Destino

16 Acerto com o passado


Notas iniciais
Oi gente (^_^) não se preocupem que eu não morri. ¬¬° desculpem a demora, eu ia postar esse capitulo sábado, mas minha net tava uma droga >:( eu disse que ia ser o final, mas acabei me empolgando demais e ficou muito grande pra ser o final, então ainda teremos mais um capitulozinho pela frente, quem sabe até o final de semana eu publique ele ;) Boa leitura :D

Aquela recaída depois daquele jantar foi um susto tremendo, tanto pra mim quanto pra Lilia.

Já se passaram três semanas desde a internação, mas ela quer ir pra casa. Está instável, revoltada e irritada com tudo e todos.

─Será possível que eu não posso ter vontade própria? – ela reclamava enquanto insistia em arrumar desesperadamente sua bolsa com suas roupas pra poder ir embora.

─Tem que continuar o tratamento Lilia. – digo calmamente tentando convence-la.

─Eu não quero passar meus últimos dias em uma cama de hospital Hyoga, será que você não entende droga! – ela gritava com as lagrimas caindo em abundancia.

─Espera Lilia, vamos conversar. – digo me aproximando.

─Sai de perto de mim. – gritou antes que eu desse mais algum passo.

Fico em silencio, e ela também. Estou tão cansado disso, quando ela tem esses momentos eu tento ser paciente, compreensivo, mas eu sou humano, droga. Sei que ela diz tudo isso com a força do momento, mas há limites que não posso ultrapassar, o fato de ela não me querer por perto me magoa pra caramba.

Continua aos soluços. Meu pager toca, um dos meus pacientes está tendo uma crise respiratória, tenho que voltar ao trabalho.

─Vai cuidar do seu trabalho e me deixa em paz. – ela sussurra ainda irritada.

Fico em silencio, sem saber o que dizer.

─É isso mesmo que você quer? – pergunto, ela sequer consegue me encarar. ─Quer mesmo que eu vá embora?

Ela permanece em silencio.

─Lilia? Onde pensa que vai? – Annia aparece nesse exato momento no quarto, chamei ela, sabia que precisaria de ajuda.

─Vou pra casa. – diz ríspida.

─Mas você não pode...

─Eu vou e ponto final. – ela retruca gritando com Annia também.

─Mas Lilia.

─Cala boca Annia, não acredito que você chamou ela, Hyoga. – ela ainda reclama.

Annia fica entre nós sem saber o que fazer, pude ver que estava aflita também.

O que devo fazer?

─Vou chamar um taxi pra te levar em casa. – digo friamente e recebo um olhar surpreso dela. Às vezes simplesmente não a entendo.

─Hyoga! – Annia tenta protestar.

Dou um ultimo olhar pra Lilia e me retiro aborrecido.

Chamei o taxi e ela realmente foi. Liguei pra Irina e ela confirmou que Lilia estava em casa, isso depois de tê-la espantado aos gritos também, sorte que o Miguel está com a Irina hoje, vai que ela comece a surtar com ele também.

Lilia precisa se acalmar, espairecer a mente, tenho que deixar a raiva dela passar pra poder voltar a me aproximar. Ela precisa de um tempo.

Chego em casa por volta das seis e a encontro encolhida em nossa cama.

─Será que podemos conversar agora? – digo aborrecido entrando no quarto.

─Me deixa em paz, você não me queria longe? Estou longe. – ela grita.

─Longe? Você que está me afastando. – digo ainda tentando manter a calma.

─Se já está cansado de mim então porque não me deixa de uma vez? – ela se levanta e me olha com as lagrimas caindo.

Está fraca, pálida, com os olhos vermelhos de tanto chorar e com a mesma roupa de hoje de manhã, o pijama e um sobretudo amassado.

─De onde diabos você tirou essa ideia estupida? – digo já gritando com ela também, nunca antes havia gritado com ela, estou no meu limite também.

Ela me olha surpresa.

─Você tem demostrado o tempo todo. Você me odeia. – ela diz aos prantos.

─Não diga idiotices Lilia. – grito. ─Estou cansado dos seus excessos, você vai arrumar a droga dessa bolsa e vamos voltar pro hospital agora mesmo. – ordeno.

─Não pode falar assim comigo, seu idiota! – ela diz aos soluços.

Estou exausto, são tantos problemas em minha cabeça. E ela ainda acha de dificultar as coisas interrompendo o tratamento. Não quero perde-la por causa de uma mera teimosia, por isso tenho que impor limites, se ela quer agir como criança então será tratada como uma.

─Sou seu marido, tenho todo direito. Agora pega essa droga de bolsa e vamos voltar. – digo ainda a olhando friamente, nunca antes direcionei um olhar assim pra ela.

Acho que é a primeira discursão que começo a reagir. Paciência tem limites e Lilia finalmente encontrou o limite da minha.

Em outras ocasiões, como na maioria das vezes, eu faria tudo que ela quisesse, faria todas as suas vontades, mas simplesmente não consigo manter a calma.

─Não vou a lugar nenhum com você... Acha que ficar deitada vai resolver alguma coisa? Você não sabe como é. Estou morrendo, o que você sabe sobre isso? – ela diz revoltada.

Na verdade eu sei, mas não vou dizer isso a ela.

─Acha que é fácil simplesmente ficar deitada naquela cama esperando a morte? – ela continua. ─O que diabos eu fiz pra merecer isso?

─Você não tem culpa de nada Lilia, ninguém tem culpa de nada.

─Então porque estou passando por isso? – ela diz inquieta indo de um lado pro outro no quarto.

─Não há uma resposta.

─Ah que incrível, o ‘sabe tudo’ do Hyoga não sabe a resposta. – ela diz sarcástica.

─Lilia...

─Você acha que está cansado? Tem ideia de como eu estou? – ela grita. ─Quer que eu torne as coisas mais fáceis pra você? Então tudo bem, vai embora e me deixa morrer de uma vez.

