Destino
2 Reencontro
Mais uma reunião de cavaleiros, elas sempre aconteciam na mansão da Saori.
Fiquei sabendo que o Hyoga iria naquela reunião, ele tinha voltado da Rússia, só soube que estava morando em Moscou e resolveu voltar do nada, eu queria ir vê-lo afinal ele sempre foi um amigo querido pra mim além do mais fazia muito tempo que não nos víamos, mas naquele dia eu estava muito ocupado com minha editora, estávamos em reunião discutindo alguns assuntos importantes que não podiam ser adiados, detalhes sobre meu livro, umas ideias e tudo mais.
Ikki me ligou pra irmos juntos, mas eu realmente não podia desmarcar aquela reunião.
─Tem certeza Shun?
─Sim, manda um abraço pra todos lá.
─Ok. Tchau.
─Tchau irmão.
Quando terminei a reunião com minha editora eu ainda tentei ir até a mansão, mas quando cheguei lá a maioria do pessoal já tinha ido embora, estavam lá apenas Seiya, Ikki, Saga, Aioria, Marin e o Shura, me disseram que o Shiryu tinha saído cedo e o Hyoga também, perguntei se tinham alguma novidade, mas todos já estavam razoavelmente bêbados e não responderam nada direito, então deixei pra lá, na próxima reunião eu apareço mais cedo.
Levei o Ikki pra casa no meu carro, ele já estava mamado demais pra dirigir, esse Ikki é uma coisa mesmo, nem imagino como ele voltaria pra casa se eu não tivesse aparecido.
No dia seguinte eu fui visitar meu irmão no apartamento dele, mas ele ainda estava de ressaca então não estava muito pra conversa, perguntei pra ele o endereço do Hyoga pra que eu pudesse ir visita-lo, era domingo, mas Ikki mal se lembrava do próprio nome quanto menos o endereço do nosso amigo.
Aff, deixa pra lá, semana que vem eu vou à reunião sem falta e vou poder ver meu amigo.
Mais uma semana agitada, essa passou rápido, tem sido assim ultimamente, mas eu prefiro assim, me faz esquecer aquele meu ex-namorado idiota, eu sei, eu sei, faz quase seis meses, mas é difícil pra mim esquecer alguém assim tão fácil, mesmo que ele tenha sido um completo imbecil comigo mas eu ainda tenho carinho por ele.
Antes que eu pudesse me arrumar pra ir ao encontro com meus amigos a minha editora me liga de novo pra mais uma reunião, e ela sabe ser persistente, então eu tive que ir.
Cheguei bastante atrasado na mansão, mas era mais cedo do que na semana passada então todos ainda estavam lá, eu acho, eu entrei de fininho, não gosto de chamar atenção, quem sabe se eu for socializando aos poucos ninguém note que eu sou um atrasado nato.
Vi Afrodite conversando com o Millo lá de longe perto do bar, então resolvi começar a me enturmar por lá.
Chaguei tão de fininho perto dos dois que eles levaram um susto quando me viram.
─Oi – eu disse sorridente.
─Aiii, quê isso Shun? Que ideia é essa de chegar de mansinho? Quer me matar do coração é? – disse o Afrodite exagerado com sempre.
─Ele sempre faz isso quando está extremamente atrasado né. – disse Millo fazendo pouco caso também.
─Podemos esquecer esse mero detalhe por enquanto? – eu disse aborrecido também.
─Tá bom, tá bom... você estava em reunião com a editora de seu livro de novo? – Afrodite perguntou.
─É, ela me ligou na hora que eu vinha. – eu disse tentando faze-los me entender.
─Hum, está tendo tantos problemas assim pra lançar esse livro Shun? – disse Millo.
─Mais ou menos, digamos que estão me pressionando muito pra iniciar logo esse quinto livro e mandar ao menos o primeiro manuscrito, fora que estão querendo fazer um filme desde o primeiro livro já que eles são sequenciados, mas estamos passando por muita burocracia ultimamente.
─Nossa que legal Shun. – disse Afrodite animado.
─Realmente, tá ficando famoso heim Shun. – disse Millo piscando pra mim.
─Obrigado. – eu disse sorridente.
Isso massageia meu ego sabe, eu sei que sou bom, afinal sempre recebo muitas criticas boas sobre meu trabalho, mas receber elogios assim dos meus amigos é muito bom e estimulante. E estou muito feliz de ver meu trabalho ser tão valorizado assim, afinal eu escrevo de coração e realmente quero que as pessoas apreciem minhas obras, afinal eu me considero um artista, devo tudo a minha imaginação, porque experiências tão realizadoras quanto as que eu descrevo em meus livros são o que eu mais queria de verdade pra mim.
