Destinos Arranjados
6 A Primeira Torre
Notas iniciais
Estava nevando sem parar há vários dias, flocos grossos se acumulavam no chão e seus pés afundavam na camada branca e fofa que lhe chegava até a metade das canelas. Era complicado se locomover usando a forma de um corpo humano, essa raça era tão limitada e fraca… Já fora humana um dia, mas não fazia questão de lembrar, preferia ser glacinata como os Observadores a tornaram. Pôde viver durante séculos empenhada em fazer com que as pessoas esquecessem tudo de ruim sobre seus mestres e ansiassem pelo seu retorno. Fora um trabalho árduo, anos e mais anos tramando, mentindo e matando para que sua lavagem cerebral fosse o sucesso que é hoje. Assassinou a líder da tribo dos Praeglacius na época e assumiu sua forma para tomar seu lugar; quando a próxima líder fosse assumir o posto, ela novamente lhe tirava a vida e usava sua aparência para que não desconfiassem. Fora assim até que convencesse a todos da tribo que deveriam adorar os Observadores Gélidos em segredo e lutar por eles quando chegasse a hora.
Infelizmente só conseguira Trundle e seu exército de trolls como aliados, precisava de mais soldados para a verdadeira guerra que se aproximava, porém não seria tão fácil conseguir. Fora descuidada quando não deu fim à vida daquele garoto linguarudo que saiu espalhando aos quatro ventos que a Bruxa Gélida estava viva, deixando seus inimigos em estado de alerta. No momento oportuno teria sua vingança. Caminhou mais alguns metros e já pôde sentir o fedor daquelas criaturas à distância, mas sequer se abalou. Prosseguiu até ser abordada por um deles, certamente não a reconheceu naquela forma que pouco usava: uma mulher alta e curvilínea, cabelos castanhos ondulados até o busto e seios fartos; aparentava ter cerca de vinte e oito anos, era jovem e bonita, bastante útil em suas armações e truques de sedução para arrancar informações e favores de homens cegos pelo desejo.
– Quero falar com seu líder — Exigiu calmamente. O troll levou algum tempo para se decidir, mas por fim apontou para uma caverna ao fundo e a deixou passar, observando-a enquanto atravessava o local. Viu as pessoas sequestradas servindo como escravos serem esmurradas e açoitadas por seus capatazes enquanto trabalhavam e estes gargalhavam e berravam insultos à vontade. Mais à frente havia uma gaiola de pedra ampla que abrigava algumas mulheres e uma pequena fogueira; um dos vários trolls que circulavam por ali entrou no cercado, enquanto um outro bloqueava a porta, e agarrou uma mulher magricela e pálida que se encolhia no canto junto com as outras.
– Não, por favor, eu imploro! — Ela começou a chorar e tentar se soltar, mas foi inútil. Aquele ser grotesco deu-lhe um tapa no rosto tão forte que o sangue voou de sua boca e a fez cair ao chão; aproveitou e se ajoelhou sobre a moça, tirando as vestes de seu caminho enquanto a ouvia soluçar e espernear. Virou-a de costas para ele e a suspendeu para que ficasse apoiada nos joelhos e palmas das mãos, mas ela tentava fugir a todo custo. Um erro.
Desferiu um soco em suas costas e o sangue saiu em profusão da sua boca, faltando-lhe ar nos pulmões. Conseguiu segurá-la e colocá-la na posição que queria e, com um grito desesperado, ele a violentou. As outras mulheres choravam baixo enquanto eram obrigadas a ouvir aqueles gritos de dor deprimentes e os grunhidos de satisfação da fera. Ficou ali parada observando a cena sentindo absolutamente nada. Não dava a mínima para o sofrimento alheio, até divertia-se, mas naquele momento não achara graça tampouco tivera compaixão, apenas ficou encafifada ao ver que trolls faziam isso com seres de outras espécies também. Curioso.
Deu as costas e seguiu seu caminho.
Quando chegou à entrada da caverna avistou a figura de Trundle, o esperto líder dos trolls, sentado ao lado do seu porrete de Gelo Verdadeiro que nunca derrete, presente que ela mesmo lhe dera, ditando ordens para os escravos novatos. Ergueu-se ao vê-la entrar e dispensou a todos.
– Senhora Lissandra? — Indagou quando estavam a sós, surpreso.