─Eu não vou a lugar algum. – grito. ─Estou fazendo o possível com o tratamento, estou fazendo o melhor que posso, você sabe muito bem disso.

─Que ótimo! Quer uma medalha? Quer que eu agradeça? Tudo bem então. Obrigada Hyoga. – diz furiosa. ─Agora vá embora, não preciso de você pra tornar minha morte mais dolorosa do que já está. – diz amargamente.

Não tinha palavras pra responder aquilo. Ela não me quer por perto, sou o marido dela e mesmo assim ela não me quer por perto. Sei que ela está zangada, sei que fala da boca pra fora, mas ouvir tudo isso dela me dói tanto.

─Se é isso que você quer então eu vou. – digo amargamente.

Ela me olhou muito surpresa e rapidamente mudou sua expressão pra zangada e magoada, passou por mim aos prantos. Pouco depois só a ouvi pegando sua bicicleta na garagem e sair.

Droga!

Perguntei aos vizinhos se a tinham visto, mas nessas horas todo mundo é completamente inútil, então tive que ficar boa parte da noite procurando ela sozinho.

Achei que ela estaria no lago, mas me enganei, fui à casa da Irina, no hospital, na casa do Adam e da Annia, mas ela não estava em parte alguma.

Estou exausto, triste, aborrecido e extremamente preocupado. Ela ainda está fraca e não é nada bom deixa-la andando por aí sozinha. Perdi minha esposa com câncer e raivosa por aí. Sou um idiota.

Novamente vim parar perto desse lago. A lua brilha como sempre, alheia a tudo, sento no banco suspirando. Fecho os olhos sentindo a brisa suave que vinha do lago.

Sinto alguém se aproximar e sentar-se ao meu lado.

É ela.

─Lilia! Você está bem? – me aproximo rapidamente dela pra verificar seu estado. Graças a Deus ela está bem.

Ela fica calada evitando me olhar.

─Você... Se encheu de mim Hyoga? – ela pergunta.

─O quê?

Ela ficou calada olhando triste pro lago. Suspiro e faço o mesmo.

─Eu nunca me cansaria de você, você sabe disso... Me desculpe por tudo que eu disse. – digo arrependido... Se quer mesmo que eu vá embora então vou fazer sua vontade. – digo triste, nunca antes me permiti demostrar fraqueza na frente dela, mas naquele momento eu simplesmente não consegui mais conter minhas lagrimas.

Não queria que isso estivesse acontecendo. Se eu pudesse trocar de lugar com ela, se eu pudesse fazer alguma coisa. Estou impotente, ela sequer que minha ajuda, não me quer por perto. Estou tão... infeliz. Por mim, por ela, por nossa família que está aos poucos entrando em declínio.

─Hyoga...

─Me desculpe, sou um fraco. – digo me virando e enxugando as lagrimas, não quero que ela me veja assim, tenho que ser forte, tenho que protegê-la, até mesmo de mim.

─Hyoga. – ela diz tocando em meu ombro e me puxando pra olha-la nos olhos. ─Eu que tenho que me desculpar. Sei que está se esforçando, e eu não estou reconhecendo isso e nem colaborando. Me perdoa meu amor. – ela diz e posso ver em seus olhos que diz a verdade. ─Não quero que vá embora, não quero que se afaste... mas é que tudo tem sido tão... difícil. – diz começando a chorar também. ─Me desculpe por estar descontando em você. – diz já soluçando.

─Tudo bem, eu entendo. Eu deveria estar sendo mais compreensivo. Me desculpe... por... por ter perdido a calma. – digo arrependido. ─Eu não devia ter gritado.

─Tudo bem... Eu merecia. Sei que fui irracional, você não merece isso Hyoga. É sempre tão maravilhoso comigo. – ela diz fungando. ─Até que fiquei feliz por você ter reagido ao menos uma vez. Ninguém é tão calmo assim, gostei de te ver mais... humano. – ela sorri sem jeito. ─Só me promete uma coisa. – ela pede.

─O quê?

─Não me olhe mais daquele jeito, por favor. – ela implora. ─Não suporto que me olhe tão friamente. Senti como se você não se importasse... como se não me amasse.

Suspirei. Não achei que essa seria a pior coisa que ela veria a me ver perder a calma.

─Prometo que nunca mais vou perder a calma. – digo acariciando seu rosto.

─Você é a pessoa que mais confio nesse mundo Hyoga. Sabe que eu te amo, não sabe?

─Sei. Também te amo. – digo a abraçando e a beijo com ternura.

─Andou bebendo? – pergunto incrédulo depois de sentir seu hálito.

─Só um pouquinho. – ela diz sorrindo sem jeito.

Olho desconfiado pra ela. Inclino o olhar e vejo a bicicleta rosa dela jogada de qualquer jeito perto do lago com uma garrafa de vodca vazia na cesta.

─Um pouquinho? Certeza? – digo rindo.

Ela me olha rindo fazendo um gesto de pouco caso.

Só balanço a cabeça rindo também. Lilia não é de beber, raramente ela o faz, mas é sempre socialmente. Fiquei até impressionado por ela não estar bêbada após acabar com uma garrafa sozinha, mas tenho que admitir que a situação pedia, depois daquela discursão.

Ficamos olhando a noite em silencio, comecei a aninha-la em meus braços.

─Você quer mesmo parar o tratamento Lilia? – digo depois de um tempo.

─Você quer que eu continue?

─Estou perguntando o que você quer. Não posso te obrigar a nada. – digo suspirando.

Ficamos calados por um tempo.

─Está com medo? – pergunto acariciando seus ombros.

─Estou. – ela sussurra.

─Olha... se quer qualidade de vida então pode ter... o que você quer fazer? – tento argumentar

─Hum?

─Realmente não quero que se martirize em uma cama de hospital Lilia... prometo que farei o que você quiser, mas por favor, dê mais uma chance ao tratamento, não quero perder você sem ao menos ter tentado.

─Eu...

─O que quer fazer antes? Quer viajar? Pular de asa delta? Escalar o Everest? Me diz.

─Escalar o Everest? — ela diz rindo.