Conversamos mais detalhes sobre essa novidade, e é obvio que falar dela me animava. Fora que eu via que eles realmente estavam interessados no que eu dizia. Falar do trabalho o tempo todo deveria chatear a maioria das pessoas, mas a mim não, eu gosto de falar do meu trabalho, mas as vezes isso me entristece, em saber que eu não tenho outros assuntos pra falar de forma tão abrangente com meus amigos, será que eu sou tão desinteressante assim pra ter somente um único assunto pra discutir com eles?
Às vezes me sinto tão frívolo, tão vazio, gostaria de ter mais assuntos ou mais conhecimentos em mente, acho que eu devia viajar mais, quem sabe assim eu tenha coisas novas pra falar.
Ficamos um bom tempo ali conversando, vezes ou outras eu olhava pro resto do salão, acho que eu estava me esquecendo de alguma coisa, não lembro, mas acho que era importante.
Camus levou o Millo de nós, pra namorar com certeza, então ficamos só eu e Afrodite, o assunto esfriou e ficamos calados olhando pro pessoal no restante do salão, conversamos um pouco sobre alguns deles também, acho que eu deveria ir cumprimentar eles antes que o Afrodite pense em falar da minha vida amorosa que por acaso não andava tão interessante assim.
Eu olhei pra Shunrei tentando controlar a animação dos filhos que corriam por todo salão, dois lindos garotinhos de olhos puxados, tinham uns seis anos eu acho, mas que eram muito peraltas, e por falar em Shunrei cadê o pai desses meninos? Mas que irresponsável esse Shiryu em deixar a mulher dele cuidar dos pestinhas sozinha, mas foi aí que eu percebi que tinha algo estranho, tinha uma criança a mais, um garoto mais novo, loirinho de olhos azuis, tão fofo, minha nossa, nunca tinha visto uma criança tão bela, ele parecia um anjinho.
Eles correram em nossa direção e eu pude ver de perto o tal garoto.
─Mas olha só. – eu disse estranhando aquilo.
─O que? – disse Afrodite.
─De onde veio esse menino?
Eles chegaram bem perto e eu chamei os meninos e eles pararam de correr e vieram pra mim, afinal eu me dou muito bem com crianças e posso até dizer que aqueles meninos me adoravam, e eu a eles, vieram os filhos do Shiryu, mas o loirinho permanecia longe com a mãozinha na boca e desconfiado, natural, ainda sou um estranho pra ele.
─Oi crianças. – eu disse sorridente pra eles.
─Oi tio Shun. – eles vieram animados pra cima de mim e me abraçaram, nossa como eu adoro esses meninos.
─Quem é o amiguinho de vocês?
─Vem aqui Mick. – disse Akira chamando o loirinho, mas ele permanecia parado longe.
─Vem logo Mick. – disse Isao agora.
─Mick? – eu disse estranhando, não era um nome muito comum.
─É Miguel, Mick deve ser o apelido que deram pra ele. – disse Afrodite vindo pra perto também.
─Hum?
Já que o menino não vinha então Akira e Isao foram pessoalmente busca-lo e ele a muito contragosto chegou perto de mim, estranho, sempre me disseram que minha aparência atraia as pessoas, e que transmitia confiança principalmente pras crianças, acho que aquele garoto era o primeiro a me estranhar.
Ele chegou perto e eu o puxei delicadamente pra não assusta-lo.
─Oi amiguinho, qual o seu nome? – eu disse me abaixando e ficando na altura dele, ele era tão pequenininho.
─Мигель. – disse baixinho com aquela voz tão infantil e mansa, e mais estranho ainda, ele tinha um sotaque.
─Quantos anos você tem Miguel?
Ele me mostrou três dedos da mão.
─Nossa três aninhos... pensei que você tinha menos... meu nome é Shun. – eu disse apertando de leve a mãozinha dele.
─Ele é legal Mick. – disse Isao que via o receio do novo amiguinho dele.
Ele me olhou desconfiado um tempo, mas por fim deu um leve sorriso balançando a cabeça positivamente, que fofo.
─Você é bem fofinho, devia fazer comerciais. – eu disse ainda sorrindo pra ele, estranho, ele me parecia bastante familiar.
Antes que eu dissesse mais alguma coisa os meninos puxaram ele pra brincar de novo.
─Ele é lindo né. – comentou Afrodite do meu lado.
─É sim.
─Semana passada ele foi a atração principal, o pai dele quase pirou vendo o filho indo de um lado pro outro. – Afrodite disse rindo.
─Pai dele? Quem é?
─É o... – antes dele falar o Carlo aparece do nada e o puxa pra um beijo.
Quando finalmente terminam aquela melação ele me vê e sorri.