– Meu nome é lindo, eu sei, porém já lhe disse para não me chamar assim quando não estiver em minha verdadeira forma. Quem mais entraria neste lugar por espontânea vontade? — Sua voz era bonita e melodiosa mesmo quando estava insatisfeita. Era como uma cobra traiçoeira que chega devagar e quando a vítima dá por si está sendo sufocada e devorada.
– Perdão, Senhora, só quis confirmar — Fez uma reverência desengonçada. — O que a traz aqui?
– Nada demais, apenas queria ver de perto o que anda fazendo. Você sabe que se muita gente sumir eles virão atrás, não é? — Analisava as paredes da caverna escura quando levou a mão ao rosto e abriu a boca em um falso espanto antes que o troll pudesse responder — Oh, me esqueci que você é um estúpido, que cabeça a minha.
– Vamos tomar mais cuidado, Senhora, prometo — O temor estava presente em sua voz rouca e grave desde quando a viu. Sua presença ali sem aviso não poderia significar boa coisa, geralmente ele ia ao seu encontro.
– Ashe e Tryndamere sabem que aqueles dois estiveram lá. Demorei, mas consegui umas boas informações — Sentou-se empoleirada no lugar de Trundle.
– Achei que não lhe importaria se já estivessem mortos, como pensei que estavam uma vez que não voltaram mais. Fizemos como mandou e não nos aproximamos tanto de lá novamente.
– Está correto, contudo fique ciente de que foram os próprios reis quem os mataram — Lissandra não previra, mas gostara muito dessa ajuda que o destino lhe dera; a culpa cairia sobre os trolls e quanto mais invisível ficasse aos olhos dos seus rivais, melhor. — Por algum motivo estavam lá na hora exata e tomaram providências. Fique atento, a segurança foi reforçada e eles não devem ficar parados esperando por muito tempo.
– Sim, Senhora.
– A propósito, preciso de um novo corpo. Agora quero uma avarosiana que as pessoas não saibam que está morta. Imagine qual não foi o espanto de um dos mercadores ao me reconhecer, vagando muito viva e alegre pelos cantos escuros da cidade — Os olhos castanhos da mulher fuzilaram a criatura.
– Ela estava bem longe de lá quando a capturamos, achamos que…
– Acharam errado — Interrompeu, levantando-se e caminhando para a saída do covil – Era para ser apenas um corpo qualquer na floresta, não repita mais esse erro. Por sua culpa eu tive de matá-lo e sair de lá mais cedo do que pretendia. Que lástima, um homem tão bonito… Ao menos me serviu para dar uma última informação: sabia que “eu” tenho uma irmã?
Ser rei nem sempre era divertido, continuamente tinha muito com o que se ocupar e em sua maioria eram problemas. Dos mais tolos, como disputas de terras mal calculadas e dívidas a serem pagas, aos mais preocupantes — como alguns desaparecimentos sem explicação. Quatro pessoas que residiam na capital e mais seis das vilas sob o domínio dos reis sumiram sem deixar rastros nos últimos meses. O único ponto em comum era que a maioria deles saiu em viagem e nunca mais voltou, sem importar o motivo ou a direção.
Como se já não bastasse, há duas semanas a Patrulha trouxe a notícia de que um dos mercadores fora encontrado morto sob condições suspeitas nos fundos de sua casa. Sua garganta havia sido cortada em três partes pelo o que todos concordavam ter sido garras afiadas, porém nenhum lobo, raposa ou urso fora visto rondando a área e era muito improvável que deixassem o abrigo calmo das florestas e montanhas para se aventurar entre os humanos caçadores.
Desconfiaram que fosse obra de algum troll novamente, no entanto a espécie não possui garras, tampouco tão finas, e não deixariam o restante do corpo intacto – sabiam que eles gostavam de espancar até a morte. Descartaram a hipótese, mas nenhuma outra pista fora encontrada até o momento; a Patrulha se empenhava em investigar o caso e todos os caminhos levavam à lugar nenhum: era um homem solteiro e galanteador, não apresentou desavenças com nenhuma das mulheres com quem se envolveu, não possuía parentes vivos nem filhos, trabalhava vendendo tecidos no mercado e não se tinha conhecimento de que fizera inimigos ou desafetos.
