namorado colocar um rolinho de macarrão na boca do menino. Ele nunca pensou que o Uzumaki teria tanto jeito com crianças, mas levando-se em conta como ele agia na adolescência, perante os garotos mais novos do orfanato, como se fosse um irmão mais velho, não era de se surpreender que ele tivesse adquirido uma postura paternal tão rápido.
— Não sei, o idiota desligou na minha cara. – resmungou, não notando a careta na face pálida do ruivo.
Ele detestava a maneira como o outro tratava o seu melhor amigo, mas de alguma forma meio esquisita, Naruto parecia habituado a esse tipo de comportamento. Ele era um psicanalista no final das contas, talvez, isso o ajudasse a ler o moreno melhor que as pessoas de fora, mas ainda assim, Gaara não entendia.
— Idiota é você, dobe. E desde quando Lámen é uma comida decente? – uma voz jorrou, enquanto o seu dono abria as cortinas da tenda e entrava sem segundos pensamentos.
Seus olhos negros se focaram no Sabaku com uma carranca, antes de encontrar as duas pessoas mais importantes da sua vida e sorrir, surpreendendo Gaara, que nunca tinha visto uma expressão tão iluminada vinda de um homem tão seco quanto o Uchiha.
— Chichiue está mimando você de novo com porcarias? – a voz grave perguntou com diversão, encontrando o biquinho que seu filho fazia com os próprios lábios em um beijinho carinhoso, antes de capturar a boca do amante em um beijo possessivo, sem tirar os olhos do ruivo, que balançou a cabeça em negação, debochando da atitude ciumenta e desnecessária.
— Não é porcaria, tô-chan, é Lámen! – o menino respondeu seriamente como se ensinasse uma criança, balançando os pesinhos em uma atitude teimosa e arrancando uma gargalhada do Uzumaki.
— Isso mesmo, Katsumi, ensine ao seu pai o que é comida de verdade! – apoiou, olhando o namorado com deboche. – E o que veio fazer aqui? – perguntou em um tom provocativo, já sabendo a resposta.
— Não me pergunte isso, se já sabe a resposta, usuratonkachi. – resmungou com mau humor, sentando-se no banco ao lado de Naruto. Ele sabia que Gaara tinha outra pessoa agora e que não fazia sentido se sentir tão ciumento, mas ele não podia se ajudar, quando involuntariamente aquele sentimento borbulhava em seu peito, fazendo-o tomar atitudes impensadas.
— Eles formam uma família bonita, não acha? – Lee perguntou em um sussurro na orelha do namorado, observando os três conversarem distraidamente, como se o casal não existisse.
— Sim, eles formam. – o ruivo concordou com um sorriso, olhando os orbes negros brilharem em encantamento ao assisti-los. O moreno era um ser facilmente apaixonável e, por se maravilhar por coisas pequenas, que Gaara se apaixonou. – Depois de tudo o que passaram, eles merecem a felicidade que conseguiram através de muita luta.
— Hm, com força e determinação! – cantarolou, atraindo um riso discreto do homem, que mordeu o lábio inferior para não beijar Lee naquele momento.
O Sabaku ainda não era muito bom em demonstrar o seu afeto diante de tantos olhares, mas isso não importava, porque apesar de tudo, o moreno tinha consciência dos seus sentimentos e só isso, já lhes bastava...
(***)
O som de um riso infantil rompeu através de um apartamento pequeno, alto e estridente, seguido de um grito repleto de diversão e outro riso de um homem adulto...
O bebê, de aproximadamente um ano, riu mais um pouco, antes de tentar se sentar de forma desajeitada no colchão, para ser levemente empurrado de novo. Uma nova onda de gargalhadas se seguiu, enquanto o menino encarava o teto, com seus brilhantes olhos acinzentados. Ele se divertia em cair e se levantar repetidas vezes, devido a uma brincadeira iniciada por Deidara, que estava deitado em uma das extremidades da cama. Itachi, que descansava no canto oposto, para impedir que o menino se engraçasse para um dos lados e se machucasse, balançou a cabeça negativamente em resignação.
O moreno ostentava um sorriso leve nos lábios, enquanto o namorado ria escandalosamente, contagiado pela alegria de Katsumi, que se sentou mais uma vez e esperou ser empurrado novamente, o que não aconteceu, porque o homem já estava cansado e entediado com as ações repetitivas.
— Ele quer continuar, você sabe... – o professor de filosofia murmurou.
— Dala! – o menino gritou, chamando o tio para que brincassem mais.
— Eu sei, mas eu estou cansado. Não sei de onde essa coisa tão pequena tira tanta energia. – bufou, cutucando o umbigo do garoto, que gritou, se contorceu e tentou tirar o dedo que lhe fazia cócegas na barriga, em meio as gargalhadas.
Itachi sorriu mais uma vez, encantado com sorriso de dois dentinhos e os olhinhos pequenos e puxados, fechados, devido à sinceridade de sua expressão.
— Eu estava pensando se não está na hora de termos o nosso também... – sua declaração atraiu a atenção do loiro, que o olhou com a vista que não estava coberta pela cortina dourada de seus cabelos.
E pela forma como a íris azul brilhava, quase fez o moreno se levantar daquela cama e sair do quarto bufando. Às vezes, Deidara lhe puxava mais que um nervo. O som do riso do homem mais novo preencheu todo o ambiente, seguido de outro infantil; não era culpa de Katsumi, que ele viu graça na alegria irônica do seu tio insensível.
Antes que ele pudesse retirar o que disse, o artesão provocou:
— Isso soou estranho. – riu mais um pouco, ignorando a carranca mal-humorada do outro. – Por mais que eu pareça uma garota, Itachi, eu não sou uma, você sabe muito bem disso... – seus olhos se focaram no menino, que havia se aproximado para brincar com os fios de seu cabelo.
— Esquece o que eu disse. – resmungou, decidindo mudar de assunto para evitar uma discussão desnecessária entre os dois. – Fico feliz que Katsumi não esteja choramingando à procura dos pais. Gosto que ele fique um tempo conosco, mas seria complicado se ele fosse dependente demais da Sakura ou do Sasuke, principalmente quando os dois estão refazendo suas vidas e precisam de um tempo, com toda essa pressão que estão recebendo do clã, da mídia... – divagou preocupado, puxando um fio solto na camiseta do menino. Seu irmão estava lutando para se manter indiferente naquela guerra toda, mas era perceptível que a situação o afetava mais que gostaria. Principalmente agora que os negócios decaíram depois do “boom” da notícia da separação e o novo envolvimento do caçulo, que influenciou negativamente a taxa de popularidade e confiança dos compradores, investidores e sócios. Eram tempos difíceis, mas, por mais inquieto que estivesse, ele sabia que tudo se resolveria.
O silêncio do homem para a sua declaração, chamou a atenção do Uchiha.
— Deidara?
— Você gosta mesmo de crianças, não é? – ele murmurou com carinho, olhando para o menino, que ainda olhava os fios dourados do seu cabelo com fascinação. – Você sempre cuidou do seu irmão, agora toma conta do sobrinho... Ambos como se fossem seus verdadeiros filhos... – divagou, tentando ignorar os lábios franzidos de Itachi, que agora estava confuso com o rumo da conversa. – Acho que podemos tentar...
— O quê? Engravidar? – brincou, recebendo um empurrão no braço em troca da provocação.
— Não, imbecil! – o loiro rosnou, indignado com a sugestão. – Adotar uma criança! – viu a careta na face rechonchuda de Katsumi, que o olhava com desgosto indisfarçado. – O quê?! – perguntou com irritação para o menino, bufando quando este não vacilou em sua carranca. – Ok! Me desculpe, eu não vou bater novamente no seu tio favorito! – resmungou, fingindo não notar o sorriso bonito do homem ao seu lado.
(***)
Mikoto Uchiha podia ouvir o choro de um bebê no hall do sexto andar. Preenchia todo o ambiente como se estivesse à sua frente, tão alto e agonizante que soava. Pelo visto, a pessoa responsável estava tendo pouco sucesso para acalmar a criança e, se levasse em conta o tempo de paternidade do proprietário do apartamento em que o som saía, não era de se surpreender ao todo.
Ela deu um sorriso ansioso e caminhou até a porta que havia sido indicada por Sasuke. O número da casa estava anotado em sua mente, e ela nem hesitou, antes de caminhar para apertar a campainha. O "ding-dong" não foi o suficiente para abaixar o barulho do lamento infantil, mas de qualquer forma, o dono da residência havia escutado o seu chamado e não demorou muito para lhe atender.
A entrada se abriu, revelando um homem loiro, segurando de maneira desajeitada um menino de colo. Seu olhar perdido e desesperado derivou pela figura feminina, tomando nota da semelhança gritante com o seu namorado; compreensão iluminou os seus traços.
— Uchiha-san! – ele respirou em alívio. – É uma surpresa recebê-la no meu apartamento. – murmurou, dando espaço para que ela entrasse, em um convite mudo, que foi prontamente aceito.
— Me chame de Mikoto, Naruto-kun, somos da mesma família agora, não somos? – ela perguntou, vendo o mais jovem corar, envergonhado com o tratamento íntimo vindo de alguém que estava conversando pela primeira vez em sua vida. Antes, o Uzumaki só sabia sobre a matriarca, através do que Sasuke lhe contava. Sabia que ela era amável desse jeito, mas mesmo assim, era desconcertante.
