Houve uma breve pausa. Naquele silêncio inebriante que tomou conta do plano astral pareceu consumir não só a projeção de seus corpos físicos, mas também suas almas. Não saberia dizer se havia destino traçado, e detalhado, em um plano além da sua compreensão. Mas com toda certeza sua existência não dependia de outro ser. Sua sobrevivência. Era capaz de existir por si só, levantar, alimentar-se, sobreviver. O que dava-lhes o direito de os aprisionar? Que deus era aquele que lhe entregava em uma bandeja de prata para eles? Em algum ponto lhe fora dado alguma opção? E tudo isso corria por debaixo daquele tecido fino, onde Sabrina, hora ou outra, desviava os olhos tentando decifrar o que corria por ali.

"Chega". K'zam tomou suas colheres em mãos e fitou sua treinadora. "Aqui acaba a brincadeira". Um vento tomou conta do espaço branco e o trono, com a mulher sobre ele, foram se afastando, desaparecendo numa imensidão pálida até não restar nada — da parte dela não houve resistência.

De volta ao campo de batalha, menos de alguns segundos haviam corrido, a Bellossom corria em sua direção envolta de pétalas vermelhas. O Alakazam teleportou para suas costas, e coberto por uma aura púrpura que se concentrou toda em suas colheres, que ao se tocarem produziram uma onda que criou ao redor da pokémon pedras que lhe infringiram golpes e a levaram a inconsciência, e por fim, o fim da batalha.

– Parabéns, K'zam — disse a treinadora se aproximando do campo de batalha.

O jovem treinador se aproximou de sua mascote com ar apreensivo. Tomou-a em seus braços — o pokémon psíquico podia sentir o afeto que ele sentia por ela; o mesmo podia se dizer do contrário, mas sentia que que os motivos eram diferentes. Olhou sobre os ombros e a fitou. Tinha a certeza plena que ela o amava, ele também amava Sabrina. Quando dois seres possuem específicos poderes como eles, palavras são desnecessárias — mas sentia falta da jovem Sabrina. A adulta tinha concretizado uma sede, que aparentava tédio e comodismo, por aquilo. Por vitória, reconhecimento. Mesmo que no passado para os dois aquilo era diversão, uma forma de fortalecer a ligação, hoje aquilo não passava de trivialidade. Por que continuavam?

Aquela pequena flor dançante, "Belle", o tinha instigado. Ela lutava porque amava o seu treinador, não tinha desejo e felicidade nisso, mas via que isso o fazia feliz — queria dançar entre os bosques, se fosse com ele, melhor -, e os outros amigos que fez — se quisessem vir com eles dançar, ótimo! -, mas duvidava que ele fosse digno de seu amor. Mas o amava, e naquele mundo, era tudo que lhe restava. E enquanto ela lutava pensando nele, o afeminado treinador rogava pelo deus deles, dos pokémon. Não estava certo.

– Talvez você tenha mais sorte na próxima, jovem. — Sabrina pousou a mão no ombro do seu Alakazam e sorriu, apertou-lhe a omoplata e se virou. Era o último treinador do dia, iriam metidar e por fim, tirar o dia.

K'zam sondou todo o ginásio atrás da preguiçosa Musharna...

"Musha, onde você esta? Precisamos conversar".