A notícia do assassinato se espalhou como um rastilho de pólvora e estava difícil acalmar os ânimos da população abalada com a perda de uma pessoa tão bem quista. Ashe fora pessoalmente à sede da Patrulha verificar se informações relevantes haviam sido descobertas e pedira que ficasse em seu lugar na sessão de ouvidoria matinal que ocorria em dias alternados durante a semana. Sentia-se impaciente ao ficar sentado no trono real ouvindo as reclamações e reivindicações de cada uma daquelas pessoas, sem mencionar que seu forte não era apaziguar situações com sabedoria e sim resolver tudo na base da porrada.
Já estava no último solicitante do dia quando um dos Sentinelas das Torres entrou correndo pela porta lateral próxima ao trono e pediu para ficar a sós com o rei. Dispensou os outros e fez sinal para que falasse.
– Vossa Graça, as luzes foram vistas, seremos atacados! – Falou aos atropelos. Tryndamere levantou-se de súbito e agarrou sua enorme espada com uma expressão séria no rosto.
– Passe as coordenadas. Quantos disparos foram? – Começou a andar apressado, o Sentinela acompanhando-o.
– Oeste, torre da Fenda do Desfiladeiro. Três disparos, senhor – Ao ouvir a resposta o rei cerrou o punho e os dentes. Já sabia o que significava aquele sinal: Sejuani.
– Guardas! — Chamou. — Vão buscar Ashe imediatamente, tragam-na até a Sala do Conselho. Vocês três, venham comigo — Dirigiu-se aos dois conselheiros que estavam esperando do lado de fora do salão e ao jovem mensageiro. Encaminharam-se para o cômodo de costume a passos largos, o rapaz explicando aos outros homens o que acontecera. A preocupação estava estampada na cara de todos eles quando fecharam a porta.
– O que dizia a Voz do Vento que receberam? — Perguntou desenrolando um mapa de Freljord em cima da mesa comprida. O moço abriu e leu um papel que levava consigo.
– Garra do Inverno há um dia de viagem, cerca de cinco mil guerreiros. Quatrocentos soldados na primeira torre, cem na segunda. Mandem reforços. Apenas isso, Vossa Graça.
– Certo, aguarde nossas ordens lá fora — Esperou que o Sentinela se retirasse para localizar e sinalizar no mapa o posicionamento das tropas amigas e rivais com pequenos símbolos de madeira entalhada. — Sejuani está aqui, deve atacar esta torre amanhã assim que o sol raiar.
– Temos um regimento de três mil soldados avarosianos há quase um dia de viagem da segunda torre, é o mais próximo — O tesoureiro falou enquanto apontava para o local desenhado.
– Vamos acionar, não irão detê-los, mas devem atrasá-los. O segundo mais próximo é um regimento de quatro mil guerreiros, quase todos bárbaros... — O rei calou-se ao ver a porta abrir e sua esposa entrar apressada e batê-la com estrépito, parecia que tinha corrido até ali.
– Três disparos? — Sua expressão era de descontentamento. Percebeu os olhares intrigados dos homens enquanto se aproximava. — Encontrei o Sentinela no corredor, ele já me informou. Precisamos agir imediatamente, enviaremos o regimento mais próximo para impedi-los de avançar por enquanto.
– Não vai segurá-los, Sejuani tem cerca de cinco mil guerreiros, três mil dos nossos não serão suficientes.
– Cinco? Só isso? Tem alguma coisa errada… — Olhou para a peça de madeira em formato de machado que indicava a posição da adversária no mapa. A resposta veio como um relâmpago de tão rápida. — Ela não veio tomar o reino como pensávamos, veio buscar alimento!
– Mas é claro, tem um grande armazém logo após a segunda torre que abastece todas as vilas próximas, como não pensei nisso antes? — Disse o Tesoureiro.
– Acreditam mesmo que aquela mulher veio para roubar nossa comida? — Foi a vez do Alto Meistre falar. — Ela incendiou os grãos que Vossa Graça mandou de tão orgulhosa que é!
– Como você acha que eles sobrevivem por lá? Sempre saquearam de tribos mais fracas. Dessa vez foi além e veio nos desafiar, quer mostrar que pode tomar o que é nosso quando bem entender — Tryndamere cruzou os braços na frente do peito, mal-encarado.
