Deusa do caos

3 Traficantes de pessoas


Sentada no alto de um galho grosso Layla montava guarda no acampamento. Erin dormia próximo, acomodado de lado numa cama improvisada com mantas. A deusa dormia serena na própria colcha de dormir, mais limpa e perfumada do que tudo o que o grupo dispunha.

As árvores ao redor eram altas e cheias e encobriam perfeitamente o pequeno recanto de descanso que o grupo escolhera. Do lugar onde estava Layla conseguia ter uma visão apurada de qualquer homem ou animal que se aproximasse.

Layla balançava as pernas enquanto trançava preguiçosamente os cabelos negros e lisos. Procurou então, entre uma volta e outra de suas mechas, Zain com os olhos. A fogueira crepitava no centro e o vento frio da noite começava a tomar conta do lugar. Sem conseguir encontrar o amigo a morena começou a ficar alarmada.

Mas um movimento no galho ao seu lado a acalmou.

— Quando conseguiu ficar tão silencioso?

O sorriso de Layla iluminou o rosto de Zain.

O garoto também tomara banho e as roupas esfarrapadas da manhã foram trocadas por um conjunto muito mais limpo e prático. As cicatrizes de seu braço estavam em evidência na camisa sem mangas e os cabelos rebeldes pendiam para um dos lados.

— Tenho praticado bastante. Alguém ficava pegando no meu pé.

A morena riu se encostando na árvore e ficando de frente para o amigo. Havia, no meio do turbilhão de fios castanhos, uma pequena mecha cacheada que se enrolava atrevida atrás da orelha do rapaz. Layla gostava dela.

— Você está bom agora. Lembra quando foi detectado por um grupo de quinze? – ela grunhiu – Eu quis te matar.

Zain gargalhou segurando no galho para não cair.

— Sim! A cara que você fez – ele tentou imitar, numa careta de raiva – foi incrível!

A expressão, sempre séria de Layla, suavizou-se observando-o. Subitamente ela lembrou de quando o conheceu, um ladrão de rua coberto de sujeira, machucado e sangue seco, numa disputa cotidiana para sobreviver no dia a dia, assim como para alimentar seus irmãos.

Ela e Erin o fizeram um proposta de trabalho e eles juntos conseguiram capturar um assassino em série. O Zain de antes e de agora eram essencialmente diferentes. O homem ali na sua frente tinha vida nos olhos âmbar, algo vivo, esperança.

Os olhos opacos que encontrou nas ruas da cidade destruíram seu coração.

— Ei, o que achou dela?

O garoto olhou surpreso para Layla.

— O que eu achei?

Ela o fitou como se fosse surdo.

— Sim, o que achou?

— Não sei – Zain passou a mão na parte de trás do pescoço – ela é diferente do que achei que uma deusa seria.

A morena assentiu ouvindo-o atenta.

— Ela fala muito, mas é engraçada. Você tinha que ter ouvido...

— Restrinja-se a responder a pergunta.

Zain fez bico, mas continuou.

— Ela tem um corpo bonito e uma beleza muito... etérea.

Layla olhou para a jovem bem acomodada abaixo de si. Como não conseguia mentir para seus amigos, sussurrou:

— Não acho que ela seja uma deusa.

— O quê?

A voz de Zain saiu maior do que ele gostaria e Layla o repreendeu com os olhos. Sussurrando desta vez ele formulou melhor sua pergunta.

— Por que? Como você saberia isso?

Layla não conseguia mentir, mas tão pouco abriria mãos de informações perigosas, então apenas deu de ombros, sussurrando de volta:

— Só sinto.

Zain riu e apoiou a mão em uma das pernas da morena, e o calor dela foi muito bem vindo.

— Não seja ranzinza. Ela é só uma mulher como qualquer outra – ele riu com isso – quero dizer, uma deusa como qualquer outra.

— Espero que sim.

Os olhos negros fixaram-se nas mãos grandes de Zain em sua perna. Quando as mãos dele ficaram daquele tamanho?

— Ah! Desculpe – ele afastou-se, mas Layla segurou sua mão.

— Só tome cuidado – reforçou, pondo-a de volta em sua coxa – gosto da sensação dela aí.