─Eu vou com você, faço tudo por você, mas, por favor, Lilia, por favor, não desista. – imploro a apertando mais contra mim.

Ouço-a fungar.

─Eu não vou desistir. – ela diz finalmente. ─Não quero que acabe, quero ficar o máximo de tempo com você e com o Miguel... vou continuar o tratamento. — suspiro profundamente aliviado.

─Mas eu quero que faça uma coisa por mim. – ela pede.

─O quê?

─Promete que quando eu melhorar... eu vou melhorar... – ela diz decidida. ─Você vai me levar pra conhecer melhor seus amigos do Japão.

─Hum?

─Quero conhecer a todos, principalmente o Shun. – ela diz sorrindo.

─Ah, só isso? – digo rindo, pensei que ela pediria algo como pular de bungee jump de uma ponte a mil metros de altitude, se é que isso existe.

─Sim, nunca tivemos tempo pra isso... Ao menos uma vez, quero vê-los, quero conhece-los melhor.

─Tudo bem, eu prometo. Quando você melhorar. – digo mais tranquilo. ─Você vai melhorar. – digo e ela me olha e sorri pra em seguida me beijar com carinho.

Depois de longos e angustiantes quatro meses ela se foi.

Nunca chegamos a ir pro Japão. Me arrependi amargamente de não ter cumprido minha promessa, de realizar seu ultimo desejo antes que ela fosse. Ela tinha razão, o tratamento não funcionou, eu apenas prolonguei seu sofrimento. Isso faz de mim uma pessoa ruim? A culpa é minha?... A culpa é minha.

...

Já é tarde. Estou quase dormindo num banco perto da sala da diretoria do orfanato.

Ouço passos de alguém se aproximando. É ele.

─E o Ikki? — Hyoga perguntou sentando-se ao meu lado e me despertando de minha sonolência.

─De castigo. — digo esfregando os olhos.

─No, de novo? Poque dessa vez?

─Ele bateu no Nachi por ele ter me empurrado lá no pátio. — suspiro e deito minha cabeça no ombro dele.

─Nachi é um idiota. Da próxima vez sou eu que vou bater nele. — ele reclama. De certa forma esse garoto virou meu protetor assim como meu irmão.

─Vai ficar de castigo também, igual da vez que você brigou com o Geki. — digo confortavelmente acolhido no seu ombro.

─E você se machucou? — ele pergunta me empurrando do ombro dele pra me ver melhor.

─Só ralei o joelho. — digo bocejando e levantando minha perna pra ele olhar.

Olhei pra nossos pés que sequer alcançavam o chão.

─Nussa! Tá feio. — ele disse, ainda falava enrolado, tinha quase um ano que ele chegou aqui, mas ainda tinha aquele sotaque estranho que puxava o r.

─Nem tanto comparado ao Nachi depois da surra que nii-san deu nele. — digo e volto a deitar em seu ombro.

─Sai Shu. Vucê pesa. — ele reclama me empurrando de novo.

─Não. Para, fica quieto. — resmungo me mantendo teimosamente em seu ombro. ─Quieto Hyoga.

Ele bufou, mas ficou quieto.

Era um ano mais velho que eu, mas só era um pouco maior, porem isso não era problema na hora de brigar. Hyoga era tão forte quanto meu irmão, bom, nem tanto já que até hoje ele não ganhou nenhuma das brigas que eles dois começavam. Normalmente era por minha causa, sentia que meu irmão tinha ciúmes do Hyoga ser tão amigo meu.

─Você devia voltar pro seu quarto. Aposto que o Ikki vai demorar. – disse depois de um tempo.

─Não, vou esperar por ele aqui.

Ele suspirou.

─Tá. Vou ficar aqui com você.

─Canta? — peço me inclinado pra olha-lo com um sorriso pidão.

─No. — ele resmunga.

─Ah, por favor.

─No. No quero cantar hoje. — ele diz emburrado.

Resmungo me dando por vencido e volto a fechar os olhos. Estou com tanto sono.

Após um tempo em silencio ele começa a cantarolar bem baixinho enquanto iniciava um cafuné atrás da minha nuca.

─♪♫Boa noite, filhinho, boa noite.

Estou aqui e de você vou cuidar.

As estrelas, a lua prateada.

Eu e essa antiga balada.

Faremos cada sonho seu se realizar. ♫♪

Adorava ouvir ele cantar. Ele me disse que a mãe dele sempre cantava pra ele aquela mesma musica. Adoraria ouvi-la também. Queria ter tido ao menos a lembrança de já ter tido uma mãe.

Ele continuava cantarolando baixinho e eu acabei adormecendo de vez.

─Shun.

─Hum.

─Shun, acorda. — era meu irmão me sacudindo.

Despertei aos poucos e o vi com olhos irritados, normalmente ele era sempre mal humorado.

─Falei pra me esperar no quarto Shun. E ainda por cima dorme aqui com esse cabeça de gema. — ele resmunga e só agora que eu percebo que estou me apoiando no Hyoga e ele em mim, adormecido.

─Ei bobão. Acorda, anda. — Ikki resmunga dando um peteleco na testa do Hyoga.

─Ai! — ele resmunga ainda sonolento e tentando se localizar quando vai abrindo os olhos. ─Ah, já terminou o castigo cabeça de vento. — Hyoga provoca.

Era sempre assim, esses dois nunca vão se emendar, dois cabeças duras e brigões.

─Não te chamei pra me esperar cabeça de gema. — Ikki retruca.

─Não estava te esperando boboca, só fazendo companhia pro Shu.

─Porque eu não me surpreendo? -Ikki diz ainda irritado.

─Para nii-san, Hyoga só tava sendo legal.

Ikki suspirou.

─Tá bom. Vamos indo, todos já devem ter ido dormir.

Fomos seguindo pelos longos corredores escuros até os dormitórios.

─E como foi nii-san? – pergunto.

─O de sempre, só me fizeram ficar duas horas sentado olhando pro teto.