─Oi Shun, entrou de fininho de novo? – ele perguntou rindo.
─Oi Carlo, porque você tinha que mencionar isso heim? – eu disse aborrecido.
─Nem liga pra ele Shun. – disse Afrodite.
─Calma, eu só tô dizendo isso porque só te vi agora... devia cumprimentar os outros também né. – ele disse com cara de deboche.
─Tá, tá, vou fazer isso agora então... tchau. – eu disse já me retirando, as vezes o Carlo é muito irritante.
Depois só ouvi um riso dele e um resmungo do Afrodite.
Dou uma olhada no salão pra ver de onde eu começava.
Tinha vários grupos conversando... Seiya, Saga, Aioria, Dohko, Shion, e mais um povo que só sabe falar de santuario estavam reunidos... provavelmente falando de santuario de novo, aposto.
Kanon, Aldebaran, Millo, Aioria e Afrodite e Carlo, que tinham se juntado a eles, eram o povo que só sabia falar de sexo ou piadas infames.
Mú, Shura, Camus formavam outro grupo que só conversavam coisas chatas, normalmente politica, e acho que tá faltando o Shiryu naquele grupo também.
Meu irmão e Shaka estavam de agarramento num canto, num falei que eles ficam nesse termina/volta o tempo todo?
As garotas como a Saori, a Marin, a Shina, a Shunrei e a June só falam coisas de mulheres então é melhor eu nem ir até lá.
Aquela era a hora de socializar e todos pareciam se divertir com seus assuntos, depois disso só juntavam os demais casais pra ficar de agarramento, claro que agora era discretamente né, afinal temos crianças no recinto, que inclusive continuavam na correria, ao que parece a Shunrei desistiu de segurar eles.
Olhei de novo pra aquele garotinho loiro, o Afrodite acabou nem me falando quem era o pai do menino, e nenhuma ideia vinha a minha cabeça, acho que hoje eu tô muito avoado mesmo e ainda tenho a sensação que esqueci de alguma coisa... olhei pros filhos do Shiryu também, e me fez lembrar dele de novo, afinal cadê ele heim?
Comecei a prestar mais atenção e enfim o avistei na varanda conversando com alguém eu acho, não dava pra ver de onde eu estava.
Bom, vou cumprimentar ele então. O pessoal ia me avistando e iam cumprimentando de longe.
Quando cheguei mais perto da varanda vi que Shiryu conversava mesmo com alguém, um cara alto e cabelos curtos e loiro, com roupas sociais, quem será? Nem estranho mais esses intrusos, todo mundo aqui chega com alguém novo mesmo, apesar de ser um encontro só pra cavaleiros.
─Oi Shiryu. – eu disse sorrindo pra ele.
─Oi Shun, não sabia que você tinha chegado. – ele disse sorrindo pra mim também.
─Quem é seu amigo? – eu perguntei olhando pro tal loiro.
Foi aí que ele se virou e eu imediatamente reconheci. Céus, era ele, como pude me esquecer dele?
─Oi Shun. – disse Hyoga sorrindo pra mim.
─Hy-Hyoga? – eu disse pasmo, ele estava tão diferente.
Estava com os cabelos bem curtos como os de Ikki, penteado, tinha o corpo bem esbelto, nem muito musculoso e nem muito magro, bem como eu lembrava, pálido como sempre, com aqueles olhos de um azul claro tão intenso e com aquele lindo sorriso de sempre estampando no rosto, aquela linda boca pequena e fina. Ele estava lindo.
─Não se lembra de mim? – ele disse tranquilamente rindo, com aquela voz sempre calma dele.
─Céus, é você mesmo. – eu disse sorrindo e me aproximando pra abraça-lo.
Ele prontamente retribuiu ao meu abraço, minha nossa, eu me sentia tão deslocado abraçando ele, me sentia tão bem, nem eu mesmo sabia que estava com tantas saudades daquele loiro.
Aspirei o cheiro único dele, isso fez passar tantas lembranças na minha cabeça, e fez eu me tocar de a quanto tempo eu não o via. Isso me trouxe uma sensação tão nostálgica e acolhedora que me fez perceber enfim as lagrimas quentes que caiam abundantemente dos meus olhos.
Por Zeus, eu estava chorando, chorando de alegria ao rever Hyoga, senti tantas saudades dele, do passado, assim o apertei ainda mais contra mim, eu queria sentir mais dele, mais daquela sensação tão boa, mas porque eu estou sentindo tudo isso agora? Era como se eu estivesse anestesiado a tanto tempo que só de rever Hyoga me despertou do meu transe, parecia que a muito tempo eu tentava disfarçar a falta que ele fazia pra mim com a minha vida atarefada, senti como se nada daquele mundo novo existisse e só me restava as lembranças e os sentimentos e sensações que provinham delas.
