Deusa do caos

5 Caverna Celestial


— Tenho rastros por aqui – alertou Layla se agachando sobre uma marca quase imperceptível de marca de pé.

Erin e Zain se aproximaram rapidamente, devidamente armados, e observaram a marca.

— Sim, são os pés dela.

Layla olhou por cima de seu ombro para Zain com a sobrancelha erguida.

— Ei, qual é, eu sou observador. Sou os olhos do grupo, não lembram?

Erin riu da confusão que Zain fez com as mãos para se explicar, mas o grupo seguiu rapidamente a sequência de pegadas. Elas entravam na floresta e seguiam, em linha reta, até uma trilha pouco usada. Depois de alguns bons metros voltavam a estrada principal e desapareciam, misteriosamente, em frente a uma caverna.

A abertura era imensa e cauteloso o grupo passou por ela. Dentro da mesma, apesar da luz, a escuridão predominava nos espaços mais distantes e quanto mais se aproximavam da penumbra, mais Layla sentia alarmes de perigo. Ela parou fazendo os companheiros a acompanharem e inspirou fundo.

Havia um cheiro ali que ela conhecia bem.

Pare.

Um cheiro antigo.

Fuja.

Mais antigo do que eles.

Perigo.

Mais antigo do que o mundo.

Caos.

Um cheiro celestial.

Era uma armadilha.

— Corram!

A voz de Layla ecoou e reverberou logo a frente, numa parede que se acendeu ao som da sua voz. Havia gravada nela a imagem em alto relevo de uma deusa, de feições serenas e angelicais, com os braços entrando no mármore, presa na pedra branca, polida e fluorescente.

Layla prendeu a respiração ao ver a imagem, paralisada. Nas costas da figura asas abriam-se também presas na rocha e o vestido fino e curto descia por seu corpo quase nu.

Não podia ser.

— Finalmente, finalmente!

A voz melódica da loira ecoou no vão, que iluminado pela rocha se mostrava menor do que o imaginado. Ela estava com as roupas antes tão limpas e divinas sujas de areia e folhas e os cabelos loiros jaziam presos sobre sua cabeça. Os olhos azuis, entretanto, continuavam iguais.

Dissimulados.

— Estivemos por tanto tempo esperando esse momento – ela riu – finalmente você chegou!

Zain e Erin se entreolhando confusos, mas Layla tremeu dos pés a cabeça.

Não.

— Sim! – a garota riu em deleite – Sim!

Layla sentiu a visão embaçar.

— Vão embora! – gritou para a dupla atrás de si.

— Mas Lay...

— Agora!

O grito dela rasgou a caverna e Zain quase a obedeceu, por instinto, mas manteve-se firme no lugar.

— Tarde demais – a loira balançou o dedo em frente ao rosto – vocês não vão sair daqui.

Um calafrio passou por todo o corpo de Layla e ela fitou horrorizada a imagem no mármore. A escultura a encarou imóvel e todo o corpo da morena tremeu ao se sentir contemplada por seu olhar.

Erin, lentamente, começou a associar as coisas e deu, num movimento inteligente, um passo para trás.

Uma pressão intensa tomou conta do corpo do trio e Layla urrou, grunhindo para os homens atrás de si.

— Eu disse para irem embora!

A caverna tremeu e antes que Layla pudesse desviar, grandes correntes agarraram seus pulsos. No instante em que o metal tocou em sua pele ela gritou a todo pulmão com a dor irradiando dos pulsos para todo seu corpo.

Era dilacerante e intensa e Layla só conseguiu gritar para aplacar a dor que parecia aumentar cada vez mais. Ela caiu de joelhos, fraca, e Zain deu um passo em sua direção, pronto para ampará-la.

— Não toque nela – alertou a loira, divertindo-se – são aços celestiais, eles queimam o prisioneiro e em quem tocar nele. A não ser que queria provar da dor de sua amiguinha.

Erin apertou o ombro do amigo impedindo-o de continuar. Zain virou-se raivoso, mas ao ver o olhar dilacerado do companheiro sentiu toda sua raiva sumir.

— Agora – a garota estalou os dedos – a parte boa.

As correntes puxaram Layla para trás e ela se elevou, ficando a poucos metros do chão. A dor ainda a preenchia mas seu corpo estava inerte. Ela tentou chutar e gritar, mas a voz lhe faltou nos pulmões.