─O de sempre. — Hyoga disse com um sorrisinho irônico.

─Devia ter deixado pra lá. Soube que o Nachi vai passar a noite na enfermaria com um saco de gelo naquele lugar.

─Ah. Eu nem chutei com tanta força assim. — Ikki resmunga.

─Imagina se tivesse. — Hyoga comenta.

─Acho que você quer levar um chute também, oh loira.

─Para com isso, não sou uma menina. – Hyoga reclama.

─Se bem que parece. – meu irmão provoca mais ainda, Hyoga perde facilmente a calma com meu irmão.

─Ikki!

─Arrgg. Seu imbecil! – Hyoga se irrita de vez e empurra Ikki que acaba caindo.

─Hyoga! – digo.

─Ahh. Agora você vai ver. – Ikki avança no Hyoga e em menos de um segundo lá estavam os dois rolando no chão aos socos em mais uma briga.

─Parem com isso. – digo tentando separa-los.

─O que é isso? – o orientador aparece do nada no corredor.

Ambos paralisamos rapidamente.

─Mal saiu do castigo e já quer entrar de novo Amamiya? E você de novo também Yukida? Ah Shun, porque não fico surpreso de você estar aqui também. – ele diz sarcástico. ─Os três pra minha sala, agora! – ele grita.

─Mas já passam das dez. – digo muxoxo.

─Não pode nos colocar de castigo tão tarde. – Hyoga reclama também ainda no chão com o Ikki que está posicionado pra lhe dar um soco.

─Calem-se! Andem logo, pra minha sala. – ele volta a advertir.

Suspiramos irritados e já estávamos todos na detenção.

Uma sala ampla e nós em três cadeiras alinhadas no canto da sala, o orientador lia um livro grande na mesa dele do outro lado da sala e nos vigiava emburrado.

─Satisfeito cabeça de bagre? – Hyoga resmunga pro Ikki ao lado dele.

─Olha quem fala, isso é culpa sua, cabeça de gema. – Ikki resmunga também.

─Sshhhh. – o orientador resmunga olhando por cima do livro.

─Já chega, estou cansado das brigas de vocês. – digo também.

─Ele que começou. – os dois dizem ao mesmo tempo apontando um pro outro.

─Shhhh. – o orientador volta a resmungar.

Nos calamos emburrados. Droga de castigo. Que espécie de orientador coloca pobres órfãos de castigo numa hora dessas? Não é pra menos que sejamos um bando de perturbados.

Passada uma hora, eu acho, acordei com os chamados do orientador, acabamos nós três aconchegados e dormindo um no ombro do outro, na hora do sono mesmo cabeças duras como o Hyoga e o Ikki acabavam se entendendo.

─Podem ir, já estão dormindo mesmo. E que não se repitam mais brigas como aquela, entenderam?

─Sim, senhor Yagami. – resmungamos e fomos pros dormitórios.

Hyoga dividia um quarto com Shiryu e Seiya, que por incrível que pareça não estava de castigo hoje. E eu e o Ikki dividíamos um quarto com o Jabu.

─Konbanwa. – dissemos juntos antes de seguirmos pros nossos respectivos quartos.

─Ah Hyoga! – o chamo antes dele entrar em seu quarto.

─Hum. – diz sonolento esfregando os olhos.

─Arigatou. – digo sorrindo.

─Как? – fica confuso.

─Por cantar pra mim. – explico.

─Ah, tô te acostumando mal. – ele diz sem jeito.

─Gosto de ouvir sua voz. Poderia cantar pra mim mais vezes? – peço sorrindo, ele sempre acaba cedendo comigo.

─É, quem sabe. – ele diz bocejando.

─Promete? – insisto.

─Tá, juradinho de coração. – ele diz rindo fazendo um gesto peculiar.

─Entra logo! – Ikki resmunga me puxando pelo braço pra dentro do quarto dando um ultimo olhar irritado pro Hyoga que apenas retribui a gentileza.

Dou um ultimo aceno pro Hyoga.

No fundo sempre tive medo das coisas mudarem, apesar das implicâncias e das brigas, eu adorava aquela rotina, éramos nós cinco, e desde que o Hyoga entrou no grupo tudo mudou, pra melhor. Eu o adoro.

.

Lembro-me daquela canção, sabia que lembrava dela de algum lugar. E ela ainda ressoa em minha mente como se eu o estivesse vendo tocar agora mesmo, e o ouvindo cantar ao mesmo tempo, com sua voz calma, melodiosa e infantil... pra mim, só pra mim. Como se o passado conciliasse espaço com o presente e me desse esse contraste tão singelo... e isso vai me despertando aos poucos de um sono pesado de volta a realidade.

E como num daqueles sonhos estranhos onde nós acordamos e pensamos ainda estar dormindo por causa da situação pra lá de surreal que nos encontramos, eu despertei. Pelo menos eu acho que sim.

Acordei ou ainda estou sonhando?

Estou nu, abraçando o corpo, também nu, do Hyoga? Só pode ser um sonho. Tá certo que estávamos cobertos, mas eu sei qual a nossa situação por baixo do lençol e isso só comprova toda a nossa noite, realmente aconteceu.

Recordo-me de estar num salão à procura do meu amigo Shiryu e depois dali tudo mudou. Minha vida agora é outra. Quem diria, depois de dez anos estamos juntos de novo, não como antes, mas o que importa é que estamos aqui.

Nos últimos meses, desde que reencontrei o Hyoga, não sei quantas vezes fantasiei com esse momento, tantas vezes que eu perdi até a conta. Isso aqui, agora, é a realidade.

Não sei como devo reagir, estou feliz, estou ansioso, estou tão contente, mas também tenho medo, e já é bem notável do que seja.

Ontem foi tão maravilhoso. Eu o amo, amo tanto, mas me sinto inseguro com esse futuro que bate minha porta, mesmo que eu o enxote da minha mente esse pensamento ainda me assombra. Hyoga não me ama, isso é um fato, e fatos não são consternáveis.