O menino choramingou, assistindo a troca com curiosidade, antes de voltar a chorar novamente. Sua cabeça pequena bateu na bochecha do padrasto, tamanha a força que ele fazia para gritar, uma vez que ele ainda estava se acostumando a manter o tronco ereto.
— É uma fase difícil e cansativa. – a mulher murmurou, atraindo a atenção do homem. – Vejo que está com dificuldades. – ela apontou, estendendo os dois braços para pegar a criança.
— Eu não sei mais o que fazer, já tentei colocá-lo para dormir, já o alimentei, mas ele só não para de chorar. – desabafou, entregando o menino para a avó. – Não posso ligar para Sasuke e nem para a Sakura, pois eles estão em uma reunião com o juiz e os advogados para decidirem sobre os acordos do divórcio... – passou a mão pelos cabelos. – Obrigado por estar aqui. – respirou. – Eu não levo jeito para isso... – concluiu, fazendo Mikoto soltar um riso leve, enquanto balançava o menino com movimentos suaves.
— Eu tenho certeza que Sasuke estaria tão desesperado quanto você em uma situação como essa; não sinta que é o único desajeitado, é apenas falta de experiência. – consolou. – Quando lhe deu comida, o fez arrotar? – perguntou, mas ao ver o aceno afirmativo, então, ela suspirou. – Pode ser uma dor de barriga. – murmurou, sentando-se no sofá e colocando o menino deitado ao seu lado.
O garoto chorava escandalosamente e a mulher tinha certeza que se seu filho estivesse aqui, o caçulo teria surtado. Sasuke não seria tão paciente quanto Naruto e em menos de cinco minutos de esperneio, o empresário já teria ligado até para a secretária a fim de ordenar que a pobre moça fizesse o moleque parar de gritar em sua orelha.
— E o que eu faço quando isso acontecer? – o outro perguntou com curiosidade. – Não é melhor levá-lo ao médico? – indagou com preocupação, começando a rondar a mulher de forma ansiosa, fazendo-a rir novamente.
— Vocês têm algum tipo de óleo corporal ou creme? – ela nem terminou a questão e Naruto já estava correndo para buscar o que ela precisava, aparecendo segundos depois, com uma garrafa azul bem clara na mão. Ela se surpreendeu um pouco ao ver que o frasco era um produto infantil, pelo que parecia os homens estavam realmente preparados apesar de inexperientes.
— Vocês estão bem equipados por aqui. – ela declarou, desabotoando as roupas do menino, afastando o tecido da barriga rechonchuda e perdendo a forma como o mais jovem corou novamente.
— Bom... – ele coçou a nuca por um instante, sem graça. – Sasuke disse que Sakura passava isso nele depois do banho, então, achamos que seria necessário. – ele comentou, tentando parecer casual.
A Uchiha estava tendo um tempo difícil para disfarçar a diversão, mas como seu rosto estava virado para baixo, ela não hesitou em sorrir livremente para a declaração. Era engraçado imaginar um casal de homens debatendo sobre como deveriam cuidar de uma criança, enquanto Sasuke dissertava sobre o que observou a ex-mulher fazendo e o que ele se lembrava que a própria mãe fazia, uma vez que ela sabia que o Uzumaki era órfão e tinha pouca noção do que era cuidado materno. Ela franziu os lábios e a testa nesse último pensamento. Deveria ter sido triste passar uma infância com o monte de desconhecidos impessoais.
— Quando isso acontecer – ela começou, ignorando a explicação do outro e afastando as divagações desagradáveis. –, faça uma massagem na barriga, dessa forma... – murmurou, fazendo movimentos circulares na pele pálida do ventre de Katsumi, apertando com suavidade. – Isso vai estimular o intestino a soltar os gases que estão presos.
O menino apenas choramingava e soltava choros espaçados agora, encontrando algum alívio na carícia.
— Eu sabia que existia alguma fraude nessa compostura e atitude pomposa típicas dos Uchiha. – o homem comentou com diversão, fazendo Mikoto ficar confusa ao invés de ofendida.
— O que quer dizer? – a mulher indagou com o cenho levemente franzido e uma sobrancelha arqueada.
Apesar de a aparência ser parecida com a de Sasuke, a personalidade da mulher era muito mais suave que a do homem. Seria estranho imaginar o namorado agir tão delicadamente e falar tão manso quanto à mãe.
— Ora, exatamente o que significa. Vocês têm essa aura intocável e intimidante, são todos tão atraentes que mal parecem seres humanos normais, que peidam e defecam. – apontou. – Mesmo convivendo com Sasuke há anos, nunca vi ele peidar ou arrotar... – explicou com um gesto de descaso e fazendo a mais velha gargalhar espontaneamente.
Ela estava sorrindo muito nos últimos minutos. Em um universo tenso como o dela, viver na pele da matriarca de um clã, era difícil e significava se conter o tempo inteiro. Seus sorrisos, embora afetuosos, eram leves e nunca livres. Naquele momento, ela entendeu como o filho se sentia perto do psicanalista, trancado dentro desse mundo particular só dos dois, ele se sentia desimpedido para aproveitar as emoções que lhe foram negadas em sua família.
Seus pensamentos foram interrompidos pelo leve som de flatulência, vindo do menino pequeno deitado no sofá, fazendo ambos os adultos rirem. Mikoto tinha a leve impressão que se divertiria muito ainda no decorrer daquela tarde, enquanto esperava pela volta do filho...
(***)
Sasuke olhou para as íris azuis, os quais o enlouqueciam e o hipnotizavam sempre, tentando desesperadamente vocalizar com os próprios olhos o que sua boca era incapaz de dizer, uma vez que sua voz sumira em algum lugar dentro do seu âmago. Engolindo em seco, ele abriu a boca para tentar verbalizar qualquer palavra, qualquer som que impedisse Naruto de fechar aquela porta.
E o silêncio vindo do homem só deu a entender que ele estava esperando as justificativas que ficaram ocultas por tanto tempo. O Uzumaki conhecia o Uchiha melhor que ele mesmo, por isso aguardou pacientemente a falta de reação do empresário passar, pois sabia que sua visita ali não era por acaso. Há muitos anos aprendera a ser tolerante, a não contar somente com palavras e nem com os gestos, muito menos quando se tratava do outro ali parado.
— Sasuke? – chamou mais uma vez, interrompendo suas tentativas frustradas. – Entre. – ordenou, apontando com o rosto, o interior do apartamento.
Os passos do homem vacilaram no começo, mas logo se tornaram confiantes, quando tomou um poço de sua racionalidade de volta. Era tanta saudade, tanto amor guardado, que não havia percebido o momento exato em que se tornou tão emocional numa situação tão inapropriada. Ele precisava estar de cabeça fria, com a mente em ordem, para colocar todas as cartas na mesa e todos os pingos nos Is...
Para fazer Naruto o aceitar de volta.
— Naruto, eu...
Foi interrompido.
— Ele se parece com você. – o Uzumaki murmurou, lançando um olhar em branco para o menino nos seus braços. Katsumi parecia não perceber o clima tenso, que havia se formado entre os dois adultos, ele apenas encarava os olhos azuis cerúleos com indiferença e enfiava as mãos na boca.
— Eu sei que há muito a ser explicado, mas... – começou com insegurança, sentindo a gravidade lhe roubar toda a confiança fingida, mas foi interrompido novamente.
— Eu não sou burro, Sasuke. – suspirou, cruzando os braços. – Posso ser distraído e impulsivo, mas não sou irracional e burro. – focou o olhar no homem, que sentiu a intensidade como um golpe físico.
— Eu sei que não... – retrucou na defensiva. – Embora muitas vezes tenha afirmado o contrário. – continuou em um murmúrio, como se vocalizasse sem querer algo que deveria ter soado apenas em seus pensamentos.
— Eu te conheço há anos, Sasuke. – tornou a dizer, como se o Uchiha não tivesse aberto a boca. – Mas, às vezes, você é uma incógnita para mim. Então, por favor, me explica o que está acontecendo? Me explica o porquê de voltar, depois de tanto tempo, com uma criança nos braços e uma vida feita. Só me explica, porque eu não estou entendendo. Eu não estou TE entendendo! – a cara frase, sua voz ia se elevando.
Naruto não queria se deixar levar pelo ciúme, pela inveja, pela cólera que queimava o seu peito e a boca do seu estômago. Aquela criança era a prova física de tudo o que ele não poderia dar ao homem que amava, embora tudo o que ele tinha para oferecer, já pertencesse à Sasuke no momento em que ele se entregou pela primeira vez. Era difícil engolir a mágoa, a rejeição e a negação constante, como se nada do que ele tivesse fosse o suficiente.
O Uchiha aparecer em sua casa, com aquele bebê nos braços, parecia ser um deboche, uma afronta para a sua incapacidade de fazer alguém feliz, mesmo que sua consciência lutasse para lhe dizer que não havia coerência nesse pensamento mesquinho, e que era apenas a amargura o fazendo ficar cego para a verdade que ele tinha medo de enxergar...
— Explica para mim, pelo amor de Deus... – implorou como se negociasse um desconto; um apelo frio e distante.
O Uzumaki não queria que fosse daquela maneira, ele pensou que já era indiferente àquilo, mas, pelo visto, não. Ele continuava a ser afetado pela presença do moreno e pela forma como os olhos negros tremularam desorientados sobre sua face, ele sabia que ainda mexia com o homem. E esse fato era um consolo, pois significava que não era o único a sofrer com a separação.
