Deveres Do Coração

10 Capítulo Especial II – Seguindo À Diante


Notas iniciais
Capítulo dedicado à Naracris.

"O amor é um conflito entre nossos reflexos e nossas reflexões."
Magnus Hirschfeld.

Capítulo Especial II – Seguindo À Diante

Aeroporto Internacional de Tóquio, 10h18m.

Gaara andou pela fileira de cadeiras estofadas do avião de primeira classe com destino à Istambul – Turquia. Antes do embarque, a companhia aérea havia lhe entregado uma bolsa com artigos de higiene e um chinelo, caso o homem quisesse ficar mais à vontade dentro da aeronave. Seriam apenas seis horas de voo, mas ele estava vestido o mais confortável possível com calças xadrez de flanela, uma camiseta branca de manga comprida e gola V, e um par de mocassim de camurça marrom nos pés.

Ele encontrou o banco designado na passagem e colocou na mesa da TV pequena diante do assento, o saco dado pela Japan Airlines¹ e a mala de mão que carregava. O ruivo puxou as cortinas de veludo perolado para observar pela última vez o solo japonês, antes de, praticamente, se jogar na poltrona macia de couro caramelo. Suspirando, ele fechou os olhos para apreciar a calmaria solitária que a área VIP lhe proporcionava.

Depois de muitos meses, o empresário estava, finalmente, voltando para casa.

As circunstâncias não eram as que ele queria, mas foram melhores que esperava, visto como a situação correu ao longo dos dias.

Há meses, quando ele chegou a Tóquio, confiante de sua decisão, o Sabaku acreditava piamente de que jamais voltaria para Turquia, visto como o povo desse país era contra um romance homossexual. O homem preferia viver longe de sua família adotiva a estar sempre infeliz, amando secretamente outra pessoa do mesmo sexo. Com a rejeição constante de Naruto e todos os acontecimentos que se seguiram logo depois de sua declaração amorosa, sua confiança foi reduzida a migalhas pequenas. O ruivo começou a acreditar com o passar do tempo, que sairia do Japão com o coração em frangalhos.

Agora, prestes a partir, percebeu que nada do que pensou havia, de fato, acontecido. Culpa do Uzumaki, que sempre conseguia surpreendê-lo nas horas mais inesperadas.

Gaara despertou ao sentir um peso morto em suas costas, mais especificamente na região lombar. Ele até tentou se mover para ver o que, ou quem, o impedia de se mexer livremente em cima da cama espaçosa, mas só conseguiu distinguir um lado da silhueta de Naruto e uma das coxas apertadas em sua lateral esquerda, indicando que o loiro estava usando a sua figura como apoio.

— É muito bom acordar com a sensação de estar sendo esmagado... – comentou ironicamente com a voz rouca pela falta de uso.

— Bom dia para você também! – o psicanalista exclamou animadamente, jogando o resto do corpo em cima do homem e lhe dando um abraço meio desajeitado.

— Hmmm... – gemeu de forma preguiçosa. – Bom dia... – murmurou, voltando a fechar os olhos, querendo ao máximo aproveitar aquela proximidade.

Com a visão obscurecida, o empresário apurava os outros sentidos; naquele momento, ele sentia com mais clareza todas as ondulações musculares do peito tonificado em suas costas, o cheiro cítrico de laranjas e os cabelos dourados lhe fazendo cócegas na base do seu pescoço pálido, além da respiração fantasma que batia em sua omoplata. O ruivo poderia passar a vida toda dessa forma, que ele não se importaria nem um pouco.

— Vamos nos levantar? – o Uzumaki sussurrou no ouvido do namorado.

— Que horas são? – perguntou ainda sentindo a letargia e a sonolência costumeira da primeira hora do dia.

— São nove e quarenta. – voltou a se sentar.

— Nós fomos dormir quase às cinco da manhã, Naruto... – começou com um timbre mole e arrastado de preguiça. – Você não sente sono e cansaço? – arrastou os braços para abraçar o travesseiro abaixo de sua cabeça.

— Não! – exclamou, pulando em cima do amante. – Você normalmente é um insone, não sei o porquê de estar tão preguiçoso nos últimos dias! – levantou-se com o intuito de puxar a perna do ruivo.

— Eu durmo melhor quando estou com você. – a sua declaração brusca fez com que a movimentação do loiro cessasse.