Contornei com meus dedos a lateral do seu perfil. O simples pressionar do meu dedo em sua pele branca já deixa o local avermelhado por um instante até desaparecer.

Por tanto tempo, mais tempo do que ele possa imaginar, talvez ainda maior do que ele possa imaginar, eu estive apaixonado por ele. Será que ele pode entender o quão é importante pra mim? Será que tem ao menos ideia do quanto?

Olho pro seu corpo e não acredito que fui eu mesmo que o marquei tanto, e ele não me deixou em situação diferente. Sem duvida hoje é o dia de usar gola alta.

Como é possível que tenha tanto sono? Provavelmente ainda é bem cedo, dá pra ver pelo pouco barulho que vinha de fora, mas ele já dormiu tanto ontem.

Qual vai ser a reação dele quando acordar?

Me inclinei e beijei de leve seus lábios, mais ousadamente os pressionei, e em um segundo já o beijava com toda vontade que eu tinha, não consigo me conter.

É claro que isso o acordou, no susto inclusive.

─Hum? – resmungou quando acordou de vez e sobressaltou-se.

Me olhou sobre ele e levou alguns segundos pra acordar pra realidade.

Suspirou e afundou novamente a cabeça no travesseiro fechando os olhos novamente.

─Diga que não vai me acordar no susto assim todas as manhãs. – ele diz ainda sonolento.

Abriu os olhos e finalmente sorriu pra mim.

─Todas as manhãs. – digo rindo.

Me mantenho sobre ele, o olhando nos olhos ternamente, sem dizer nada, o que é preocupante já que há tanto a se dizer, pelo menos da minha parte.

Quero dizer que o amo, abro a boca algumas vezes pra pronunciar isso em voz alta, mas acabo desistindo todas as vezes, isso está me sufocando. Até então eu ainda não disse a ele com todas as letras, bom, não de um jeito não tão dramatico. Ele sabe, eu sei que ele sabe, e ele sabe que eu sei que ele sabe.

Sei também que ele teme em me ouvir dizer isso, seria como um balde de agua fria que o leva pra uma nova realidade que até dois dias atrás ele tentava evitar, pois há dois dias atrás ele ainda queria com todas as forças se manter preso ao passado, e eu sei que uma parte dele ainda quer estar com ela, ter desesperadamente ela de volta, e a outra parte quer muito seguir em frente, e eu sou a porta que ele tem tentado manter fechada.

Será que ele a abriu definitivamente? Difícil dizer, talvez só quando ele me amar, se é que vai conseguir, suas raízes são profundas, eu, mais que todos sei disso.

Ele percebeu minha angustia, será que minhas expressões são tão transparentes assim?

─Diga... se quer tanto, então diga. – ele diz sério.

─Eu te amo. – digo finalmente sem rodeios, não há uma resposta de volta, mas eu já me sinto aliviado apenas por poder liberar aquilo.

Ele permanece sério me olhando, abre a boca pra dizer alguma coisa, mas desiste. Suspira e desvia o olhar do meu.

─Dormiu bem? – ele pergunta do nada, e volta e me olhar e sorrir... Tudo bem.

─Há dias não durmo tão bem. – digo sorrindo e voltando a deitar no peito dele. ─Obrigado pela noite maravilhosa.

─Eu que agradeço. – ele diz ainda sorrindo, deveria ser ilegal ter um sorriso tão lindo.

─Você... gostou? – pergunto sem jeito.

─Bom, duas vezes seguidas, depois de tanto tempo... não tenho do que reclamar. – ele diz rindo.

Mesmo ainda sem jeito acabo rindo com ele.

Me aconchego em seu peito e inspiro mais suavemente.

─Foi estranho pra você? – pergunto. Sei que foi, mas quero ouvir o argumento dele.

─Bom... sei lá, eu que tenho que perguntar isso não? – ele tenta escapar.

─Por quê?

─É que... eu machuquei você? – ele diz receoso acariciando minhas costas.

─Dói um pouco no inicio, mas melhora depois... e como melhorou. – digo insinuantemente pressionando minha perna entre as dele, sentindo sua ereção matinal e esfregando a minha contra ele, seria uma boa hora pra uma nova rodada, não é?

Me inclino pra olha-lo e ele sorri insinuante também e puxa minha nuca pra me dar um beijo carinhoso.

Em menos de um segundo me vira de lado ficando sobre mim e intensificando ainda mais o beijo ávido. Passava a mão pelo meu corpo, descendo pela minha cintura e quase chegando onde interessa. Apertei meus dedos em suas costas, o mantendo bem firme em meus braços.

─Papaaaa! – ouvimos o barulho repentino de batidas insistentes na porta.

Hyoga sobressaltou no mesmo instante rompendo o contato que estava pra lá de bom.

Paramos um segundo pra ouvir novamente, só pra confirmar que tínhamos sido interrompidos, ou mesmo pra ‘lamentar’, essa soou melhor.

─Papaaaa! – já estava até choramingando, menino mimado e obcecado pelo pai. O que posso dizer, é verdade mesmo ora.

─Desculpe. – ele disse suspirando e afundando o rosto entre meu pescoço por um segundo pra depois me dar um beijo delicado no rosto. Achei o gesto tão singelo e doce que não pude me manter irritado, Hyoga é perfeito.

Ele levantou-se e vestiu sua calça moletom que catou no chão. Olho em volta. Cara, fizermos uma bagunça, parece que um tornado passou por aqui e espalhou nossas roupas por toda parte.

Abriu a porta onde o Miguel já estava quase chorando.

─Papa. – disse muxoxo.

─Pronto, pronto. Tô aqui. – Hyoga disse com a voz mansa e pegando o filho no colo que já estendia os bracinhos com antecedência.

─Papa fecho a porta. – ele resmunga todo dengoso apertando os dedinhos nas costas nuas do Hyoga.

─Não querido, ela sempre vai ficar aberta pra você. Eu só estava ocupado. – consolava o filho enquanto já saia com ele do quarto sem permitir que o menino olhasse dentro.

É, faz sentido.

