Destino

17 Epílogo - parte I


Notas iniciais
Oi pessoal, eu disse 'final de semana'? Nããã eu quis dizer daqui a 48 dias :P Desculpem a demora. O capitulo ficou tão grande que eu tive que dividir em três partes. Principalmente porque o Nyah me trollou e agora o limite é de 64.000 caracteres ¬¬ Espero que gostem. :D Hyoga: itálico Shun: normal

Tenho sido tão paciente nos últimos tempos.

Hyoga tem trabalhado mais que de costume, na verdade tenho percebido que tem se tornado mais que uma obsessão.

Faz dois meses que voltamos da Rússia, passei a morar com eles, é claro.

No primeiro mês tudo ia bem, eu estava tão feliz, mas em torno de um mês atrás Hyoga começou a ficar estranho.

Ele sai cedo, e chega tarde. Quase não o vejo.

O mais importante é qual o motivo, que ainda não sei, mas já suspeito. Estou o perdendo, sei que estou, e isso está me deixando louco. O que eu fiz de errado?

Já faz três semanas que não rola sequer uma insinuação de sexo, três semanas contadas.

Ás vezes nem vejo quando ele chega, acordo no meio da noite com ele deitado ao meu lado dormindo profundamente. Isso tem se tornado tão frequente que sinto que o calor da nossa relação já se extinguiu.

Ele não me toca, ele não me quer. E o fato de saber isso me faz cair em prantos ao seu lado, todas as noites. Ele não sabe, e tenho medo de dizer-lhe, medo de colocar as cartas na mesa, porque isso colocaria um fim em tudo, e eu não quero perde-lo, não quero perder o Miguel.

Nem sei se ainda posso recupera-lo.

Agora eu o espero, sempre, não importa que horas chegue.

Já passa das uma. Ouço a chave na porta. É quase como uma reprise de filme, ele é tão metódico.

Ele vai tirar os sapatos... certo. Vai até a cozinha e abre a geladeira, pega uma garrafa d'agua e um copo na pia. Agora ele vai puxar uma cadeira, pelo barulho então eu acertei, o silencio se prolonga juntamente com minha aflição a cada minuto a mais que ele passa ali, sempre me pergunto sobre o que ele reflete nesses minutos ali sentado, sozinho no escuro. Será que pensava nas palavras que escolheria pra me dizer que nós não estávamos dando certo?

Ele se levanta. Lava o copo e o que tiver na pia, típico. Ás vezes eu até deixo alguma coisa suja pra ele saber que fui eu, saber que ainda estou aqui.

Nunca come nada, mas não está tão magro como antes, acho que ao menos juízo ele tomou e janta antes de vir pra casa. A ultima coisa que quero é vê-lo doente.

Ele vem pelo corredor e vai até o quarto do filho, lá ele passa uns dez minutos. É por esses momentos que eu o amo tanto, os momentos que ele demostra que ainda é o Hyoga por quem eu me apaixonei.

Ouço-o cantarolar, a mesma canção.

Ele nunca fecha a porta do Miguel por completo. Acende a luz do banheiro pra clarear o corredor pra quando o filho decidir ir ao banheiro. Sempre deixo que ele faça isso, pra que ainda se sinta necessário.

Agora sim ele vem pra cá. Como sempre finjo que estou dormindo. Ele entra, suspira, joga as chaves e a carteira em cima da cômoda e fica num silencio inquietante, esse é o único momento que eu não o entendo o que ele fica fazendo.

Após algum tempo ele vai pro banheiro, mais alguns minutos no chuveiro e ele volta pro quarto. Abro um pouco os olhos e o vejo de costas se vestindo, só essa simples visão já me deixa excitado, afinal já faz tempo.

Veste somente uma calça folgada e vem pra cama.

Mexe alguns segundos no celular vira-se na cama pra enfim cair num sono profundo.

Quando passa um tempo e eu ouço o ressonar calmo dele e tenho certeza que já está dormindo eu me viro pra vê-lo.

Está de costas com o lençol até a cintura, me dando mostras de sua pele exposta, sem camisa. Ele ainda me provoca, esse imbecil.

Chego mais perto e colo meu peito em suas costas e envolvo sua cintura num abraço cheio de saudades, inspirando profundamente todo o frescor de seus cabelos recém-lavados.

Eu vou perdê-lo, isso dói tanto. Céus, não se passou nem um ano pra ele se cansar tão rápido de mim. Achei que tinha boas chances, achei que o faria esquecer. Nem sei se ainda é por causa dela. Já tem mais de um ano droga! Será que é tão difícil assim me amar? Tenho me esforçado tanto.

Minhas lagrimas caem sem piedade. A pior parte disso tudo é que eu nem sei como as coisas foram chegar a esse ponto. Realmente acreditei que daria certo.

Eu te amo tanto Hyoga, porque é tão difícil me amar também?

Me desgasto naquele momento, estou com ele, mas ele não está comigo. O silencio profundo faz meu pranto notavelmente controlado parecer um temporal, aperto meu braço em sua cintura.

Ele se remexe um pouco e segura meu braço em sua cintura. Rapidamente fico paralisado.

...

Tenho tido tantos pacientes ultimamente que nem tenho mais tempo pra mim.

A vaga pra cirurgião chefe me daria mais tempo, mais privilégios, e mais folgas. É por essa vaga que tenho brigado nos últimos meses.

Eu e Nishimura competimos por ela desde que entrei nesse hospital, o que é injusto já que eu já tenho experiência nesse cargo e ele não. Acho que essa é uma boa mostra de punição por eu ser um gaijin. E eu até tinha boas chances, mas meu afastamento de um mês na Rússia quando Andrey esteve doente diminuíram minhas chances.

A disputa fez Tomoe ficar tão indecisa que a infeliz teve a brilhante ideia de dobrar a quantidade de pacientes sob nossa supervisão pra ver quem aguenta a pressão. Ás vezes tenho uma vontade imensa de estrangular essa mulher. Houve momentos que eu implorei aos céus que trouxesse o senhor Nogushi de volta pra substitui-la.

Acho que ela quer me punir por tê-la deixado na mão naquela ocasião. Oh mulher rancorosa.

É claro que conseguir esse cargo me daria mais tempo com minha família, a quantidade de pacientes iria diminuir e eu daria consultoria e ficaria em clinica apenas duas vezes por semana.

Há tantas mudanças que quero fazer. Finalmente estou tentando seguir em frente, mas agora o que me prende é o trabalho, saco!

Sei cada detalhe do diagnostico de meus vários pacientes, amo ser medico, adoro ser útil pra essas pessoas. Mas também tenho que pensar em mim e minha família, no meu filho, nos meus sogros, na Mayuri e no Shun agora.

Tenho tanta sorte de tê-lo ao meu lado. Tudo tem mudado, mas tudo ainda é equilibrado, graças a ele. Estou feliz em ter ele ao meu lado.

Saio cedo, tenho um dia pra lá de cansativo e chego tarde.

Sempre como alguma coisa no caminho de casa pra não fazer mais o Shun ter que esperar pra jantar.

Vou até a cozinha, é quase um ritual. Reflito por um tempo sobre meus planos.

Daqui a duas semanas Tomoe vai anunciar sua decisão. Se eu conseguir o cargo vou ter o brinde de ouro: um mês de ferias, o que é perfeito já que o ano está chegando o fim do ano, estamos em dezembro e eu queria viajar com minha família, há algum tempo Shun comentou sobre seu desejo de conhecer o ocidente e quero dar esse presente a ele.

Quero agradecer ele por tudo que tem me feito. Infelizmente tenho tido tão pouco tempo que nem sei quando foi a ultima vez que tivemos qualquer conversa. Sei que ele está chateado, queria conversar, mas sempre que chego ele já está dormindo e não quero incomoda-lo afinal sei que o dia dele também foi cansativo, já está na reta final do lançamento do seu novo livro e com certeza isso deve dar muito trabalho.

Por isso não quero incomoda-lo com meus problemas, ou comentar algo que lhe dê expectativas demais, quero que seja uma surpresa.

Levanto e lavo meu copo. Porque o Shun tem sempre essa mania de deixar louça suja na pia? Acho que ele faz de proposito, ele sabe que eu odeio isso.

Vou ver meu filho, tenho tido tão pouco tempo pra ele também, está adormecido, sei que parece judiação, mas mesmo assim eu o pego no colo e o abraço, isso o faz acordar, mas não chora, pois ele sabe que sou eu.

─Papa. — diz ainda muito sonolento e afunda seu rostinho no meu pescoço.

─Meu filho. — sussurro.

─Vamo brincar agora papa?

─Já é tarde querido.

─Ah. — está com tanto sono que nem se importa.

─Te amo Miguel. — o aperto contra mim.

─Tabem amo meu papa. — diz baixo apertando seus dedinhos em minha pele.

Sei que pode parecer tolice, mas são esses simples momentos que dão significado a minha vida.

Começo a cantarolar pra ele.

