Destinos Entrelaçados
1 Sonhos Enigmáticos
A noite já se fazia presente em todo o continente, trazendo com seu véu sombrio a calmaria e o silêncio de mais uma noite. A tranquilidade se estendia abaixo daquele véu estrelado, mas tão pouco durou quando rapidamente uma figura obstruiu toda a serenidade.
Uma monstruosa figura avançava pela floresta, era um lobo branco tão grande quanto dois ursos, seus pelos eram tão brancos quanto a mais pura das neves. Aquela enorme criatura parecia perseguir algo, isso se não estivesse sendo perseguida por um estranho manto sombrio. Cada passo que dava poderia te levar mais ao fundo daquela floresta, mas esta não parecia querer entrar mais do que já estava. Aquele lobo estava fugindo, mas tão pouco estava assustado e manteve-se concentrado durante parte de sua trajetória, perdendo seu fôlego somente ao se deparar com aquela parede de árvores diante de seus olhos, tão juntos que sequer poderia passar, tal alto que nem mesmo poderia saltar sobre elas. Aquele animal voltou seus olhos para aquilo que lhe caçava, era como se uma tempestade estivesse se aproximando.
— Vê? Como eu lhe disse... NADA pode escapar das sombras... — Dissera uma voz maléfica, vinda daquele manto de sombras.
Aquelas sombras engoliram toda aquela floresta, apagando qualquer luz de vida que restava, mas antes de ser completamente engolido por aquilo, o lobo branco tomou uma forma humanoide e se transformou em uma garota de longos cabelos prateados e olhos dourados.
"Lyra... acorda....."
".... Ela está dormindo feito uma pedra....."
"... Lyra... você transforma os outros em pedras... então não vire uma...."
Toda a claridade entrou pela janela e foi tamanha suficiente para despertar a górgona, mas algo havia lhe assustado ao ponto de derrubar-te da cama. As serpentes que lhe funcionava como cabelo foram as primeiras a acordar, e estas pareciam agitadas.
Após se acostumar com a claridade que lhe feria os olhos, Lyra percebeu que havia uma elfa e uma anã em seu quarto. Seus olhos se encontraram com os daquela anã e esta rapidamente se encobriu em seu lençol, perguntando o que estavam fazendo em seu quarto.
— Mas o que deram em vocês?! – Gritou Lyra, garantindo que nenhuma de suas companheiras de longa data escaparia daquela zona de quarentena.
— Desculpe-me, eu sei que foi perigoso... mas não pude deixar de perceber que havia algo de errado com você... – A elfa falava, mas algo a fez ficar meio apreensiva. Lyra continuava esperando por uma resposta quando a anã prosseguiu de onde sua amiga havia parado.
— O que a Perséfone aqui quer dizer é que algo estava te deixando agitada, e isso deixou ela preocupada.
— Caeses está certa. – Concluiu a elfa, se agachando e ficando com o rosto rente ao de Lyra. — Está tudo bem?
Lyra permitiu-se sorrir e Percy pode perceber que ela sorria, entendendo que ela não estava pronta para dizer algo. Ambas deixaram-na sozinha em seu quarto, embora Caeses estivesse aparentemente irritada em fazer aquilo. Lyra trocou de seu pijama para algo mais decente, vestindo-se com um longo vestido de tom azul marinho e rapidamente se dirigiu pelo corredor até a sala de alquimia, usando seu lençol como um manto para garantir que suas amiguinhas não colocasse ninguém da guarda em perigo.
Ali estava o laboratório, bem diante de seus olhos e há poucos passos de distância... se ela tivesse pés. Lyra se arrastou rapidamente para uma mesa onde preparou rapidamente uma poção, aquela parecia ser sua mesa de trabalho, pois quase todos os ingredientes para aquela poção estavam ali, ao alcance de suas mãos. Lyra tomou o conteúdo daquele fraco e seu preparo alquímico rapidamente surtiu efeitos: sua longa cauda de escamas avermelhadas tornaram-se pernas, as serpentes se desmancharam em diversos fios esbranquiçados e todas as escamas que possuía ao longo do corpo sumiu. Assim que sua transformação terminou, poucos segundos depois disso, Ezarel entrou na sala.
— Ainda me pergunto quando conseguirei te ver em sua forma verdadeira. – Comentou Ezarel.
— Quer uma resposta?
— Sim, mas não vinda de você. – Respondeu o elfo, com aquele sorriso provocante de sempre.
Lyra apenas virou a face e voltou sua concentração para algo sobre a mesa, escondendo seu incômodo. Ezarel não era tolo de não perceber que algo estava fora do comum, ele conseguia facilmente perceber que Lyra estava irritada, e sabia que não era com ele.
— Oh, compreendo a situação. – Comentou Ezarel. Lyra parecia confusa e olhou em seu rosto, vendo que o elfo parecia realmente sério, porém, antes de soltar alguma letra, um sorriso irritante se formou em seus lábios. — Nevra deve ter roubado uma das cópias da chave de seu quarto e você ainda não encontrou nem ele, nem a chave,
Lyra bufou de raiva quando ouviu aquele comentário, não era aquilo que lhe incomodava, mas ela preferiu não comentar. A górgona mal teve tempo de se ocupar fazendo algo produtivo em sua mesa de trabalho e logo surgiu um membro da guarda de Eel, avisando todos os membros presentes da guarda Absinto que Miiko lhes chamava com urgência. Era só o que faltava, Lyra acordou meio irritada àquele dia e agora estava sendo chamada para uma possível missão.