Zain sorriu com o jeito direto de sua amiga, mas não deixou de sentir o rubor tomar sua face, tentando desviar a atenção daquele momento ele começou a contar a ela sobre sua nova habilidade em fazer queijo, enquanto Layla o ouvia e se perguntava, internamente, por que as bochechas de seu companheiro estavam tão vermelhas.

•••

O trajeto até o templo de Xeamus foi longo. Durante dois dias seguidos eles cavalgaram quase sem descanso, parando apenas quando os cavalos precisavam de algum tempo para se recuperar.

Nesse tempo Layla passou a desconfiar ainda mais da deusa, que agora a evitava, e não conseguia mais esconder a irritação de ver Zain e ela tão próximos. Erin por outro lado era um bálsamo para as intermináveis horas ao lado da figura loira e resplandecente, conversando com a morena quando ela conseguia ir para a frente e fingindo entrarem em áreas perigosas apenas para poder pedir silêncio.

Apesar dos acampamentos a noite serem necessários, eram muito breves e Layla mal conversou com seus colegas, dormindo como uma pedra para afastar a dor de cavalgar por tanto tempo. Os suprimentos do suposto vilarejo os ajudou bastante durante o dia, pois sem serem necessárias assar as comidas serviam como lanches rápidos.

Próximo ao final do quarto dia de viagem o grupo decidiu se retirar da estrada mais cedo e o acampamento já estava montado e a carruagem escondida poucas horas depois do meio dia.

O rio perto serviu para que todos tomassem banho e com o sol ainda no céu, Layla aproveitou para usar as margens para lavar sua própria roupa, afinal não tinha tantos conjuntos quanto a loira que todo dia e noite trocava de vestimenta.

Apoiada numa pedra grande e larga ao lado do rio e com o acampamento a vista logo a frente, ela começou a lavar o tecido. A área em se encontravam era muito pouco conhecida e ao longe, depois do rio, um descampado enorme surgia com animais pequenos percorrendo apressados sua extensão.

Depois de muitas braçadas Layla ouviu Erin se aproximar com uma caneca de madeira fumegante.

— É um chá para as dores no corpo – disse sentando ao lado da amiga – vai ajudar no resto da jornada.

Layla suspirou apoiando sua blusa grossa sobre a pedra e tirando, com as costas da mão, alguns cabelos rebeldes do seu rosto.

— Obrigada Erin, sem você não sei o que seria de mim.

O homem sorriu, mas nada disse, e entregou o chá a ela. Os longos goles mataram a sede e a esquentaram por dentro, amortecendo as dores depois de alguns segundos de ingestão. Os chás de Erin eram sempre mágicos.

— Ainda está desconfiada da garota?

Os olhos negros de Layla procuraram a deusa instantaneamente e ela a viu debruçada na grama, conversando e rindo com Zain.

— Sim – admitiu – e não acho que isso vá passar.

Lentamente a morena colocou a caneca ao seu lado na grama que se atrevia a se aproximar do rio.

— Ela não possui aura celestial.

— Sua habilidade talvez não esteja...

Layla o olhou esperando a conclusão de suas palavras, pronta para rebatê-lo, mas Erin não arriscou terminar a frase.

— Não, minha habilidade não está antiquada— murmurou a contra gosto a palavra – foi algo que meu pai me ensinou. Ele me ensinou para sobreviver.

Deliberadamente ela apontou para a dupla ao longe.

— Seres celestiais não são como nas lendas ou histórias. Eles não são só beleza, graça e bondade. Seres divinos pagam um preço por descerem e alguns deles...

A voz de Layla falhou e ela percebeu que as lembranças seriam dolorosas demais. Havia fogo e luz, gritos e fumaça, e principalmente sangue.

Erin instintivamente tocou na mão pequena de Layla, acordando-a. Os olhos negros lacrimejavam e ela engoliu a própria saliva para continuar falando.

— Eu aprendi a detectar seres celestiais para sobreviver e eu posso dizer com toda certeza que ela não é um.

O homem ao seu lado assentiu, apertando suavemente a mão da mesma, que o correspondeu.

— Compreendo. Então por que haveria um preço tão alto apenas para uma escolta?

Layla deu de ombros, retomando a compostura, e enxugando com dificuldade os olhos no braço.