Antes de ir ele ainda me dá um aceno pra que eu me arrume.

Suspiro e me jogo de novo na cama.

Hyoga não pertence somente a mim. Vou ter que me acostumar com isso.

...

Novamente não tenho nenhum pesadelo. Fico feliz com isso. Está dando certo.

Acordo no susto com o Shun me beijando, isso não é tão romântico quanto se pensa, depois de tanto tempo dormindo sozinho e de um dia pro outro acordar com alguém forçando a língua contra seus lábios não é muito comum.

Shun estava mesmo apaixonante, tem sido cada vez mais fácil aceita-lo.

Sei que ele quer dizer, mesmo ontem.

Porque impedi-lo? Se quer dizer então diga, ora.

─Eu te amo. – ele diz sem rodeios.

O que posso responder? Não conheço o roteiro de algo que não sinto.

Queria tanto dizer que também o amo, mas não é verdade. É cedo demais pra isso, é cedo demais pra ama-lo.

Ao menos dizer pareceu alivia-lo um pouco, pude ver em seus olhos.

Perguntei se dormiu bem, pra quebrar o silencio, pra romper o momento constrangedor.

Eu ainda estava inseguro com a noite anterior, não acredito que fiz mesmo sexo com o Shun. Parecia algo tão surreal, tão fora de contexto. Aquela versão não parecia se encaixar em minha vida. Não! Tenho que parar com isso, tenho que parar de fingir que nada novo me pertence, eu também mereço ser feliz, droga! Quer dizer... acho que sim.

Aquele era só o começo, o tempo muda muitas coisas, e eu vou fazer acontecer, me darei uma chance, e já tenho sorte de ter alguém que me ame tanto, só falta a minha parte. Sei que um dia irei ama-lo, vou me esforçar pra isso.

E céus, era mesmo maravilhoso beija-lo, só de vê-lo tão lindo daquele jeito, tão quente, abraçado a mim, já me deixava excitado.

Se eu for suprir toda a falta de sexo nesses meses não vou deixar o Shun sossegado. Se ele queria então agora vai ter.

Do nada somos interrompidos pelas batidas insistentes do Miguel na porta. Sorte que me lembrei de fecha-la ontem, imagine se ele abrisse e entrasse como sempre, o susto que ia ter me vendo dormir com o Shun, daquele jeito. Não, se é novo demais pra mim, imagine pra ele.

Então procurei poupa-lo dessa realidade por enquanto.

Por mais que eu quisesse continuar na cama com o Shun e terminar aquilo no chuveiro eu não podia. Meu filho vem sempre em primeiro lugar.

...

Após me forçar a terminar aquilo sozinho no banheiro o Hyoga voltou pro quarto com o Miguel, e depois de uma manhã inteira dando atenção ao filho ele voltou pro hospital.

Droga. Queria outra vez, mais tarde ele não me escapa.

─Oh Miguel. – o chamo enquanto ele brinca com uns dados grandes no quarto dele.

Ele me olha.

─Quer passear? – pergunto sorrindo. Quero ocupar minha mente com outras coisas até a noite quando vai ser a cirurgia do Andrey. Quero estar ao lado do Hyoga num momento como esse, então tenho que estar no meu melhor estado emocional.

Miguel me olha sorridente e ansioso. Ótimo. Então saímos pra um passeio por Moscou.

...

Cheguei ao hospital e fiquei com Andrey enquanto Irina foi em casa pra descansar um pouco.

Ele estava dormindo profundamente. Os batimentos eram fracos, mas regulares, estava fora de risco por enquanto, mas não posso deixar de me preocupar, fazer uma cirurgia de risco nesse estado não é nada bom.

─Hyoga. – ele sussurra ainda de olhos fechados.

─O que foi Andrey? – pergunto me aproximando do leito.

Ele entreabre os olhos, parecia tão fraco.

─Não é culpa sua. – ele começa a falar.

─Hã? – me surpreendo com suas palavras e fico em expectativa.

─Ela se foi no verão... – ele fala tão baixo. ─... Se foi no verão pra que você se lembre de que tudo se renova. – ele diz.

─O quê?

─Não precisa odiar nem lamentar o presente, nem o passado. – ele diz com a voz fraca. ─Tudo vai ficar bem. O verão abre portas pra novas oportunidades. Tem que se lembrar disso. – ele começa a ficar cansado.

─O que está dizendo Andrey?

─O lago. – ele diz um pouco antes de voltar a adormecer.

─Andrey! – tento acorda-lo. ─Andrey!

─Hyoga? – Adam diz na porta estranhando minhas tentativas de acordar um moribundo.

─Ele falou que... ele disse... – fico confuso e atordoado.

─O quê? – ele fica confuso com minha aflição.

─Eu...

Ele suspira balançando a cabeça.

─Pensei que estava descansado. – ele diz indiferente e verifica o estado do Andrey enquanto permaneço o olhando confuso. Aquilo realmente aconteceu? Ele disse mesmo o que eu achei que disse?

─Porque diz isso?

─Andrey está sedado desde cedo Hyoga, não tem como ele ter dito alguma coisa. – ele diz sorrindo. ─Você devia estar sonhando.

─Mas ele falou. – digo confuso.

─Sei, sei. – continua descrente. ─Quer comer alguma coisa? – ele pergunta sorrindo depois que termina.

─O quê? – eu estava distraído olhando pro Andrey.

─Se você quer comer alguma coisa.

─Eu... não, eu só...

─Você tá estranho. – Adam diz me olhando estranho.

─Mas ele falou. – digo teimosamente. ─Não sou maluco.

─Eu não disse isso.

─Mas tá insinuando. – digo emburrado.

─Tá, então como ele falou se colocamos uma sonda respiratória nele ontem a noite? – ele pergunta apontando pro Andrey com a mascara de oxigênio. De onde saiu isso?

─Mas... Como? – olho bem pro Andrey. Estou ficando maluco?

─Certo, certo. – ele diz sorrindo. ─Vamos, você precisa relaxar. – diz sorrindo me levando pra fora do quarto.