Atraído pela quietude repentina, Gaara olhou para trás e encontrou o Uzumaki cabisbaixo, fixando seus intensos olhos azuis no carpete bege que cobria o chão do quarto principal do apartamento. Alarmado, ele se levantou apressadamente e segurou o pulso do namorado a fim de chamar a sua atenção, visto como ele estava distraído por algum pensamento profundo.

— Naruto? – evocou receosamente.

O loiro fungou audivelmente e levantou a cabeça para apresentar ao proprietário da Suna Enterprises Communication um sorriso que não chegou a atingir às íris aguadas. Havia uma áurea estranha circulando a figura estonteante do homem que Gaara não conseguia distinguir o significado, mesmo sabendo que apesar da calmaria exterior, a denotação daquela expressão não era nada boa.

— Vamos! Eu tenho planos para nós dois... – afastou-se para caminhar até a porta. O ruivo logo supôs que o psicanalista estava indo preparar o café da manhã, pela direção que o homem tomou depois que saiu do cômodo.

No seu estômago havia uma sensação gelada e desagradável, como se seu corpo, involuntariamente, adivinhasse o que estava por vir.

O mais velho se levantou e começou a arrumar a confusão que estava na cama de casal. A noite tinha sido agitada e quente; ele sorriu levemente com a memória dos beijos e carícias aquecidas que ambos trocaram naquela madrugada. Puxando os cantos do lençol amarelo com listras laranja para minimizar as rugas, o Sabaku pensou que só as transas não eram as únicas responsáveis pela bagunça de todas as manhãs e que era obrigado a arrumar, o sono agitado do escritor também contribuía.

Ele sentiria falta disso quando o romance breve terminasse.

Gaara tinha plena ciência de que logo o namoro acabaria. Ele conhecia o Uchiha e sabia que em breve o moreno correria atrás do amor perdido, porque ambos eram muito semelhantes. Talvez, ele fosse menos orgulhoso e presunçoso que o CEO² da Sharingan Corporation, mas, ainda assim, eram parecidos em personalidade.

E o Uzumaki jamais diria “não”, caso o outro homem batesse à sua porta.

O coração do psicanalista era sempre muito entregue e apaixonado para negar a si mesmo algo que desejava; ele sempre amou de corpo inteiro; sempre se jogou completamente dentro de seus princípios e pouco se importou pelas consequências desmedidas de seus atos arrebatados de fé... O loiro sempre foi alguém que sentiu e viveu suas convicções com intensidade.

Gaara admirava essa força interior que o namorado possuía, aliás, ele admirava o amante por inteiro, desde a ponta do fio de cabelo dourado, até a última centelha do espírito livre.

— Gaara, o que está fazendo? O café da manhã já está pronto. Vá logo, porque tenho planos para hoje! – ele gritou da cozinha.

O ruivo estava tão distraído, que quase perdeu o chamado do homem.

O empresário balançou a cabeça negativamente em resignação com um meio sorriso nos lábios leitosos. Ele pegou uma camiseta de algodão bordô e a vestiu para cobrir um pouco a nudez, antes de sair do quarto e caminhar pelo corredor até a cozinha espaçosa. Sentando-se em um dos bancos altos do balcão, o Sabaku esperou que uma pequena tigela de arroz fosse colocada à sua frente.

— O que estaremos fazendo hoje? – sua voz normalmente neutra não denunciou a curiosidade que estava sentindo.

— Surpresa. – respondeu com um sorriso misterioso ao se sentar ao lado do namorado.

O mais velho até queria perguntar mais, mas preferiu deixar a discussão por isso mesmo, pois sabia que quando o Uzumaki teimava em algo, nada do que ele dissesse o faria mudar de ideia.

O casal terminou de comer; cada um perdido em seus próprios pensamentos.

O restante da manhã foi gasto em arrumar a pequena bagunça do apartamento para que nada ficasse fora do lugar, enquanto os dois estivessem fora. Ambos se trocaram e gastaram alguns minutos a mais para conversarem e brincarem entre si – Naruto era quem não conseguia parar quieto e passava a maior parte do tempo fazendo piadinhas sobre tudo, quando o ruivo só revirava os olhos, meio entediado, meio divertido com o monólogo do homem.

