Destino Cego
2 Bendita hora...
— (...) Temos até o fim de Outono para atrairmos um novo prodígio musical. — Bang Si-Hyuk anunciava durante uma reunião com Staffs e a Boy Band BTS. – Ele ou Ela precisa ser apresentado no festival de abertura de Inverno na Show Music Core. – Analisou pela última vez os papeis em suas mãos, de forma que pudesse lembrar-se das regras. – A gravadora vencedora, ganhará um troféu de prestígio e total apoio no patrocínio na divulgação do CD do novo K-Idol.
A equipe toda comemorou animado. A muito tempo não tinham a oportunidade de lançar um novo K-Idol, tendo em vista o sucesso dos Bangtan Boys. O produtor da BigHit não poderia está mais animado com a ideia.
— Devemos fazer uma seleção? – Namjoo, o líder do grupo, se sentiu no direito de perguntar.
— Claro que sim! – Bang-Si-Hyuk assentiu. – E se preparem, meninos... – Apontou para todos, se divertindo. – Serão os juízes.
Em uma algazarra que não tinha tamanho, os membros do BTS já se sentiam os maiores caça-talentos da história. Foi preciso ainda mais barulho para acalma-los, até que as regras de fato fossem ditadas.
***
Pov. Jungkook
O dia inteiro, eu só conseguia ouvir sobre essa busca pelo prodígio musical. Não que estivesse me incomodando. Eu só não aguentava mais uma responsabilidade em minhas costas, em nossas costas. Mas o grupo não parecia notar isso.
Suspirando, desbloqueei o celular, a fim de checar as horas. 19h. Decidi que era um bom momento para espairecer. Estava escuro, e com um moletom com capuz me aquecendo e, principalmente, me cobrindo, ninguém me reconheceria.
Antes de avisar para o nosso Staff, pensei em chamar algum Hyung para me acompanhar. Desisti no momento em que notei todos eles empenhados em procurar “prodígios” perdidos na internet. Era uma pena que a maioria das pessoas talentosas só fossem notadas por meio de algo banal como um evento como este. Oportunidades eram escassas.
Estávamos no inicio de Outono, portanto, eu poderia esperar ventos frios me atingirem enquanto caminhava. As folhas desenhavam nossas ruas, por mais que houvesse pessoas que tomassem conta todos os dias. A maioria das crianças que passavam por ali, brincavam desesperadas pela atenção dos pais. Uma, inclusive, quase esbarrara em mim. Mesmo evitando que me reconhecessem, não deixei de acolher a miniatura coreana de casaquinho rosa. Ela sorria amavelmente.
“Eu tinha saudades da minha família”. – Pensava, retomando a caminhada.
— (...) Não acredito nisso! – Ouvi uma voz feminina, bastante impaciente. Escondi um pouco mais meu rosto enquanto seguia meu caminho. Ultrapassei a morena que olhava fixamente para dentro de uma loja de instrumentos musicais.
Meu objetivo era passar despercebido por qualquer pessoa, afinal, nunca se sabe quando se encontra uma Sasaeng pelas ruas de Seul. E eu realmente não estava disposto a parar para fotos e autógrafos. Um pouco de sossego era muito bem vindo, ultimamente.
— Psiiu! – Ouvi o som, e preferi ignorar. – Me ajude, por favor... – Ela havia sussurrado. Mas eu tinha escutado muito bem. Era uma voz tão doce, que quase desisti de me esconder. Contudo, pensei no risco.
Dei uma olhada de relance para trás. Ela estava sentada, inconformada na escadaria da loja. Suas mãos apoiadas no queixo. Era quase cômica.
Bendita hora que saí do dormitório.
— O que aconteceu? – Perguntei, já próximo o suficiente para ela ouvir. Desta vez, o que me incomodava era o fato de ter que falar com uma garota. Jamais fui bom com diálogos com o sexo oposto. Se possível, sempre o evitava.
Ela me encarou surpresa. Imaginei que poderia ter me reconhecido, e já preparava meu pedido de silêncio e discrição quando ela apenas deu um pulo animado e apontou para a maçaneta da porta. Ignorando completamente o fato de eu ser um K-Idol. Talvez porque não soubesse mesmo quem eu era.
Soltei um suspiro aliviado.
— Eu acho que emperrei a maçaneta e a chave não está colaborando muito. – Ela apontou para chave em suas mãos. Olhei para suas bochechas rosadas. Era muito fofa, por sinal. – Acha que consegue abrir? – Me encarou, preocupada. Desviei de seu olhos, me sentindo incomodado com a aproximação.
— Po-posso tentar. – Me odiei por gaguejar. Ela precisava de um homem forte agora, e não um molenga.
Sem mais, subi a escadaria em uma passada e forcei a porta. Estava realmente emperrada. Ela me entregou a chave, para tentar. Não funcionava.