─Estava com tantas saudades assim? – ele brincou.
Nos separamos e eu comecei a enxugar minhas lagrimas ainda sorrindo.
─É claro que eu estava com saudades, senti muito sua falta seu loiro sumido. – eu disse retribuindo aquele lindo sorriso dele.
─Bom, já vi que tô sobrando aqui, vou deixa-los conversar... vou ver meus filhos. – disse o Shiryu se retirando.
─Vai lá trocar fraldas. – Hyoga disse rindo e eu o olhava cada vez mais atentamente, simplesmente não conseguia tirar os olhos dele.
─Nem fala nada que daqui a pouco você vai ter que trocar também. – disse Shiryu rindo também.
─Sei, sei, olha ele aí pra mim viu. – Hyoga disse.
─Tá. – e se retirou de vez.
Hyoga fica olhando Shiryu se distanciar e finalmente me olha, nem sei porque eu estremeci quando ele me mirou.
─E então Shun? Como vai? – ele disse calmamente.
─Hã? – eu estava distraído apreciando a paisagem a minha frente, aquele lindo loiro.
Ele estava tão bonito, céus eu estava atraído pelo meu amigo de infância, acho que foram os drinks que eu bebi com minha editora durante a reunião que estão fazendo minha cabeça perceber essas coisas, senão eu não estaria tão bobo assim com a presença daquele russo.
─Tudo bem com você? – ele perguntou preocupado.
─Ah sim, sim. – me toquei da minha bobalhice e sorrindo abertamente o tempo todo pra ele, será que ele percebeu?
─Você esta mudado Shun, está ótimo. – ele disse sorrindo, mas eu pude perceber que ele parecia bem mais sério do que eu lembrava.
─Você está bem mais mudado, o que andou fazendo todos esses anos? Estava sumido heim. – eu disse chateado.
─É, ouvi muito isso semana passada... desculpe ter desaparecido assim. – ele sorriu sem jeito coçando a cabeça, nossa ele pareceu tão fofo agora.
─Podia ter mandado noticias Hyoga seu tratante.
─Eu sei, me desculpe, sei que estou errado mesmo então não vou inventar desculpas... mas fique sabendo que eu sempre soube de tudo que acontecia por aqui, apenas estava sem animo pra mandar noticias só isso.
─Sem animo? Sou vida é tão desinteressante assim? – eu perguntei estranhando.
─Não, er... deixa minha vida pra lá, me diz como anda a sua. – ele disse de repente querendo mudar o rumo da conversa.
─Ah é, eu não pude vir semana passada. – eu disse lembrando.
─Eu soube, você estava em reunião certo?
─Sim, com minha editora, decidindo detalhes do meu novo livro. – eu disse cheio de mim, por alguma razão eu queria impressionar o Hyoga... será que ele tá comprometido? Mas o quê? Porque eu pensei isso?
─Que bom, soube que faz bastante sucesso, parabéns. – ele disse com aquele leve sorriso dele, encantador.
─Obrigado, é um sucesso mesmo, um best-seller... mas eu vim pra cá mais tarde, mas você já tinha ido embora.
─É que eu não pude ficar muito tempo. – ele disse dando de ombros. ─Mas eu mandei um abraço pra você pelo Ikki.
─Ah, o Ikki tava bêbado quando eu cheguei e só falava coisa com coisa.
─rsrsrsrs. Imaginei que sim, ele estava exagerando mesmo.
─E as novidades? Quando você voltou? – eu disse me encostando na varanda pra ficar mais visível pra ele, nem sei porque fiz isso.
─Voltei faz quase um mês.
─E só agora você resolveu aparecer? – eu disse aborrecido de novo.
─É que eu estava muito ocupado resolvendo assuntos no meu novo emprego aqui no Japão, na compra do apartamento, e várias outras coisas, desculpe, eu devia ao menos ter ligado eu sei.
─Hunf, dessa você passa. – eu disse e ele sorriu divertido. ─Bom, e porque resolveu enfim voltar?
─É uma longa historia. – ele disse suspirando e encostando-se na sacada também olhando pra frente, parecia perdido em pensamentos, e ele pareceu ficar bem mais sério de repente e melancólico, se bem que ele já é sério naturalmente.
─Hum? – porque será que ele mudou aquele humor pra melancólico de repente?
─Bom... eu achei melhor deixar minhas lembranças pra trás, e resolvi voltar, acho que é o melhor a fazer pro meu filho também.
─Filho???? – eu disse surpreso.
─Sim, acho que você já viu ele também. – ele disse sorrindo, e seu rosto se iluminou de novo.
─Vi? – eu disse confuso.