Ao saírem, os enamorados se dirigiram até o Audi RS1 laranja metálico do loiro, que, de repente, ficou estranhamente quieto. A ansiedade voltou a consumir o Sabaku, assistindo com suspeita o psicanalista entrar no veículo. Cada movimento do loiro parecia atrair a atenção do ruivo, que começou a esperar o pior com esse passeio.

Em pensar que ele esperou ter uma tarde pacífica, aproveitando o dia para namorar um pouco.

Eles pararam em um canteiro de uma rua pouco movimentada próxima ao Shiba Park³. Ambos saíram do carro e andaram lado a lado em completo silêncio. O Uzumaki roçou a sua mão de leve, antes de agarrá-la e entrelaçar os dedos. Apesar do gesto reconfortante, nada tirava da mente de Gaara que havia algo muito errado com a tranquilidade repentina do homem.

O casal caminhou por todo o parque até chegar à entrada do Tokyo Tower⁴ e, sem muita conversa, entrar no interior da construção com mais de 333 metros de altura. Os dois pegaram o elevador e Naruto apertou o botão para se dirigir ao último e mais alto observatório. O psicanalista deu um pequeno sorriso ansioso, enquanto assistia a mudança dos números no visor; ele amava aquele lugar.

Quando as portas metálicas se abriram, o mais novo praticamente arrastou o ruivo para frente dos vidros que mostravam todo o Japão dentro de um raio de 100 quilômetros. Era fascinante. Como o dia estava claro e ensolarado, os homens podiam ter um pequeno vislumbre do imponente Monte Fuji⁵.

Naruto abriu ainda mais o sorriso, contemplando a vista e adquirindo um ar distante e nostálgico. O ruivo o encarou e não conseguiu evitar relaxar com a alegria contagiante que o outro transmitia. Nos últimos dias, o escritor parecia alguém irreconhecível aos seus olhos; triste e amargurado. Era tão raro, recentemente, encontrar os orbes azuis brilhando em contentamento absoluto.

— Esse é o meu lugar favorito, sabe por quê? – ele perguntou subitamente.

Gaara pensou por um instante. Ele encarou a cidade, antes de relaxar os músculos que havia se tensionado sem que percebesse.

— Por que o bairro se chama Minato? – arriscou, sabendo como a família que o loiro perdeu mexia com ele.

— Também. – riu e balançou a cabeça negativamente. – O ponto mais alto de Tóquio está no bairro que leva o mesmo nome do meu pai. Eu gosto de vir aqui, de vez em quando, e ficar horas assistindo a movimentação louca da Capital. – respondeu vagamente, encarando distraidamente os edifícios enormes, que pareciam tão pequenos sob a vista da construção de ferro. – Aqui eu me sinto distante de todos os meus problemas, como se, estando aqui em cima, todos eles fossem incapazes de me alcançar... – murmurou, franzindo os lábios.

— Faz sentido... – Gaara disse com a voz baixa.

O coração do Sabaku falhou uma batida. Lá no fundo, ele sabia o que esse passeio significava, mas, ainda assim, tentou se convencer do contrário. De repente se tornou difícil respirar regularmente e ele teve que puxar um suspiro profundo para abrandar a constrição sufocante de seu peito. Ele esperara por aquilo, mas o fato, não tornava tudo menos doloroso. O proprietário da Suna Enterprises Communication abaixou a cabeça, deixando que os fios vermelhos cobrissem os seus olhos entristecidos.

Ele conhecia o Uzumaki tão bem, que mesmo esse tentando disfarçar, não conseguiu evitar que o ruivo desconfiasse dos seus motivos.

— Eu não posso continuar com isso, Gaara... – lambeu a carne do beiço ressequido.

Um silêncio ensurdecedor dominou o espaço entre o casal, mesmo sob a influência do baixo ruído das outras pessoas. Atrás deles, crianças corriam empolgadas, rindo e brincando, seguidas de pais atentos, preocupados em não perder a vista de seus filhos. O ambiente era bastante familiar, por esse motivo, o ruído, apesar de perceptível, não era realmente muito alto. Naruto normalmente apreciava uma boa bagunça, mas nos últimos meses, ele se encontrava mais retraído e quieto. Por causa dos acontecimentos recentes, o loiro passou a agradecer, silenciosamente, esses pequenos momentos de sossego.

— Eu entendo... – a voz aveludada murmurou depois de muito tempo.