Os olhos inconscientemente se encheram de lágrimas. Ela olhou com precariedade para seus dois companheiros ali, vulneráveis, e as lembranças de sua parceria arderam em seus olhos.

Ela os traiu.

— Vejam só que estado deplorável, minha rainha vai adorar vê-la assim.

Zain virou-se para a figura esguia ao seu lado, irritado, mas a loira riu.

— Tudo bem garotão, eu perdoo você por brincar comigo – ela piscou – eu também brinquei com você um pouco.

— O que você está fazendo? Solte-a agora mesmo ou...

— Ou o que? – ela aumentou o sorriso.

Erin, lutando contra a pressão, afundou ainda mais a mão no ombro do amigo.

— Para quem você trabalha?

A risadinha melódica da loira irritou profundamente Zain e Layla, imobilizada e em agonia, só conseguiu trincar os dentes ao tentar rosnar para ela.

— Você é um homem esperto, Erin de Sangre.

Os olhos dele se abriram assustados.

— Como você...

— Como eu sei? Fácil, você abandonou suas terras com a cabeça a prêmio, foi muito fácil descobrir onde o senhor das grandes colinas estava se escondendo com o rabo entre as pernas.

Ela riu.

— E, claro, como podia esquecer esse fato: com uma deusa!

Zain se engasgou.

— Uma o que?

Os olhos azuis que zombavam de Erin voltaram-se para o garoto.

— Oh, pobre rapaz, foi posto em fogo cruzado e nem ao menos sabia do que se passava.

Cale a boca.

O trio em terra firme olhou surpreso para Layla, que rosnou para a loira depois de suas palavras, lutando com toda sua força contra a dor de suas amarras.

— Incrível! Fantástico! Quanta força de vontade!

Zain olhou de uma para a outra, confuso e aflito.

Uma mortal como você, com seus truques de criança, nunca conseguiria me...

Uma pontada na coluna fez Layla trincar os dentes. A loira riu e Zain imediatamente ergueu seu arco, lançando repetidamente flechas nas correntes que permaneciam intactas.

— Você não vai conseguir, são inquebráveis. Não somos amadores garoto. Estivemos caçando essa daí por anos.

Zain ofegou, sem fôlego com a força usada contra a pressão que tomava seu corpo. Atrás dele Erin pensava com rapidez em algo para fazer, mas todas as possibilidades pareciam distantes. Layla estava presa e eles incapacitados. Demorariam muitos tempo para escapar da pressão dentro da caverna e não poderiam fazer nada fora dela.

Estavam encurralados.

Os olhos amendoados olharam para Layla desesperados e apreensivos e ela o retribuiu, estava tão desesperada quanto eles. Mas não pela sua própria segurança, mas por eles.

— Como assim por anos?

A voz de Zain despertou Erin de seus pensamentos e pela primeira vez ele sentiu o peso de seus segredos afundarem-no ainda mais que a pressão que o aprisionava.

— Você não sabe, não é? Que a sua amiguinha de viagens é uma deusa.

— Deusa – repetiu Zain sentindo o gosto da palavra na boca – você está dizendo que Layla é uma Deusa?

A loira abriu um largo sorriso, mais do que inclinada a explicar a ele toda a situação depois de ver pavor cruzar os olhos negros de sua prisioneira.

— Primeiro vamos começar corrigindo isso: o nome dela não é Layla.

A morena entre correntes gemeu em resposta as palavras dela, tentando xingá-la. Ela não tinha o direito...

— Esse nome ridículo – a jovem cuspiu as palavras – o nome real dela é Érist, a deusa do caos.

Com o maneio de sua mão na direção da estátua ela deixou claro algo que até então estivera subentendido: a imagem gravada ali era de uma deusa. E não qualquer deusa, era uma representação de Layla.

Os cabelos lisos caindo em cascatas sob o túnica eram inconfundíveis. Aquele era um lugar de adoração a ela.

Layla se remexeu nas correntes, balançando-as, e um grunhido de dor escapou de seus lábios. A ex-deusa saboreou cada som que saiu da morena.

— Ela fugiu do reino celestial – um sorriso de escárnio cruzou o rosto da loira – e agora que está nas minhas mãos, não vai ter mais como fugir.

— Vocês vão levá-la de volta?

A ex-deusa olhou para ele como se fosse uma criança e riu.