– Não é apenas por esse motivo… Com certeza estão passando fome por lá, ela está usando a necessidade como pretexto para algo, talvez queira testar as nossas forças. Vai matar dois coelhos com uma machadada só — Todos a olharam como se suas palavras fossem a luz que precisavam para enxergar.
– Então vamos seguir com o meu plano — Apontou para o mapa. — Acionaremos o primeiro regimento para atrasá-los na segunda torre e o segundo para derrotá-los antes que saqueiem tudo e cheguem à terceira, considerando o tempo de viagem. Reunirei vinte dos meus homens para partirmos ainda hoje.
– Estou de acordo, mandarei que Les prepare as provisões para nossa viagem com urgência.
– Nossa viagem? Eu liderarei a tropa de bárbaros, Ashe, é melhor que você fique aqui.
– Não vou me esconder, não tenho medo, quero enfrentá-la cara a cara e mostrar o motivo pelo qual eu sou a rainha nomeada e ela não — Seu olhar era de pura determinação. Sentiu orgulho da líder que escolhera e da mulher com quem se casara, ainda que não vivessem como marido e esposa carnal e sentimentalmente.
– Majestade, escute vosso rei, a senhora não deve ir para qualquer campo de batalha, a cidade precisa se manter segura também e ninguém estará protegido se ambos estiverem longe — A fala mansa do velho Meistre parecia sábia, mas seu desejo de lutar era grande.
– Pode ser uma armadilha, inclusive — Começou o outro conselheiro. — Tentando afastá-los para tomar a capital com o resto de seus soldados.
Levou mais alguns momentos para que fosse convencida a não ir, estava relutante. Abriu a porta de um dos armários e retirou uma pequena caixa branca que continha algumas pedrinhas azuis. Colocou uma das pedras na palma da mão e, ao proferir as palavras “Voz do Vento”, ela transformou-se em uma ave de médio porte feita de gelo; uma magia que Anivia lhe proporcionara para comunicar-se mais rapidamente quando houvesse necessidade.
– Para: Tenente do Regimento da Fenda — Falou para o pássaro imóvel em sua mão. — Sejuani está chegando com poucos homens pela Fenda do Desfiladeiro, deve atacar a primeira torre ao amanhecer, dirijam-se para lá de imediato com o regimento inteiro. Reforços serão acionados. Evacuem os aldeões se precisar. Essa é uma ordem de Ashe, rainha de Freljord — Depositou o pequeno selo real em formato de moeda no bico da Voz do Vento e deu-lhe impulso para que alçasse voo. A ave voaria sem parar até que chegasse ao seu destinatário, que ouviria o som da sua voz sendo reproduzida pelo pássaro. Entregou uma pedrinha ao rei e ele fez o mesmo para acionar a segunda tropa.
Seus vinte convocados estavam esperando-o do lado de fora do estábulo, prontos para partir. O sol em breve iria se pôr no horizonte e viajariam noite adentro para chegar o quanto antes à batalha. Todos pareciam extremamente animados por finalmente ter algo decente para lutar; brigas de bar e treinos não eram o suficiente, precisavam de adrenalina e sangue para se sentirem realizados.
Ele próprio estava ansioso para liberar sua fúria e destroçar os inimigos, por isso fizera questão de ir em pessoa para o combate, sentia-se em êxtase quando estava batalhando e nada mais importava naquele momento. Verificou se a sela do cavalo-urso estava firme e os suprimentos seguros. Aqueles animais eram uma espécie insólita que vivia apenas em regiões geladas, sua diferença para os cavalos comuns eram os pelos maiores e mais abundantes para se protegerem do frio, a resistência mais elevada em longas distâncias e a grande quantidade de peso que podiam carregar.
Lesrie trouxera água e comida para a viagem, desejou-lhe sucesso na empreitada e prostrou-se na porta a conversar com o Tesoureiro. Ashe alisava o focinho do animal distraidamente, o olhar perdido.
– Não precisa chorar, minha senhora, eu vou voltar — Caçoou, fazendo-a voltar a si e dar um sorriso amarelo.
– Voltando ou não, eu não chorarei – Devolveu. — Mas eu sei que vai voltar. Estava pensando que Sejuani está dando o primeiro passo para a guerra e você sabe o quanto eu não desejava isso.