A voz profunda quebrou os seus devaneios:
— Na minha viagem para a Franca, há um ano, eu descobri que Sakura estava grávida. – Sasuke começou, desviando o olhar, sentando no sofá e ajeitando algumas almofadas no estofado. – Foi um acidente. Simplesmente não estava nos meus planos que algo do tipo acontecesse, pois eu estava pronto para pedir o divórcio. Naquela última tarde em que conversamos, eu disse que não demoraríamos a ficarmos juntos e essa foi a minha visão, até descobrir sobre a gestação. – continuou, depositando a criança entre as almofadas, para que pudesse se concentrar unicamente no psicanalista à sua frente, sem se preocupar com a possibilidade do menino cair. – Naquele mesmo dia, ela também me pediu o divórcio, porque nos descobriu juntos na festa dos Hyuuga. – e dessa vez, ele pôde notar a surpresa e o medo nas íris claras.
— Co... Como, se não fizemos nada? — ele gaguejou temeroso da resposta.
O Uchiha sorriu levemente para tranquilizar o homem, enquanto se levantava, depois de conferir se o garoto estava realmente em segurança.
— Instinto materno, sexto sentido feminino... Eu não sei, escolha a opção que lhe agradar mais, porque ela só me disse que percebeu pelo olhar que trocamos naquela noite. De acordo com ela, havia muito mais que uma simples amizade. – balançou a cabeça negativamente, enquanto escolhia as palavras seguintes. – Desde então, não estamos mais juntos, embora ainda estejamos casados no papel, vamos efetivar o divórcio, porque agora eu consegui arrumar a bagunça que toda a gravidez trouxe. – Naruto nem titubeou, quando ele se aproximou. – Se eu abandonasse o clã naquela época, eu perderia a guarda do meu filho. E por mais que ele tenha sido apenas um acidente, ele é um dos acasos que mais amo nessa vida... Eu não queria Katsumi nas mãos daqueles velhos, ensinando-lhe suas visões deturpadas sobre o mundo...
Naruto sabia a quem ele se referia, por isso, não precisou de mais explicações para entender a situação.
— E agora? – insistiu, ainda tentando compreender as razões do moreno, vendo-o lamber os lábios secos e adquirir uma aura distante de quem refletia sobre muitas coisas ao mesmo tempo.
— E agora? – ele riu, como se a pergunta não fizesse sentido, como se fosse uma piada sem graça. – Eu passei todas as minhas ações para ele – fez um gesto com a mão na direção do garoto, que observava com concentração e curiosidade um gato peludo e alaranjado, que o estudava do outro lado do sofá. –, a fim de evitar que me tirassem a liderança do clã e a presidência da Sharingan Corporation; evitar que eles me tirassem o direito de ser pai... – mordeu o lábio inferior, lançando uma súplica muda com o olhar. – E agora, eu espero que nós possamos ficar juntos...
O Uzumaki ficou em silêncio, analisando o homem minuciosamente, antes de se afastar e sentar no braço de uma poltrona. Ainda com os braços cruzado, ele refletiu sobre o que acabara de ouvir.
— Isso explica muita coisa... – murmurou consigo mesmo, fazendo o Uchiha franzir a testa em confusão.
— O quê? – perguntou em dúvida.
— Eu disse a você, Sasuke – tornou a olhar o homem, com uma carranca mal-humorada. –, eu não sou burro. – rosnou com raiva, antes de respirar fundo para acalmar os nervos. – Eu estive atento às notícias e eu percebi que havia algo de diferente nas suas atitudes. Na minha cabeça, eu pensei que fosse pelo seu filho que estaria para nascer, mas pelo visto, houveram outros motivos... – suspirou, massageando as têmporas com as pontas dos dedos, sentindo-se cansado e com dor de cabeça. – Você vai me deixar louco um dia... – murmurou.
Sasuke tentou conter a vontade de se encolher perante o tom usado pelo mais novo.
— Naru...
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— Eu... – começou em um tom de aviso. – Não quero suas desculpas – terminou, fazendo o moreno dar alguns passos para trás, um pouco assustado com a certeza resoluta naquelas palavras secas.
Katsumi deveria ter pressentido o clima, porque começou a emitir alguns sons que indicavam que ele começaria a chorar. Alarmado, o Uchiha temeu que o choro pudesse tornar a atmosfera mais densa, por isso se aproximou, mas foi detido, quando viu o menino se acalmar com a aproximação de Kurama, que cheirava o seu pé a fim de detectar o que era aquele ser pequeno se mexendo em seu território.
— Você é inacreditável.
A frase, seguida de um riso, chamou a atenção do moreno, que tornou a olhar a figura que irradiava indignação por todos os poros.
— Você me aparece aqui, depois de tanto tempo, com um bebê no colo para me dizer que quer voltar. – refletiu com um tom tão debochado, que Sasuke engoliu em seco. Ele sabia que estava errado e que merecia ser chutado para fora daquele apartamento, mas mesmo assim doía ver a possibilidade de ser rejeitado, principalmente por ter esperado tanto por outra chance. – E na sua bagagem, ao invés de roupas, você me trás um monte de informações, as quais eu fui mantido de saber, porque você é um covarde! – apontou, não dando oportunidade de o outro responder. – Eu fiquei no escuro, me alimentando de notícias que não me diziam nada do que eu precisava, tentando procurar através de jornalistas e repórteres algo que me ligava a você, porque você era incapaz de me dizer o que estava acontecendo! – ele estava tentando não gritar, mas estava difícil controlar o seu temperamento, que subia mais a cada instante. – Quando você disse, há um ano, que quando voltasse da França, nós iríamos conversar, eu acreditei em você e esperei. Esperei para ouvir que você voltaria para mim, que ficaríamos juntos, mas eu não pensei que isso demoraria tanto tempo! – passou a mão pelos cabelos para tentar se controlar. – Inferno, eu achei que você tinha desistido! – rosnou, começando a andar pela sala, porque se não fizesse alguma coisa, ele faria uma besteira.
— Descu...
— Eu já disse que não quero as suas desculpas! – grunhiu de forma contida. – Eu sou um idiota. – riu amargamente. – Eu não deveria ter esperado, eu deveria ter seguido com a minha vida, mas, assim como você, eu também precisava desse tempo, para colocar a minha cabeça no lugar, os meus sentimentos em ordem e a minha vida nos eixos...
— Você não foi o único a esperar. – Sasuke se impôs, cansado de ser interrompido e ouvir aquelas palavras cheias de raiva, que machucavam e doíam. – Eu sei que eu deveria ter dito alguma coisa, dado alguma satisfação sobre o que estava acontecendo, mas eu não podia... – vendo que não seria interrompido dessa vez, continuou. – Eu te quero tanto, dobe... – disse de coração aberto, tentando frear o orgulho que ameaçava travar seus planos. – Eu te amo tanto... – viu os olhos azuis arregalarem como pratos, pois era raro ouvir aquela declaração vinda do moreno. – E você tem noção do efeito que tem sobre mim? – perguntou.
Naruto abriu a boca para responder, mas decidiu pelo contrário.
— Perto de você, eu faço tudo errado, Uzumaki. – ele repetiu as palavras que o homem usara uma vez, antes de se separarem definitivamente. – E eu não podia me dar o luxo de errar dessa vez. Havia muito em jogo; eu, você e Katsumi... – cobriu o rosto com as mãos. – Se eu me desse à liberdade de me aproximar, nós cometeríamos o deslize de ser indiscretos outra vez. Não foi só você que desconfiou das minhas atitudes, o conselho do clã também o fez... – suspirou, se cortando.
"Sasuke estava com medo de perder a guarda da criança", o loiro concluiu, vendo os olhos negros derivar para o filho deitado em meio às almofadas, enquanto sorria com o fato de Kurama estar apoiando as patas dianteiras na barriga do bebê, para cheirar o rosto do menino, ainda confuso e mal-humorado sobre o que era aquela criatura em SEU sofá. O Uzumaki viu o sorriso singelo do moreno, ao mesmo tempo em que ele assistia a cena curiosa se desenrolar.
— Eu remanejei os cargos de poder dentro do clã... – ele continuou com um sussurro. – Por isso, se me aceitar de volta, quando os antigos anciões descobrirem sobre nós dois, eles não poderão fazer nada, entende? – terminou de explicar, sentando-se no sofá com as energias drenadas, mas poupando um tanto para despejar um pouco de atenção no felino, que olhava o homem com reconhecimento.
Naruto escaneou a figura do mais velho, sentindo o peito se aquecer ao perceber o cuidado inegável que Sasuke tinha pelo filho. Ele seria injusto se condenasse o Uchiha por tentar poupar o garoto de um futuro miserável, pois se o fizesse, estaria descontando as suas frustrações naquele bebê que nada tinha haver com os erros do passado. Ele tinha de admitir que o tempo em solidão fora benéfico e necessário para ambos, porque mesmo o Uzumaki teve um monte parar refletir, depois de tudo o que havia acontecido. Ele também precisou analisar os seus próprios deslizes, ou seja, era iníquo julgar falhas que não foram somente do empresário, mas dele também. E mesmo que seu orgulho lhe pedisse para chutar os dois para fora do seu apartamento, o seu coração lhe pedia para aceitar essa oportunidade, porque, enfim, ele poderia viver sossegadamente com o homem que amava.