Não importa o quão tarde esteja, não importa o quanto eu esteja cansado, sempre vou vir aqui pra dar meu boa noite a ele. Ele tem que saber que ainda estou aqui por ele, saber o quanto eu o amo. Ele pode não entender ainda, mas quando ele for mais velho quero que se lembre desses momentos, e quando ele tiver seus próprios filhos ele dê valor à importância de se ter uma família pra cuidar, proteger, mas nunca se esquecer de demostrar seu amor.

Ele adormece e eu o coloco de volta na cama.

Dou-lhe um ultimo beijo e o deixo. Não se preocupe filho, logo tudo vai melhorar e eu vou lhe dar toda atenção que merece.

Acendo a luz do banheiro e deixo sua porta entreaberta.

Entro em meu quarto e vejo Shun adormecido também. O observo tão sereno, tão imaculado. Às vezes sinto que não o mereço.

Suspiro. Espero que ele compreenda que tudo isso é por ele também.

Está em tempo de dizer-lhe o que sinto. Agora é só encontrar o momento certo. Na viagem de férias talvez.

Vou tomar um banho pra depois finalmente dormir. Estou tão cansado.

Amanhã será mais um dia exaustivo. Ainda bem que já está acabando.

Deito ao lado dele, gostaria de abraça-lo, mas não quero acorda-lo, parece abatido e cansado também.

Viro-me, mas quando estou prestes a cair no sono sinto o Shun se remexer na cama e vir abraçar minha cintura, é muito bom sentir o calor da pele dele de novo.

Após algum tempo ouço-o fungar, está chorando?

O que há de errado? Ele me aperta mais ainda contra ele, o que ele tem?

Seguro seu braço na minha cintura pra mostrar que estou acordado, o sinto paralisar de repente.

Viro-me pra ele e imediatamente ele se afasta bruscamente de mim, como se eu estivesse eletrizado.

─Shun.

Ele se senta na cama e vira o rosto pra me impedir de ver suas lagrimas.

─O que você tem Shun? – digo preocupado.

Aproximo-me e acaricio seu perfil. Apesar de preocupante ele fica tão adorável quando se mostra carente.

─O que houve?... – ele permanece calado ─Por favor, Shun, diga alguma coisa.

Ele finalmente me encara e afasta minhas mãos dele. Fiquei ofendido, não queria que eu o tocasse?

─Não é nada. — ele diz enxugando as lagrimas.

─Mas você...

─Volte a dormir. — diz e se vira na cama me ignorando completamente.

Continuo o olhando, esperando que diga alguma coisa. Toco seu ombro.

─Tá tudo bem Hyoga. — ele diz num tom aborrecido e mexendo o ombro pra que eu me afastasse. ─Vai dormir. – ele resmunga.

Suspiro triste. Queria tanto senti-lo de novo. O que será que eu fiz de errado?

Tudo bem, ele só deve estar um pouco chateado com meu afastamento nas ultimas semanas, queria conversar sobre isso, mas ele permanece me evitando, então é melhor não incomoda-lo e deixar a raiva dele passar.

Levanto e vou pra sala, tenho que preencher uns formulários do hospital mesmo. Até que adiantar o trabalho não será tão ruim agora.

...

O que ele queria? Fica dias me ignorando e do nada quer tentar algo comigo?

E ainda se faz de desentendido, esse idiota.

Dou um gelo nele, viu como é ficar do outro lado Hyoga?!

Ele sai e me deixa sozinho. Que novidade.

Não consigo dormir. Droga de consciência pesada.

Após algum tempo me mexendo na cama sem sucesso pra dormir, eu me levanto pra saber pra onde ele foi.

O encontro dormindo de qualquer jeito no sofá da sala com um monte de papel na mesa de centro e em cima dele. O que estava fazendo?

Bom, deve ser só mais uma maneira de ficar longe de mim.

Suspiro irritado. Idiota.

Olho pra ele adormecido, tão sereno. Porque nunca consigo ficar com raiva dele por mais tempo? Ah é, porque eu o amo, mais do que devia, mais do que ele merece.

Sou um idiota.

...

Mais uma semana. Finalmente está acabando. Estou em clinica de novo.

─Mande entrar o próximo. – digo pelo telefone pra Hideki na recepção.

Permaneço atento ao formulário da triagem quando o paciente entra.

─Bom dia. – digo sério ainda concentrado no formulário. ─ Parece que está tendo alguns problemas de alergia. – comento. ─Sente-se ali, por favor. ─digo e finalmente olho pro sujeito.

Na verdade é uma senhora, que inclusive está com o rosto todo inchado e avermelhado.

─É alguma brincadeira? – ela comenta num tom irritado.

─Hum?

─Enfermeira. – ela chama pela porta.

─Qual o problema senhora? – digo confuso.

─Eu vim pra me consultar, e não pra ser alvo de brincadeira de qualquer garoto impertinente. – ele reclama me olhando raivosa.

─O quê?

Hana vem pra entender o que se passa.

─O que houve? – ela pergunta.

─Eu não vim aqui pra brincar, estou com um problema sério aqui, pensei que finalmente ia ser atendida, e quando entro aqui vejo esse garoto insolente me pregando alguma brincadeira de mau gosto. – ela reclama. ─Quero um médico de verdade. –ela exige.

Olho pra Hana e faço um gesto de não saber do que está havendo.

─Esse é o doutor Yukida, senhora. – Hana confirma.

─Quê? – a senhora volta a me olhar surpresa. ─Esse garoto? – diz me olhando dos pés a cabeça.

─Sei que ele parece jovem demais, mas é um medico mesmo. – Hana diz já aborrecida também. Isso já tá virando rotina.

─Tenho vinte e oito anos senhora. – digo aborrecido também. ─Agora se a senhora quer ser diagnosticada por um fóssil então está no lugar errado, o museu de historia natural fica a umas dez quadras daqui. – digo irônico, não se surpreendam, estou cansado ora.

─Hyoga! – Hana me censura.

Aquela senhora olha pro meu crachá e imediatamente fica envergonhada.

─Desculpe, é que eu achei que fosse brincadeira sua e...

─Certo, certo. – digo aborrecido. ─Andou comendo algum fruto do mar? – pergunto indiferente enquanto ela ainda me olha envergonhada.

─Err, sim.

─Ok então. – começo a anotar uma receita. ─Você é alérgica. Então é óbvio que não deve mais comer frutos do mar, isso aí vai passar com essa receita. – digo entregando a ela. ─Entregue isso ao enfermeiro na recepção e ele vai lhe entregar o medicamento. Tenha um bom dia. – digo aborrecido e saindo da sala.

─Você foi grosseiro. – Hana me alcança depois de dispensar aquela senhora.

─O que você queria? É a terceira vez que isso acontece essa semana. – digo aborrecido colocando algumas pastas de diagnósticos em cima do balcão da recepção.

─Mas você parece um garoto mesmo, ora. Que tal um disfarce? – ela diz sorrindo, está zombando de mim?

─Não espere que eu responda a isso. – digo indiferente.

Ela suspira.

─Ok, você tá estressado demais.

─Não é estresse, é que estou tendo pouco tempo pra minha família ultimamente, sinto falta deles.

─Hum, entendo. Não se preocupe que logo a Tomoe dirá sua decisão, e eu estou quase certa que vai ser você. – ela diz sorridente tentando me animar.

─Ela é enrolada demais. Culpa do gênero de vocês. – comento com um sorriso irônico.

─Hunf. Mulheres são mais eficientes. – ela diz cruzando os braços em desgosto.

─Ah, claro, claro. – digo rindo.

─Machista. – ela reclama.

─Fiquei sabendo que o senhor Nogushi vai voltar hoje. – comento.

─É, tá rolando comentários desses por aí.

─Ótimo, quanto antes ele voltar, logo eu tiro a Tomoe do meu pé.

─Não devia estar em clinica Yukida? – Tomoe passa por nós no exato momento, acho que esse hospital tem câmeras com microfones.

─Só tomando um ar pra ver sinto menos o frescor de autoridades. E você? Fazendo a ronda? – digo em desafio.

─Hunf. Volte ao trabalho. – ela ordena e se retira.

─Não devia desafia-la tanto, é por esse motivo que Nogushi passou a concorrer com você pela vaga de cirurgião chefe. – Hana comenta. ─Ele vive puxando saco. – ela diz aos sussurros.

Só faço rir.

─É mesmo? Deve ser por isso que certa vez eu o vi engraxando os sapatos dela num corredor. – digo rindo.

─É, vai, fica rindo. – Hana diz aborrecida.

─Não se preocupe Hana. Se pra conseguir esse cargo eu preciso bajula-la então eu nunca o terei. – digo indiferente.

─Você que sabe. – ela diz dando de ombros.

─Bom, de volta ao trabalho. – digo pegando mais uma pilha de fichas da triagem e voltando pra sala da clinica.

...

Está acabando.

Hyoga vai me deixar, sei que vai, e está tudo bem, estou me preparando pra isso. Mas está sendo tão difícil aceitar, quanto menos me habituar.

Só espero que ele seja sincero o suficiente pra me dizer cara a cara.