O ruivo abaixou a cabeça e escondeu seus orbes tristes. Ele respirou fundo, tentando minimizar a sensação de um gigantesco bolo se formando em sua garganta. No fundo, o empresário queria gritar e bater o pé para que o psicanalista não o deixasse, mas sua consciência já havia o preparado para aquele acontecimento. O Sabaku sabia que, mais cedo ou mais tarde, o namorado tomaria essa decisão; meses se passaram desde que ele se afastou de Sasuke e, ainda assim, o loiro não conseguira esquecer o homem, pelo contrário, o sentimento parecia ainda mais forte e imutável perante o tempo.

— Eu te amo, mas não da maneira como você espera... – o Uzumaki recomeçou depois de tomar um fôlego profundo. – Eu sei o quanto você está sofrendo e ser a causa disso está me deixando doente... – murmurou, brincando com as mãos ansiosamente. – Eu não posso mais continuar com esse relacionamento. Nós estamos nos prejudicando e... – lambeu os lábios para umedecê-los. – Se for para esquecer o Sasuke, eu tenho que aprender a fazê-lo sozinho. Sinto que estou te usando...

Foi interrompido.

— Eu escolhi por isso, Naruto. – Gaara o cortou com um timbre firme, embora suave.

O loiro sempre se impressionava com tanta certeza vinda de um tom tão macio. O mais velho nunca gritava, mas parecia transmitir tanta força pelas palavras, que até os idosos pareciam se recolher diante da voz baixa e acolhedora.

— Eu insisti nesse relacionamento, que desde o começo estava fadado ao fracasso. – o psicanalista se encolheu com a declaração dura. – Eu sabia, mesmo querendo me convencer do oposto, que nosso namoro não duraria muito. Eu me enganei sozinho, pois você sempre foi transparente sobre os seus sentimentos... – ele observava, sem realmente ver o corrimão de ferro que mantinham os visitantes afastados do vidro do observatório. – Eu fui egoísta ao te manter nesse envolvimento...

— Não! – o escritor o interrompeu e depois riu com gosto, como se tivesse ouvido uma piada muito engraçada. – Vamos parar com esse momento de autoculpa, por favor? – sorriu, demonstrando toda a diversão que sentia. – Nós dois fomos egoístas; nós dois erramos ao persistir em algo que sabíamos desde o começo que não daria certo. – suspirou, ficando repentinamente mais sério. – Quero que saiba que eu não me arrependo de nada. Desde que eu e Sasuke começamos a nos envolver, eu jamais me senti tão bem como com você, porque, contigo, não me senti como se estivesse cometendo um pecado gravíssimo, não me senti como se fosse responsável pela minha própria infelicidade e pela de outra pessoa, não me senti como se amar fosse errado...

Olhos azuis se dirigiram para o chão, quando o Sabaku se virou para encará-lo com os orbes brilhando em espanto.

— Naruto... – murmurou, boquiaberto.

— Você me mostrou o que é viver um grande amor de verdade e me fez enxergar que, o que eu vivi com o Sasuke, foi uma enorme mentira. Não estou acabando com o que temos para voltar para ele, afinal, o teme ainda é casado, mas porque eu vi que nosso relacionamento está te fazendo sofrer e que o meu sentimento por aquele bastardo não vai mudar, mesmo que eu me envolva com outros homens. – o loiro mordeu o lábio inferior, inseguro sobre a frase seguinte. – Meu coração continua sendo dele.

Aquilo doeu tanto no empresário, que ele teve de apertar o ferro do corrimão com força, a fim de buscar um apoio. Gaara fechou os olhos com o intuito de parar as lágrimas que ameaçavam ceder pelas suas pálpebras cerradas. Era insuportável ouvir que o coração do homem que você ama, pertence à outra pessoa. O seu coração parecia comprimido por uma mão invisível e a mágoa era tanta, que quase o impedia de respirar corretamente.

— Você está com raiva de mim? – o Uzumaki perguntou em um tom entristecido.

A voz cheia de angústia pareceu ter apertado um botão em seu interior, porque, de repente, o ruivo soltou o fôlego que não sabia ter prendido e soluçou, cedendo à vontade enlouquecedora de chorar. Seu corpo inteiro tremia involuntariamente, já que ele perdeu totalmente o controle de suas emoções bagunçadas. Foram anos! Anos esperando para ser correspondido; anos guardando uma paixão enlouquecedora no peito; anos construindo uma esperança de viver ao lado daquele que lhe era mais importante...