O psicanalista sempre sonhou em ser uma família para Sasuke, mas ele não poderia lhe oferecer essa condição, uma vez que não poderia lhe dar filhos e nem tinha uma união de sangue com seus parentes. Ele fora adotado e por mais que considerasse Tsunade e Jiraiya como seus verdadeiros pais, seu senso de família não era o mesmo que o do Uchiha. No entanto, ironicamente, o moreno estava lhe oferecendo justamente o que ele queria lhe oferecer, o que ele precisava, o que ele sempre quis a vida toda: uma família para chamar de sua. E, por mais que Katsumi não fosse seu, ele via no olhar do mais velho, que ele queria que ambos fossem pais daquela criança.
O Uzumaki quase começou a chorar quando viu que ali, diante dos seus olhos, estava a chance que ele esperou para não ser mais sozinho...
— Uchiha bastardo... – murmurou com a voz embargada.
O tom de voz chamou a atenção do outro, que o olhou com preocupação e soltou o gato, que estava em seu colo. Ele se levantou um pouco alarmado e com medo do que aquele par de olhos cheios d’água significava.
— Naruto...? – ele queria perguntar, mas não sabia exatamente o quê, então, deixou a questão subentendida no espaço, para que ela pudesse dizer por si só o que ele não poderia vocalizar.
— Arigatou... – sussurrou, deixando o Uchiha ainda mais confuso, mas antes que ele pudesse perguntar o porquê do agradecimento, o psicanalista continuou. – Negar você, seria como negar a felicidade a mim mesmo, então, obrigado por voltar para casa...
(***)
— Nós estamos há tanto tempo juntos... – a voz rouca e grave do Uzumaki escorreu pelo quarto escuro, reflexiva e leve como o vento. Ele parecia estar em profundo debate consigo mesmo, o que fez Sasuke franzir o cenho em confusão e desconfiança.
— O quê? – indagou, levantando a cabeça, que estava apoiada no peito bronzeado, para encarar melhor a rosto do outro. Os olhos azuis focado no teto; distante e impassível.
— Esquece, só estou pensado alto... – murmurou tranquilizador, empurrando o moreno pela nuca, para que este pudesse voltar a deitar em seu colo.
O Uchiha rangeu os dentes, forçando o pescoço contra o impulso do homem para continuar o encarando. Os dois ficaram nessa briga infantil, até que o mais velho se cansou e tirou a mão do meio dos seus cabelos.
— Pare com isso, usuratonkachi! – rosnou, virando-se para se apoiar nos cotovelos. – No que está pensando? – perguntou, seduzido pela curiosidade. Ele não tinha culpa, se o loiro parecia ser tão misterioso às vezes.
Naruto olhou para ele sem mover a cabeça do travesseiro, com as pálpebras baixas e o rosto erguido, antes de dar um sorriso malicioso.
— Você parece uma criança, quando está curioso. – murmurou, apertando o queixo cinzelado e pálido entre o indicador e o polegar. – Uma criança, cujo doce lhe foi negado. – brincou, movendo-se apenas para depositar um beijo suave nos lábios finos, antes de voltar à posição anterior.
"Ele está tentando mudar de assunto", Sasuke constatou, estreitando os olhos.
— Diga-me. – exigiu, ouvindo só um cantarolar de concordância vinda do outro e nada mais, enquanto ele fechava os olhos para dormir. – Dobe?
— Não é nada significante, Sasuke, vamos dormir. – ele cortou, tentando ignorar a forma como os olhos negros o escaneavam de cima a baixo.
Era mentira e ele sabia, ele havia notado pelo tom grave e sério que o homem havia usado. Sasuke não era burro e, por mais egoísta que fosse, ele ainda era observador e preocupado com tudo o que envolvia Naruto, principalmente agora, quando este andava tão distante e distraído nos últimos dias.
— Naruto? – seu tom transmitia que ele não aceitaria admoestação, o que fez o psicanalista dar um suspiro e passar os dedos da mão direita levemente sobre as costelas do corpo magro para sentir as ondas dos ossos na pele macia.
A carícia era tão suave, que arrepiou o Uchiha.
— Estamos juntos há tanto tempo – começou com o mesmo timbre que havia usado para pronunciar a mesma frase. –, que me pergunto como seríamos se estivéssemos separados.
A pergunta o fez tenso e ele olhou para o Uzumaki com cautela e o coração palpitando em um sentimento notório de alerta. Havia algo completamente errado com aquele pensamento e ele não gostava do rumo daquela conversa. Lá no fundo, Sasuke se arrependeu de ter insistido em pressionar o mais novo, mas, infelizmente, ele não conseguia lidar com omissões, pois sempre lhe davam a sensação de que ele cometeu uma falta.
E ele odiava sentir que cometeu algum deslize.
— E de onde veio isso? – indagou, franzindo os lábios em descontentamento para se impedir de lançar mais uma infinidade de questões.
A forma como Naruto o olhou, fê-lo se calar. Era uma pergunta idiota e ele sabia disso, mas não podia se ajudar, quando ele havia se sentido um tanto inseguro com a reflexão repentina. Era complicado viver um romance às escuras e ele, melhor do que ninguém, sabia das circunstâncias as quais tinha que passar apenas para ter aqueles poucos momentos breves. O devaneio do outro lhe alertou para o que estava tentando ignorar desde o começo. Sasuke tinha plena noção que aquele arranjo um dia acabaria, pois não havia maneiras de que isso durasse por toda uma vida. Mas e quando o rompimento chegasse, o que ele faria?
Só de pensar na possibilidade de uma vida sem esse homem, um bolo se formava em sua garganta...
(***)
— Por quanto tempo você vai ficar fora? – indagou, perseguindo o Uzumaki pelo apartamento, enquanto este zanzava para cima e para baixo à procura do que levaria para sua viagem.
— Por umas duas, três semanas, no máximo. – respondeu, fazendo um gesto de dispensa e descaso com a mão direita.
— Por que tudo isso? Pensei que tinha dito que era apenas um congresso. – tornou a perguntar, começando a se sentir como um menino emburrado, que seria deixado por conta própria pelos pais por todo aquele tempo.
— Eu quero aproveitar a viagem e passear um pouco. Vai saber quando terei a oportunidade de conhecer a Suécia outra vez? Estocolmo é uma cidade bonita e eu seria louco se não usufruísse dessa chance. Você não precisa se preocupar, porque Hina-chan vai te atender, enquanto eu estiver fora. – disse, pegando algumas camisas de dentro do armário.
— A questão não é essa... – murmurou, mordendo o lábio inferior, vendo-o pegar algumas calças e enfiá-las de qualquer jeito na bolsa grande, fazendo-o sentir a sobrancelha tremular em agonia, devido à bagunça que o homem estava fazendo. – Deixe-me fazer isso, dobe. – resmungou, afastando o homem para que pudesse organizar as roupas com cuidado.
Naruto era um relaxado e se tivesse que ficar tanto tempo longe, que pudesse ao menos fazer algo por ele. Internamente, Sasuke sabia que era uma atitude inconsciente para demarcar o território; para que o loiro olhasse para a sua mala e lembrasse que fora ele quem havia preparado tudo; apenas para que o homem não esquecesse que havia alguém esperando por ele, assim que voltasse a pisar em solo japonês.
— Não? Então, qual é a questão, Sasuke? – ele perguntou naquele maldito tom profissional que o irritava, parecia instigar certa distância, que o incomodava.
— Hn. — ele grunhiu, decidindo por se manter em silêncio.
—
Naruto foi e o tempo afastado, fez-lhe pensar na prerrogativa desse romance incerto. Um caso extraconjugal era perfeito para o que ele precisava, mas em situações como essa, algo lhe batia duro no peito: a realização de que jamais poderia partilhar momentos em público com o homem que amava. Seu desejo era aproveitar a viagem com o Uzumaki, fazer-lhe companhia, contudo, devido ao seu casamento, era impossível.
O loiro mal ligou desde que partiu. Sabia que o mais novo estava ocupado, assistindo um milhão de palestras e verificando estudos atuais para atualizar o seu currículo, mas era inevitável que se sentisse um pouco abandonado. Por isso, pelo menos uma vez por dia, ele passava no apartamento pequeno para verificar e alimentar Kurama e em várias noites, Sasuke pernoitava, talvez, à procura de algo físico que o ligasse ao outro.
E agora, ele estava deitado e dormindo em meio ao edredom laranja e azul marinho, usando o travesseiro que pertencia ao idiota, só para que pudesse dormir acalentado com o cheiro cítrico familiar. Dezessete dias sem a presença de Naruto e ele já estava agindo como um dependente químico em abstinência. Era desolador saber que havia milhas e mais milhas o separando do seu vício e a necessidade parecia queimar ainda mais intensa com o fato.
O gato do casal estava enrolado em uma bola aos seus pés e repentinamente ele se agitou, como se escutasse algum barulho incomum, mesmo submerso à neblina da inconsciência. Sasuke poderia ter até escutado um som ou outro em meio ao sono, mas deu pouca importância, devido ao cansaço.
Ele só despertou de vez, quando sentiu um par de braços o envolverem por debaixo das cobertas, e um tronco delgado colar às suas costas. A princípio, o Uchiha se assustou, mas quando sentiu o calor tão característico, ele abriu os olhos para a escuridão e suspirou em deleite, relaxando.