— Claro que não! Nós só precisamos do poder dela – ela lambeu os lábios – a essência sombria dela vai servir perfeitamente a nossos desejos.

— Que são...?

A loira suspirou e olhou despreocupada para a entrada, a espera de alguém.

— Guerra, caos, destruição. O que mais seria? – ralhou – Precisamos dos poderes dela para dominar o reino celestial.

Novamente ela riu.

— Você acha que faríamos um plano tão complexo como o de virem me trazer ao templo de Xaemus por algo como levar ela de volta? Os deuses que se responsabilizem por si mesmos!

Zain olhou preocupado para a amiga acorrentada. Ela parecia morta, mas se não fosse pelo peito que descia e subia com dificuldade ele já estaria em pânico.

— Forcei vocês a esticarem a viagem naquele vilarejo para nos reunirmos a tempo. Aqueles traficantes apesar de serem puro acaso foram perfeitos para fazer vocês baixarem a guarda! E eu só precisei agir como uma verdadeira deusa durante todo o tempo, indefesa, frágil, bela...

Ela piscou para Zain.

— Sei que você gostou.

Uma risada sôfrega soou na caverna e novamente todos fitaram Layla.

— Você nunca conseguiria se parecer com uma deusa, garota. Você é medíocre.

A loira grunhiu e estalou o dedo, fazendo as correntes se esticarem ainda mais. Com o movimento Layla olhou de lado para Erin que entendeu prontamente o recado. Numa ação que demorou mais do que o esperado ele puxou sua espada, lançando-a com habilidade.

A lâmina atravessou o vácuo e atingiu certeira a origem da corrente, desconectando-a da parede. No mesmo instante Layla pendeu, ficando presa apenas por um dos braços, chocando-se contra o chão.

O arquejou de surpresa da loira ecoou junto com o gemido de dor de Layla com o baque. Ela balançou debilmente o braço que agora tinha uma corrente inútil agarrada a ele.

— Viu? Medíocre — ela sorriu de lado, puxando a mão ainda presa.

De início a corrente celestial lutou contra ela, mas a força de Layla era maior. Seu poder era maior. Nem mesmo todas as correntes do mundo poderia segurá-la sem que estivesse sugando sua força.

Em questão de segundos o aço se partiu do outro lado da caverna, e apesar de livre Layla caiu com tudo no chão.

Ele gemeu de dor.

Sua força que havia sido contida pelas correntes voltou com tudo com a quebra delas. Ela agora sentia todo o poder que contivera por anos reivindicando seu lugar de direito.

Mas ela o deixaria fazer isso?

Usar seus poderes era lançar um sinalizador para os seres que a caçavam. Venham, estou aqui.

Mas Layla estava fraca, seus amigos encurralados e a única coisa que ela podia fazer ali era contra atacar.

Lute, menina.

A voz rouca de seu pai soou em seus pensamentos.

Lute como lhe ensinei.

Você é forte, poderosa, você consegue derrotar qualquer um.

Ouça o seu coração.

Fazendo força para se levantar Layla grunhiu. A loira, ainda em choque, deu um passo para trás temerosa. Erin e Zain mal conseguiram se mexer com a pressão cada vez mais intensa, mas permaneceram com os olhos fixos e aflitos na direção da amiga.

O ar ao redor de todos modulou e eletricidade arrepiou os pelos de todos. A ex-deusa arregalou os olhos com passos ainda mais rápidos para trás. Layla grunhiu mais uma vez pelo esforço e conseguiu apoiar uma das mãos no chão. Depois a outra.

Passos ecoaram na entrada da caverna. Dezenas de pés. Milhares.

Zain olhou instintivamente para a multidão de homens e mulheres que adentravam pela boca enorme da caverna. Todos usavam branco, mas ao invés de parecerem angelicais como a loira ao seu lado, todos tinham um semblante marcado.

E as armas que eles possuíam matariam todos eles.

Era o fim.

Layla gritou quando conseguiu pôr um dos joelhos no chão e depois o outro, enquanto a ex-deusa corria para o meio dos novos integrantes da sua trupe. Com um movimento da mão Layla sumiu com a pressão que prendia seus amigos no lugar e pendeu para um dos lados. Mais que rapidamente eles correram até ela, ajudando-a.

— Que droga – ralhou Zain segurando em um dos braços da morena enquanto Erin ajudava-a com o outro – nós vamos morrer.