Aproveito cada segundo que posso com o Miguel, logo já não farei mais parte disso. Estou tão triste por deixa-lo. Queria poder tocar no Hyoga uma ultima vez, mas isso não é possível, tá certo que eu o dispensei, mas eu queria que fosse algo mais romântico, que ele fizesse com amor e não só mais algo carnal, como se fosse por obrigação. O quero por completo, de corpo e alma.

Estou no parque novamente, brincando com o Miguel e com a Mayuri.

Meus momentos com ele tem se tornado muito valiosos.

Corremos, pulamos, rolamos no chão como se fossemos todos crianças. Miguel ri o tempo todo.

Paro um pouco e fico olhando pra eles brincando.

A Mayuri tem mesmo jeito com crianças. Em pensar que antes eu tinha um ciúme doentio do Hyoga com ela.

Assim que retornamos da Rússia a Mayuri veio correndo de casa quando o Hyoga ligou pra ela. E quando se encontraram eles se abraçaram como se fossem um casal que não se viam há décadas. Tá, fui eu que pensei besteira mesmo.

~~

─Hyoga. – ela diz animada dando um abraço caloroso no Hyoga quando ele abriu a porta pra ela.

Não gostei nenhum pouco daquilo, aquele não era o comportamento padrão entre patrão e empregado. Mas principalmente, não gostei dela o chamando diretamente de Hyoga, que liberdade toda era aquela?

─Oi Mai. – ele disse sorrindo e retribuindo o afeto.

Pigarrei pra chamar a atenção deles.

─Err... Oi senhor Shun. – ela disse sorrindo sem jeito.

─Oi. – digo irritado.

─Miguel. – ela diz animada já entrando e abraçando o Miguel também.

─Deu tudo certo Hyoga? – ela pergunta olhando pro Hyoga com o Miguel ainda em seu colo.

─Sim, meu sogro está bem melhor. – ele diz sorrindo.

─Ah, que ótimo.

─E você Mai? Como foram as coisas por aqui? – ele pergunta.

─Ficou monótono sem vocês. Estou tão feliz que estejam de volta, e o senhor também senhor Shun. – tenho que admitir que ela ainda tenta.

─Hum. – digo indiferente.

Eles começaram a conversar animadamente sobre tudo, como se fossem velhos conhecidos, Hyoga considerava demais aquela garota, e a meu ver, mais do que devia.

─Bom Mai... – ele começou a falar, achei que ele finalmente ia colocar as cartas na mesa e dispensa-la. ─Eu e o Shun... bom, nós vamos morar juntos agora. – ele disse sem jeito.

Ela olha surpresa pra nós e estranhamente esboça um grande sorriso.

─Isso é ótimo, fico feliz por vocês. – ela diz sorridente.

─E isso quer dizer que eu vou ficar aqui o tempo todo, e uma babá não será mais necessária. – digo logo.

Mayuri finalmente começa a aparentar tristeza enquanto olhava pra nós.

─Shun, por favor. – Hyoga diz seriamente pra que eu ficasse quieto.

─Vai me dispensar? – ela diz triste olhando de mim pro Hyoga.

─Não. – Hyoga diz.

─Não? – digo confuso.

─Não vou dispensa-la Mai, não se preocupe. – ele diz sorrindo pra tranquiliza-la. ─Só estou te comunicando que talvez as coisas possam mudar um pouco.

─Mudar?

─Sim, a primeira é que agora o Shun vai ficar aqui o tempo todo e vocês vão ter que se entender. – ele diz mais me advertindo do que comunicando a garota.

─Hyoga, podemos conversar um instante? – digo o chamando.

Ele me olha confuso, mas consente. Então vamos conversar em particular na cozinha.

─O que está fazendo? – digo aborrecido.

─Como assim?

─Pensei que ia dispensar essa garota.

─Claro que não, a Mayuri é uma ótima pessoa, e faz um ótimo trabalho também, gosto dela. Não tenho motivos pra dispensa-la.

─Gosta dela? – digo irritado.

─Você está interpretando tudo errado, eu gosto dela sim, mas não do jeito que você está pensando.

─Sei. – digo desconfiado.

─É, que bom que sabe. – ele diz aborrecido também.

─Hunf.

─Shun eu não vou dispensar essa garota incrível só porque você está com um ciúme idiota e sem sentido. – ele diz aborrecido também.

─Idiota e sem sentido? – digo irritado. ─O que você queria Hyoga? Que eu ficasse numa boa com essa garota aqui o tempo todo? Eu vi o jeito como se falam, nem parece que ela trabalha pra você, falam intimamente e até conversam como se fossem grandes amigos. – digo irritado cruzando os braços.

─Não é bem assim, eu considero muito a Mayuri, é uma ótima garota, é esforçada e dedicada, ela adora o Miguel, fora que ela precisa desse emprego também, e eu sei que você vai precisar de ajuda, não pode tomar conta do Miguel e cuidar dos seus assuntos ao mesmo tempo, ter a Mayuri por perto vai ser bom pra todos nós.

─Eu não vou precisar de ajuda. – digo decidido.

Ele me olha seriamente.

─O que vai fazer com relação ao Ichiro? – ele pergunta do nada.

─Hã?

─Vai dispensa-lo?

─Err... bom, eu... eu não sei, preciso dele também, seria injusto dispensa-lo, ele tem feito um ótimo trabalho.

─A Mayuri também, mas do contrario de certos assistentes, ela não tem uma séria obsessão pelo patrão dela. – ele diz aborrecido, golpe baixo. ─O negocio é o seguinte Shun, se Mayuri ir, o Ichiro também vai. – ele diz decidido cruzando os braços.

─Mas...

─Estou falando sério. Acha que eu gosto de observar aquele seu assistente ao seu lado o tempo todo? – ele estava mesmo com ciúmes? ─Fora que ele mesmo já admitiu que gosta de você, eu tenho todos os motivos pra desconfiar, mas você não. A Mayuri é uma garota integra, e sem quaisquer segundas intenções que você acha que ela tem, eu mesmo já tive uma conversa com ela. Você pode até não gostar dela, mas ela vai ficar. – ele diz decidido.

Droga! Não posso consterna-lo sem ceder também. Não posso abrir mão do Ichiro, preciso dele.

─Tá bom. – digo aborrecido.

De qualquer forma se eu estiver por perto a Mayuri não poderia se atrever em nada.

O tempo foi passado e aos poucos eu fui me dando conta de que aquela garota realmente não tinha segundas intenções, pra falar a verdade ela e o Hyoga tratavam-se quase como irmãos. Hyoga tem mesmo essa facilidade de aceitar as pessoas, e apesar de ele ainda se sentir ameaçado com o Ichiro, acabou o aceitando também.

E o Ichiro, bom, ele quis ficar ao meu lado, mesmo de coração partido. Imagino o quanto deve estar sendo difícil pra ele, mas ele me respeitava. Sei que ele ainda sente algo por mim, mas procura conter, e assim, aos poucos nossa relação voltou ao normal.

Certa vez eu estava digitando sem parar meu manuscrito. Mayuri estava na sala comigo e com o Miguel, estudava um monte de livros grossos de medicina.

Minha cabeça está latejando, mesmo depois de eu ter tomado um analgésico. Ficar de frente pra uma tela por horas às vezes é mais exaustivo do que um dia inteiro de treino.

Tento continuar escrevendo, me concentrar, mas minha visão está turva, droga de dor de cabeça.

Desisto, olho pro Miguel que assiste distraído a TV com o pinguim de pelúcia que eu dei pra ele nos braços.

Olho pra Mayuri estudando na mesa de centro, ela é mesmo muito dedicada aos estudos.

Pego aleatoriamente uma das folhas de rascunho dela que estão caindo da mesa.

─Está estudando fisiologia. – comento lendo ou tentando entender o que ela estava escrevendo.

─Sim. — ela diz e quando a olho ela me observa atentamente com um sorriso aberto. Bom, tenho que admitir que é a primeira vez que demostro interesse no que ela faz, provavelmente ela está surpresa.

Olho pros vários livros que ela tanto lê, parecem novinhos.

─Foi o senhor Hyoga que me deu. – ela diz sem jeito. Que novidade!

─É, ele me falou que os que você usava eram bastante antigos. -comento, o próprio Hyoga comentou comigo a respeito.

Permaneço a observando seriamente.

─Deve ser cansativo estudar tão longe, isso deve te desgastar bastante. — comento.

─Hã? Er... Isso é verdade, mas o trabalho aqui é tão leve, e o senhor Hyoga ainda me deixa estudar no tempo livre, então isso não prejudica meus estudos.

─Mas não seria mais fácil estudar perto da sua casa?

─Sim, mas eu... err... só consegui vaga na cidade vizinha. – porque sinto que ela esconde alguma coisa?

─Você é realmente muito esforçada. – comento.

Ela mostrou-se surpresa depois do que eu disse, bom, pra quem quase nunca trocava nenhuma palavra com ela era de se esperar que fosse um choque me ouvir falando tanto.

─Obrigada senhor Shun. — diz vermelha.

Passado mais algum tempo o Hyoga conversou seriamente comigo sobre a Mayuri.

─Então... vai mesmo fazer o que disse? – pergunto. Ele tinha planos pra ela.

─Sim, vou conversar com a mãe dela e esperar mais alguns meses até que ela termine o período e enfim possa ser transferida.