— Tadaima¹⁵. – o Uzumaki murmurou de encontro à sua orelha. – Sentiu a minha falta? – perguntou e, pelo tom, Sasuke já sabia que ele estava se divertindo.
— Não seja tão egocêntrico, usuratonkachi. – ele retrucou com escárnio e a voz rouca por falta de uso, não querendo admitir o quanto havia sentido saudades.
— Bastardo... – espanou com descaso, antes de morder o lóbulo da orelha direita do moreno. – Pois, saiba que eu senti a sua falta; e muito! – sussurrou como se lhe confidenciasse um segredo, moendo o seu quadril se encontro à bunda de Sasuke, para que ele tivesse uma pequena amostra do que dizia.
— Caso não tenha reparado, dobe, eu estou cansado. – replicou, tentando ignorar a própria excitação, que crescia conforme o outro se movimentava contra a sua parte traseira.
— E eu estou precisando de sexo, Uchiha. – disse com a voz rouca, fazendo o outro tentar conter um estremecimento. – Estou a duas semanas sobrevivendo à base de punheta, enquanto pensava em você batendo uma para mim...
"Ok, isso já basta!", pensou ele, tendo o suficiente. Ao se virar com uma velocidade impressionante, ele empurrou o Uzumaki de costas para a cama e se colocou em cima do homem para encarar aqueles olhos brilhantes e cheios de ardor. O empresário agarrou os pulsos do loiro, colocando-os ao lado de sua cabeça e apertou uma das coxas entre as pernas do outro.
— E o que mais você imaginou nessa cabecinha suja? – perguntou com ânsia e totalmente desperto.
Naruto tinha aquela tendência de acendê-lo em menos de cinco minutos com aquela malandragem e malícia típicas do seu comportamento abusado. Ele amava e ao mesmo tempo odiava, pois era incapaz de dizer "não" ao homem. Ele estava verdadeiramente exausto, mas a possibilidade de uma rapidinha de leve para matar a saudade estava lhe seduzindo muito mais que o sono.
— Pensei que estivesse cansado. – o mais novo provocou, dando um sorriso de escárnio, enquanto levava a perna esquerda para enlaçar o quadril do homem e puxá-lo para mais perto.
— Não agora... – retrucou, soltando um dos pulsos para alisar o tronco delgado. Preparado justamente para incitar Sasuke, Naruto vestia apenas a cueca.
— Eu pensei em você lambendo e chupando o meu pau, como se fosse um sorvete... – murmurou com diversão, lambendo os lábios e se deliciando com a imagem mental. – Talvez, eu imaginei o seu pinto na minha boca...
Ele estava feito. Seus lábios tomaram o homem em um beijo voraz e faminto, combinado com mordidas e sucções nada mansas e leves. Sasuke seria insano se negasse o seu vício, quando ele simplesmente se oferecia dessa maneira em uma bandeja de prata...
(***)
Sasuke apertou a alça de uma gaiola pequena, que tinha um laço vermelho amarrado à portinhola trancada. Do lado de fora do apartamento onde Naruto vivia, ele conseguia ouvir o som leve de uma música suave. Com um sorriso pequeno, ele abriu a porta, para encontrar o homem vestindo somente uma boxer branca e uma camisa azul aberta, sentado no chão com os óculos presos pela ponta do nariz fino e digitando furiosamente em seu notebook.
Essa mania de Naruto andar sempre muito à vontade dentro de casa seria a sua morte um dia.
Atraído pelo barulho, a cabeça loira ricocheteou em direção à entrada, deparando-se o moreno carregando uma jaula com uma bola laranja encolhida no canto esquerdo. Devido ao enfeite pendurado na grade de aço, era difícil definir o que o animal parecia, mas algo lhe dizia que era um gato.
— O que é isso? – apontou com perplexidade e curiosidade.
Fora uma pergunta estúpida, ele sabia o que havia dentro do compartimento, mas ele não entendia o motivo de Sasuke trazer um bicho de estimação para o seu apartamento, principalmente quando este não havia lhe consultado sobre essa decisão repentina. "Será que ele comprou para levar para Sakura?", perguntou-se silenciosamente.
— Oi para você também, dobe. – resmungou, estendendo o objeto e tentando ignorar a forma como os músculos do peito do outro se contraíram, conforme ele se movimentava.
— É para mim? – perguntou novamente, sentindo-se perdido por um segundo.
— Hn. – ele grunhiu irritado e um pouco constrangido. Ele nunca havia dado nada para o Uzumaki antes, por esse motivo, não o culpava por se sentir tão disperso, mas lhe incomodava a necessidade de explicações. Naruto só precisava aceitar e agradecer, sem perguntas desnecessárias para entender a situação toda.
No fundo, ele sabia que não queria explicar os motivos de ter comprado o gato em primeiro lugar. Era constrangedor.
O loiro agarrou a gaiola e olhou para dentro, encontrando as pupilas em riscos verticais em meio aos globos acobreados. O animal era diferente e exótico, aliado ao pelo alaranjado e longo, ele parecia uma pequena raposa ou um Lince Euro-asiático. As pontas das orelhas eram marrons, quase pretas, o que reforçava ainda mais essa aparência inusitada do felino.
O olhar profundo o encarava com desconfiança e a postura arisca e arredia quase lhe lembrava de Sasuke. Então, ele entendeu e sorriu, o bichano era uma mistura inerente de algo que remetia a si mesmo com os traços mais marcantes do Uchiha. Depositando a pequena jaula em cima da mesa de centro, ao lado do notebook, ele abriu a portinhola e saudou:
— Seja bem vindo, Kurama. – ele não sabia de onde vinha o nome, mas sabia que combinava; talvez os tons de vermelho e laranja que compunham a sua estrutura delgada o lembrassem das raposas da mitologia japonesa.
— Kurama? – o outro perguntou, sentando-se ao lado do loiro para olhar o felino, que saia de sua proteção para cheirar o ambiente. Ele ainda parecia cauteloso e receoso, mas levando-se em conta que nunca estivera em uma casa, longe dos seus irmãos pequenos, era completamente natural.
— Sim, Kurama, já que é um presente para mim, nada mais justo eu escolher o nome! – retorquiu teimosamente, já antecipando a implicância no tom de voz do outro.
— Eu acho que combina com ele. – sorriu, assistindo com diversão o homem fazer um bico amuado.
Naruto foi tentar alisar as costas do felino, mas este se contorceu por inteiro a fim de evitar ser tocado. "Que gato mais fresco!", pensou com uma carranca. O casal ficou em silêncio contemplativo por alguns minutos, enquanto assistia o felino se mover com calma e elegância pelos cantos do cômodo, fazendo um reconhecimento básico do seu novo habitat.
— Você se lembra que dia é hoje? – o Uchiha perguntou repentinamente. A sua aparência estava em branco, mas era claro que, por dentro da casca indiferente, ele estava levemente inseguro.
O Uzumaki arregalou os olhos, ficando preocupando por sentir que a data de hoje era importante de alguma forma, mas ele não conseguia por a mão sobre o que exatamente se tratava. Ele olhou para o homem ao seu lado com medo, enquanto vasculhava freneticamente em sua mente o motivo para aquela questão. Lambendo os lábios, ele decidiu vocalizar a sua dúvida, mesmo que isso resultasse em um Sasuke emburrado e todo arisco, como Kurama.
— Que dia é hoje? — murmurou temeroso que se falasse mais alto pudesse desencadear uma briga.
Sasuke estalou a língua, levantando-se e indo para a cozinha. Se continuasse a olhar praquela face cheia de confusão, ele não seria responsável pelos seus atos. O Uchiha não acreditava que o loiro fosse capaz de esquecer algo tão significativo. Hoje, ambos completavam três anos “efetivamente” juntos, era um segredo e não era um relacionamento oficial, visto as circunstâncias que os envolvia, mas não deixava de ser importante.
— Sasuke?! – ouviu o homem gritar e, mesmo assim, abriu a geladeira, para fingir fazer algo quando o outro alcançou os seus pés até o cômodo.
— Deixei a ração do Kurama no carro, vou buscar. – ele justificou seus esquivos, virando para andar até a sala e pegar a chave do carro, sem olhar para Naruto.
— Sasuke! – chamou, correndo para empurrar a porta, antes que o homem a fechasse. – Espera! – ofegou. – Vamos conversar!
— Não há nada para conversar. – deu de ombros, fingindo indiferença. – Não era nada importante, esqueça o que eu perguntei. – tentou forçar a porta.
Os orbes azuis tremularam de um lado para o outro, como se assim ele pudesse vasculhar nos confins de sua memória o que havia perdido. Como uma luz no fim do túnel, a informação o atingiu com um impacto atordoante.
Era dia 24 de outubro.
— Oh... – ele só conseguiu balbuciar, antes de prender o lábio inferior entre os dentes. – Desculpe por isso, eu realmente esqueci. – foi sincero, sabendo que mentira nenhuma minimizaria o erro, enquanto coçava a cabeça sem graça.
— Eu percebi. – respondeu curto e grosso. – Agora me dê licença para que eu possa pegar a comida do Kurama, ele deve estar com fome. – disse, tentando puxar a maçaneta.
Mas, Naruto era extremamente forte e apenas com uma mão espalmada na madeira plana, ele tornava a simples tarefa em um briga. Ele só conseguia mover um tanto, até que esta voltasse a se abrir.