— Não – a voz de Layla era rouca e com um peso imenso ela conseguiu apoiar os pés no chão.

Erin olhou para ela preocupado.

— Você absorveu a pressão para si.

A morena não o respondeu, mas o garoto do outro lado confirmou as palavras deles vendo-a tremer contidamente.

— Vão para trás e toquem em qualquer parte da rocha – conseguiu dizer entredentes – não se afastem, ela tem propriedades que vão ajudar a protegê-los.

— Nos proteger de milhares de pessoas bem armadas?

Erin assentiu e segurou o ombro do garoto, interrompendo seus protestos num aviso silencioso para que ele obedecesse. Zain tentou argumentar mas sua boca ficou seca quando ouviu um chiado de dor escapar de Layla.

— Quando eu disser para ir, corram. Eles vão sair da posição ao sinal do menor movimento. Desgraçados celestiais.

Zain ainda não compreendia o que toda aquela história sobre deusas e reino celestial queria dizer, mas confiava na garota ao seu lado. Confiava em Erin. E com a força dessa confiança ele lentamente soltou o braço da morena.

Layla respirou fundo. Seus sentidos começavam a se desajustar com a sobrecarga de poder. Ela mirou na horda gigantesca a sua frente, seres celestiais subalternos, e rosnou quando sua visão embaçou.

Não conseguiria conter por muito tempo.

— Estão prontos?

Ambos assentiram e ela sequer precisou olhá-los para saber suas respostas. Layla tomou fôlego.

— Vão!

Zain e Erin deram as costas a amiga e correram para a parede de mármore, onde a escultura parecia encará-los melancólica. No momento em que começaram a correr o grupo na entrada avançou e do centro da caverna um brilho intenso cobriu o vão.

Erin e Zain, momentaneamente cegos pela luminosidade, continuaram correndo e chocaram-se com tudo contra a rocha, que ao invés de fria irradiava um calor quase maternal. Eles tentaram olhar através da luz, mas nada conseguiram enxergar.

Foram longos segundos de gritos de batalha e luz ofuscante, que refletia como sol nas paredes brancas da caverna. Quando finalmente o clarão diminuiu os homens puderam ver asas cortando o ar e sangue jorrando de vários corpos já dilacerados no chão.

Os olhos deles se arregalaram ao perceberem que a figura alada no meio de todo o caos da luta era Layla. Ela irradiava uma aura dourada e intensa e seu rosto, preenchido pelo sangue dos inimigos, reluzia como uma verdadeira deusa da batalha.

Mas ela era a deusa do caos e a nomenclatura pareceu se encaixar perfeitamente em meio aos gritos de batalha e de dor.

Layla atingiu quatro, cinco, seis. Dez homens caíram por suas lâminas à direita e quinze à esquerda. A eletricidade no ar se carregou e explodiu um grupo que se mantinha mais atrás. Em mais um movimento das lâminas ela cortou os corpos na sua frente e alçou voou, mergulhando em outro grupo.

Havia sangue por todo corpo da garota e ela não conseguia saber qual deles era de seus inimigos e qual deles era seu. Seus braços ardiam com cortes e suas pernas vacilavam por terem sido atingidas por flechas.

As asas escorriam sangue e as mãos mantinham-se agarradas as cimitarras por pura força de vontade, pois seu corpo gritava em agonia. Ela avançou de novo e com seu poder explodiu mais três pequenos grupos que avançavam.

Ainda faltavam tantos...

Seu corpo pediu socorro, mas ela o calou. Os dois homens atrás de si, vulneráveis, precisavam dela. Eles não tinham culpa por terem se envolvido com ela. Layla era o mau agouro que os levou até ali. Ela tinha que se responsabilizar.

Uma flecha zumbiu, passando ao lado de sua cabeça, atingindo um dos inimigos a sua frente. Desviando das que vinham na sua direção ela olhou por cima dos ombros para a dupla atrás de si.

Zain tinha o pé colado na parede enquanto lançava flechas certeiras nos atacantes e Erin avançava sorrateiro por trás dos seres distraídos, cortando suas gargantas com a lâmina das adagas que eram do garoto. Um pedaço grande da pedra de mármore reluzia enrolada com pano em seu braço.

