Destino de Sangue
1 Prólogo
A sala estava exageradamente calma e silenciosa para um momento inoportuno como aquele. O barulho leve das persianas de plástico batendo uma as outras, era o que impedia do total silencio no ambiente. A luz que entrava pelas brechas das enormes paredes de vidro não cobertas por grandes tecidos de cores bem rusticas, deixa aquele local leve e calmo. O que era perfeito.
Minha mão passeava pelo braço da poltrona de couro cuja estava sentada. Movimentos calmos, que me relaxavam. A caneta que estava em cima da prancheta que se encontrava em cima do meu colo, parecia implorar por um movimento ágil e sábio. Enquanto isso, o papel embaixo dela continuava em branco, claro, tirando apenas pelas linhas pretas preparadas para a escrita.
Aquilo não era para estar daquele jeito. Obrigatoriamente eu já deveria ter escrito no mínimo algumas frases ali, mas eu não tivera tido permissão até o exato momento.
A alguns passos de distancia, um sofá extremamente confortável que caberia belissimamente três pessoas, estava sendo ocupado por apenas uma. Um corpo inquieto e extremamente atencioso estava a me observar. Suas pálpebras abriam e fechavam-se mais rápido do que o normal.
Naquele momento, quem entrasse naquela sala pensaria que eu estava a fazer nada, juntamente com o homem a minha frente. Se passassem alguns minutos conosco, pensaria que aquilo não poderia ser chamado de trabalho, pois, um trabalho envolveria esforço físico ou pelo menos alguma ação de ambos os corpos ali presentes. Mas para mim, estava tudo certo, talvez, sim, um pouco calmo demais.
Levantei meu pulso e chequei as horas no meu relógio. Bem, ainda faltavam trinta e cinco minutos até o fim da sessão e o paciente ainda não tivera se pronunciado, nem para dizer seu nome ou falar sobre si próprio.
- Nós podemos ficar aqui a noite toda. Minha ultima sessão do dia é esta e bem, não tenho pressa para ir para casa. – Falei levantando meu olhar da caneta em meu colo, para o olhar atento dele, que agora estava sobre mim.
Senti como se estivesse falando com uma porta, mas se pensarmos bem, até uma porta se tornaria mais barulhenta que o senhor a minha frente naquele momento. Soltei um longo suspiro, sim, proposital. Aquela era minha terceira sessão com ele, e em todas as anteriores eu não tivera avançado em nada em relação a que eu estava naquele momento. Era tudo muito frustrante, mas fazia parte do trabalho. Se eu era paga para ficar em uma sala com o Senhor durante uma hora e meia, quem seria eu para reclamar?
Deixei de lado a prancheta e a caneta que estavam em meu colo e me levantei da poltrona. A passos calmos caminhei até a persiana que estava meia aberta, permitindo que o ar refrescante da cidade de Los Angeles invadisse o ambiente. Deslizei meus dedos sobre o plástico, fazendo com que batessem um ao outro e causasse um baixo barulho na sala. Eu tinha consciência de que um par de olhos castanhos vibrantes estava me encarando naquele momento.
- Senhor. – Dei uma longa pausa pensando no que falaria em seguida para ele e logo continuei. – O que você mais gosta no ar de Los Angeles? – Criei uma expectativa dentro de mim que ele não respondesse como já era de esperar, mas me surpreendi quando pela primeira vez pude escutar a voz do paciente, pessoalmente.
- A umidade. – Fora um som baixo, mas sincero. Virei-me para ele e o analisei.
Suas mãos estavam juntas e seus cotovelos estavam apoiados em suas pernas. Seu rosto estava direcionado para mim, mas seus olhos não olhavam para os meus. Ao invés disto, ele se mantinha concentrado no pequeno crachá que estava pendurado em minha camisa com o meu nome escrito.
- Posso dizer que me surpreendi ao escutar sua voz? – Falei em tom de duvida, mas logo recebi um aceno de cabeça. – Há quantos dias você não se pronuncia?
- Três mêses?!
Dirigi-me de volta para minha poltrona e peguei calmamente a prancheta e a caneta. Sentia um alivio tomar conta de mim naquele momento. Finalmente eu teria algo de produtivo e minha caneta voltaria a riscar. Rapidamente escrevi sobre eu ter sido a primeira pessoa depois de longos dias ter o escutado falar. Levantei meu rosto para ele e como já se era de esperar, ele me analisava.
- Muito tempo, você não acha? – Ele negou.
- Depois de tudo que passei. Anos após anos, isso não chegou nem perto do necessário. – Disse amargurado.
- Então isto foi como um protesto? – Ergui uma de minhas sobrancelhas.
- Sim, mas um protesto falho. – Assenti e logo anoitei as coisas novamente.
- Sua vida foi muito cansativa e talvez eu até entenda o porquê de ter escolhido tal caminho.
- Talvez. – Ele murmurou e olhou para a caneta em minha mão. – Decepções.
- Cansaço. – Falei como se estivesse listando no que sua vida tivera se resumido ao longo dos anos.
- Mentiras.
- Falsos amores.
- E incertezas... – Ele finalizou.
O rapaz olhava para o rosto da doutoura como se temesse por algo. Como se quisesse que algo que parecia impossível, acontecesse.
A mulher parada a sua frente então se sentiu extremamente desconfortável, o olhar pesado do paciente pendia sobre ela e por alguma razão, ela sentia como se o já conhecesse de ocasiões passadas.
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