— Você vai voltar? – perguntou com insegurança, algo dentro do seu interior lhe impedindo de deixar o homem sair de suas vistas. Ele havia errado, mas podia consertar o deslize, sem que Sasuke precisasse dramatizar tanto.
— Que pergunta estúpida! Não é porque você esqueceu que vou deixar o gato morrer de fome. Quem merece um castigo é você e, não, o bichano. – retrucou com impaciência, trazendo um sorriso satisfeito nos lábios do homem.
— Ok. – ele aumentou o sorriso afetado. – Vá buscar a ração, mas volte rápido. Vamos preparar um jantar especial juntos para comemorar o dia, o que acha? Posso considerar o seu castigo como a minha sobremesa, hm? – deu uma piscadela, fazendo Sasuke bufar com impaciência, embora um leve repuxar de lábios ameaçava denunciar o seu real sentimento sobre a situação toda.
— Idiota... — ele sussurrou, puxando a porta e saindo, deliciando-se com a expressão preocupada no rosto do outro. O castigo seria apenas uma tortura leve, antes da sobremesa, porque está, com certeza, seria doce para ambos...
(***)
— Às vezes eu me sinto um fraco.
A voz profunda cortou o silêncio do consultório. Naruto não tirava os olhos da figura masculina e imponente que era Uchiha Sasuke. Ele estava sentado no divã, com os cotovelos apoiados nos joelhos, olhando para baixo e encarando com concentração o carpete cor de areia de seu espaço de trabalho. Nos últimos dias, o empresário parecia estar uma bagunça e o psicanalista estava tendo uma batalha para descobrir o porquê de o homem estar tão perdido.
Recebendo a quietude em resposta, o mais velho continuou:
— Eu não sei me levantar contra a minha vida; contra as regras que norteiam os meus dias desde que nasci. – lambeu os lábios. – Eu não sei se o que quero é realmente o que preciso ou algo que meu pai passou para mim como um desejo espelhado. – brincou distraidamente com a ponta dos dedos. – Eu só sei que, às vezes, olho para frente e percebo que está tudo errado.
O loiro cerrou os olhos e se concentrou ainda mais nas palavras do homem. Em seu estômago, um embrulho desagradável de preocupação, pois eram raros os momentos em que o outro desabafava dessa forma, tão livre e ao mesmo tempo tão cheio de receio. Era claro como água que ele não queria estar despejando tanto, mas havia uma necessidade inerente em seus trejeitos que denunciavam a urgência de colocar aquele peso fora de seus ombros.
— E há quanto tempo vem se sentindo dessa maneira? — perguntou em um tom profissional, embora sua vontade fosse um pouco mais íntima.
Como se lembrasse que estava acompanhado, Sasuke desviou a atenção para encarar o psicanalista, mesmo que a tarefa fosse difícil, uma vez que os fios ébano quase lhe cobriam todo o rosto. Naruto fechou as mãos em punho para se impedir de empurrar o cabelo para longe da face pálida.
— Há um tempo... — respondeu vagamente, dando de ombros e um sorriso que não chegou a atingir os olhos.
Naruto parou de tentar se conter, ele simplesmente se inclinou para a frente, ainda sentado em sua poltrona, estendeu o braço e empurrou a franja macia para o lado, aproveitando para alisar o polegar no vinco tenso da testa.
— Aconteceu algo que te fez questionar sobre a sua vida assim, tão de repente? – indagou novamente em um tom ameno, carinhoso, que fez Sasuke fechar as pálpebras para sentir melhor aquele carinho suave.
— Aconteceu que eu me dei conta de algo que jamais poderia ter acontecido. – murmurou, inclinando o rosto para a palma da mão calejada, enquanto Naruto apertava com os dedos, alguns pontos em sua orelha e ao redor dela para aliviar os músculos enrijecidos do seu corpo. Como essa parte de sua cabeça podia ser tão influente no resto, ele não sabia, mas estava lhe ajudando um bocado.
— E o que seria isso? — forçou, contornando os lábios finos com os dígitos, faminto por tocar a pele de porcelana. O Uchiha tinha traços delicados como os de uma boneca: a boca pequena, o nariz arrebitado, sobrancelhas finas e bem delineadas, o rosto em formato de coração e um queixo fino e pequeno... Ainda assim, o olhar ostentado pelo homem exalava uma virilidade sem tamanhos. As íris escuras reservavam um mistério atraente e uma força gigantesca, que intimidavam e desafiavam.
Sasuke nunca seria fraco, apenas suas decisões precipitadas o faziam parecer impotente perante as situações.
— Eu me apaixonei por você. – confidenciou em um sussurro quase inaudível.
Naruto arregalou os olhos, surpreso. O reconhecimento da confissão do outro caindo como um peso retardado em seu cérebro, dando-lhe um entendimento tardio sobre o que aquilo significava. Ele jamais pensou que ouviria uma declaração tão desprendida e simples do homem, quando ele nunca esperou que seus sentimentos fossem correspondidos. Há quase dois anos atrás, ambos haviam chegado a um acordo mudo: ninguém poderia se apaixonar, uma vez que não poderiam ficar juntos. Agora, a promessa parecia um vidro fino prestes a quebrar diante à realidade que os rodeava, era frágil, mas fazia o seu coração bater freneticamente com a esperança de algo que sabia que não havia possibilidades de acontecer.
Seus pensamentos foram calados pela voz grave, que tornou a falar em um tom baixo, ao mesmo tempo em que os orbes ônix perscrutavam a figura masculina à sua frente.
— Eu sei que eu não deveria, pois prometemos um ao outro que seria só sexo, mas quando eu reparei... – pausa reflexiva. – Eu já estava perdidamente apaixonado. – ele deu outro sorriso, ainda mais amargo que o primeiro. O Uchiha deu a entender que falaria mais, mas o Uzumaki foi mais rápido em colocar o polegar sobre os lábios finos em um gesto que pedia silêncio.
— Não pense tanto... – pediu com um sussurro íntimo, levantando-se da poltrona e dando alguns passos até o mais velho. Suas coxas deslizaram ao redor do quadril delgado até que ele estivesse sentado no colo do amante, que segurou a sua virilha para puxá-lo mais perto, querendo os dois corpos para se fundir como se fosse um.
O psicanalista pegou um punhado de cabelos negros para erguer o rosto pálido e grudar a boca na sua, transformando a mente do Uchiha em branco. Mesmo o loiro não queria pensar nas consequências daquele romance proibido, ele só queria vivê-lo intensamente, até onde pudesse, até onde suportasse, com toda a sua carga e o seu peso, independentemente das respostas que receberia do futuro, devido à plantação indevida das sementes erradas.
— Eu também estou apaixonado por você. – Naruto murmurou de encontro aos lábios do homem, antes de aprofundar o contato, necessitado e urgente.
(***)
Sasuke estava louco.
Naruto também gostava de aventuras, de se arriscar e sentir a adrenalina correndo pelas veias, fazendo o seu coração saltar descontroladamente dentro do peito, mas aquilo era um exagero...
O Uchiha decidiu que ambos tinham que mudar de ares. Ele estava cansado de estar somente naquele apartamento pequeno, embora soubesse bem que não era possível ambos se encontrarem e saírem como se fosse um casal. Nada demais em almoçar como amigos uma vez ou outra, mas nunca poderiam ser mais íntimos que meros colegas. Ainda assim, sabendo das restrições que possuíam, Sasuke não hesitou em organizar algo diferente. Ele alugou um quarto de hotel simples, em Ome, cidade afastada da região central de Minato, pois nenhum deles queria correr o risco de encontrar algum conhecido, e lhe entregou a chave do quarto, dizendo o dia e o horário que deveriam se encontrar.
O que deixou Naruto nervoso.
Quase se sentia como um colegial em seu primeiro encontro. As palmas das mãos suavam e ele engolia em seco de cinco em cinco minutos, a fim de tentar eliminar aquele bolo embaraçoso na garganta. A ansiedade era uma vadia e ele, como um psicanalista renomado e reconhecido, deveria saber se controlar melhor, mas quando se tratava do Uchiha, ele simplesmente perdia a noção, o bom senso, a razão e o domínio sobre si mesmo. Era ridículo, mas ele estava apaixonado. Não podia e, quando percebeu, ele já tinha caído de amores por um homem casado; foi sem querer, de mansinho, cada vez que ele descobria um pedaço do segredo que envolvia o moreno, mais ele se sentia envolvido. O Uzumaki se apegou vagarosamente aos toques sutis em seu joelho, aos sorrisos singelos de carinho ou deboche e aos beijos enlouquecidos que trocavam durante as noites de sexo selvagem.
A cada análise, ele se prendia mais aos contrastes do homem. Sua pele branca em união com os cabelos e olhos escuros, os traços delicados nos contornos masculinos, a personalidade arisca que camuflava um interior sensível, a aparência indiferente que acobertava um homem apaixonado... Ele não se cansava de ver os pormenores contraditórios que formavam os princípios de igualdade dessa figura tão temida no ramo dos negócios.
Com as mãos trêmulas, ele girou a chave prateada no trinco e abriu a porta, encontrando a escuridão dentro do quarto. Estranhou, pois Sasuke havia lhe prometido que chegaria antes. Entrando, ele fechou a entrada com um baque baixo e tateou a parede à procura do interruptor. Quando as luzes piscaram e se acenderam, ele ouviu um gemido... Rouco, profundo e baixo; parecia ecoar em todo o ambiente, em seu ouvido, alisando os seus sentidos como fogo líquido e arrepiando todos os pelos de sua nuca. Ele olhou sob o ombro com cautela, sentindo a respiração ficar ainda mais pesada com imaginação que começou a rodar como louca dentro de sua cabeça.