— Eu não sei. O ser humano é capaz de tudo. Talvez ela seja uma pessoa muito importante que precisa manter a identidade escondida. Talvez esteja fugindo de algo com a ajuda de alguém.

— Faz sentido – Erin acariciou a mão da amiga antes de se afastar – os deuses não gostam compartilhar seus nomes com os humanos, é uma ótima desculpa.

— Sim.

Layla endireitou o corpo e voltou a lavar sua roupa.

— Mas são só especulações.

Erin assentiu e levantou-se, pegando a caneca.

— Se quiser mais é só pedir, fiz um pouco mais para você, vou deixar ele bem quentinho – ele piscou.

Layla riu e concordou, dizendo-lhe que iria tomar assim que voltasse. Mas ela demorou mais do que pretendia e a noite caiu rápida esfriando o chá e o clima.

Todos dormiram rápido e Layla ficou de vigia, com sua cabeça repassando todos os pensamentos daquela tarde.

Todas as possibilidades. Riscos. Perigos.

Mas afinal, o que uma simples garota podia fazer contra eles?

•••

Zain ajudou Layla a desmontar o acampamento e eles riam quando a deusa chegou, interrompendo a alegria matinal de Layla.

— Zain, pode me ajudar com uma coisa? É muito pesada e...

— Não se preocupe, posso sim. Lay, você dá conta? – apontou para os pertences jogados próximos a uma árvore velha.

— Claro, vai lá.

Ele abriu um sorriso animado e se afastou junto com a garota na direção da carruagem. Suspirando Layla separou o resto dos pertences, os acomodou em seus cavalos e amarrou firme.

O animal relinchou, alarmado, quando Erin se aproximou, mas a mão quente do homem apaziguou o animal.

— Fico me perguntando onde foi que você aprendeu essa habilidade – brincou Layla virando-se para o amigo.

O grandão sorriu de lado, dando de ombros teatralmente com o nariz empinado.

— Aprendi sozinho.

— Sei – ela deu duas batidinhas nas sacolas, para garantir que não cairiam, e voltou pro centro do acampamento – está tudo pronto?

— Está sim, já podemos partir. Só falta – ele olhou ao redor – Zain e a deusa.

Layla franziu o cenho, de costas para o amigo, e desfez rapidamente a expressão.

— Não se preocupe, eu vou buscá-los. Vá levando nossos cavalos para a estrada.

Erin assentiu e seguiu as instruções. Layla olhou para o lugar onde a dupla desapareceu e começou a andar. Depois de alguns minutos, sem conseguir encontrá-los em terra, subiu numa árvore para melhor enxergar. Foram mais alguns minutos até encontrar o que se parecia com mechas loiras e com destreza a jovem seguiu até ela.

Pairando agachada num galho alto o suficiente para lhe encobrir Layla encontrou Zain.

Zain e a deusa enroscados um no outro, apoiados em uma árvore, com as bocas coladas. A primeira reação que a morena teve foi uma intensa dor no peito, como se uma pedra pesada afundasse dentro dela, mas lentamente esta deu lugar a uma outra completamente diferente.

Layla ficou parada no galho vendo a forma como as mãos de Zain deslizavam com destreza e necessidade no corpo da garota, como prendiam seu cabelo e a puxavam, como seus corpos emolduravam um ao outro, como as bocas se moviam e o baixo gemido que saia do lábios da garota quando elas se afastavam.

Layla respirou fundo, queimando por dentro. Havia algo intenso e perigoso naquilo, algo que a deixava quente de dentro pra fora.

Ela nunca havia sido beijada.

Retomando o controle do seu corpo ela agiu rápido, lançando um assovio contra o vendo, salvaguardando sua localização. A dupla lá embaixo se afastou, rindo um para o outro, enquanto Layla podia sentir seus batimentos acelerados.

— É Layla, ela está nos chamando para nos agrupar – explicou Zain, aparentemente sem fôlego.

A deusa sorriu e traçou uma covinha pequena e quase imperceptível na bochecha do garoto com o dedo.

— Então vamos.