─Sim, ali está ele. – disse apontando pro salão, pra aquele garotinho loiro, foi aí que a ficha caiu, era o filho dele, por isso que ele parecia tão familiar, não disse que eu estava avoado hoje? Senão eu teria percebido aquilo a muito tempo.
Mas aí eu me toquei de outra coisa, ele tinha um filho, então provavelmente ele era mesmo casado, isso me entristeceu tanto e eu não soube explicar porque.
Olhei pras mãos dele e vi uma aliança, então eu estava certo. Mas então porque ele não trouxe a esposa também?
─E cadê a mãe? – eu não consegui soar menos sério e amargo e ele percebeu.
─Hm? Tudo bem? – ele preguntou preocupado.
─Sim porque? – eu disse ainda aborrecido.
─Você mudou suas feições de repente, parece abatido, sente algo diferente? Sua pressão baixou Shun?
Nossa que série de perguntas são essas? Será que eu pareci tão amargo assim?
─Estou bem, porque tantas perguntas assim, vai tirar meu diagnostico por acaso? – eu disse sarcástico com ele, eu estava irritado mesmo, admito, e tenho quase certeza que é porque ele é casado.
─Talvez. – ele disse ainda sério.
─Até parece né Hyoga. – eu disse cruzando meus braços em desgosto por ele ter reparado tão bem na minha cara emburrada. ─Como se você fosse medico. – eu disse rindo com desdém... cara, que atitude nova é essa em mim? Estou surpreso comigo mesmo, eu nunca fui assim, mas agora eu nem conseguia disfarçar meu aborrecimento.
─Eu sou medico. – ele disse frisando ainda calmamente e sério, parecia não entender do que eu ria, e acho que nem eu sabia.
─Hã? – céus, eu só tava brincando, ele é medico mesmo?
─É sério? – eu disse surpreso, nunca imaginei ele nessa profissão.
─Sim.
─Ah, bom... desculpe. – eu disse vermelho, o que será que estava acontecendo comigo afinal de contas?
─Tudo bem, mas e então? Você está bem?
─Sim, obrigado. – eu disse sem jeito. ─Mas você não respondeu minha pergunta Hyoga, cadê sua esposa? – eu insisti, queria ver quem era a mulherzinha com quem ele era casado, céus, de novo isso?
─Eu sou viúvo. – ele disse sério.
Fiquei muito surpreso, mas ao invés de me animar aquilo me entristeceu de tal forma que eu não pude deixar de fazer uma terrível expressão de lamento, isso só pelo simples fato de eu ter percebido o semblante abatido que ele tinha, só de ver ele triste daquele jeito eu fiquei triste também, pois eu não via apenas a dor da perda nos olhos dele, eu via que ele ainda amava a esposa tão intensamente mas infelizmente ela não estava mais com ele, e parecia fazer uma falta imensurável.
─Eu sinto muito Hyoga, muito mesmo. – eu o olhei com uma expressão de sinceros pêsames, o que era aquilo? Eu estava com vontade de chorar, mas não por mim, mas sim por ele, pelo Hyoga.
─Tudo bem Shun, calma. – ele percebeu a minha tristeza e pareceu querer corrigir ou tentar sumir com aquela expressão de melancolia dele com um sorriso forçado.
Eu era sensível o suficiente pra perceber que aquele sorriso doeu muito nele, pois eu nunca tinha visto um sorriso tão triste na minha vida.
Senti uma imensa necessidade de colocar um sorriso sincero naquele belo rosto.
─Seu filho é lindo sabia? – eu disse sorrindo pra ele e mudando de assunto, não tocaria naquele assunto novamente até saber a hora certa.
─Obrigado, ele é perfeito, é a pessoa mais valiosa pra mim. – ele sorriu sincero dessa vez, com uma expressão de grande ternura enquanto olhava pro filho brincando.
─Ele se parece com você. – eu comentei.
─Acha mesmo? Muitos dizem que ele parece com a mãe dele. – ele disse sorrindo.
─Bom... você está morando onde Hyoga? – eu quis mudar de assunto de novo.
─Estou morando no centro, comprei um apartamento perto do parque de Chiyoda, é um ótimo lugar pro Miguel brincar e fica perto do hospital onde eu trabalho também, fica mais fácil, chego mais rápido em casa, afinal o Miguel ainda não tem uma babá fixa e eu fico preocupado em deixa-lo com uma desconhecida. – ele disse.
─É mesmo? Nossa, por isso você andava tão ocupado? – reconheci que ele definitivamente não podia perder tempo conosco.
─Sim, eu tinha que me virar pra resolver as coisas com ele sempre junto, mas é melhor assim, acho mais seguro pra ele. – ele disse sorrindo.