Quando sua visão capturou o vislumbre da cama, ele gemeu lamentavelmente e se virou para frente, sentindo a região do baixo-ventre retorcer em excitação e a calça apertar devido à rigidez imediata do seu membro. Ele apertou a maçaneta por um segundo, tentando encontrar a calma, antes de se forçar a virar para o homem deitado com as pernas afastadas, afagando seu sexo com experiência e entusiasmo. Os músculos do peito pálido e coxas estavam tensos e os olhos escuros estavam semicerrados, brilhando em desejo e luxúria; os dentes massacravam a carne do próprio beiço a fim de dar a Sasuke um pouco de autocontrole.
— Você ainda vai ser a minha morte... – Naruto murmurou com o tom duro e ainda mais rouco que o normal, enquanto focava a atenção descarada nos dedos deslizando pelo comprimento rijo. Em um gesto automático, já que seu cérebro havia se desligado, ele trancou a porta e deu alguns passos descoordenados em direção à cama, nunca tirando os olhos dos movimentos lentos e ritmados.
— Você estava demorando, tive que começar sozinho. – respondeu, tentando dar um sorriso de escárnio, mas não conseguiu, devido à resposta involuntária de seu corpo, que se contraiu de prazer por causa do estímulo incessante.
O Uzumaki não retrucou a provocação, incapaz de abrir a boca para encontrar a voz e ordenar os pensamentos. A princípio, Sasuke era bastante cauteloso em sua relação, mesmo que demonstrasse confiança, porque o envolvimento com alguém do mesmo sexo era extremamente novo para ele. Mas, conforme o tempo foi passando, o Uchiha havia se tornando cada dia mais ousado e, agora, Naruto não sabia decidir se amava o quão sensual o parceiro estava se tornando ou amaldiçoá-lo, porque se ele continuasse a tomar atitudes como essas, ele corria o risco de sofrer uma parada cardíaca.
O loiro apenas sorriu perversamente, sob o olhar intenso e escuro. Ele puxou a camiseta de algodão marrom sob a cabeça para tirá-la e desafivelou o cinto. Tudo lentamente e recebendo a atenção que queria. Não houve dancinhas sinuosas, apenas um convite claro dentro dos orbes cerúleos: você pode tocar se quiser. A língua rosa de Sasuke passou pela carne dos lábios, umedecendo-os, enquanto as íris obsidianas se erguiam para encarar o objeto dos seus sonhos molhados. O moreno alisava a palma livre no próprio peito, como se aquilo pudesse minimizar a fome que seus dedos sentiam da pele bronzeada.
Chutando a calça jeans, as meias e os tênis, ele subiu na cama, ajeitando o próprio pênis dolorido dentro da cueca e engatinhando pela mesma até que seu corpo pairasse acima do mais velho. Sua mão se insinuando sobre a pélvis pálida, dedilhando os dedos levemente na carne aquecida. Naruto se abaixou para lamber a cabeça regurgitada do pênis inchado, pegando as gotas de pré-sêmen, antes de se afastar e capturar a boca do amante em um beijo profundo e intenso, segurando e sugando um gemido de protesto a partir do outro. Rindo de encontro aos lábios finos, ele murmurou:
— Será que estamos um pouco ansiosos? – perguntou com diversão, recebendo como resposta um puxão em seu cabelo e a inversão das posições.
— Cala a boca, usuratonkachi. – resmungou. – Já faz algum tempo, é óbvio que estou ansioso. – admitiu, sentando-se em cima do quadril do loiro e esfregando a própria ereção no bojo ainda vestido. Ele se curvou, correndo os lábios pela clavícula bronzeada, antes de chupar com força a pele, na esperança de conseguir marcá-lo ao menos um pouco, mesmo sabendo que era inútil, afinal, o local só ficaria avermelhado por algumas horas até desaparecer.
O Uzumaki ficou em silêncio, correndo os dedos pela lateral do corpo magro e firme, massageando os ilíacos salientes, antes de tomar o membro em sua mão, apalpando o músculo rígido e massageando o saco escrotal com os dígitos experientes, fazendo o parceiro arfar em sua orelha.
— Não precisa se sentir ofendido por isso, teme, eu também estava ansioso. – tranquilizou, sabendo, melhor como lidar com o orgulho Uchiha melhor que ninguém e tentando demonstrar que o sentimento não era para ser lidado como algo humilhante, mas, sim, natural dentro daquele contexto.
Sasuke tinha que aprender a achar que estar no controle das situações e das emoções nem sempre era tão bom quanto acreditava, pois, por causa desse traço de sua personalidade, o homem se cobrava e vivia estressado. Nem tudo na vida era milimetricamente regrado. Aos poucos, o empresário autoritário estava vendo, com a ajuda do Uzumaki, que a espontaneidade e a entrega eram muito melhores que se reprimir o tempo inteiro.
Aquele era um cuidado extra, que ele incluía fora do consultório reservado só para o Uchiha...
(***)
— Você está testando a minha paciência, Uchiha.
Um silêncio pesado recaiu sobre eles. Ônix contra azul cerúleo em uma batalha que media força através de olhares. Ambos eram páreos duros e nenhum deles cedia ou vacilava; havia questões muito mais importantes que a comparação de egos, existia resolução concreta sobre firmar as suas determinações, os seus pontos de vista.
— Eu não quero te afrontar, pelo contrário, fui contratado para lhe ajudar, mas se você acredita que meu trabalho não está sendo bom o bastante, sinta-se livre para abandonar as sessões. – ele apertava o braço da poltrona com raiva, tentando controlar o seu temperamento sempre explosivo.
Ele já estava farto! Há quase um ano, esse homem aparecera no consultório, tratando-o como se fosse um pedaço de carne perfeito para alimentá-lo. Ele não faria esse papel. Sasuke era um homem casado; cheio de complexos, confusões e carências, dos quais não conseguia resolver sozinho, sem a ajuda de um psicanalista. Ele tentou de tudo, ser cordial e profissional, contornar os seus joguetes mentais com palavras neutras, mas o empresário continuava rebatendo tudo o que ele dizia com alguma frase estúpida e transbordante de sarcasmo. A situação mudou, no entando, a partir do momento em que ele ameaçou indicá-lo para outro profissional; o cara surtou...
Agora, eles estavam naquele clima tenso e desconfortável.
— Eu não estou querendo menosprezar o seu trabalho, Naruto. – resmungou, rolando os olhos, considerando a circunstância dramática demais para algo tão pequeno.
— Doutor Uzumaki.
— O quê? – ele perguntou com confusão, pois estava no meio de uma reflexão profunda para se explicar e fazer com que o psicanalista entendesse que ele não estava brincando.
Sasuke realmente desejava ter o loiro bonito e, ver aquele fogo apaixonado e irado brilhando em seus olhos, só lhe reforçava esta certeza. As cicatrizes nas bochechas pareciam ainda mais evidentes devido à mandíbula tensa, e a imagem era encantadora e ao mesmo tempo perigosa. Um arrepio de tesão percorreu sua espinha.
— Para você, eu continuo sendo Doutor Uzumaki. Pare de me tratar como se fossemos íntimos. – ele rosnou, acentuando ainda mais a sua voz rouca.
— Desculpa, Doutor Uzumaki. – frisou com ironia. – Eu não sei porque é tão difícil entender que estou sendo sério, quando digo que quero estar com você... Mas, com essa cara de idiota, não me surpreende ao todo que seja tão lerdo. – reclamou, irritado e cansado por estar sendo sempre rejeitado.
Nunca ninguém o negara, ele sabia sobre a opção sexual do homem, então, não entedia qual era o problema. Ok, ele estava propondo um relacionamento fora dos padrões, mas ambos seriam beneficiados se o loiro aceitasse suas condições.
O psicanalista bufou um riso de descrença, enquanto balançava a cabeça negativamente. Seu corpo tremia de raiva e ele tentava a todo custo não dar vazão a esse sentimento.
— Eu estou feito! – concluiu, levantando-se e jogando sua caderneta e caneta na poltrona. – Se você não vai sair, eu farei esse favor a nós dois.
Ele estava a meio caminho da porta, quando pânico abateu sobre o moreno e ele deu um pulo do divã, para agarrar o bíceps vestido por um pulôver cinza. Sasuke puxou o mais novo para que este se virasse e colou os seus lábios na boca avermelhada. Era a sua maneira de provar um ponto e matar uma vontade que reuniu por um longo tempo. A princípio, não houve reação por parte do outro que só se manteve estático, devido à surpresa e incompreensão.
Fora tudo tão rápido.
Os olhos azuis estavam arregalados como pratos e todo o corpo bronzeado estava tenso... Mas, quando sentiu o calor sedutor, ele fechou as pálpebras e relaxou, aproveitando minimamente o contato íntimo.
Ao sentiu os músculos amolecerem sob sua palma, o Uchiha também se entregou àquele beijo singelo, que mexeu um mundo inteiro em seu estômago. Naruto perdeu a consciência por alguns minutos, até recuperá-la como se acordasse de um longo estupor. Ele levantou os braços e pegou a face pálida entre as duas mãos, inclinando o rosto para a direita e beliscando o lábio com os dentes. O empresário lhe concedeu a oportunidade de aprofundar o afago, sentindo o coração martelar em seu peito, tamanha a realização que o tomou por, enfim, conseguir o que desejava há tantos meses.