─Hum. Isso é ótimo.

~~

Já fez um mês desde que ele me disse isso e desde então eu passei a tolerar mais a Mayuri.

Olho pra ela brincando com o Miguel, tão livre e despreocupada. Hyoga tinha razão, ela era mesmo uma boa garota.

Olho a hora, já é tarde, tenho uma reunião com o Ichiro. É sábado, mas o lançamento do meu livro, que inclusive já estava pronto, já está logo aí. Então eu tenho me dedicado bastante ao trabalho nas ultimas semanas.

Voltamos pra casa, nossas reuniões agora eram no apartamento do Hyoga, ou seja, minha casa também. Ficamos na cozinha enquanto a Mayuri foi lanchar e brincar na sala com o Miguel.

─Falou com o diretor adjunto? – perguntei ao Ichiro enquanto folheava mais um conjunto de papeis do contrato que ele trouxe.

─Sim, Misaki também já assinou. – ele comenta.

─Hum. E os modelos de capa?

─Misaki disse que alguns modelos foram produzidos, ela precisa que você vá à Shueisha na segunda pra opinar.

─Hum.

Mayuri vem pra cozinha pra pegar alguma coisa na geladeira, ou como eu já percebi na maioria das vezes que o Ichiro vem aqui, pra protelar.

─Oi Ichiro. – a ouço dizer, ainda estou distraído lendo esse contrato chato.

─Oi Mai. – ele diz e percebo que está animado também.

─Terminou de ler aquele livro que eu lhe sugeri? – a ouço perguntar.

Ele responde alguma coisa e a conversa vai se animando.

─Gente, eu tô tentando ler aqui. – digo impaciente os olhando. Eu sei, eu sei, estou estressado.

─Foi mal senhor Shun. – Mayuri diz sem jeito.

─Desculpe Shun. – Ichiro diz.

Volto-me pros papeis, odeio ler essas coisas.

Eles começam a murmurar com risinhos, o que há com esses dois?

Não consigo me concentrar mesmo, então os observo enquanto estão distraídos.

Conversavam baixinho, e estavam... corados?

Em outras ocasiões o Ichiro não tiraria os olhos de mim, mesmo quando eu não dava a mínima pra ele. Agora, desde algumas semanas atrás ele não tem me direcionado mais esses olhares.

Percebo agora a quem ele o direciona, e a Mayuri parece expressar o mesmo. Sorrio. É até bonitinho.

─Vocês podem ir conversar, vou demorar pra ler isso aqui. – comento.

─Mas você não vai precisar de mim? – Ichiro pergunta.

─Por enquanto não, pode ir, quando eu precisar eu te chamo. – digo sorrindo.

Ele assente e vai sorridente com a Mayuri.

Suspiro. Gostaria que as coisas estivessem bem com o Hyoga tanto quanto parece boa a deles.

Após algum tempo eu o chamo de volta.

─E quanto a essa clausula aqui? – pergunto a ele.

─Já conversei com a Misaki, os direitos vão ser reservados, o diretor que aceitou a produção também está ciente disso. – ele me explica.

Ainda não estou acreditando que minhas obras estão mesmo pra ser transformadas em um filme.

Conversei mais um pouco com ele e após quase uma hora depois nós terminamos.

─Sabe, faz um tempo que não vejo o Alexei. – Ichiro comenta enquanto ajeita sua mochila. Se o Hyoga ouvisse ele o chamando diretamente de novo acabaria surtando.

─É, ele vive trabalhando. – digo aborrecido.

─Ah, que pena. – ele diz, deve estar sendo irônico.

─Pena? – digo confuso, afinal ele não tolera o Hyoga, e o Hyoga já deu varias provas de que o sentimento é reciproco.

─Tá, nem tanta pena assim. – ele diz indiferente, sei que se o Hyoga estivesse aqui ele não permitiria que o Ichiro ficasse a vontade, soltaria seus comentários sarcásticos e atormentaria o pobre do Ichiro de todas as formas possíveis.

Agora eu acho que as intrigas nem são mais tanto por mim, eles simplesmente não se toleram.

Até porque o Ichiro já se deu por vencido e aos poucos os sentimentos dele por mim foram esfriando.

Mas bem que eu gostaria que o Hyoga nos visse juntos, nada como provocar um pouco de ciúmes.

Depois de muita enrolação pra se despedir da Mayuri o Ichiro finalmente foi embora.

Outro dia que o Hyoga chega tarde. A mesma rotina, mas acho que ele ainda está chateado por eu o ter rejeitado na ultima noite, por isso ele sequer deita na cama, vai logo pra sala, e depois de um tempo vou constatar que ele acabou dormindo lá de novo.

Saiu tão cedo que dessa vez eu nem vi.

É domingo, então estou com a tarde livre. Depois das quatro eu vou com o Miguel e a Mayuri pro parque. Fico sentado na grama enquanto os observo se divertindo.

Talvez eu deva começar a pensar em como vou reestruturar minha vida. Tudo que realmente me importa rodeia o Hyoga, minha vida inteira é relacionada aos meus sentimentos por ele, não sei se sou capaz de mudar isso. De esquecê-lo.

Depois que me acostumei a ter uma família não havia mais como voltar a minha vida de solteiro.

Hoje, mais do que nunca vejo Miguel como um filho. Esse garoto é tão especial pra mim. Ensinei muitas coisas pra ele, nos divertimos tanto juntos, e até aprontamos juntos também.

Lembro-me que uma vez tive a brilhante ideia de brincar com tinta com o Miguel. Hyoga faltou ter um ataque quando viu a sujeira que fizemos.

Vendo-o rir agora me trás uma sensação tão boa, tão reconfortante. Imagino quando ele crescer, será que ainda vai lembrar-se de mim?

Logo não farei mais parte da vida dele, isso é tão injusto.

Comecei a perceber que o destino pode destruir uma pessoa tanto quanto a pode abençoar. De todas as pessoas do mundo eu tinha que me apaixonar justamente por ele?

Só o fato de eu me importar tanto com ele abre a possibilidade dele me magoar com suas falhas e ausências, e ele tem feito muito isso ultimamente. Mas eu escolhi isso, eu escolhi ama-lo, se eu nunca quisesse sofrer não teria aberto meu coração da forma como abri, mas eu precisava fazer isso. E não há conserto, não posso deixar de amar de um dia pro outro.

Hyoga, porque você não é capaz de me amar?

Finalmente percebo minhas lagrimas caindo. Miguel se cansa de pular pra todo lado e vem pra perto de mim com alguma coisa que ele achou e que se mantinha segura em suas mãozinhas.

─Olha chichi. – ele diz animado se aproximando e se jogando na minha perna. Nem lembro mais quando ele começou a me chamar assim, e realmente sinto como se fosse verdade.

─O que querido? – digo sorrindo enxugado as lagrimas antes que ele perceba.

Ele abriu as mãozinhas devagar e revelou um inseto que ele achou na grama. Uma minúscula joaninha.

─É vemelha. – ele diz sorridente com sua descoberta.

─Falei pra ele não pegar, mas ele é teimoso. – Mayuri comenta sorrindo quando se aproxima.

─É bonita filho. – digo acariciando seus cabelos. Hyoga iria surtar se visse o filho brincando com insetos. ─Mas ela não gosta de ficar presa, porque não a solta de volta na grama?

─Mas é minha. – ele diz emburrado fechando o palmo sobre o inseto novamente.

─Ela vai ficar triste se você prendê-la. – tento convencê-lo.

Ele fica pensativo um tempo e enfim suspira e se levanta do meu colo pra em seguida soltar o inseto novamente na grama.

─Pronto, agora ela tá feliz. – digo sorrindo e ele volta pra mim com um sorriso no rosto.

─Vai sair pra alguma reunião hoje, Shun? – Mayuri me pergunta.

─Não, hoje não. – digo num suspiro cansado.

─O lançamento está logo aí, não é?

─É, tem sido bastante corrido.

Acaricio os cabelos do Miguel enquanto ele se aninha em mim.

─O senhor não parece muito empolgado. – ela diz num tom preocupado.

Olho pra ela e seus olhos demostravam que realmente se importa.

Suspiro e olho pro Miguel no meu colo de olhos fechados.

─May, você... você notou algo diferente no Hyoga? – relutantemente pergunto.

─Diferente? Bom, ele tem andado bastante ocupado ultimamente, faz um bom tempo que ele não me ajuda com os estudos, quase não o vejo, mas acho que ele não anda tão diferente assim.

─Ele conversou alguma coisa com você?

─Que tipo de coisa?

─Bom, nada em especial. – digo tentando mostrar desinteresse. ─Bom... ele conversa assuntos pessoais?

─Sobre vocês dois? – essa garota é esperta.

─Err... bom, mais ou menos.

─A relação esfriou, foi isso? – me surpreendo e volto a encara-la, como ela sabia?

─Como você...?

─É fácil deduzir, o senhor anda meio deprimido ultimamente, e não é por causa do seu livro, já que tudo tem seguido bem, nem deve ser cansaço, afinal eu sei como é estar cansada, então deve ser algo sobre seu relacionamento.