Fico pensativo enquanto o Adam toma um café e tagarela sem parar.

─Entendeu? – ele pergunta.

─Hum? – olho confuso pra ele.

─Estou explicando os procedimentos da cirurgia. – ele diz aborrecido. ─Não estava prestando atenção?

─Estava... quer dizer... mais ou menos.

─Tá, o que foi que ele disse então? Se é que disse alguma coisa. – ele diz revirando os olhos, ainda descrente.

─Disse sim. – resmungo.

Ele só balança a cabeça.

─Ele disse algo sobre o verão, que tudo se renova... que não era culpa minha. – digo pensativo. ─Sobre o lago... o lago? – estou falando comigo mesmo enquanto ele me olha confuso.

─O lago. – digo voltando a olha-lo.

─Hum?

─Preciso ir. – digo já me levantando.

─Mas...

Sigo sem dar a ele a chance de protestar.

Vou pra casa, que estranhamente está vazia. Onde estão o Miguel e o Shun?

Subo pro quarto e pego o envelope.

Por tanto tempo, mais do que posso me lembrar, eu pedi. Pedi por algum sinal, qualquer coisa. Estava desesperado, sem esperanças. Será que era isso?

Não é como se eu estivesse dentro de um filme, não estou maluco, sei o que ouvi. Andrey falou, sei que falou.

Olho pra nossa foto no lago e em seguida pra carta.

─Lilia. É você? – digo sorrindo esperançoso. Ficaria tão feliz se fosse.

─O lago. – falo comigo mesmo.

Saio e vou de volta àquele lago. O mesmo lago, o mesmo banco. A neve continua a cair, o local está deserto. Ótimo, quero ficar sozinho.

Com um movimento faço a neve acumulada no banco sumir.

Sento e observo o lago congelado. A árvore que sempre nos ofereceu proteção estava sem as folhas, os galhos secos lhe davam uma aparência um tanto assombrosa. Isso me lembra o dia que Lilia me contou sobre sua doença, mas também me lembra que no mesmo dia eu a pedi em casamento, e ela aceitou. Muitos invernos, muitas primaveras... e muitos verões. Passamos tantos momentos aqui.

Olho em volta comovido, a tanto tempo não ouso voltar aqui. Desde seu enterro, não teve um único dia que voltei.

A foto em minha mão me trás aquela lembrança novamente. Ela podia tê-los conhecido aquele dia. Se não estivéssemos com pressa. Se eu tivesse concordado com o Seiya em ficar um pouco mais... na verdade Lilia só não conheceu o Shun.

Quem ela mais queria conhecer. E vejam só a ironia do destino. É exatamente com ele que estou tentando um relacionamento agora.

Olho pro envelope e observo as iniciais novamente. H&M. Hyoga e Miguel.

Relutantemente o abro. A letra dela...

(Hyoga, meu amor,

Se estiver lendo isso então provavelmente eu não estou mais ao seu lado, eu lamento.

Agradeço à Deus por ter te colocado em minha vida, na hora em que eu mais precisei. Nós dois estávamos na hora certa e no lugar certo. Tinha que acontecer, não foi coincidência que você me encontrou naquela casa, você tinha vivido ali, e eu também. Sabe o que foi? Foi o destino.

O destino nos uniu. Afinal tudo o que chega, chega sempre por alguma razão. No primeiro momento que te vi percebi que seria muito fácil te amar, céus, com esses cabelos ondulados e loiros em combinação com seus lindos olhos azuis, e todo esse seu jeito tímido, você é lindo, em um primeiro momento achei que fosse um anjo. Mas eu já estava machuca com o passado, por isso fui tão rude com você no inicio, acreditei que você era só mais uma peça, afinal todas as outras foram, e todas me machucaram.

Acha que foi coincidência que tenhamos nos encontrado tantas vezes na universidade? Naquela época, desde o primeiro ano, eu já estava apaixonada por você... mas eu tinha medo. Medo de me envolver e sair machucada. Medo que tudo não passasse de uma ilusão.

Você era tão adorável, carinhoso, inteligente... tão perfeito. Isso é cientificamente impossível, por isso não te engoli logo de cara, impliquei tanto com você só pra ver até onde você podia ser perfeito.

Percebi sua fraqueza por sua mãe. Aquele dia que te encontrei naquela igreja, pela primeira vez eu o vi chorar. Você escondia muita dor dentro de si, e a partir daquele momento eu percebi que se tinha uma pessoa que podia me entender, esse alguém era você, meu amor. Por isso decidi arriscar. E céus, você foi tão maravilhoso.

Aproveitei cada segundo ao seu lado. Quando você me convidou pra sair, pela primeira vez, quando trocamos nosso primeiro beijo, não havia mais duvidas, não tinha mais volta, eu soube que te amava. Foi como se tudo tivesse se renovado. De repente você surgiu do nada e fez a minha esperança reascender.

Naquele momento em que você me pediu em casamento tudo foi tão perfeito. Foi lindo, foi mágico, foi como eu sonhei.

Cada segundo que eu passei contigo, tentei aproveitar o máximo possível, pois sabia que seriam os últimos, eu já sabia do meu destino, sempre soube, mas os momentos que passei com você foram os mais bonitos da minha vida.

Adorava ficar ao teu lado, sentir seu abraço, o teu cheiro, teu calor, você!

Seu beijo me fez acreditar que era possível existir um amor puro, verdadeiro.

Eu precisei de você tanto!

Você fez parte de um momento maravilho da minha vida, você foi uma época mais importante na minha vida.

Você foi o lindo anjo que me fez esquecer de todo o sofrimento que eu estava passando.

Eu te idealizei demais, e não vi que era hora de partir.

Se eu pudesse voltar e congelar o tempo, com certeza o momento escolhido seria o nosso primeiro beijo!

Mas já não há tempo...

Foi — se o tempo.

Já não pertencemos um ao outro, mas pode ter certeza de que eu nunca vou te esquecer, meu amor!

