Tudo que Valkyon carregava era uma bolsa com algumas das coisas que precisaria em casos de emergência, tais como alguns elixires, armas e provavelmente alimentos. Ele sabia que o que estava fazendo poderia provocar uma grande catástrofe, causaria uma grande desordem no QG, mas tudo que ele queria era respostas.

Não se sabe há quanto tempo ele esteve caminhando, mas tudo lhe indicava que havia alcançado terras distantes, a qual a Guarda de Eel não tinha meios de lhe encontrar. Era um vale muito pouco comum, não pertencia às Terras de Jade e tão pouco seria próximo, Valkyon sabia que estava em terras muito distantes onde jamais pisou antes.

Havia um povo nativo daquelas terras, eram seres com uma aparência humanoide, mas que continham partes de animais, como pernas, orelhas ou mesmo até pele. Valkyon não via Chisuzu desde anos, mas se lembrava o suficiente para saber que ela era nativa daquela terra, então começou a procurar pistas de seu paradeiro. Perguntou por ela em diferentes lugares, sempre descrevendo como ela era e lhes contando seu nome, mas algo estava errado naquela vila: Todos que ouviam se esforçavam para lembrar, mas quando chegavam perto de uma resposta, uma força sobrenatural os impedia de lembrar. Estavam sobre um grande e poderoso encanto, e quem o criou sabia muito bem o que queria esconder, era óbvio que havia mais por trás de seu sequestro.


— Sinto muito... não lembro de ninguém assim ou com esse nome. – Respondeu um jovem touro.
— Entendo, eu continuarei procurando. – Respondeu Valkyon, se preparando para voltar à sua busca, mas assim que deu as costas para aquele rapaz, o mesmo o chamou.
— Talvez a Madre Syndel possa lhe responder, afinal, ela era uma Satyr, não é?

Valkyon respondeu afirmativamente àquela pergunta, o menor lhe apontou uma direção, uma trilha pelo bosque ao redor da vila que levava até um pico alto. Havia, no alto do pico, uma árvore antiga que era o lar de uma "Madre", como chamavam, Syndel era uma das anciãs daquele local, mas era a única que se isolou do Conselho dos Sábios.


— A Madre Syndel pode responder à todas as perguntas de alguém, mas você tem que lhe levar alguma oferenda, ou ela não dará importância para suas preces.

Valkyon assentiu com a cabeça, agradecendo a informação enquanto procurava por algo que lhe servisse como oferenda, o que poderia chegar a ser difícil.

Ele parou por um momento e começou a refletir: o que seria bom para dar de presente para uma satyr anciã? Valkyon não sabia a mistura de sua espécie, então ele teria que adivinhar. Ele caminhou até a área comercial da vila, onde vendiam tudo quanto era considerado comestível. Haviam frutas, verduras, carnes, raízes, líquidos, eles até mesmo comiam comidas para mascotes. Talvez uma das barracas pudesse ter o que precisava, os comerciantes poderiam saber o que a anciã gosta. Ele se aproximou de uma barraca de frutas e começou a conversar com o vendedor.


— Ah, olá meu caro jovem! Como eu poderia ajudá-lo neste belíssimo dia de hoje? Talvez queira alguns tomates vampíricos? Ou um grande kukumi aquoso? – O homem com orelhas de coelho sorria um sorriso tão forçado que parecia que seu rosto estava prestes a quebrar.
— O senhor conhece alguma fruta que a Madre Syndel aceitaria como oferenda?
— Oh, mas é claro! – Ele respondeu rapidamente, quase instantaneamente. Ele se abaixou e tirou um alimento muito parecido com uma cenoura, mas tinha uma mistura de azul e verde. – Esse aqui é o maior grorrot que tenho, a anciã certamente o adorará!

O homem era suspeito, tinha um ar falso e respondeu muito rápido, ele não parecia nada confiável, Valkyon sabia que não deveria confiar nele, mas acabou por comprar o grorrot do mesmo jeito, talvez fosse apenas a sua personalidade excessivamente animada que o fez parecer tão falso. O coelho acenou para Valkyon com uma sorriso malicioso, dizendo 'obrigado por comprar em minha loja!', comprar o grorrot provavelmente foi um erro, mas agora ele já tinha comprado, o melhor seria tentar a sua sorte.