Layla sorriu involuntariamente. Seu corpo tremeu e ela apertou as cimitarras com força. Eles estavam com ela. Eles lutariam juntos.

A deusa do caos avançou com ainda mais intensidade no meio dos seres celestiais e cobriu seu corpo com a eletricidade mortal. Cortou e estripou seus inimigos com fúria e quanto mais raiva sentia, maior seu poder explodia.

O clarão voltou a envolver a caverna e explodiu em uma nuvem de eletricidade púrpura cintilante, diferente de qualquer outra. Houve um grito agudo e quando a luz cessou e a corrente elétrica abandonou o ar, Layla tombou.

Todos os inimigos restantes estavam caídos no chão, mortos.

Erin, que recuara com a demonstração de poder, agora corria até o corpo da amiga em meio aos cadáveres. Zain lançou o arco de lado e fez o mesmo, chegando primeiro ao encontro da jovem.

Caindo de joelhos o garoto apoiou Layla em seu colo, com as asas maculadas de sangue se comprimindo contra suas coxas. Layla estava desacordada, mas Zain pôde sentir o peito da mesma subir e descer com sofreguidão. Ela estava viva.

Lágrimas cobriram seus olhos.

— Ela está viva – a voz do rapaz falhou.

Erin parou ao seu lado aliviado e olhou da dupla entre os mortos para a entrada da caverna.

— É melhor irmos embora. Não sabemos o que ou quem mandou tudo isso e de onde veio esses milhares podem vir muito mais.

O homem se agachou.

— Coloque ela nas minhas costas e pegue nossas armas.

Zain apertou possessivamente o corpo inerte da Layla em seus braços antes de ajudar a apoiá-la nas costas do amigo, mesmo que a contra gosto. Com rapidez ele recolheu o arco, as flechas e as lâminas.

Erin gemeu de dor quando ajustou o corpo de Layla em suas costas, sentindo a ardência dos cortes em suas costas. A dupla saiu da caverna com rapidez abandonando uma horda inteira de seres celestiais mortos em seu encalço.

•••

Layla sentiu tudo doer quando retomou os sentidos. Antes de abrir os olhos avaliou todo o estrago em seu corpo e notou que suas asas haviam voltado a desaparecer. Seus braços e pernas latejavam e sua cabeça doía sem parar.

Ela inspirou e expirou fundo duas vezes antes de abrir os olhos. Acima de si haviam folhas de um verde escuro e o vento as balançava a seu bel prazer. O cheiro de mata inundava seu olfato e o odor de uma fogueira lhe trouxe familiaridade.

Estava em um acampamento.

Novamente ela inspirou, mas esse movimento chamou a atenção de seus companheiros.

— Lay? Você acordou?

Zain trotou da fogueira para o seu lado, acompanhado de Erin. O rosto deles estava lívido de alegria e Layla sentiu lágrimas brotarem em seus olhos.

Eles estavam vivos.

Mas por pouco não morreram por sua causa.

Os olhos negros esquadrilharam os rostos de seus amigos e ela sorriu, com as lágrimas descendo desimpedidas por seu rosto. Zain a olhou preocupado e Erin agachou-se ao seu lado, tocando na testa da mesma.

— A febre passou – ele sorriu – você vai sobreviver.

Zain suspirou de alívio.

— Eu nasci no reino celestial – murmurou Layla, sentindo a língua áspera – e herdei os poderes da deusa Éris.

Ela engoliu a própria saliva numa pausa breve.

— Meus poderes eram perigosos demais para os deuses e eles sentenciaram minha prisão. Eu era jovem e tinha acabado de vir ao mundo, eu fiquei com medo.

Mais lágrimas caíram.

— Eu fugi do reino celestial e desci para a terra. Sobrevivi com dificuldade, o corpo humano infantil é muito frágil. – ela ergueu os braços como se pudesse ver ali os braços infantis que uma vez foram – Um homem me encontrou nas ruas e tomou conta de mim. Ele sabia minha origem e me ajudou a sobreviver.

Layla gemeu de dor quando tentou se sentar, mas o fez mesmo assim.

— Ele me ensinou a controlar meus poderes, me ensinou a detectar seres celestiais, me ajudou a me esconder.

Os olhos negros de Layla ficaram nos de Erin.

— Ele foi meu pai.

O trio ficou em silêncio por segundos antes de Layla tomar fôlego e continuar.