Ezarel foi um dos primeiros a entrar, e logo em seguida, alguns dos membros mais valorosos de sua guarda, incluindo Lyra. Naquele salão já estavam as outras guardas, mas ainda não começariam por conta de alguns membros atrasados.
Logo tudo estava pronto e Miiko não fez muita reverência antes de começar a contar sobre a situação. Lyra ouvia atentamente à toda a informação passada pela kitsune, mas algo apertava em seu peito com uma ligeira dor que lhe incomodava. A jovem górgona acabou desviando os olhos de Miiko e na trajetória de seus olhos prata, ela se encontrou encarando o líder da guarda Obsidiana. Algo surgiu em sua mente e lhe apagou, fazendo com que tudo ao seu redor se tornasse novamente escuro, como o céu de uma noite profunda.
"... Quanta dor acha que seu corpo pode aguentar?"
Lyra conseguia ouvir os sons de correntes balançando violentamente, seguiu o som até sua origem apenas com seu olhar. Foi ali, diante de seus olhos que ela encontrou em meio a toda aquela escuridão, o início de uma sala ao qual dificilmente se chutaria o tamanho.
Aquelas correntes estavam cada vez mais altas e estridentes, chegando a ser um som realmente incomodante que irritava Lyra. Foi procurando pelo som que ela viu algo que desejava nunca ter visto: havia uma cadeira de metal presa ao centro da sala que flutuava diante de Lyra. Naquela cadeira, havia uma jovem acorrentada cujo parecia tentar escapar, os ruídos que incomodavam a górgona eram das correntes que amarravam as mãos da garota para trás. Ao redor das mãos daquela jovem parecia bastante ferido, como se as correntes em si estivessem lhe ferindo, mas enquanto ela lutava para fugir, uma alta e sombria figura andava de um lado ao outro com alguns instrumentos de tortura em mãos, enquanto outros estavam sobre uma pequena mesa de metal.
Aquele homem continuava perguntando quanta dor ela conseguiria suportar até contar algo, enquanto isso, a jovem garota se manteve calada durante todo o tempo. Lyra percebia que ela tinha cabelos brancos e orelhas de lobo no alto de sua cabeça, igual como os de seu sonho daquele mesmo dia, porém, não conseguia ver seus olhos.
— Entendo... você é completamente fiel à Guarda de Eel... mas preciso recuperar o que é meu! – Aquela figura sombria prosseguiu com aquela cena, causando-lhe mais dor e observando até onde ela suportaria.
Aquela jovem soltou um grito desesperado de dor assim que aquele homem esmagou um de seus dedos, quebrando os ossos ao ponto de resumi-los a pequenos fragmentos. Esta grunhiu de dor pelo dedo quebrado, porém, não contou o que tanto o homem queria saber e ele lhe parabenizou pela resistência e pela fidelidade com seus companheiros, mas aquilo não era um teste. Lyra não conseguia agir, tão pouco conseguia se mover para ajudar em algo, tudo que lhe era permitido era assistir àquela cena enquanto via uma jovem sendo torturada.
Ele lhe quebrou o pulso esquerdo inteiro, deixando nada mais do que os ossos quebrados de seus dedos, mas ela nada disse ainda. O homem, que antes parecia surpreso por ver que ela resistia tanto, agora estava irritado e dizia que iria lhe dar algum tempo para pensar, mas quando voltasse, as coisas iriam piorar. Ele saiu e caminhou em direção à escuridão, desaparecendo na mesma como se fosse um corredor.
Lyra ainda não conseguia se mover, mas conseguia perceber que restava forças no corpo daquela garota. Ela esticou uma das pernas e conseguiu tocar um de seus dedos na mesa com os instrumentos de tortura à sua frente, puxando-o e derrubando tudo. Tudo deslizou pelo chão em diversas direções, alguns mesmo deslizaram para baixo da cadeira, mas uma em foco, atraiu toda a atenção da jovem. Lyra conseguiu perceber o que ela tanto olhava, era um broche de metal ensaguentado, com o emblema de dois machados cruzados e uma pedra de rubi entre a parte superior dos machados.
Tudo voltou a ser escuro e Lyra só pode ouvir o som daquela garota gritando de dor, mas seus gritos ecoavam como um pedido de socorro, mesmo que não usasse as exatas palavras.
"Vamos lá Chisuzu, minha querida... quanta dor consegue suportar por seu querido 'Valkyon'?"
Lyra abriu seus olhos e se viu cercada por muitas pessoas, mas algo que lhe atraiu toda a atenção foi acordar nos braços de Ezarel, que lhe chamava desesperadamente. Miiko parecia estar irritada, mas qualquer um que a conhecia bem saberia distinguir sua face preocupada de sua face irritada, embora não mudasse muito. A kitsune perguntou o porque dela ter se levantado e ter ido ao laboratório sem antes se consultar na enfermaria, provavelmente já haviam lhe dito sobre o incômodo que sentiu àquele dia. Lyra estava ofegante, parecia ter corrido uma maratona devido a forma como respirava intensamente, mas a jovem górgona olhou para Valkyon que parecia tão preocupado quanto os outros.
— O que foi, Lyra? – Perguntou Valkyon, um pouco confuso com a forma da qual ela lhe encarava.
— Quem é Chisuzu?!
FIM DO EPISÓDIO.
Fale com o autor