– Entendo. Você tentou, ela não quis, então agora não há outra saída a não ser lutar. E os Deuses sabem como eu preciso de uma boa ação.
– Você sim, mas não o povo. Gragas não vai contigo?
– Não, falei com ele que prefiro que fique aqui para lhe servir caso ataquem a cidade.
– Fez bem. Se apresse, já estão lhe aguardando — Viu-o pendurar no pito da sela o elmo de metal adornado com chifres que usava costumeiramente e encaixar um dos pés no estribo para subir. Olhou para o Tesoureiro na porta e chamou-o antes que se impulsionasse para cima do cavalo-urso. Desceu a perna apoiada ao vê-la aproximar-se. — Acha que esperam que nos despeçamos?
– Já estamos nos despedindo.
– Não desse jeito. Considerando que somos um casal que supostamente mantém uma relação amorosa em segredo e estamos um tanto escondidos atrás desse animal, acredito que será estranho que você parta sem nos despedirmos direito– A rainha olhava fixamente para ele. Não conseguiu identificar o que estava por trás daquela expressão vazia, mas arriscou um palpite.
– Mais estranho é você desejar isso e ficar justificando para parecer que não. Se quer fazer, então faça – Fora um tanto rude, mas a julgar pelo silêncio dela, acertara na mosca. Levou alguns segundos refletindo antes de suspirar com ar cansado e abraçá-lo, encostando a cabeça em seu peito e pousando as mãos frias em suas costas nuas. Envolveu-a pela cintura e a apertou com cautela.
Até então não haviam dado um abraço sequer fora do plano e precisava admitir que era algo esquisito de tão diferente. Soltou-a e esperou que se afastasse, porém Ashe ficou na ponta dos pés, levou uma das mãos até seu rosto e colou seus lábios em um impulso. Tryndamere correspondeu de imediato, suspendendo-a do chão e dando-lhe um beijo molhado com anseio. Não sabia exatamente o motivo de estar fazendo aquilo, mas se deixou levar sem questionar.
– Não ouse perder — Falou para ele quando se separaram.
– Nem sei o que é isso — Montou no cavalo peludo e, com satisfação e determinação estampadas no rosto, saiu portão afora.
Podia avistar a torre e o enorme muro de pedra gelada com clareza daquela distância, faltava pouco para a batalha começar e a adrenalina pulsava em suas veias com o nascer do sol. Viu os disparos na manhã anterior e já sabia que os reis seriam avisados e partiriam ao seu encontro.
Mal podia esperar.
Acordou os guerreiros para que fizessem um desjejum rápido e nada farto, pequenas porções de caça abatida e água, e prosseguissem a marcha. Todos estavam muito animados, ansiavam um confronto tanto quanto ela, eram movidos a carnificina e passaram muito tempo em abstinência. Armaram-se e levantaram acampamento.
Chegaram aos pés do paredão por volta do meio-dia e ouviram o soar de uma trombeta vinda da torre. Um homem forte e bem vestido apareceu próximo à borda e usou uma espécie de cone para amplificar sua voz.
– Vocês estão no limite das nossas terras, vão embora ou iremos atirar.
– Deixe-nos passar e lhe daremos uma morte rápida como agradecimento — Os bárbaros riram do sarcasmo de Sejuani, que se mantinha atrás de uma linha de guerreiros com escudos. O alarme tocou novamente.
– Último aviso, saiam.
– Foi você quem quis assim. Garra do Inverno, em frente! — Os gritos retumbaram e os bárbaros avançaram, recebendo uma saraivada de flechas afiadas vindas da muralha. Poucos homens caíram, alguns deles até levantaram, e começaram a tentar arrombar os portões e escalar as paredes.
A força daquelas pessoas era incrível, homens e mulheres que enfrentavam a falta de comida todos os dias tinham uma sede de sangue tão grande que os tornava verdadeiras máquinas de guerra. Quando o portão caiu, Bristle apenas esperou a sua confirmação para correr e esmagar quem permanecesse em sua frente, mordendo e arrancando pedaços dos combatentes por diversão. Firmou as pernas no dorso do javali gigante e brandiu seu mangual de Gelo Verdadeiro em volta de si, quase partindo um soldado inimigo ao meio e ferindo mais dois. Sangue avarosiano jorrava ao seu redor e o cheiro de suas mortes a alegrava mais do que havia imaginado.
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