Detetive Potiguar

1 Capítulo 1 – Um sonho de infância.


Eu sempre sonhei em ser um detetive. Quando era pivete eu passava horas vendo e revendo as fitas do meu pai com filmes de detetive. Li um monte de livros sobre detetives. Quando descobri que existia um curso por correspondência pra se tornar um, não perdi tempo e me inscrevi. Passei uns meses e finalmente consegui meu certificado.

Aquele dia foi maravilhoso. Eu comprei um chapéu e um sobretudo, ambos marrons, e ostentei eles na noite natalense, pagando todas e declarando pra todo mundo que eu iria resolver mistérios e ia me tornar o mais famoso detetive que toda a grande Natal já teve.

A farra durou alguns dias. Na semana seguinte, eu passei os dias no meu escritório alugado nos fundos de uma loja de bicicletas, sem caso nenhum. Dois meses depois, arrombaram meu escritório e levaram um dos móveis. Tive que passar o sofá em doze vezes no cartão. Eu nem podia investigar o roubo, porque se eu os encontrasse provavelmente levaria tiro, e eu não podia ter uma arma, por lei. Fiquei com ódio.

Cinco meses depois de eu ter me tornado detetive particular, eu já estava começando a desistir. Eu só tinha investigado três casos até então: o sumiço da gata de Gorete (ela estava no quintal do vizinho), o roubo da bicicleta da loja da frente (que, acreditem, estava no estoque e o imbecil não tinha visto) e por fim uma fábrica de Coca-Cola abandonada que fica em Parnamirim. Essa eu nem vi, já que não ia gastar 8,40 indo e voltando no ônibus cheio pra ver mendigos.

Porém, alguns dias antes dos meus boletos vencerem, eu estava tomando café e discutindo passes de bola com o dono da loja de bicicletas, quando uma mulher apareceu dizendo que queria falar comigo. Eu preferia que ela tivesse aparecido numa noite chuvosa e estivesse usando um vestido vermelho enquanto eu fumava, mas infelizmente ela veio no meio da tarde, usando uma camisa de Nossa Senhora e uma saia jeans. Nem fumando eu estava, porque, no início da carreira, tentei fumar por dois dias seguidos e fui parar no hospital. Depois disso, prometi a mim mesmo que nunca mais tocaria num cigarro.

Guiei a mulher pelo beco, que era cheio de mofo e algumas plantinhas não identificadas, e a levei até o meu escritório. Sentei na minha cadeira branca de plástico e ofereci a ela um copo de água da minha velha geladeira enferrujada. Ela recusou. Eu estava com sede, então não me recusei. Abri a geladeira para mostrar que não era de todo pobre: havia um kinderovo no lugar dos ovos (na verdade, era só a embalagem), uma garrafa de vidro onde eu botava minha água, fingindo que era vodka, e uma sacola de pão de forma integral, que estava ali há dois dias. Eu não gostava de pão integral, mas era o que minha mãe tinha comprado.

Depois de beber a água num copo de plástico e amassar o mesmo, tentei arremessá-lo na lixeira mas errei. Fingi que nada tinha acontecido, e perguntei a ela: – O que a traz aqui?

— É que a dúvida me incomoda.

Tudo o que eu conseguia pensar era: "HÃ?". De TODAS as respostas que alguém poderia me dar, aquela foi a única que eu não tinha ensaiado. Eu não sabia o que dizer, então acenei com a cabeça, como se tivesse entendido tudo e agora pedisse para que ela continuasse. (Dias depois, no entanto, eu lembrei que aquele era o meu slogan e era por isso que ela tinha começado seu relato assim).

— Sabe, eu sou casada há vinte anos e...

Depois que ela disse "casada" eu já sabia exatamente o que ela ia pedir. A mulher passou umas duas horas falando sobre o casamento dela, sobre os filhos que tinham ido para o exterior, a sogra dela que tinha passado férias em João Pessoa e tinha colocado fotos de biquíni, "uma afronta a moral e aos bons costumes", etc. Eu não queria ter prestado atenção a nada nisso, mas eu não tinha nada melhor para fazer – nem mesmo meu celular tinha notificações. Nem o DUOLINGO tinha me mandado notificações sobre minhas aulas de inglês.

Quando ela terminou sua longa história, veio a suposição que eu já imaginava desde o começo: – Acho que meu marido está me traindo.

Definitivamente não era o caso que eu queria. Mas era o caso que eu precisava.

Aceitei investigar o marido da senhora por algumas semanas. Ela me pagou metade do valor logo ali, e eu dei graças a Deus pelo dinheiro dos boletos.

Pedi informações sobre o homem e ela me disse tantas quanto podia imaginar. Até coisas muito inúteis, como o tamanho do sapato dele (36) e o apelido de infância (que era "Xarope", não sei o motivo). Com elas em mãos eu prometi que iria descobrir tudo e que quando o fizesse, a chamaria. Ela acenou com a cabeça e foi embora. Passei algum tempo sentado, até me lembrar do copo no chão. Botei ele no lixo da forma tradicional, sem muito gosto, e por sorte ele não caiu de novo.