─Se preocupa mesmo com ele... faz uma entrevista com várias babás e contrata uma definitiva então.
─Farei isso, mas é meio complicado fazer isso agora, as coisas andam muito corridas, eu deveria estar de plantão hoje, mas não encontrei nenhuma babá pra ele hoje então me dispensaram, mas é claro que eu vou ter que cumprir hora extra né. – ele disse rindo.
─Hum, onde você trabalha?
─No hospital de Chiyoda, mais precisamente em Nagatacho, recebi uma excelente proposta pra trabalhar lá, e o pessoal de lá é ótimo... mas eu estou preocupado mesmo é com o Miguel, tudo aqui é novo pra ele, estou ensinando aos poucos japonês a ele, e ele é bem esperto, mas mesmo assim acho que ele ainda se sente muito deslocado, fora que ele não tem ninguém pra brincar.
─Ele é russo mesmo né?
─Sim, literalmente, a mãe dele também é russa, quer dizer, era... – de novo ele pareceu muito abatido.
─Faz quanto tempo que ela faleceu? – toquei de novo no assunto, droga.
─Um ano. – ele disse sério de novo, agora eu entendo, era pouco tempo pra esquecer alguém que se amou tão intensamente, com certeza ele sofreu muito com a morte dela, caramba, parece que o Hyoga é azarado mesmo, todo mundo que ele ama morre, peraí, isso soou tão insensível, ainda bem que eu não pensei em voz alta.
─Você ainda a ama muito não é mesmo? – eu tive que perguntar.
─Er... bom... me fale de você Shun, casou? – ele mudou de assunto de novo, acho que ainda é muito doloroso pra ele falar da esposa, então achei melhor não insistir também.
─Sou solteiro agora. – frisei o solteiro pra ficar bem claro pra ele, porque eu fiz isso?
─É mesmo? Sempre pensei que você se casaria com a June. – ele comentou sorrindo.
─Com a June? – fiquei muito surpreso com aquela suposição dele. ─A June é praticamente uma irmã pra mim Hyoga, fora que até ela já casou.
─Ah, não sabia. – ele disse não parecendo se importar muito. ─Mas porque você está solteiro? Sei bem que pretendentes não faltam. – ele comentou displicentemente de novo.
─Por que diz isso?
─Porque você é bonito, interessante, bem sucedido... toda garota gosta disso ora.
Fiquei nas nuvens com o comentário, mas percebi que ele ainda não sabia de um detalhe.
─Eu não gosto de garotas Hyoga... sou homossexual. – eu disse esperando ansiosamente a expressão que eu faria, achei que ele iria ficar surpreso, mas ao invés disso ele só sorriu tranquilamente.
─Hm, Achei que fosse mesmo. – ele disse tranquilamente me olhando divertido, o que será que aquilo queria dizer?
─Achava?
─É, na verdade eu só suspeitava. – ele disse simplesmente.
─Hum, andava me observando é? – eu disse desconfiado, mas com uma pontada de animação em saber que ele me notava.
─Claro que não, é que você sempre foi muito transparente Shun, nunca conseguiu esconder nada. – ele comentou rindo.
─Hunf. – me desanimei.
─Mudando de assunto Shun, você conhece alguém que queira trabalhar de babá?
─Não, mas então porque você não pede pra Shunrei cuidar do Miguel por um tempo?
─Nem pensar, a coitada já tem que cuidar de dois peraltas sozinha, se bem que normalmente o Miguel é bem quietinho.
Olhamos pros meninos brincando sentados no chão agora com Shiryu vigiando de perto, Miguel bocejou enquanto brincava.
─Ele já tá cansado, mas também olha só a hora. – Hyoga disse olhando pro relógio.
─São quase 21:30. – eu olhei também, me toquei do porque dele ter ido embora mais cedo semana passada.
─Já passou da hora dele dormir. – ele disse e foi até onde os meninos estavam e eu o segui.
─Miguel. – Hyoga chamou e o menino o olhou.
─Papa. – disse sorrindo e levantando-se pra ir pros braços do pai.
Hyoga sorriu e pegou o filho no colo, gente, aquilo pareceu tão estranho, nunca passou pela minha cabeça uma cena daquelas com o Hyoga, naquela imagem paterna, tão humano e carinhoso, não me lembro de nenhuma vez ter visto aquela expressão no rosto dele, Hyoga sempre foi tão frio, tão inalcançável, e agora era totalmente o contrario.
O Miguel se acolheu nos braços de Hyoga e o abraçou tão carinhosamente também, eles eram tão parecidos, tão lindos.
─Ele parece bem cansado né Hyoga. – disse Shiryu olhando pra eles.
─Sim, tá na hora de irmos não é mesmo filho? – ele disse afagando os cabelos do filho.
