Já havia se passado uma semana desde que terminamos e era particularmente doloroso estar no mesmo ambiente que Ethan e ter o mesmo círculo de amizade dificultava um pouco a nossa situação. Sempre que eles resolviam se reunir, um de nós não ia, ou ambos não íamos. Até que chegou o aniversário de Zoe. Eu não podia negar o pedido dela.
— Olha, eu sei que tá bem ruim entre você e Ethan, mas... Faz isso por mim, por favor? — Os olhos dela me suplicavam e eu não sabia como dizer não. Então respirei fundo e revirei os olhos.
— Provavelmente eu vá me arrepender disso, mas... Eu vou. Onde vai ser?
— Aaaaai, eu sabia que tu ia! Então, eu tava conversando com os pais do Audrey e eles me cederam a área vip do restaurante do hotel na orla. E o seu nome já está na lista. Te espero lá, as nove. — Ela me encheu de beijos e saiu correndo.
Respirei fundo mais uma vez, eu sabia que me arrependeria de estar no mesmo lugar que ele. Mas, o que não fazemos por amigos, não é mesmo?
Fui ao centro da cidade comprar uma simples presente para Zoe, quando vi Ethan saindo da loja qual eu iria entrar, nos esbarramos na porta. Senti o coração no meu peito acelerar. E aquela dor aguda subindo por meu estômago.
— Oi Aurora. — Ele sorriu gentilmente, abrindo a porta para que eu pudesse entrar. Sorri de volta, sem jeito. E apenas acenei com a cabeça, temendo que ao falar, começasse a chorar ali mesmo, na frente dele. E entrei na loja quase correndo.
Meu peito estava dolorido, parecia que eu havia corrido uma maratona inteira despreparada.
— A senhorita está bem? — Perguntou-me a balconista. Eu deveria parecer realmente mal. Acenei com a cabeça e balbuciei que estava bem.
Comprei o presente e fui direto pra casa de Audrey.
— Eu odeio essa cidade, Audrey! Porque tem de ser tão pequena? Porque tenho que me esbarrar com Ethan em todos os lugares que eu vou? — Eu praticamente cuspi minha indignação na cara dele enquanto ele me olhava, indiferente, tomando seu refrigerante.
— Talvez, só talvez, deve ser porque vocês ainda frequentem os mesmos lugares que costumavam frequentar juntos.
Abri a boca para falar umas duas vezes, mas nada saiu. Ele tinha razão. Eu me esbarrava muito com Ethan, mas era só porque ainda estávamos indo para os mesmos lugares que costumávamos ir quando estávamos juntos.
Ele sorriu com um ar de vitória.
— É gratificante ver o quanto você tem cedido do seu orgulho para admitir que eu estou correto. — Desdenhou e eu não pude deixar de rir.
— Como você é prepotente, tenha dó né.
— Tá me chamando de que? Sua nanica. — Ele riu e me encheu de tapas.
Ficamos conversando a tarde inteira e então fui pra casa para poder me arrumar e dar de cara com alguém que estava se tornando meu passado. Era muito estranho tudo isso.

**

Quando cheguei no hotel, apenas Zoe e Audrey estavam lá.
— Minha nossa senhora das virgens santíssimas! Você está brilhante! — Saltitava Zoe enquanto me abraçava e se afastava para me olhar de novo. Eu não costumava me produzir muito, mas o restaurante do hotel era bem frequentado, as pessoas mais importantes da cidade sempre iam jantar por lá e eu que não queria dar de cara com o prefeito parecendo uma mendiga.
— Obrigada Zoe! E tá aqui o seu presente, espero que goste! — Sorri enquanto ela praticamente arrancava o embrulho de minhas mãos e sorria enquanto tirava o colar.
— Ah meu Deus! Que presente mais lindo... Sério, Aurora, obrigada mesmo! — Zoe tinha uma condição financeira não muito boa e sempre que passávamos por aquela loja, ela dizia que queria o colar de pedrinhas, e eu resolvi dar. Não só porque ela não tinha dinheiro suficiente, mas pra demonstrar que o valor da nossa amizade vai além do colar de pedrinhas.
E então Ethan chegou. Ele me olhou, assustado. Pude sentir seus olhos percorrendo cada centímetro do meu corpo. O que foi constrangedor. Zoe e Audrey tentavam quebrar o clima, mas não teve jeito. O ar estava pesado. Ele sorriu de longe e foi se sentar. Eu me virei e fui sentar também, longe dele. E foi assim a noite inteira. Conversávamos com nossos amigos, trocávamos duas ou três palavras, mas nada suficiente. Na saída, mal nos olhamos. Cada um foi pra sua casa, segurando o desejo de olhar um para o outro, de estar de mão dadas, de serem juntos de novo.
Chegando em casa, não tive escolha, só conseguia chorar e despejar um dilúvio enquanto a água do chuveiro escorria por meu corpo e abafava o som dos soluços. Sentei me no chão e abaixei a cabeça enquanto a água caia morna sobre mim. Lavando meu corpo. Meu rosto. Menos a minha alma que gritava de dor.
Ao sair do banho troquei de roupa, coloquei no Netflix e acredito que tenha caído no sono. Acordei assustada no meio da noite com a televisão ligada. Levantei para desligá-la, juntamente com as luzes, que ainda estavam acessas. Nesse instante chegou uma mensagem no meu celular e como por hábito virei pra olhar e meu coração pareceu que ia saltar. Era de Ethan. Abri no mesmo instante:

[03:21 Ethan: Hoje à noite eu pude perceber o quanto estar longe de você me faz mal. Aurora, você foi a pessoa mais importante que esteve na minha vida desde que o perdi meu irmão e perder você tá sendo como viver um luto. Eu quero te abraçar e poder acreditar que realmente não acabou. De tudo o que sinto mais falta, a tua amizade é o que mais tem doído dentro de mim. Eu sei que depois de tudo que passamos, perdi pra voltar é como uma brincadeira de mau gosto. Eu só queria ainda ter você por perto sem sentir um peso de mil toneladas sobre meu ombro. Apenas sentir você sendo você do meu lado. Sinto sua falta.]

Meus olhos se encheram de lágrimas. Simplesmente não consegui responder. Apenas chorei até, finalmente, cair no sono.