Beijar um homem não era tão diferente como uma mulher, exceto pelo cheiro, a rigidez do corpo que lhe agarrava com tanta ânsia e a falta de delicadeza. O Uzumaki não era nada manso, e sua carícia parecia um devorar faminto que o engolfava, selvagem, livre e sem questionamentos; como um mar revolto em uma noite quente de verão. Uma de suas mãos deslizou até o meio das costas do loiro, em um abraço, e a outra foi em direção aos seus cabelos, para afundar os dedos naquele emaranhado de fios dourados que esperou tanto por tocar. Ele sentiu o homem se mover, mas estava tão extasiado com as emoções que vieram a partir daquela dança gostosa, que só acordou, quando algo, ou melhor, alguém apertou o pacote entre suas pernas.
Ele levou um susto e se afastou surpreso, confuso e um pouco intimidado com a ousadia. Ele não estava acostumado a esse tipo de tratamento.
Quando seus olhos negros encontraram os orbes azuis, que agora havia escurecido por um motivo que ele desconhecia, ele encontrou um brilho irado ainda pairando sobre eles. O sorriso irônico que Naruto ostentava, não chegou a atingir seu olhar, que estava sério e pesado.
— Rápido demais para você? – provocou. – Acho que você não entendeu ainda que eu sou um homem, Uchiha. Eu não vou agir como a sua esposa e nem terei uma vagina no meio das pernas, independentemente da minha opção sexual. Pare de agir como um adolescente que quer se rebelar contra a sua família e não me envolva nos seus ataques de infantilidade. – advertiu, saindo da sala com passos rápidos.
Sasuke fechou as mãos em punhos, tentando controlar a vontade de socar alguma coisa. Ele não entendia o porquê de ser tão difícil provar a veracidade de suas emoções para o homem. Naruto simplesmente continuava o empurrando, sem lhe dar a chance de se expressar. Mas, ele mostraria que o outro estava errado, ah, se mostraria, principalmente agora que teve uma pequena prova do que lhe esperava...
(***)
— Senhor Uchiha, você pode me acompanhar, por favor?
Os olhos negros se desviaram do tablet que segurava nas mãos e foram para a direção de onde vinha a voz feminina, um tanto grave para uma mulher. Os olhos verdes eram profundos e lhe encararam com uma firmeza e imponência – quase arrogante – atípicas da educação oriental direcionada às senhoras.
Ele fechou a capa de couro, que protegia o aparelho, e se levantou do sofá. A clínica tinha um design acolhedor, como se o decorador tivesse escolhido os móveis certos para que o paciente se sentisse em um ambiente familiar. Não era branco e estéril, nem gélido e impessoal; havia toques individuais de alguém que fez o possível para evitar todas aquelas características desconfortáveis. Os objetos eram feitos de madeira castanha e os estofados cobertos por veludo preto, demonstrando todo o bom gosto e sofisticação do consultório. Havia tapetes espalhados em cada ambiente, vasos grandes de vidro bordô, quadros com pinturas abstratas e de cores fortes, e muitas plantas. Pelo visto, o dono do lugar gostava de verde, como todo o japonês de idade.
Ele quase riu debochadamente com a contradição daquele fato, afinal, ele sabia se tratar de alguém não muito mais jovem que ele.
A mulher o guiou para um corredor curto, bateu levemente na porta e a abriu, indicando que ele deveria entrar, sem uma palavra. Ela deveria ser tão mal-humorada quando ele e, de certa forma, o Uchiha agradeceu o silêncio, porque estava sem paciência para fazer conversa fiada. Sasuke estava nervoso, irritado e estressado. Faltava apenas uma gota para ele transbordar como alguém descontrolado. Sabia que precisava de ajuda, mas o moreno não sabia o que esperar daquela consulta com o Dr. Uzumaki e isso influenciava ainda mais as suas emoções.
O empresário não estava disposto a ter ninguém invadindo a sua mente e se achando no direito de comandar as suas escolhas, mas, de acordo com Sakura, o tal de Naruto só iria conversar e tentar sugerir caminhos para que ele, sozinho, encontrasse as soluções que precisava, sem ser incisivo ou agressivo, nem o forçando a adotar atitudes que não lhe conviesse.
Entrando no consultório, ele pegou o vislumbre de um choque amarelo dentre todo aquele ambiente um pouco sério para o tom descontraído e, ao fechar a porta, ele recebeu o impacto de dois olhos azuis, como o céu sem nuvens, o encarando com curiosidade. A profundidade daquele olhar parecia o engolir por inteiro, penetrar a sua alma e escanear até os cantos mais sórdidos do seu espírito. Era de perder o fôlego e a compostura.
Quando o loiro sorriu, ele sentiu vontade de correr, pois nunca o seu estômago havia formigado daquela forma. Sasuke não sabia o que estava acontecendo, mas, talvez, o seus nervos aflorados estavam tirando o melhor do seu raciocínio rápido e capacidade cognitiva. Sua boca se abriu, mas ele simplesmente não sabia o que dizer...
— Sente aqui. – o homem apontou para o divã.
Os óculos que já se equilibravam precariamente deslizaram até a ponta no nariz fino, fazendo Sasuke ter que engolir em seco para segurar a vontade súbita de puxar aquele objeto estúpido e jogá-lo pela janela. Pelo visto, o psicanalista também não gostou, o que o fez tirar as hastes do rosto e deixá-las em cima da mesa, próxima a poltrona onde estava sentado.
— Sinta-se a vontade.
O psicanalista tinha um timbre rouco, que parecia deslizar pela sua pele em vibrações gostosas que o arrepiavam. Puxando uma respiração, ele conseguiu se mover, sentindo-se em câmera lenta. Quando estava próximo do loiro, ele se levantou e lhe estendeu a mão para cumprimentá-lo.
— É um prazer conhecê-lo, Uchiha-san, já ouvi ótimas coisas a seu respeito. – falou com um sorriso de orelha a orelha, um gesto extremamente extravagante, mas gritantemente sincero.
Quando suas mãos se chocaram, a pele quente do psicanalista de encontro a sua fria lhe fez sentir um choque agradável pelo seu braço. Era curioso, que de repente, ele começou a se sentir tão estranho. Talvez, devesse dizer isso ao homem para que ele lhe desse uma explicação sobre o que estava acontecendo com o seu corpo e suas emoções.
— Eu também ouvi muitas coisas ao seu respeito, Uzumaki. – se afastou para se sentar no divã indicado pelo loiro.
Quando ambos se acomodaram, eles se encararam outra vez. Sasuke não sabia o que pensar, mas em sua mente, ele nunca tinha visto um homem tão bonito. Não era uma beleza comum, era exótica, chamativa e diferente, que se fosse um quadro ou uma arte, seria capaz de evocar as lembranças mais quentes e felizes das férias de verão. Aquele homem era uma chama que clama e arde como as paixões intensas.
Tudo que o envolvia parecia intenso demais para não se deixar enredar. E seria impossível chegar perto sem se queimar por aquele fogo impetuoso e/ou ser engolido por aquele mar refrescante e veemente que eram os seus olhos. Naruto era uma contradição de estímulos externos, que variavam entre o calor que abraça e a brisa que te refresca, liberta e leva para longe todas as suas preocupações e inquietudes.
— Espero que tenham sido coisas boas. – ele brincou, pegando a sua caderneta e uma caneta. – Bom. Vamos começar. Por que está aqui, Uchiha-san? – perguntou, fazendo algumas anotações que o moreno não soube dizer sobre o que se tratavam, visto que a conversar tinha começado há poucos minutos.
— Achei que pudesse me dizer o porquê de estar aqui, afinal, você é o psicanalista. – retrucou, recuperando-se da letargia que havia tomado o seu corpo. Talvez, ele estivesse ficando louco mesmo.
— Como o senhor disse, eu sou um psicanalista e, não, um cartomante. E, então, o que o trás aqui? – tornou a perguntar, com a mesma calma profissional de sempre.
E Sasuke descobriu que não gostava; detestava esse decoro. Assim como os dias de férias no verão, a emoção que essa época trazia sempre lhe remetia leveza, risos descontraídos e desprendimento para com os compromissos. Ele odiava algo tão seco e impessoal vindo de alguém que era naturalmente o oposto. Seu desejo agora era forçar as emoções para fora do homem e da casca fantasiosa de um doutor que não se envolvia com os seus pacientes, porque ele não queria ser o único a sentir dentro daquela sala.
— Dizem que eu estou estressado. – ele rebateu, dando de ombros.
— Dizem? – perguntou para ter certeza. – E o que pensa sobre o que dizem?
Aquele mesmo tom morto, sem ênfases, sem emoção. Olhando nos orbes azuis como o céu sem nuvens, ele teve certeza que havia um novo impulso em seu interior; um desejo maluco de bagunçar e desestruturar todo aquele equilíbrio fingido; uma ânsia absurda de receber toda a carga de emoção intensa, que Naruto poderia jogar; uma cobiça insana por entrega.
Eram emoções, que a princípio pareceram só anseios incoerentes e loucos, mas, mal sabia Sasuke Uchiha, o grande prodígio do clã mais respeitado do Japão, que ele realmente faria tudo aquilo na vida de Naruto Uzumaki, um simples psicanalista e escritor...
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