Permaneço olhando surpreso pra ela.

─Ah, não me olha assim Shun. Eu sou uma boa observadora, só isso.

─É tão obvio assim?

─Um pouco. – ela diz corada. ─Está com medo dele ter... digamos, mudado de ideia sobre o relacionamento?

─É que foi tão difícil conquista-lo, você não tem ideia...

─Eu sei, pro senhor ter tido tantos ciúmes de mim, então deve ter sido bem difícil mesmo.

Volto a olha-la.

─Admite senhor Shun... o senhor me detestava. – ela comenta.

Olho desafiador pra ela.

─E o que te faz pensar que mudei de ideia? – digo sarcástico.

─É que o senhor me trata bem agora. – ela diz rindo.

─Então antes eu a destratava? – digo indignado. Não é só porque eu a ignorava completamente que eu a destratava.

Ela volta a ficar envergonhada.

─É que... gosto do senhor, e o fato de antes não falar comigo me magoava... então isso é meio como me destratar. – ela diz baixando o olhar.

─Ah... errr... eu, me desculpe. — digo sem jeito, tenho que admitir que ela é bem franca... franca demais.

─Tudo bem... Agora o senhor gosta de mim, não gosta? – ela diz fazendo uma expressão pidona que ou me dava pena ou me fazia rir.

─Gosto, gosto sim. – digo sorrindo.

Vejo-a suspirar aliviada e só faço rir.

─Então... o Hyoga anda meio afastado ultimamente?

─É... ele vive trabalhando, quase não o vejo também. – digo triste.

─Como assim? Vocês dormem juntos, certo? – ela pergunta.

─Bom, sim, mas...

─Então vocês... – ela diz vermelha.

─É, nós não... – digo envergonhado também. ─Você sabe.

─Puxa. – ela diz um tanto surpresa. ─Ah, o Hyoga nunca fala de assuntos tão pessoais comigo, ele é meio tímido né? – ela diz torcendo o nariz.

─Às vezes vocês parecem tão amigos. – comento.

─É, ele age como se fosse meu irmão mais velho. – ela diz sorrindo. ─E eu... bom, eu gosto disso, gosto de ter alguém cuidando de mim, sou a mais velha dos meus irmãos, então sempre tive que cuidar deles, é bom estar do outro lado. – ela diz sem jeito.

Sorrio.

─Entendo... você o vê como um irmão também.

Digo e ele fica mais vermelha ainda.

─Não vai dizer isso a ele, vai? – ela diz preocupada.

─Não se preocupe, ele a vê assim também, literalmente.

─Sério? – ela diz animada.

─É como você falou, ele é tímido demais pra dizer isso a você.

Ela sorri mais abertamente. Não é tão ruim ter ela por perto, é bom ter alguém pra conversar.

Ficamos um tempo em silencio.

─Sabe Shun, acho que você está enganado sobre o Hyoga. – ela diz sorrindo e volta a me encarar.

─Enganado sobre o que?

─Acho que ele só está tendo muito trabalho ultimamente, não é como se ele estivesse ignorando você.

─Você não pensaria assim se estivesse no meu lugar.

─Você está exagerando. Tudo vai ficar bem, acredite. – ela diz animada.

Gostaria tanto de acreditar nisso. Suspiro e sorrio. Nada como a esperança dos tolos.

─Vamo brincar no escorrega de novo? – Miguel diz animado depois de seu breve descanso.

─Vai com ele por mim May? – digo cansado.

─Mas eu quero o Shu também. – ele resmunga.

─Tá bom, tá bom, mas só um pouco.

Esse garoto realmente tem um grande efeito sobre mim, me sinto mais animado só por estar com ele.

Depois de vários minutos no escorrega, na correria e rolando na grama eu o deixo brincando com a May e me distancio pra apenas observa-los.

Miguel tem uma gargalhada tão gostosa que faz qualquer um querer brincar também, mas eu estou tão cansado ultimamente, minha mente tem tentado incansavelmente se acostumar com a ideia que minha vida pode voltar a ser infeliz de uma hora pra outra.

Queria mais tempo, eu preciso de mais tempo.

.

Finalmente o senhor Nogushi voltou de suas longas férias, então Tomoe foi obrigada a finalmente tomar sua decisão. Graças aos céus ela me escolheu para ocupar o cargo de cirurgião chefe. Nishimura não ficou muito satisfeito, mas ele supera.

Estou animado, posso continuar com os preparativos da viagem. Agora vou contar ao Shun e tudo vai voltar ao normal. Tenho certeza que ele vai ficar feliz.

Pela primeira vez em semanas que chego cedo em casa, mas não tem ninguém, só podem estar no parque.

Avisto-os brincando na grama.

Shun, ele está lá, como imaginei que estaria...

Lembra que uma vez conversamos sobre borboletas no estomago Lilia? Acho que foi quando começamos a namorar, certo? Pois é, as minhas estão em alvoroço. Estou sentindo isso de novo. É amor, Lilia?

Talvez eu nunca entenda o real sentido das borboletas no estômago, da boca seca e joelhos frágeis. Ou talvez sejam as palavras mais ridículas do dicionário.

Eu poderia ficar uma eternidade aqui falando dessas metáforas, mas não quero, digo simplesmente que estou amando, e eu sei do poder que as palavras exercem sobre mim.

A verdade é que sempre me esquivei de qualquer pequena possibilidade de sentir algo parecido quando perdi você. Eu tive todos os motivos pra acreditar num sentimento que logo se foi, e foi sem me levar. Você foi sem mim. Acontece que eu nunca achei que isso realmente pudesse acontecer, mas aconteceu não é?

Achei que talvez eu nunca mais pudesse amar de novo. Eu me enganei. E não me arrependo. Quero o frio na barriga, a emoção de primeiros encontros. Quero escrever mais que palavras de desculpas, textos sobres finais sem fim, quero mais que arrumar coragem pra terminar. Quero coragem pra começar.

Eu te amo Lilia, amo o Miguel, e acho que agora também amo o Shun, pois sinto borboletas quando estou com ele, minha respiração fica mais rápida, minhas mãos tremem e vejo todo o resto do mundo parar. A ultima vez que senti isso foi com você, mas já passou. Você me disse que eu deveria tentar de novo, agora entendo o que você quis dizer.

Então eu me darei outra chance, preciso dessa chance, quero ver se é verdadeiro. Quero saber se me fará cair e me levantar como acontecia quando eu estava com você, quero saber se é apenas uma ilusão ou se realmente estou sentindo isso de novo. Eu nunca me perdoaria se não tentasse. Estou com tantas expectativas. Eu te amo tanto Li, mas quero recomeçar, quero ser feliz de novo.

Nunca me esquecerei de você, do fim do verão, dos sonhos e dos planos. É bem difícil segurar as lagrimas e sorrir ao dizer adeus, não é?

Minhas memorias mais belas, você faz parte da maioria. Finalmente vou deixa-la ir, já é hora de seguir em frente. Estou feliz de realizar seu ultimo desejo. Estou feliz.

Shun brinca com eles como se fosse uma criança também. Rola na grama, corre, ri, e age como se tivesse menos de sete anos.

Há muitas coisas que amo no Shun, e essa personalidade infantil e carismática é uma das melhores que posso citar.

Ele tem um lindo sorriso, porque demorei tanto pra perceber isso?

O rosto corado, a risada contagiante, o jeito despreocupado.

Miguel se identifica tão bem com ele. É como se se entendessem apenas com gestos, lembro- me da época em que eu e o Shun tínhamos essa cumplicidade tão enraizada que às vezes bastava um simples olhar pra desvendarmos um ao outro.

Naquela época o Shun já era o Shun que eu amo agora. Então o que mudou?

Demorei tanto pra moldar esse sentimento, e vejam só no que se transformou... em amor.

Ele me completa, alguém com que eu me importo tanto quanto meu filho, o que é perfeito já que Miguel parece ter adotado Shun como seu pai também.

É claro que a visão que ele tem por mim como pai nunca vai ser substituído pelo Shun, mas posso afirmar que o sentimento se aproxima bastante disso.

Miguel ainda tem muito que viver, e com o tempo vai descobrir que o tipo de amor que tenho pelo Shun é tão puro quanto o que eu senti pela mãe dele, talvez ele demore bastante pra enxergar dessa forma, mas quando finalmente puder vou ter orgulho dele, pois saberei que se tornou um homem completo.

Não tenho mais qualquer duvida quanto a esse sentimento.

Sei o que é, e vou investir nele e vai ser tão puro quanto o que eu sentia pela Lilia, será de todo meu coração, de toda minha alma, tenho plena certeza que faria tudo por ele. Pois eu o amo.

Shun continua brincando com a May e o Miguel. Em pensar que há alguns meses atrás ele detestava a May.

Certa vez a Mai até conversou comigo a respeito dele.

~~

─Hyoga.

─Hum. – ela me chama uma vez em que eu estava na cozinha analisando mais alguns prontuários enquanto o Shun estava brincando na sala com o Miguel.

─Posso falar com você um instante? – ela pede sem jeito, ela sabe que não precisa mais ser tão formal comigo, mas ainda insiste em ser assim quando o Shun está por perto.