E mais meses sendo torturando pela visão do homem que amava sofrer por outra pessoa, desejar outra pessoa, sonhar e esperar outra pessoa. Ele estava em seu limite.

Naruto, ao ver o desespero do ruivo, sentiu os próprios olhos marejarem e o nariz coçar. Ele não queria ver o melhor amigo sofrer daquele jeito e assistir a sua forma normalmente impassível em uma postura tão derrotada, matava-o por dentro. O loiro encarou o céu azul, procurando dominar a tempestade emocional de seu interior, antes de tomar uma golada profunda de ar e uma atitude.

Ele pegou o rosto pálido entre as mãos e fez com que o, agora, ex-namorado levantasse o tronco debruçado sobre o mainel, para abraçá-lo e confortá-lo. Gaara afundou o rosto em seu pescoço e enrolou os braços na cintura delgada, desabafando toda a tristeza guardada em seu peito. Naqueles minutos, o mais velho nem pensou sobre a vergonha de estar sendo tão expressivo, pois a única sensação que o preenchia era a vontade alucinante de se livrar da amargura de estar desiludido.

O empresário temeu tanto ser rejeitado, que esperou por anos até que pudesse tomar a coragem de vocalizar os seus sentimentos; talvez, se não tivesse demorado tanto, ele teria a chance de ter o seu amor correspondido. Quem sabe, se o ruivo tivesse chegado antes do Uchiha, o escritor entregaria seu coração a ele. Era frustrante e o homem estava magoado, acima de tudo, consigo mesmo, por ter vivido tanto tempo na indecisão. Seus dedos brancos apertaram o tecido da camisa branca de linho do loiro à sua frente com o intuito de reprimir todas as sensações negativas que tomavam conta de seu ser.

— Eu queria... – o mais velho começou com a voz embargada. – Eu queria estar com raiva de você, mas eu não posso! – grunhiu com um tom duro, ao mesmo tempo em que puxava uma golada de ar trêmulo. – Eu te amo tanto, que não posso te culpar pelas minhas decisões erradas. – rosnou; os dentes cerrados de maneira rígida a fim de controlar o físico abalado pela força de suas emoções.

— Do que está falando? – se afastou para poder olhar os olhos verdes. – Onde você errou? A culpa não é sua, não é minha... Pare com isso! – incredulidade pontuou as palavras do psicanalista.

— Você não entende. – ele balançou a cabeça e a abaixou para evitar encontrar os orbes penetrantes. – Desde a faculdade... – começou, mas não teve coragem de continuar.

Naruto não precisou ouvir mais nada, ele entendeu perfeitamente o que se passava na mente do outro. O loiro conhecia o CEO da Suna Enterprises Communication desde quando eram crianças e sabia, muito bem por sinal, que o homem tinha a grande tendência a se cobrar por pequenas coisas. Quando era mais novo, o ruivo se penalizou pela morte da mãe e ainda pensou que mereceu o tratamento abusivo do pai. Era um pesadelo ver o melhor amigo sofrer por algo que não fez.

Cansado, o Uzumaki limpou o caminho molhado feito pelas lágrimas no rosto pálido e o puxou em direção a escada de emergência. Ele olhou para os dois lados verificando se não estavam sendo vigiados e empurrou o homem para dentro, entrou e fechou a porta atrás de si. Essa conversa exigia privacidade e o mais novo não estava disposto a se arrastar para um longo caminho até o carro a fim de terem esse diálogo.

— Chega, Gaara! – ordenou energeticamente, assustando o homem.

Os dois se encararam profundamente, cada um determinado a provar suas próprias convicções. O psicanalista se aproximou e segurou a gola da camiseta polo preta, empurrando o corpo do empresário até que este batesse na parede oposta. Ele colou ambas as testas, os narizes a milímetros de distância e os olhares presos, brilhando de forma quase agressiva.

— Chega. – sussurrou brandamente, mas ainda firme em seu comando.

Olhos verde-água viram a forte repreensão brilhando nos azuis cerúleos. Gaara se sentiu levemente envergonhado por estar sendo censurado como uma criança, por isso, ele desviou o foco do olhar para o chão. O ruivo entendeu muito bem o motivo da crítica muda; ele era mais inteligente e maduro do que estava mostrando, mas o homem não conseguia se ajudar, pois a tristeza nublava seus pensamentos coerentes.