Valkyon caminhou em direção ao bosque, agora seu objetivo era chegar até a anciã, o que provavelmente não seria tão complicado visto que o pico em que morava não ficava tão longe do vilarejo. Ele seguiu a trilha, um pouco nervoso, Valkyon não estava confiante sobre a escolha do alimento, mas voltar até a vila e comprar outro alimento demoraria demais, não podia voltar agora.

No meio do caminho, Valkyon escutou uma movimentação muito intensa perto de alguns arbustos. Poderiam ser mascotes selvagens procurando por comida, ou talvez algum Satyr da vila, mas talvez também pudesse ser alguma criatura perigosa, um inimigo mal-preparado para atacá-lo. O homem, ainda segurando a enorme cenoura, pegou seu machado que levara consigo e se aproximou do arbusto, cujo qual a movimentação ficava cada vez mais intensa. Ele estava agora em frente ao arbusto, ele tinha certeza de que não era um mascote ou alguém do vilarejo, se não provavelmente já teriam corrido, Valkyon levantou seu machado para tentar espantar o que quer que estivesse lá, apenas para alguma coisa puxar a cenoura por de baixou de seus braços, ele abaixou seu braçou e olhou para trás, um pequeno Meeper corria com a cenoura em suas patas, ele subiu em uma árvore e lá se escondeu. Valkyon se afastou do arbusto e correu até a árvore onde o Meeper se escondera, socando-a com a intenção de fazer o mascote cair.


— Ei! Pare de tentar matar o meu mascote, não é culpa minha que você estava levando lixo para a anciã e ele tentou te impedir.

Uma voz feminina surgiu de trás de Valkyon, ele olhou para trás e se deparou com uma satyr metade-raposa, a garota tinha uma expressão de raiva em seu rosto, ela usava um vestido vermelho e verde curto com mangas longas e muitos acessórios feitos principalmente de ouro, seus cabelos vermelhos tinham pontas alaranjadas e estavam uma bagunça, ela andava descalçada, a única coisa protegendo seus pés eram algumas bandagens sangrentas.


— Quem é você? – Valkyon perguntou, suspeito.
— O que você acha? Talvez uma satyr que mora na floresta porque expulsaram ela da vila porque acharam que ela fosse louca! Haha! – Ela riu por alguns segundos, mas parecia um pouco triste, sua risada lentamente começou a diminuir até que sua expressão se tornou depressiva. – Eles são só um bando de idiotas, não sabem de nada, eles não conseguem sentir a presença dos espíritos que nem eu!

Ela definitavamente parece estar insana, por quanto tempo ela vive nessa floresta? Valkyon não sabia, mas ela definitivamente parecia se sentir sozinha.


— Eu te juro que não sou insana e nem deveria me importar com os outros, mas eu não falo com outras criaturas além de Drafayel fazem anos! A N O S! Eu sinto que vou morrer! – Ela gritava desesperadamente. – Se ela simplesmente não tivesse se juntado àquela maldita guarda, ela ainda estaria aqui, comigo, longe desses... Desses... Guardiões de merda!

Aquela satyr era claramente perturbada, mas Valkyon não a julgaria exatamente por não saber de nada das coisas que passou, afinal, não estava ali para julgar os outros, e sim para ter respostas à todas suas perguntas. Ele a perguntou o que seria melhor dar como oferenda à Madre Syndel e antes de terminar sua frase, a jovem o respondeu.


— Eu aposto que uma grorrot não irá lhe ajudar, ao contrário, se ela visse isso, você terminaria sendo enterrado sem direito à uma lápide... se ela pudesse ver... – Comentou a raposa.
— Não entendo. – A menor virou seu rosto e o encarou, de forma fixa.
— Ela é cega. – Respondeu, se afastando enquanto buscava seu mascote. — Além de cega, a Syndel é uma cobra, sua oferenda será um desrespeito à sua espécie.
— O que seria ideal oferecer à ela? – Perguntara Valkyon. A outra estava procurando algo na sacola de seu mascote ao qual lhe permitia mexer, e em alguns segundos, ela apresentou um artefato raro por aquela região.
— Se não me engano, a Madre Cega admira muito quando lhe levam frascos com Essência da Vida, isso é bem melhor do que essa "porcaria" que você chamou de oferenda.
— Obrigado por sua ajuda. – Valkyon esticava o braço para pegar aquele frasco quando a raposa puxou com rapidez, neste momento Drafayel encarou o maior com uma feição assustadora.
— Como obrigado? Eu não lembro de ter dito que sairia de graça. São apenas 7500 maanas. – Comentou a raposa, esticando a mão, cobrando-o.
— Eu... não tenho todo esse...
— Não é problema meu!