─Fala. – digo ainda concentrado nos prontuários.

─É sobre o senhor Shun. – ela diz sem jeito sentando-se na cadeira perto de mim.

Tiro os óculos e olho sério pra ela lhe dando finalmente atenção. Já imagino o sobre o que ela quer falar.

─O que tem ele?

─É que... bom... porque... porque ele me detesta tanto? – ela pergunta triste.

Suspiro.

─Ele não te detesta Mai. – digo pacientemente.

─Mas então porque ele me trata tão friamente? – ela diz fazendo um biquinho, ela é adorável às vezes.

─Veja bem, querida... digamos só que o Shun não simpatizou tanto com você. – tento ser mais condescendente ao tentar lhe explicar que o Shun tem um ciúme doentio por causa dela.

─Mas por quê? – ela insiste.

─Você entende que eu e o Shun estamos... err...

─Namorando? – ela completa com um olhar inocente.

─É... digamos que sim. – odeio conversar sobre esse tipo de coisa. ─Então, de certa forma, ele sente que você é uma ameaça.

─Ameaça?

─Ele tem ciúmes de você comigo. – digo logo.

Ela me olha surpresa e confusa. Com um olhar que mostrava sua tentativa de assimilar aquilo.

─De mim com vo... – ela diz surpresa. ─Mas porque ele teria? – ela diz exaltada.

─Entenda o lado dele Mai, é difícil pra ele engolir uma garota perto de mim, mesmo que sem más intenções. Nós passamos por muita coisa, é natural que ele ainda se sinta inseguro. Pode entender?

─Bom, você é tão legal comigo. – ela comenta refletindo. ─É por isso? – diz voltando a me encarar.

─Mais ou menos.

─Então... vai me dispensar? – ela diz relutante.

─Claro que não, já conversamos sobre isso. O Miguel te adora, precisamos de você e além do mais eu gosto muito de ter você por perto.

─Gosta?- ela diz sorridente.

─Bom... err, sim.

Ela permanece me olhando sorridente.

─Alexei, eu gosto muito de estar com vocês também. É o melhor emprego que eu já tive, e eu sei que não encontraria esse tipo de tratamento carinhoso que você tem por mim com mais ninguém, adoro todos vocês, até mesmo do senhor Shun. – ela diz sorridente. ─Ficaria muito triste se acabasse. – ela suspira.

Sorrio.

─Fique tranquila May, vou conversar com o Shun. – confirmo e recebo mais um sorriso dela. Realmente adoro essa garota, é quase como se eu a visse como uma... irmã.

─Obrigada Hyoga. – sorri como uma garotinha.

Definitivamente a considero como parte da família.

Conversei com o Shun e depois de muito protesto ele resolveu dar uma trégua com as implicâncias com a May, e passou a tolera-la mais, e vejam só agora. Já são até amigos.

~~

Shun finalmente se cansa de tanto brincar com o Miguel e o deixa se divertindo com a May.

Ele os observa de longe, assim como estou fazendo agora. Vem se sentar um pouco mais perto, acho que ele ainda não sentiu minha presença e isso me permite observá-lo anonimamente.

Vendo-o ali sentado, distraído e perdido em pensamentos enquanto contempla a brincadeira do meu filho, me faz perceber o quanto ele ama o Miguel e aprecia cada segundo com ele.

Realmente não me falta nada. Tenho tudo que preciso em minhas mãos.

Todos que amo estão ao meu alcance. Eu os amo tanto.

É hora de dizer isso a ele.

.

Nem sei quanto tempo fiquei observando a brincadeira deles.

Suspiro triste, gostaria que o Hyoga estivesse aqui. Gostaria que parecêssemos mais com uma família.

Sinto alguém se aproximar.

─Tarde agradável, não acha? – ele comenta.

─Hum.

─Oi, meu nome é Isumi. Está sozinho aqui? – o sujeito pergunta e quando finalmente me dou ao trabalho de encara-lo vejo que está sorrindo.

─Estou com minha família. – digo sério.

Sério mesmo isso? Nem acabei com meu atual relacionamento e é como se o destino já me empurrassem novas opções.

Até que o sujeito era simpático, mas ele nem se compara ao Hyoga.

─Onde estão? – ele pergunta curioso.

─Bem ali. – digo apontando pra Mai e pro Miguel.

─É sua esposa? – ele pergunta um tanto decepcionado.

─Uma amiga. – digo novamente sem encara-lo.

Achei que minha indiferença já deixaria na cara que não estou pra conversas, mas o sujeito era bastante insistente.

─Amiga. – ele repete e vejo que volta a sorrir, me arrependi do que disse, deveria ter confirmado que a Mai era minha esposa que ele já teria saído do meu pé. ─E o garoto? – ele pergunta.

─Meu filho. – não é propriamente uma mentira, afinal eu ainda estou oficialmente com o Hyoga, certo?

─Desculpe, mas ele não se parece em nada com você. – o sujeito comenta rindo, babaca!

─Parece comigo então. – ouço repentinamente uma voz atrás de mim e uma batida me falta, é ele.

Estava bem sério de pé atrás de mim. Faz tanto tempo que não o vejo assim, uma saudade incontrolável se apossa de mim e tento conter meu grande ímpeto de me jogar nos braços dele naquele momento.

─Quem é você? – o sujeito pergunta aborrecido, será que ele não se toca que está sobrando aqui?

─Hyoga. – digo sorridente. Admito, tenho um fraco incontrolável por ele.

─Oi. – ele diz sorrindo. Pode ser o sorriso mais simples do mundo, mas pra mim é o mais lindo que existe.

Sentou-se ao meu lado, estava ainda com a roupa do trabalho, com a diferença que tinha tirado a gravata e o paletó estava apoiado em seus ombros.

─Quer alguma coisa? – Hyoga pergunta com total indiferença pro sujeito que eu quase me esqueci de que estava ali.

Hyoga me abraçou pelos ombros e o sujeito o olhou mais aborrecido ainda pra em seguida se retirar resmungando.

─Chegou cedo. – comento sem jeito enquanto ele desfaz o abraço, não me surpreendo, ele nunca demostra afeto em publico, se bem que ele o fez agora, talvez apenas pra se livrar daquele sujeito, não que ele estivesse com ciúmes, ou estava?

─É. – ele diz olhando pro Miguel brincando e que até então não tinha notado o Hyoga ali.

─Parece que não nos vemos há décadas. – ele comenta do nada e me encara.

Ah, e de quem é a culpa?

─É, você tem trabalhado bastante. – digo, mas logo me arrependo. Droga, estou colocando as cartas na mesa, não quero falar sobre isso, falar seria como agilizar minha saída da vida deles.

─Tive meus motivos pra isso. – ele diz sério. ─Vou lhe contar agora.

Não, não precisa. Fico alarmado, mas não há como fugir dessa realidade.

─Acho que tenho ideia do por que. – arrisco.

─Tem? – ele diz surpreso e confuso.

─Sim, eu tenho percebido essa mudança nas ultimas semanas. – comento.

─Como descobriu? – ele continua surpreso.

─Ora Hyoga, qualquer um no meu lugar perceberia. – comento, ele acha que sou burro por acaso?

─Desculpe. – ele diz até que arrependido. ─Não queria que fosse assim, mas as circunstancias...

─Tudo bem Hyoga, as coisas são como são, não podemos achar que somos capazes de controlar tudo a nossa volta. – especialmente o coração. Não é culpa dele não conseguir me amar, mas é culpa dele sequer ter tentado.

─Bom, eu tentei de outra forma. – ele tenta se desculpar.

─Tentou mesmo? – digo extremamente triste.

Ele acenou positivamente.

Quer dizer então que ele tentou mesmo, será que eu sou uma pessoa tão complicada assim que ele não foi sequer capaz de sentir que poderia investir algum sentimento?

─Mas ao menos deu tudo certo. – ele comenta sorrindo.

Fiquei pasmo, o que ele estava vendo de ‘tudo certo’ nessa situação?

─Como pode dizer isso? – digo indignado.

Ele me olhou confuso.

─Bom, porque está tudo bem, não está?

─Acha que está tudo bem pra mim? Tem ideia do quanto isso me afeta? –digo aborrecido e triste, como ele ousa encarar a situação daquela forma? Como ousa terminar comigo e dizer que deu tudo certo?

─Eu sei que fui relapso, mas é pro nosso bem Shun, achei que seria bom, principalmente pra você, pra dar um tempo disso tudo. – ele diz com uma expressão que não compreendia minha reação.

─E como isso pode ser bom pra mim? – digo irritado, ele sabe que eu o amo. Sabe que eu nunca aceitaria aquilo numa boa, como pode achar que me afastar deles seria bom pra mim?

Dar um tempo? O que isso quer dizer?

─Desculpe, essa não era bem a reação que eu esperava. – ele diz surpreso.

─E o que esperava? Que eu comemorasse? Que dissesse que tudo bem?

─Bom, sim. – ele diz simplesmente.

─Definitivamente você não sabe nada sobre mim Yukida. – digo irritado e sem mais conseguir conter minhas lagrimas.