— Desculpa. – sussurrou humildemente e fungou, conseguindo, enfim, controlar as emoções conflitantes. – Me desculpa.

— Está tudo bem... – murmurou, acariciando as laterais do rosto pálido. – Eu entendo você...

Naruto colou os lábios de ambos em um selinho singelo, mas expressamente carinhoso. O empresário sentiu que aquele pequeno gesto era uma despedida muda para o relacionamento que tinham, já que a dupla se recusava a cortar os laços de amizade que possuíam. O Sabaku estava machucado e ele precisaria de um tempo sozinho para poder esquecer, mas jamais poderia pedir que o outro se afastasse definitivamente.

Naruto Uzumaki era realmente importante para ele.

— Eu quero te ver feliz, Gaara. Não posso condená-lo a viver uma vida maçante ao meu lado e fazê-lo aguentar um peso que deveria ser meu...

Foi interrompido.

— Um peso? O que quer dizer? – rosnou de maneira raivosa, interpretando a frase de forma errada.

— A responsabilidade de esquecer o Sasuke é minha. – respondeu calmamente. – Quando eu joguei esse fardo nos seus ombros, eu deixei que você sofresse sozinho a frustração que as consequências desse jogo mal planejado lhe trouxeram. Meus sentimentos pelo bastardo lhe machucaram e você se sentiu na obrigação de fazer algo que não estava em suas mãos mudar...

— Eu não me arrependo. – cortou rapidamente, antes que o psicanalista pudesse continuar. – Apesar da dor de saber que não me ama como eu te amo, vivi momentos inesquecíveis ao seu lado. – deu um sorriso pequeno e triste.

— Eu sei... E esse é um dos muitos motivos que me fazem te amar tanto. – o loiro disse com a voz baixa, como se pronunciasse um segredo íntimo.

O significado da declaração não era o que Gaara esperava, mas era melhor do que imaginava.

— Eu também amo você. – abraçou o escritor, inalando profundamente o cheiro cítrico de laranjas que o homem exalava. Ele guardaria todos esses doces momentos na memória.



Agora, ele tentaria reorganizar os pedaços que restaram do seu coração. Era um pensamento dramático e nos últimos dias, Gaara estava tendo uma infinidade dessas divagações trágicas. Não era típico dele, mas o ruivo acreditava que devia ser um efeito da desilusão amorosa que viveu. Sua vida havia virado uma peça de teatro comovente e, avaliando melhor a forma como estava agindo, ele decidiu que precisava voltar à normalidade o quanto antes.

O empresário não era grande fã de drama.

Determinado, o Sabaku definiu que estava na hora de criar um novo capítulo para a sua história. Tinha plena certeza que não seria fácil deixar o amor pelo melhor amigo para trás, mas ele estava disposto a, pelo menos, tentar se reconstruir para conseguir encarar os olhos azuis densos e fortes novamente. O administrador não estava com vontade de se sentir pesaroso toda vez que estivesse na presença de Naruto, pois o sentimento acabaria por tornar a amizade vacilante.

— Com licença. – uma voz masculina interrompeu os seus devaneios. Ele estava tão distraído, que mal percebeu os outros passageiros na aeronave e a decolagem.

O ruivo olhou para o lado e se deparou com grandes orbes ônix brilharem em simpatia, como se sorrissem alegremente. A forma determinada e calorosa do olhar lhe lembrava do Uzumaki.

— Você pode pegar a minha caneta que caiu desse lado? – apontou o dedo indicador longo e magro para um canto do chão perto da sua poltrona.

Gaara desviou o olhar para as mãos bronzeadas que seguravam um tablet6. O homem possuía cabelos negros lustrosos estilizados em corte tigela e o corpo delgado escondido em um terno verde escuro, quase preto. Era elegante, mas inadequado para uma viagem de avião; o CEO da Suna Enterprises Communication quase se sentiu mal vestido diante do outro, que parecia ser alguém importante.

— Você pode pegar a minha caneta que caiu desse lado? – ele tornou a perguntar sem tirar o sorriso cordial do rosto. Não havia uma única suspeita de impaciência em seu tom de voz empolgado.

O empresário acordou de sua pequena divagação sobre a figura masculina ao seu lado e pegou a caneta que estava parada ao pé da poltrona onde se sentava.

— Desculpe. – respondeu com tranquilidade ao mesmo tempo em que entregava o objeto ao seu respectivo dono.