A jovem satyr guardava aquele frasco na bolsa de seu mascote, Valkyon sabia que aquilo era a coisa mais o deixava perto de seu objetivo, por tal motivo só lhe restou implorar ou oferecer outra coisa como pagamento. Tudo que carregava parecia ser de baixo valor ou uma porcaria para a raposa, e aquilo já o desesperava quando acabou comentando sua causa.


— Eu não tenho mais o que oferecer em troca. – Comentou Valkyon. A satyr o encarava quando o viu entrar em desespero. — Esse frasco é a coisa mais importante nesse momento. Eu PRECISO dele, estou procurando por uma satyr e isso poderá me levar até as respostas que procuro.. ou pelo menos me deixar próximo.
— É mesmo? Azar o seu... espera... você disse satyr? – Perguntou a raposa, realmente curiosa. — E quem seria essa satyr?
— Uma... pessoa especial para mim... uma satyr lobo chamada Chisuzu que-

Antes que Valkyon pudesse terminar sua frase, novamente foi interrompido, mas agora não haviam lhe interrompido com palavras. A raposa enfiou sua mão na bolsa do pequeno Meeper e arrancou o frasco, atirando este para Valkyon. Ele parecia confuso, mas via a alegria no rosto da raposa, ela parecia tão feliz que poderia andar saltando de felicidade.


— Então você TAMBÉM acredita que ela está viva?! – Perguntou a raposa. A satyr estava realmente feliz, mas em pouco tempo parecia ter voltado ao seu comum. — Quero dizer, então você também sabe que ela ainda está viva, diferente daqueles idiotas?

Como essa raposa conhece Chisuzu, Valkyon não sabe, mas isso com certeza é algo que o ajudará muito. Apesar disso tudo, a real pergunta é: como ela sabe que Chisuzu ainda está viva?


— Então você a conhece... Como a conheceu e como sabe que ela ainda está viva?
— Primeiramente, isso não é da sua conta, segundamente... Espera, segundamente é uma palavra que existe? Ah, eu não ligo, mas se ela estivesse morta, eu sentiria a presença do espírito dela perto de mim, nosso laço era bem mais forte do que você imagina, bem mais forte do que o de você e o dela, disso eu tenho certeza! Não existe NINGUÉM nesse mundo que ela considere mais do que eu!

O fato dela não responder a primeira pergunta de Valkyon é suspeito, mas ela é a única esperança dele de encontrar a Chisuzu.


— Tudo bem, eu respeito a sua vontade de não me contar tudo, mas pelo menos me diga o seu nome.
— Meu... Nome? Você se importa o suficiente comigo para perguntar o meu nome? HAH! É só oferecer a você a resposta para os seus problemas que você começa a se importar comigo, patético. – Ela tinha um sorriso malicioso em sua face, ela se agachou e sua mascote subiu em seu ombro. – Meu nome é Nix, metade-humana metade-kitsune, essa aqui é o Drafayel, minha pequena Meeper, a melhor ladra que conheço. – A Meeper fez um barulho fino de satisfação. — E o seu nome é..?
— Valkyon. – Ele suspirou. — Sinto que não seremos amigos, provavelmente iremos partir caminhos, obrigado pela ajuda.

Valkyon estava prestes a voltar a seu rumo, mas Nix segurou seu pulso. Ele olhou para trás e viu os olhos arregalados da raposa, ela segurava o pulso de Valkyon fortemente, ele conseguia sentir sua mão lentamente perdendo o fluxo de sangue.


— Seu nome é Valkyon? Eu me recuso a acreditar que você foi buscá-la tanto tempo após seu desaparecimento.

FIM DO EPISÓDIO.