Eles sorriram e deram as mãos, atravessando sem pressa a floresta até o acampamento. Quando a dupla sumiu de sua visão Layla tomou fôlego e correu entre os galhos sentindo o corpo finalmente esfriar. E deixando a raiva daquela cena voltar a tomar conta de si.

Ela pousou como um gato na frente da carruagem, antes do casal, e rosnou baixinho para si mesma. Erin a olhou surpreso, mas vendo sua expressão logo se preocupou.

— O que aconteceu? – ele deu passos na direção da morena – Onde estão Zain e a deusa?

Layla olhou instintivamente para ele e ele soube, por seus olhos, o perigo que ali espreitava. Erin parou de se mover na direção dela, mas manteve-se firme.

— Layla, o que aconteceu?

Ela grunhiu e saiu andando até o cavalo.

— Eles estão vindo.

— E você...

— Depois nós falamos sobre isso – ela pulou na sela – depois.

Erin assentiu, sabendo que em momentos de explosão da amiga o melhor era deixá-la sozinha, mas não demorou para descobrir o porquê da sua ira. De entre as árvores saia Zain e a deusa de mãos dadas e cheios de sorrisos.

O homem suspirou e olhou para Layla que, de costas, começava a andar em seu cavalo na direção da carruagem mais a frente. Erin correu e tomou seu lugar de cocheiro enquanto Zain deixava a loira dentro do cubículo e se posicionava em seu cavalo.

Se as viagens anteriores tinham tido pouca participação de Layla, aquela com certeza não teria nenhuma. Erin suspirou pesaroso e começou a andar com a condução. Eles teriam um longo caminho a percorrer até o final do dia.

•••

Ainda que Layla já tivesse xingado Zain o máximo que sua mente conseguia sem verbalizar ela não se sentiu satisfeita. A raiva ainda queimava dentro dela e por mais que pensasse em outras coisas, a imagem deles se beijando voltava trazendo a ira junto consigo.

O pior era não poder controlar aquela visão. Aquele desejo. Aqueles sons. Era algo tão primitivo e intenso que Layla se arrepiava só de lembrar, sentindo a pele fria sem aqueles mesmos toques sobre ela.

Mas a raiva sempre voltava e ela odiava com todas as suas forças Zain, mesmo sem saber porquê. Ele estava no seu direito enquanto homem livre fazer o que bem entendessem por aí. Ele não devia nada a ela. Mas por que doía tanto?

Depois de horas de cavalgada o corpo de Layla relaxou. A dor de estar novamente montada prevaleceu sobre sua guerra mental e ela mudou de posição sobre o cavalo, alisando preguiçosamente sua crina.

Um ruído baixinho a alertou alguns metros a frente. Layla saltou do cavalo num movimento acrobático pousando silenciosa no chão. Erin parou quase instantaneamente os cavalos, que relincharam em desgosto, e Zain tomou sua posição ao lado da companheira.

— O que foi?

— Homens. Uma carroça grande. Muitos cavalos.

Zain trocou olhares com Erin.

— Dá pra contornar?

— Eles estão perto demais.

Zain mordeu os lábios tirando o arco de suas costas já com uma flecha preparada. Erin ficou de pé na frente da carruagem, com seus músculos fazendo uma intimidante barreira de carne, e sacou a espada. Todos prenderam a respiração.

Diferente dos caçadores de recompensa o grupo que vinha na estrada lateral estava completamente alienado de suas presenças e o som ruidoso de sua chegada ficou cada vez mais alto. Lentamente, vendo uma quantidade considerável de homens se aproximar, Layla sacou suas cimitarras. Com um passo a frente ela reivindicou sua posição de líder.

A carroça que vinha a toda velocidade foi parada abruptamente, agitando a poeira da estrada, e os homens finalmente notaram o trio quase escondido na curva. Era um grupo consideravelmente pequeno para militares e quando seu suposto líder se mostrou, Layla soube que não era nada do tipo.

Bastou ouvir o estalar do chicote e o som de correntes balançando na carroceria vazia para todos os três saberem.

Eram traficantes de pessoas.

Zain respirou fundo, vendo uma fagulha de suas indignações acender, mas manteve a posição. Layla aprumou sua postura e manteve firme suas armas nas mãos. Encarando olho no olho o homem gordo a sua frente ela sibilou, tentando manter o ódio contido.

