Desventuras Anãs!

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Esse é um conto criado por Brad, um dos autores do perfil Arbelon. É direto e pouco explicativo, mas com certeza lhe renderá um largo sorriso no rosto ao fim da leitura. Aproveite.

— Hoje é o grande dia, filho! – o robusto anão tomou o filho nos braços – talvez pela última vez – e lhe beijou as bochechas avermelhas com grande entusiamo.

— Sim, pai, e não precisa me molhar todo! -– empurrou o pai levemente após a afirmação, buscando respirar. Trorvard ajeitou o cinto, procurando recuperar a dignidade que lhe restava após ser afastado pelo filho. Afagou a grande barba ruiva com afinco, analisando a figura que o aspirante a guerreiro havia se tornado.

Ora! Como todo anão, sua estatura não demonstrava imponência, mas a largura sim! Seus cabelos ruivos estavam divididos em duas tranças que caiam sobre os ombros, contrastando positivamente com o enorme nariz vermelho que enfeitava seu rosto duro, apesar de jovem. A barba apontava no queixo e o bigode formado já era maior que qualquer barba comum – do jeito que os anões gostam, com muitos pelos faciais. A barriga já apontava sobre o cinto, acusando a vida farta que vivera até então, mas apesar disso demonstrava braços e pernas fortes, sinais dos treinamentos constantes com o pai.

O pequeno guerreiro trajava um colete de couro, robusto como sua própria pele, além de uma longa capa de cetim e calças de lã quentes e confortáveis. As botas de pele de toupeira lhe proporcionariam conforto nas longas horas que passaria de pé – dica de seu pai Trorvard, guerreiro renomado das fileiras anãs e capitão da terceira divisão da Guarda de Ferro que defendia os portões de Frábartjall há muitos anos antes. Frábartjall fora – e continua sendo -– a maior Fortaleza sobre As Colinas desde tempos imemoriáveis. Criada por anões, como não podia deixar de ser, tinha uma sólida construção de minério de aço esculpido e temperado com pedra; uma mistura intransponível – ou, pelo menos assim fora, durante seus últimos milênios.

— Leve um pouco de cerveja, meu filho, pois você terá muita sede no caminho – a mãe do guerreiro se adiantou, carregando entre os braços um barril que poderia facilmente transportar 20 litros de cerveja e deu ao filho que estava prestes a partir. Ele agarrou o objeto de madeira com um olhar feliz e zombeteiro – pois sabia que acabaria nas primeiras horas de viagem – curvou-se levemente num gesto de agradecimento e caminhou para fora da grande casa com paredes de pedra, ocupando-se em amarrar o recipiente na anca do pônei de carga que levaria na viajem.

Aliás, era uma viagem longa aquela. O anão tinha uma oportunidade da qual poucos gozavam: treinar durante sete anos na conhecida Escola de Guerra do reino dos humanos, sob a tutela do renomado herói, sir Dalton Agrevine, cavaleiro real e irmão do atual rei dos homens, Bradley Agrevine. A viagem durava cerca de duas semanas e atravessava brevemente o reino dos elfos, verde e próspero como qualquer outro reino do Sul – naqueles tempos de paz, tudo era próspero nas terras protegidas pelo Conselho dos Quatro Reis.

Subiu no pônei depois de despedir-se brevemente dos pais e tomou a estrada antes que pudessem ver as lágrimas que desciam feito uma queda d’água, rápida e constante. Não olhou para trás – anões raramente o faziam – e focou-se na estrada à sua frente como se a própria vida dependesse disso. E foi assim pelo resto do dia, até que, ao cair da noite, chegou no porto de Orugofn. Lá, a construção era feita exclusivamente com madeira. Por se tratar de um porto, não havia necessidade de materiais pesados e que dificultassem a carga dos animais e anões; era preferível a versatilidade. As casas eram baixas, geralmente um e, raramente, dois andares. Eram pintadas de branco e cobertas com um forro de aniagem, assim, não pareciam de madeira. Ali passou a noite numa pequena pousada que abrigava os viajantes e, no segundo dia, após o desjejum, subiu num pequeno navio mercante que iria guiar-lhe o restante da viagem.

Os próximos dias foram tranquilos como as próprias águas do rio Mikiláin e Bedwyr passou a maior parte do tempo bebendo e se banqueteando no convés. Os marinheiros se sentiam frustrados pela diferença social ali existente e sempre tentavam apanhar um pouco de comida ou uma caneca de cerveja do anão, escapando dos seus afazeres, e foi com uma dessas escapadas que o problema começou.

O marujo que devia cuidar da vigília do rio deixou seu posto ao sentir o cheiro de pernil de carneiro que ainda chiava com a gordura quente, e não viu quando a robusta embarcação pirata se aproximou por detrás de um banco de areia exatamente onde o rio fazia uma curva brusca. O impacto entre os cascos fez o navio mercante desviar seu trajeto e encalhar no banco de areia, ficando vulnerável.

Gritando loucamente, o capitão estava com sérias dúvidas entre salvar sua mercadoria ou sua própria pele mas, ao ver o primeiro pirata pular a bordo, não pensou duas vezes antes de deixar o navio e se esconder nas águas calmas do rio. Bedwyr, rolando pelo estrado amadeirado do convés após a batida, não teve tempo de fugir e precisou lutar por sua vida quando o primeiro machado disparou em sua direção. Ele se esgueirou para debaixo da mesa, usando-a como proteção e, quando o tampo de madeira se partiu sob a lâmina inimiga, o anão girou sua própria arma contra as pernas do atacante, derrubando-o. Ele se levantou, cambaleante, e se preparou para enfrentar o segundo inimigo. O pirata riu antes de se atirar sobre Bedwyr, girando sua espada num corte mortal que arrancou o machado anão das mãos do guerreiro, lançando-o a vários metros pelo assoalho do navio.

Desesperado, Bedwyr rolou para trás, apanhando o pequeno barril de sua mãe e brandindo-o com fúria renovada. Ele aparou o primeiro golpe da espada, lançando o recipiente de madeira com brutalidade na cabeça do pirata, partindo a madeira e derramando cerveja sobre seus olhos.

Aproveitando a deixa, o anão apanhou outro barril um pouco maior, esse cheio pela metade de peixes e lançou-o sobre o pirata, derrubando-o desacordado. Os marujos do navio mercante, observando a bravura do jovem guerreiro, renovaram sua própria coragem, entrando na luta e afugentando os piratas sem muitas dificuldades.

Quando a curta batalha chegou ao fim, um dos marinheiros estavam feridos e três piratas haviam sido amarrados pelo convés para serem entregues às autoridades. O capitão lutou por algumas horas até conseguir desencalhar o navio e prosseguir a viagem.

Ao fim da viagem, no porto da cidade de Brianor, nobremente esculpida com pedra e prata – coisa que encantou nosso herói anão –, Sir Dalton aguardava pacientemente por Bedwyr, e após ouvir a história do próprio capitão do navio, desatou a rir do nome que o aluno tinha recebido.

— Muito bem, Bedwyr Quebra-Barris, quero ver se você é bom com seu machado tanto quanto é bom com seus barris.

Notas finais
Correção é sempre bem-vinda. Por ter sido feito às pressas numa madrugada de quinta-feira de julho, um ou outro erro pode acontecer. Não permita que isso estrague sua diversão! :D
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.