— Você é a dona da loja? – Perguntei, imaginando que por ela ter a chave, deveria, ao menos, trabalhar aqui.
— Na verdade, o dono é o Sunbae Yon-Lee e seu filho Shane-Lee, mas os dois precisaram sair mais cedo por alguns problemas familiares, e fiquei responsável por fechar a loja. – Explicou, pensativa. Talvez por ter dado informações demais.
— Tem o número deles? – Perguntei. Porque era óbvio que os dois saberiam o que fazer nesta situação. Ela ficou ainda mais vermelha, e parecia se sentir culpada.
— E-eu esqueci meu celular dentro da loja. – Disse. – Deve ta me achando uma tola, não é? – Perguntou, torcendo as mãos, acanhada. Mordeu os lábios em seguida e rezei para que não o fizesse de novo.
Ela era fofa e bonita demais. Talvez nem soubesse o quanto aquele gesto não intencional, era tentador.
“Mas o que eu estava pensando?”
— Eu não usaria essa palavra. – Respondi, sem saber ao certo se ela se ofenderia. – Quer dizer, todo mundo pode ter um momento desastrado, não é? – Me arrependi de ter aberto a boca. Eu só estava piorando a situação. Por fim, o tolo estava sendo eu mesmo.
— Eu sou um desastre ambulante. – Lamentou a morena, e parecia rir da própria situação. Preferi ignorar este diálogo retórico.
— Eu vou precisar fazer bastante força pra abrir. – Avisei, novamente desviando de sua atenção.
— Eu não vou te impedir. – Ela disse, dando de ombros. – Já estou encrencada, mesmo... – Murmurou, mais uma vez. Não contive um sorriso discreto, achando graça naquela situação. Não queria nem imaginar o que poderia acontecer depois disso tudo.
Com um pouco mais de força, consegui desemperrar a pesada porta, e ainda ganhar uma bela queda como prêmio de bom samaritano.
— Aigoo! – Ela se aproximou, preocupada. – Você está bem? – Perguntou.
— Estou. – Respondi. Na verdade, sabia que meu ombro receberia os primeiros sinais de dor, somente pela manhã.
— Você conseguiu! – Ela deu um pulo, feliz. – Muitíssimo obrigada! – Me abraçou de repente, e em seguida, se afastou, pedindo desculpas.
Só não sabia se era por ter tido a vontade de me abraçar, ou por pensar que eu estava machucado.
Ela era um verdadeiro encanto. E eu realmente não esperava o abraço, por mais que aquele acolhimento tenha aquecido não só meu corpo, mas o meu coração. Essa era o resultado por passar horas a fio vendo doramas com o hyung Jin altas horas da noite. Você acaba se tornando um completo iludido amoroso. Não que eu estivesse agora... não é?
Ela correu até o balcão, e pegou um aparelho celular. Apontou para ele e sorriu. Em seguida, voltou novamente para o balcão, lembrando-se de algo. Em suas mãos, ela segurava dois pirulitos sabor morango.
— Em agradecimento pela ajuda. – Disse, gentilmente.
— O-Obrigado. – Não esperava por isso.
Peguei o pirulito e antes que saíssemos da loja, olhei um pouco ao redor, tentando me lembrar se alguma vez já tinha entrado aqui. Por fim, eu não saberia de fato por conta da escuridão do ambiente.
— A propósito.. – Estendeu a mão. – Meu nome é Naomi. — Olhei para suas pequenas mãos pálidas.
Quando retribuí o gesto, senti espasmos pelo meu corpo. Era uma sensação estranha e de certa forma, agradável. Nunca tinha me sentido assim antes, e com certeza não era o frio do ambiente.
Desejei não soltar sua mão.
— Jeon... – Pensei rápido. Eu não precisava dizer-lhe meu nome. Se até agora ela não havia me reconhecido. Esperava que continuasse do mesmo jeito. Talvez eu quisesse que alguém, uma vez na vida, me tratasse como um ser normal, pra variar.
— Bonito nome. – Ela disse. Em seguida, olhou para seu relógio e se assustou. – Aigoo! Estou atrasada! – Sacudiu uma pequena sacolinha em suas mãos, e nem mesmo pude saber o que era, porque se desculpou e saiu em disparada pela rua.
Senti meus pés darem dois passos involuntários em sua direção, mas desistir retomando a consciência. Eu não poderia, simplesmente, querer um pouco mais de atenção. Onde eu estava com a cabeça?
Olhei de relance pra cima, memorizando bem o nome daquela loja. Classic 1981. Nunca se sabe quando bate a vontade de comprar instrumentos musicais.
E com este pensamento, voltei rumo ao dormitório.
Eu estava ferrado, se quer saber.
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