— O que fazem nessa região?

O comandante do grupo abriu um sorriso cheio de dentes e passou preguiçosamente a mão pela barriga protuberante, acreditando visivelmente que estavam em vantagem com quinze contra três.

— Negócios, minha menina, negócios. Agora deixem os adultos passarem – ele fez um movimento esdrúxulo com a mão, menosprezando-os.

Layla apertou com força as cimitarras.

— Daqui vocês não passaram. Não deixaremos pegarem dos nossos.

Os olhos do homem brilharam com a revelação de que eles sabiam seu trabalho.

— E quem vai nos impedir? Vocês?— riu.

Layla fez um movimento rápido com a cabeça e uma flecha saiu de Zain em disparada para o homem ao lado do comandante. O corpo caiu mole no chão.

— Sim – o sorriso de Layla fez os pelos do homem se eriçarem.

— Vão!

A voz do líder reverberou no meio da mata e os quinze, agora catorze homens, avançaram contra o trio. Erin desceu da carruagem num pulo atacando um deles com a espada direto no coração. Zain usou a flecha mais duas vezes antes de trocá-las pelas adagas acertando os homens que se aproximavam.

Houve gritos, urros e sangue. Layla dilacerou dois corpos antes de passar para o terceiro, com os cabelos soltando-se com o movimento e caindo atrevidos no meio da luta. Seu rosto estava coberto de sangue e o cheiro invadia suas narinas, não havia o que pudesse pará-la.

Exceto o grito de Erin, logo atrás de si.

Layla atravessou o homem a sua frente com as cimitarras e virou-se. Todo seu corpo tremeu com a visão. O líder chicoteara as costas de Erin e elas sangravam com riscos avermelhados.

A visão de Layla embaçou e ela perdeu todo o controle. Correu em fúria sobre os homens no seu caminho até o líder dos traficantes, rasgando-os com facilidade. Passando por debaixo das pernas de um deles enquanto o atingia no processo a morena chegou no seu alvo.

Layla rosnou para o homem, que sem quase ninguém o protegendo parecia pálido e frágil. Zain atacava um dos últimos e Erin empalava outro. Ele estava sem escapatória.

— Por favor, eu vou embora, por favor...

Layla não o respondeu, apenas correu e rasgou sua garganta com a lâmina de suas mãos. O corpo caiu no instante seguinte aos seus pés e ela fitou-o paralisada.

Em seguida olhou para seus companheiros, ambos com suas lutas já finalizadas e seguindo em sua direção. O talho nas costas de Erin fez o coração de Layla apertar e ela recuou quando o mesmo se aproximou.

Era culpa dela.

Era ela.

Sempre ela.

— Não foi você – ele disse, lendo sua expressão.

Zain olhou de um pro outro confuso.

— Foi esse desgraçado – ralhou pro corpo morto aos pés da morena – você não...

Ninguém prestava atenção nele e isso o incomodou. Erin e Layla trocaram olhares silenciosos. O homem não tentou se aproximar depois de falar e ela tão pouco reagiu a suas palavras.

— Ei, tá tudo bem Lay – Zain andou até a jovem – vamos nos reorganizar, sim?

Layla só olhou para Zain quando ele estava a uma curta distância de si e a raiva que ele viu por trás dos olhos negros o atingiu nos ossos.

— Você. Afaste-se de mim.

Zain paralisou, surpreso. Layla desviou os olhos e andou com passos pesados até Erin que em silêncio a observou se aproximar.

— Vamos cuidar das suas feridas.

Sem olhar para ele Layla tomou a mão dele na sua e o puxou até os cavalos e a carruagem, revirando seu alforje e sumindo segundos depois dentro da mata.

Zain permaneceu parado onde estava e soltou lentamente a respiração que percebeu que prendia. O que era aquilo nos olhos da sua amiga?

E por que ela o tratou daquele jeito?

Com os movimentos de volta ele encarou o lugar entre as árvores que eles entraram e respirou fundo. Sabia que antes de entrar para o trio Layla e Erin já se conheciam e trabalhavam juntos, mas com tantos anos naquele trabalho jamais viu algo como aquilo.

Desde quando a relação deles havia evoluído tanto?