─No, quero bincar. – o Miguel disse com a voz manhosa.
─Você mal se aguenta sentado pra brincar Miguel. – disse advertindo o filho que só se encolheu mais nele.
─Ele é tão pequenininho. – eu comentei do nada olhando pra eles.
Hyoga me olhou e sorriu.
─Ele só tem dois anos Shun. – ele disse sorrindo.
─Dois? Ele me disse que tinha três. – eu disse estranhando.
─Ele não sabe contar ainda. – Hyoga disse rindo.
─Ah.
─E também ele vive encolhido, por isso parece mais pequeno ainda... já conhece ele? – disse se aproximando de mim.
─Já sim, falei com ele agora a pouco... lembra de mim né Miguel? – eu disse pegando a mãozinha que ele insistia em usar pra apertar a camisa do pai dele.
Virou o rosto de mim. Oxi, o que será que houve pra ele me estranhar de novo assim?
─Que foi filho? Tá estranhando o Shun?
─Vem cá Miguel, vem. – eu disse chamando ele pro meu colo.
O menino faltou entrar dentro da camisa do Hyoga, céus eu sou tão feio assim?
Até mesmo o Hyoga estranhou, separou-se do filho e o olhou.
─O que houve Miguel? Porque não quer ir com o Shun?
─Hum, hum. – disse balançando a cabeça negativamente.
─Desculpe Shun, ele nunca estranhou ninguém tanto assim. – Hyoga comentou.
─Ele só deve tá com birra. – disse o Shiryu se aproximando também. ─Deixa eu tentar. – disse estendendo os braços pro Miguel também.
─Vem cá Miguel, vem. – disse sorrindo pro garoto.
O menino olhou pro pai, depois pra Shiryu, e foi só o Hyoga sorrir pra ele, como que pra dar permissão e o garoto estendeu os braços pro Shiryu. Mas olha, que tratante, só comigo que ele não quis vir.
─rsrsrsrsrrs. Não falei? Ele tava é com birra. – disse Shiryu balançando o menino que só fazia rir.
─Hunf. – mas que desgosto saber que o filho do Hyoga não gostava de mim.
─E aí gente? – disse Seiya aparecendo do nada. ─Como vai o Hyoga júnior? – brincou.
─É Miguel, Seiya. – disse Hyoga olhando torto pro Seiya.
─Tá, tá, vem cá Oguinha júnior. – disse rindo e chamando o Miguel que foi pros braços dele sorrindo de novo. Ahh, mas isso me aborreceu mais ainda.
─Já tão de babação em cima desse garoto de novo. – disse meu irmão aparecendo pra junto de nós também.
─Parece que seu filho é o brinquedo novo heim pato. – comentou rindo.
─Cala boca galinha de fogo, meu filho não é nenhum brinquedo. – Hyoga disse aborrecido olhando pro meu irmão e pegando o Miguel dos braços do Seiya que tava pulando com o menino no ombro. ─E toma cuidado com ele viu Seiya.
─Calma aí gente. – eu tive que dizer alguma coisa também, meu irmão e Hyoga não podiam se ver que lá vinha briga.
─Vai ensinar ele a fazer bolotas de neve também pato? – Ikki disse de novo rindo.
─Tipo essa? – Hyoga disse jogando um ar frio com as mãos pra cima do meu irmão.
─Cuidado ae pato encrenqueiro. – disse Ikki desviando e olhando torto pro loiro que só riu sarcástico pro meu irmão.
O Miguel só olhava tudo rindo, mas infelizmente o sorriso dele sumia quando me olhava.
─Vem cá bebê, esse seu pai desmiolado é um perigo não é mesmo? – disse Ikki chamando o Miguel que olhou pro pai pra pedir permissão, o Hyoga olhou torto pra Ikki, mas suspirou e deixou.
─Tá bom, tá bom. – disse sorrindo pro filho.
Agora era o cumulo, esse menino tá de zoação comigo, até com meu irmão que tinha uma tremenda cara mal encarada e o Miguel foi mesmo assim. O que foi que eu te fiz heim garoto?
Até tentei chamar ele pra mim enquanto ele tava nos braços do meu irmão, mas novamente ele não quis, será que eu não passei o sabonete na hora do banho?
─Parece que você tá ruim com crianças hoje heim Shun. – disse o Seiya rindo.
─Não entendo, todas as crianças sempre gostam de mim. – eu disse magoado.
─Esquenta não Shun, as vezes o Miguel estranha mesmo as pessoas. – Hyoga disse tentando me animar.
─Hum. – eu disse muxoxo.
─Bom, vamos Miguel. – Hyoga disse chamando o filho de novo.