─Eu realmente sinto muito Shun. – ele tenta se aproximar, mas eu me afasto, estou vulnerável demais agora e permitir que ele me ampare só vai me fazer piorar, já que tudo que ele está me dizendo agora é pra romper comigo.

Começo a chorar encolhendo meus joelhos e baixando a cabeça, não quero que ele me veja assim, mas que jeito humilhante de se terminar um relacionamento.

─Por que Hyoga?

─Hum?

─Por que tem que ser você? – digo voltando a olha-lo com lagrimas abundantes.

─Eu?

─De todas as pessoas no mundo, por que tem que ser você? – porque o destino é tão cruel comigo?

Ele continua me olhando confuso, é um tapado mesmo. Só balanço a cabeça e suspiro com as lagrimas ainda caindo. Não consigo nem encara-lo, ele é tão inteligente pra alguns assuntos, mas definitivamente é um completo idiota pra assuntos do coração. Idiota!

─Não achei que uma simples viajem seria tão ruim assim. Me desculpe. – ele diz arrependido tocando meu ombro.

Viajem?

─Viajem? Do que está falando? – digo voltando a encara-lo.

─Por isso trabalhei tanto nas ultimas semanas, agora que consegui o cargo de cirurgião chefe eu posso finalmente ter uma folga. Não achei que você tivesse mudado de ideia sobre visitar a América. – ele diz triste. ─Podemos escolher outro lugar então, o que você quiser. – ele diz triste.

Do que está falando?

─Trabalho? Folga? América? – começo a enumerar pra poder entender.

─Você tá tão estranho hoje Shun. – ele comenta ainda confuso.

─Espera aí. Do que estamos falando exatamente?

─Sobre a viagem, você disse que já sabia por que eu estava trabalhando tanto ultimamente.

Fico quieto um momento pra processar tudo aquilo.

Certa vez eu comentei com ele o meu desejo de conhecer a América... Ele me disse que estava disputando com outro sujeito pela vaga de cirurgião chefe. Disse que teria mais tempo livre se conseguisse a vaga e que seria bom pra todos nós... férias?

Volto a olhar pra ele, e sob seu olhar confuso eu finalmente entendo tudo.

─Você conseguiu a vaga de cirurgião chefe e finalmente vai ter uma folga? Então planejou uma viajem em família? – tento assimilar os fatos.

Ele acena ainda confuso.

─Quando você diz ‘dar um tempo’, você quer dizer ‘tempo do trabalho’?

─É. Do que mais seria? – ele confirma.

Céus, ele tem razão, eu nunca o deixo terminar de falar. Cometi a gafe do século.

Então isso quer dizer que...

─Eu entendi tudo errado. – comento olhando abobalhado pra ele.

─Como assim? Achou que viajaríamos pra outro lugar?

Ele parecia tão triste pela forma que eu o interpretei, ainda não entendia e eu me senti tão mal por tudo que pensei de errado.

Mayuri tinha razão, não era nada demais, eu estava interpretando tudo errado desde o inicio. Agora tudo fazia sentido. Fiquei semanas me martirizando a toa.

Oh, mil desculpas Hyoga.

Me jogo em seus braços e o abraço fortemente.

─Isso quer dizer que você ainda quer viajar? – ele pergunta surpreso com meu gesto.

─Nada me faria mais feliz Hyoga. Eu entendi tudo errado. – digo com minhas lagrimas voltando a cair. ─Err... desculpe. – digo sem jeito e o soltando.

Sempre evitamos qualquer tipo de contato em publico. Ele é sempre muito reservado. No máximo só temos intimidade na cama.

Ele ficou me olhando enquanto eu tentava enxugar minhas lagrimas, sempre fico sem jeito quando ele me olha assim.

Estranhamente ele volta a se aproximar e acaricia meu rosto, aparando minhas lagrimas e sorri ternamente. Fiquei muito surpreso, ele nunca fez isso, nunca sequer me tocava em publico. O que deu nele hoje?

Fico sem reação enquanto ele segura meu queixo me fazendo encara-lo.

Nunca me canso de olhar pro azul de seus olhos. Estava distraído em minha observação quando o ouço dizer algo.

─Eu te amo.

Já tiveram a sensação de estar em um universo paralelo, e seu corpo parece anestesiado, tudo se ouve longe e a única coisa que ainda permanece fixa é a imagem na sua frente.

Nesse momento, além da imagem da pessoa que amo, está também a sua voz e tudo que ecoa em minha mente nesse exato momento é sua ultima frase.

Acho que estou com uma completa cara de retardado olhando pra ele.

─O que disse? – pergunto ainda não acreditando.

─Eu te amo.

Continuo pasmo olhando pra ele. Ele ri.

─Certo, você quer algo mais oficial, é isso? – ele diz rindo.

Abro a boca pra responder, mais nenhum som sai, simplesmente estou incrivelmente surpreso.

─Certo. – ele diz ainda sorrindo, baixa o olhar inspirando e volta a me olhar.

─Shun, eu penso em você o dia todo. E quando eu não estou perto de você, tudo que eu penso é em estar perto de você. E quando você está perto de mim, eu me sinto como se estivesse em paz com o mundo todo. Eu ainda não sabia, mas antes de te reencontrar era como se eu estivesse morto, e você me salvou, porque quando eu te reencontrei tudo se renovou e eu voltei a viver, eu estava desesperado e você chegou com esse sentimento como um cobertor quente e me acolheu. Você me tirou da tristeza em que eu estava mergulhado, você me fez não esquecer, mas aceitar minha vida e ver que ela pode ser tão boa quanto eu quiser que seja... Eu sei que... que eu nunca vou pedir a Deus por nada, pois enquanto eu tiver você na minha vida, eu tenho tudo que sempre quis. E a única coisa que eu realmente quero fazer é passar o resto da minha vida com você, te fazendo tão feliz quanto você me faz. Porque eu te amo, Shun... eu te amo. – ele finaliza sorrindo.

Ele confirmou, confirmou. Fico atônito olhando pra ele, minhas lagrimas caem como cascatas.

─Diga alguma coisa, por favor. – ele pede sem jeito.

Não me importo com o lugar, com quem pode estar olhando, eu simplesmente me joguei em seus braços e o beijei com toda minha vontade.

Fui com todo meu peso pra cima dele que acabamos caindo juntos na grama enquanto eu ainda o beijava.

Nem sei quanto tempo isso durou, só sei que valeu a pena.

Quando dei por mim me separei bruscamente dele.

─Desculpa, desculpa. Mil desculpas. – digo sem jeito saindo rapidamente de cima de sua cintura e olho em volta, por sorte ninguém percebeu.

─Err... tudo bem. – ele diz sem jeito e corado.

Olho pra ele corado e simplesmente não consigo me conter.

É um sonho se transformando em realidade, quando achei que tudo iria desmoronar ele vem e me prova o contrario.

Novamente me jogo nele e começo a dar beijos em toda sua face.

─Eu também te amo, amo muito. – digo sem parar enquanto ele ri com minha atitude.

Seguro seu rosto e lhe dou mais um beijo intenso que ele corresponde sem reclamar.

─Que bom que está feliz. – ele diz tentando se levantar comigo ainda em cima dele. ─Desculpe ter demorado tanto pra lhe dizer isso. – ele diz arrependido.

─O importante é que você finalmente disse. – digo ainda abraçado em seu pescoço, simplesmente não consigo e nem quero solta-lo.

Minha vontade é tirar toda sua roupa nesse exato momento e ama-lo como eu bem entendesse, mas já estou exagerando só por apenas por beija-lo aqui na frente de quem quer que fosse.

─Me desculpe. – digo sem jeito e o soltando.

Olho novamente em volta, mas ninguém parece se importar de nos ver assim. Nem mesmo o Miguel e a Mai nos notaram ainda.

Ele continua me olhando fixamente, fico tão sem jeito quando ele faz isso.

Dessa vez ele mesmo se aproxima de mim, segura meu rosto e me beija carinhosamente. Sinto seus dedos deslizando por minha nuca, pelo meu pescoço enquanto seus lábios ainda encostados nos meus me enchem de um calor novo, sua língua apenas se insinua por meus lábios, sem fazer pressão. Ele nunca me beijou assim, nunca senti tanto amor e desejo em um simples beijo. Não adianta negar, ele sabe mesmo me deixar totalmente a sua mercê.

Encerramos o beijo e lentamente abro os olhos pra encara-lo. Ele sorri ternamente.

─Realmente amo muito você, meu anjo. – ele diz encostando carinhosamente o rosto no meu, posso sentir sua respiração quente, seu cheiro, ouvir sua voz sussurrada em meu ouvido. Céus, ele sabe que não resisto quando ele age tão carinhosamente.

─Papaa.

Como sempre...

Miguel vem correndo animado pra cima do Hyoga, então rapidamente nos soltamos.

─Filho. – ele diz sorridente acolhendo o filho.

─Hyoga. – May diz sorridente também.

─Oi Mai. – ele diz sorrindo.

Mai continua olhando sorrindo pra mim e pro Hyoga, acho que ela percebeu.