— Mas eles me encontraram. Eu tentei negociar e dizer que voltaria de boa vontade, mas eles não queriam que eu voltasse. Eles não eram os deuses temerosos que deixei para trás, esses eram outros – ela abriu e fechou as mãos, sentindo-as formigar – eles queriam usar meus poderes para dominar o reino celestial.

As lembranças daquela noite voltaram e as lágrimas de Layla já não eram suficientes para tanto sofrimento.

— Eles mataram todos. Do meu pai aos habitantes dos vilarejos próximos. E eu... fugi. Eu tenho fugido todos esses anos. Ao menor sinal de energia celestial eu fujo, como um rato.

Ela rosnou segurando automaticamente o topo da cabeça com dor. A mão de Zain envolveu a sua instintivamente. Ela o olhou.

— Mas esses anos... eu relaxei. Vocês... não tinham culpa. Não deveriam estar no meio de tudo isso. Eu nunca deveria...

Ela soluçou e a mão de Zain apertou suavemente a sua.

— Eu nunca deveria ter conhecido vocês.

— Não – Erin se agachou – não é verdade.

Layla se negou a olhá-los nos olhos, fitando o chão coberto de folhas secas abaixo de si.

— Vocês não teriam passado por isso. Vocês não estariam a um passo da morte a cada batalha que travamos.

Ela afastou a mão de Zain da sua e cobriu o rosto.

— Eu sou a deusa do caos, a morte me persegue. Vocês podem morrer ao menor deslize se eu estiver por perto. Eu...

— Por isso você ficou tão brava quando entrei no fogo cruzado no último trabalho – sussurrou Zain compreensivo.

Layla não respondeu, mas seu silêncio foi afirmativo.

Erin delicadamente tirou uma das mãos de Layla de seu rosto e quando ela o olhou, ele abriu um sorriso. Ele era o único que sabia parcialmente da sua natureza, pois vivenciou-a numa luta quando ela acabou usando seus poderes. Quando...

— Se eu não tivesse conhecido você, já estaria morto.

Os olhos de Layla tremeram com a realidade daquelas palavras, mas Erin permaneceu focado nela.

— Você sabe que fui acusado em minha terra natal. Minha cabeça estava a prêmio. Eu era um assassino para todos, mas você me salvou.

— Você não matou ninguém – ela sussurrou.

— Não, mas eles não acreditaram nas minhas palavras. Você sim. E é por isso que estou aqui, vivo, foi você quem me salvou. Lutou contra todos e...

Erin riu de um jeito envergonhado.

— Eu fui patético. Quando estendeu a sua mão me perguntando se queria acompanhá-la, me senti importante. Você me deu uma segunda vida, Layla, não morte, vida.

Layla mordeu os lábios sentindo os olhos arderem com lágrimas.

— E você me tirou das ruas – completou Zain, sentando desajeitado no chão sujo da mata com seu sorriso travesso – eu poderia estar morto agora também. Cada dia naquelas ruas era um inferno. Não havia a certeza de um amanhã, Lay. Eu estava sozinho nos becos, com medo – o sorriso vacilou com as memórias – com fome, frio.

Zain tocou suavemente o rosto da jovem com a mão, afastando lágrimas que ainda caiam de seus olhos. Era quente e terno e ao senti-lo Layla fechou os olhos, chorando ainda mais.

— Você também me salvou, Lay. E salvou meus irmãos com isso. E se fosse o próprio diabo aqui, na minha frente, eu ainda seguiria você. Eu iria ao inferno e queimaria por toda a eternidade de bom grado.

A mão acariciou-a.

— Não vamos deixar você ficar sozinha de novo. Somos um grupo agora. E ficaremos juntos.

Ela olhou para Zain e seu sorriso cheio de certezas apertou o coração da garota. Os olhos procuraram o rosto de Erin e ele tinha tanta determinação quanto o do amigo.

Layla sorriu, primeiro com dificuldade, mas a alegria que se alojava dentro de si foi suficiente para adormecer parte de sua dor.

— Então se preparem – ela deu um soco fraco no braço de Zain – Vou treiná-los tão pesado que nem mesmo o Deus mais poderoso vai conseguir colocar vocês de joelhos e a morte vai tremer quando passar por vocês.

Zain e Erin concordaram, sorridentes, e Layla afundou no pequeno pedaço de alegria que os preenchia.

— Certo, chefinha.