─Já vai Hyoga? – disse Shiryu.
─Sim, já passou da hora dele dormir, senão ele vai acordar muito cansado amanhã. – disse pegando o filho dos braços de Ikki.
─Devíamos sair amanhã, o que acham? – disse Seiya.
─Amanhã não posso, vou estar de plantão. – disse Hyoga.
─Mas amanhã é domingo Hyoga. – eu disse.
─Sou médico, é assim mesmo... – ele disse sorrindo, mas ele pareceu tão cansado agora. ─Alias preciso encontrar alguém pra ficar com ele amanhã, vocês conhecem alguém?
─Eu conheço uma babá, ela ficou um tempo com os meus, mas logo a Shunrei pôde dar conta dos dois, então a dispensamos, mas ela era boa, bem nova, mas muito responsável e de confiança. – disse Shiryu.
─É sério? Me passa o numero dela então. – disse Hyoga.
─Eu fico com ele Hyoga. – eu disse do nada, o que deu em mim?
─Você? – todos disseram surpresos.
─Mas você não tá muito atarefado Shun? – disse Ikki.
─Amanhã estarei livre, não tem problema, fico com ele o tempo que você precisar Hyoga. – eu disse sorrindo pra ele, apesar do garoto não ter gostado nem um pouco de mim, mas de alguma forma eu queria me aproximar mais do Hyoga, queria ser útil pra ele, parecer mais responsável tanto quanto ele tinha se tornado.
─Não sei não Shun, não quero incomoda-lo. – disse Hyoga.
─Não tem incomodo algum Hyoga, eu estou livre e adoro crianças, vou adorar ficar com o Miguel amanhã. – eu ainda queria convence-lo, fora que por alguma razão eu não achava bom deixar uma nova mulher, mesmo que fosse uma simples babá, entrar na vida do Hyoga.
─Ok então, obrigado... deixa eu anotar o endereço pra você. – disse com o filho nos braços e que agora estava bem quietinho abraçando o pai e de olhos fechados, gente que coisa mais fofa, e ao que parece o Miguel realmente estava cansado.
Hyoga pegou a carteira e tirou um cartão dela.
─É um prédio azul, décimo andar. – disse me entregando o cartão.
─Ok, estarei lá, que horas você quer?
─Pode ser as sete, eu saio pro hospital as oito, então vai dar tempo de eu te explicar tudo que for preciso pra cuidar do Miguel.
─Tudo que for preciso pra cuidar do Miguel? – eu disse.
─Vish Shun, fique sabendo que esse garoto vem com um manual de instruções, e só o primeiro capitulo tem mil paginas. – disse Seiya rindo.
─Você não entende nada de crianças mesmo heim Seiya. – disse Shiryu dando um tapa no ombro de Seiya.
─Aii, só tava brincando. – disse Seiya.
─Bom... vou me despedir de todos agora... então te espero amanha Shun, e muito obrigado. – disse Hyoga sorrindo pra mim.
─Não é nada de mais Oga, faço com o maior prazer. – eu disse sorrindo pra ele também.
─Obrigado assim mesmo. Até mais pessoal. – disse e se retirou com o filho nos braços.
─Tchau Hyoga. – dissemos juntos, menos meu irmão encrenqueiro é claro.
─Huuummm. Com o maior prazer é? O caminho já tá livre mesmo, e com certeza isso dá uns pontos pra você Shun. – disse Seiya fazendo graça de novo, mas dessa vez quem bateu nele fui eu.
─Aii Shun, porque me bateu?
─Por causa dessa sua graça sem graça.
─Realmente Seiya, ainda bem que o Hyoga não ouviu. – disse Shiryu.
─Mas porque? – disse Seiya.
─O Hyoga tá passando por momentos difíceis, não é hora pra fazer esse tipo de comentário. – Shiryu disse, mas o que será que tem de errado? O Hyoga está passando por momentos difíceis mesmo?
─Desculpe. – disse Seiya arrependido.
─Por que diz isso Shiryu? – eu perguntei.
─Eu conversei com ele, e sei, e não acho discreto ficar comentando a vida do nosso amigo, apenas tome cuidado com o que diz sobre a esposa dele ou qualquer coisa relacionada a isso. – ele advertiu.
─Hum? – eu estranhei mais ainda.
─Apenas fique quieto Shun. — por incrível que pareça quem disse isso foi o Ikki que se retirou logo em seguida.
Todos se dispersaram.
Por Zeus, o Hyoga está tão abatido assim? Mas já faz um ano.
Bom, de qualquer forma eu sei que ele vai precisar muito de um amigo, e eu farei tudo o que eu puder pra ajudar, afinal ele é um grande amigo pra mim... apenas isso.
É meu proposito agora.
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