─Vocês er... querem que eu dê um passeio com o Miguel? – ela pergunta sem jeito.

─Hum? – Hyoga ainda não se tocou, às vezes ele é tão tolinho.

─Bom... quer dizer... vocês querem um tempo sozinhos?

─Não precisa May. – digo sem jeito também.

─Tempo?... Ah, não, não precisa. – Hyoga finalmente percebe. ─Vamos ficar por aqui mesmo, faz tanto tempo que não damos nenhum passeio todos juntos. – ele diz animado.

Ficamos toda a tarde por lá. Brincando, rindo, nos divertindo.

Pelas seis o Hyoga levou a May em casa, ele até perguntou se ela queria nos acompanhar no jantar, mas ela não quis, acho que pensou que estava atrapalhando alguma coisa.

E só pra variar o Hyoga nos levou pra jantar fora, achei ideal, afinal tínhamos muito pra comemorar. Só que ele não nos levou exatamente pra um restaurante, mas sim uma lanchonete do shopping que tinha perto do nosso prédio. Acho que às vezes ele tem uma vontade incontrolável de comer besteira, já que não costuma fazer isso com frequência.

─Adoro os sanduiches do McDonald’s. – ele diz de boca cheia pra em seguida engolir com um grande gole de coca.

─Céus, nem formos pra América ainda e você já tá se viciando nos hábitos deles. – o censuro.

Digo, mas admito que aquilo é mesmo muito bom. Infelizmente o Miguel teve que ficar na base de um simples sanduiche de queijo já que é alérgico a tudo mais.

─Hum. Hábitos gostosos. – Hyoga diz de deboche.

Tento intimida-lo com o olhar, mas nunca funciona, ao invés disso ele só ri.

─Você fica uma graça quando se faz de durão. – ele rindo enquanto ainda se acaba no sanduiche. ─E não me enche, estou com uma vontade de comer esse aqui faz tempo.

Suspiro. Bom, ele merece sua recompensa.

Ainda não sei como ele consegue se dividir entre comer e alimentar o filho. Miguel já aprendeu a comer sozinho faz tempo, mas o Hyoga ainda insiste que é necessário nessa tarefa, e afinal o Miguel sempre quer só um pretexto pra ter toda a atenção do pai.

É sempre hipnotizante observa-los. São tão lindos.

─Papa, o chichi tá olhando. – Miguel diz apontando pra mim.

─Liga pra ele não filho, ele tá de olho nos nossos sanduiches. – Hyoga brinca cochichando no ouvido do filho que só ri.

Só faço rir.

Depois dali nós ainda passeamos um pouco, acho que foi o primeiro passeio em família que temos há tempos.

Até aproveitei pra comprar uma roupa nova pra que eu usasse no dia do lançamento oficial do meu livro, que alias está logo aí.

Não é a primeira vez que fazemos compras juntos, e eu adoro fazer compras com o Hyoga e não é por causa de seu gosto criterioso e sugestões criativas, que afinal ele não tinha, mas sim por causa das brincadeiras. Sempre fingíamos dar corda pros assédios frequentes, até competíamos pra ver quem conquistava mais garotas. Que foi? Tive uma infância reprimida ora. Ainda tenho pensamentos e vontades infantis... e em minha defesa o Hyoga também é assim. Não tenho ciúmes, afinal agora eu já tenho certeza do que ele sente por mim.

─Não acho que ficou bom não. – Hyoga comenta a mesma frase que ele usou nos outros cinco ternos que eu experimentei.

─Aff. Qual o problema com esse agora? – digo impaciente enquanto olho pra seu reflexo através de um espelho grande na minha frente.

─Sei lá, não combina com você. – ele diz simplesmente, o terno da vez é cinza, tá até um pouco folgado, mas nada que uns ajustes não resolvam.

─Talvez algo mais casual? – a vendedora sugere. Não sei pra quem ela tá se derretendo mais, se pra mim ou pro Hyoga. Ela e as outras vendedoras que não tiram os olhos de nós desde que entramos.

─É um evento social. – Hyoga comenta a olhando.

─Ah, sim claro. – ela diz aos suspiros quando ele fala.

Ouvimos um barulho de vidro.

─Ah droga, Miguel! – Hyoga reclama indo ver o que foi que o Miguel quebrou dessa vez.

─É o irmãozinho dele? – a vendedora pergunta.

─É o filho dele.

─Filho?! – ela diz surpresa.

─Sim, não é pra menos que se parecem tanto. – digo rindo.

─Bom, é que ele parece jovem demais pra ter filho. Quantos anos ele tem, dezoito, dezenove?

─Vinte o oito. – digo rindo da expressão de surpresa dela.

─Então ele é casado. – ela murmura um tanto triste.

─Sim. – só não vou dizer com quem.

─E você? – ela volta a perguntar sorridente.

─Eu o quê?

─É casado? – ela pergunta enrolando as pontas do cabelo, pobre garota iludida.

─Solteiro. – digo piscando sugestivo pra testar o que ela pode fazer.

Ela abre um largo sorriso.

─Quantos anos você tem? – ela pergunta desconfiada.

─Vinte e sete. – digo e novamente rio da expressão de surpresa dela.

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Rapidamente ela dá um sorrisinho, acho que ficou satisfeita com a faixa etária, deve estar se assegurando que não está assediando um menor de idade.

─Sabe... Acho que ficou ótimo em você. – a vendedora diz enquanto vai passando as mãos pela minha cintura com o pretexto de ajustar o terno.

─Hum, acha? – digo em duvida.

─Que tal experimentar o de linho? – ela sugere buscando o terno.

─Hum, não sei. – digo olhando pra vestimenta em suas mãos. ─O que acha do de linho Hyoga? – pergunto enquanto o vejo um pouco distante disciplinando o filho com algo quebrado por perto.

─Horroroso. – ele diz me olhando brevemente e volta-se pro filho de novo. Suspiro.

─Seu amigo é bem criterioso. – ela comenta. Amigo? Ela que pensa.

─Pois é, mas eu vou experimentar esse sim. – digo já indo me trocar.

─Se precisar de ajuda no provador é só chamar. – ela diz com um sorrisinho.

─Ah... er... claro. Eu chamo. – o que há com as garotas de hoje em dia?

Mais algum tempo perdido, sendo assediados e quebrando coisas e acabamos não levando nada além de vários números de telefone.

─É impressão minha ou você estava mesmo assediando a vendedora Amamiya? – Hyoga diz desconfiado.

─É divertido. – digo rindo, ele estava mesmo com ciúmes.

─Hum, sei.

─Não acredito que saí da loja e não levei nada. – resmungo enquanto passamos olhando pelas vitrines de outras lojas.

─Levar não, mas pagar sim. Acredita que aquele vaso que o Miguel quebrou custava mais de duzentos mil ienes? – ele resmunga olhando torto pro Miguel enquanto o puxa pela mãozinha.

─Culpa sua, sabe que ele malina em tudo mesmo. – digo dando de ombros.

─Hunf... Que tal fazer um sob medida? – ele sugere.

─Não daria tempo. – digo pensativo.

─Acho que uma semana é mais que suficiente, afinal esse corpinho não precisa de tanto pano. – ele diz rindo fazendo cocegas de repente na minha cintura enquanto andamos.

Só faço rir. Ele é uma graça.

─E não sei por que essa dificuldade toda pra comprar um simples terno. – ele comenta.

─Fácil pra você que tem todas as suas roupas feitas sob medida. – resmungo também.

─Hunf. – ele nem discute mais, sabe que dessa vez eu tenho razão mesmo. ─Que tal aqui? – ele aponta pra outra loja. ─Prometo que vou ser mais tolerante. – ele diz.

─Tá bom. – digo ainda desconfiado.

Conversa fiada! Ele deu palpites em tudo, nada era bom o suficiente pra ele.

Dessa vez não ouve tanto assedio já que a maioria dos vendedores eram homens, então a compra não foi tão movimentada.

Finalmente escolhi o terno, e o Hyoga também aprovou apesar de ainda estar reclamando.

Fomos pra casa logo já que o Miguel já estava dormindo em sua cadeirinha.

Hyoga dirige sério e parecia um pouco sonolento também.

Olho pra ele concentrado, quieto. Céus, senti tanta falta dele, não dá pra acreditar que ele finalmente disse que me ama.

Gostaria de poder agarra-lo agora mesmo, sinto tanta falta de toca-lo.

Acho que ele percebeu meus olhares e se virou brevemente pra mim e sorriu. Ultimamente tenho percebido que ele tem olhado bastante pra mim também, e algum dia, certamente, irá olhar muito mais do que agora.

Sei o quanto isso é novo pra ele, sei que sou o segundo grande amor de sua vida e que entender esses sentimentos novamente deve ser muito difícil.

Esse tipo de coisa não é algo que se ensina, é algo que se sente. E imagino o quanto foi difícil pra ele finalmente entender o que sente sem confundir os outros sentimentos que ele tinha anteriormente por mim.

Somos uma família, somos um casal. E agora mais do que nunca posso vislumbrar o amanhã sem duvidas e receios. Posso enxergar um futuro em nossa relação.

Notas finais
Continua no próximo... ;)