— Esquece isso! – aconselhou como se não desse a mínima, antes de tornar a olhá-lo com um interesse indisfarçado. – Espere... – pediu como se entrasse em uma reflexão profunda. – Eu conheço você! – exclamou animadamente.

— Conhece? – o ruivo ergueu uma sobrancelha, completamente surpreendido com o rumo da conversa.

— Sim! – riu. – Não pessoalmente, mas eu te vi muitas vezes nas revistas. Você está namorando aquele sábio escritor. Eu gosto bastante dele, Uzumaki-kun, porque parece ser alguém bastante apaixonado e determinado.

O mais jovem Sabaku pareceu pensar um instante, antes de se dar a liberdade para responder.

— Sim, ele é. – encarou o chão como se fosse algo realmente interessante. – Porém, nós não estamos mais juntos.

O homem, que Gaara ainda não sabia o nome, abriu a boca em um silencioso “O”.

— Sinto muito. – as sobrancelhas espessas se moveram, dando um ar de condolência à expressão anteriormente animada. – Não fique triste, tenho certeza que você vai encontrar alguém que possa ganhar um novo espaço no seu coração.

O ruivo franziu a testa, desgostoso pela escolha infeliz de palavras bregas do outro, mas não disse nada para objetá-las, porque, no final das contas, ele esperava que isso de fato acontecesse. Incentivado pelo seu silêncio reflexivo, o moreno decidiu continuar:

— Você e o Naruto-kun formavam um belo casal, mas acredito que, se não deu certo, alguém está aguardando a chance de realmente te fazer feliz. – deu alguns pequenos tapas no ombro do mais baixo, que se encolheu de dor.

O cara era magro, mas tinha uma força espantosa.

— A propósito, o meu nome é Rock Lee! – exclamou, dando um polegar para cima em forma de cumprimento.

— Sabaku no Gaara. – respondeu baixinho, olhando em volta de maneira tímida. O homem falava alto demais para o seu gosto e estava começando a chamar a atenção dos outros passageiros.

— Vou ficar um bom tempo em Istambul, porque recebi uma proposta para ser gerente de vendas na Areia Vermelha, então, vou precisar conhecer onde morarei... – enrolou um pouco, como se estivesse inseguro sobre algo.

Gaara não precisou de muito para saber o que ele queria, assim, para acabar com o momento constrangedor, ele logo o cortou:

— Eu posso te apresentar a cidade.

Lee abriu um grande sorriso como agradecimento. O gesto fez com que seus olhos grandes se fechassem e o ruivo percebesse que o moreno tinha cílios espessos e compridos. Era bonito e a personalidade o fazia lembrar um pouco de Naruto.

— Obrigado. Espero que sejamos grandes amigos. – respondeu o mais alto, curvando-se em gratidão como manda a tradição japonesa.

— Eu espero o mesmo... – ele retrucou, meneando levemente a cabeça em confirmação. A breve conversa o fazendo esquecer do porquê de estar triste.

Notas finais
Japan Airlines¹ - é uma companhia aérea sediada em Shinagawa, Tóquio, Japão. As empresas do grupo JAL incluem a Japan Airlines para voos domésticos e internacionais. CEO² - sigla inglesa de "Chief Executive Officer", que significa Diretor Executivo em português. CEO é a pessoa com maior autoridade na hierarquia operacional de uma organização. É o responsável pelas estratégias e pela visão da empresa. Shiba Park³ - é um parque público em Minato, Tóquio, construído em torno do templo Zojo-ji. Muitos dos passeios no parque oferecem vistas no Tokyo Tower. O parque é um local popular para encontros e aparece em muitas sequências de televisão e cinema. Tokyo Tower⁴ - é uma torre de comunicações e observação localizada no bairro de Minato, em Tóquio. A construção possui 333 metros (cerca de 1.093 pés) e é a segunda mais alta no Japão. A estrutura foi inspirada na Torre Eiffel e foi pintada de branco e laranja para dar cumprimento à segurança aérea. Monte Fuji⁵ - é a mais alta montanha da ilha de Honshu e de todo o arquipélago japonês. É um vulcão ativo, porém de baixo risco de erupção. O monte Fuji é um dos símbolos mais conhecidos do Japão, sendo frequentemente retratado em obras de arte e fotografias e recebendo muitas visitas de alpinistas e turistas.