Tivemos momentos difíceis, sei que te fiz infeliz em alguns momentos. É natural que em alguns deles você não tenha me entendido, eu mesma não me entendia às vezes. E você sempre se esforçou tanto, sempre deu o seu melhor.

Nunca foi culpa sua meu amor, nunca foi. Lamento se em algum momento eu fiz parecer que foi. Lamento ter feito você sofrer tanto. Logo você que sempre fez tudo por mim.

Não quero que tenha pena de mim, ou pense que eu estou sofrendo por sua causa. Quando eu partir não quero que você sofra, em hipótese alguma.

Quero sim, que você fique feliz pelo simples fato de eu ter tido a oportunidade de tentar te cativar.

Nunca pedi nada em troca, pois eu te tinha o tempo todo dentro de mim.

E pode ter certeza, de que cada momento, de que cada pensamento meu, foi sincero.

Você me cativou desde o primeiro segundo em que te vi.

Sei que agora tenho que te deixar. Não vou mentir que está sendo difícil pra mim, e mesmo que os nossos caminhos nunca mais se cruzaram, vou seguir em frente feliz, pois quando olhar para trás, você estará lá, fazendo parte de um momento especial do meu passado.

Eu te desejo toda a felicidade do mundo, espero que você encontre alguém que te complete, e que você possa ter a capacidade de se entregar a esse amor de tal maneira, como eu entreguei o meu coração a você.

Você vai aprender a viver sem mim, eu sei que vai.

Sabe por que eu amo o inverno? Porque ele é misterioso, ele é suave, ele chega devagar levando as folhas e trazendo coisas aconchegantes e quentes. Assim como você.

Mas mesmo nos dias nublados o sol está no seu lugar. As nuvens são passageiras. São momentos que surgem e passam. Mas o sol está sempre presente, pronto para trazer luz. O sol não desiste de brilhar nos dias nublados. Ele está acima das nuvens cumprindo sua função.

Sabe por que eu amo o verão? Porque ele renova tudo, estávamos no fim do inverno quando eu te conheci. E foi quando tudo mudou.

Nosso filho tem sorte de ter um pai como você...

Eu te amo Hyoga. Do todo meu coração, de toda minha alma.

Miguel, meu filho querido,

Quero que saiba que sempre estarei com você, vou te ver sorrir e chorar, vou te ver se apaixonar e infelizmente vou te ver desiludir, mas eu sempre estarei com você. Porque sempre há um amanhã, tudo pode mudar da noite pro dia.

Não vou poder te arrumar em seu primeiro dia de aula, não vou poder assistir seus recitais, não vou poder te parabenizar pela primeira namorada e nem poder te ver no primeiro dia de faculdade.

Mas eu sempre vou estar lá...

O tempo passa tão rápido, quando você puder entender tudo que quero te dizer vai ter certeza que se tornou um homem completo.

Seja como seu pai, seja forte, seja carinhoso, cuidadoso, amável, determinado, leal, mas não se prenda, seja você mesmo, não esconda seus sentimentos, diga que ama quando amar, sorria quando se sentir alegre, chore quando sentir necessidade, vai ver que é melhor assim.

Cresça sabendo que estarei sempre te apoiando, que terei sempre orgulho de você.

Te amo meu filho.

PS: Essa foto é pra que sempre se lembre do nosso local especial, Hyoga. E quando sentir minha falta, venha me ver que estarei sempre aqui.)

Terminei de ler aquilo com lagrimas abundantes.

─Você demorou bastante. – ela diz com aquele sorriso encantador de sempre.

─Tive que passar por muita coisa... mas a pessoa certa te encontrou. – digo sorrindo e a olhando.

─Eu vi, fiz ele te trazer... Eles dois. – ela diz sorrindo.

Está encantadora como sempre. Não é como se imagina nos filmes, ela não estava de branco, mas sim com seu vestido florido preferido, que dei de presente pra ela. O mesmo da foto. Seus cabelos reluziam como ouro. Simplesmente perfeita.

─Senti sua falta. – ela diz.

─Você não tem ideia do quanto eu sinto a sua. – digo sinceramente.

─Sempre estive aqui.

─Agora eu sei.

Ela sorri mais encantadoramente ainda.

─Foi difícil. – digo.

─Lamento que tenha sido.

─Eu também. – digo triste.

─Como ele está? – ela pergunta, sei que fala do Miguel.

─Cada dia mais perfeito. E pergunta cada vez menos por você.

─Isso ótimo. – ela diz suspirando mais livremente. Por um momento ela se inclina brevemente olhando pra trás e sorri mais ainda.

─Eu ainda te amo. – digo baixando o olhar.

─Eu também te amo tanto, tanto. – ela diz voltando a me olhar.

─Queria tanto te sentir de novo. – digo fechando os olhos. ─Mas não posso... não posso continuar amando. – digo triste.

─Não, não pode. – ela concorda.

─Me desculpe. – digo lamentando.

─Tudo bem. – diz sorrindo abertamente e encolhendo os ombros. ─É ótimo que comece a pensar assim.

─É hora de seguir em frente. – concluo.

─É.

─Ele vai ficar bem? – pergunto.

Ela encolhe os ombros ainda sorrindo. Tudo bem.

─E quanto a ele? Vai mesmo arriscar? – ela pergunta.

Só aceno positivamente.

─O que você acha?

─Ele te ama, e é só isso que importa. – ela comenta.

─É, eu sei. – digo sorrindo ao me lembrar dele. ─Obrigado. – digo mais aliviado.

─Boa sorte. – ela diz sorrindo cheia de ansiedade.

─Obrigado mesmo... por tudo. – digo sorrindo olhando pro céu, e o que vejo é o céu claro e reluzindo, diferente do nublado de alguns minutos atrás.

─Você já tem que ir? – pergunto.

─Sim. – ela diz sorridente olhando pra cima também.

─Mas eu ainda tenho tanto a dizer, tanta coisa pra perguntar.

─Sabe que sempre estarei por perto, não sabe? – ela pergunta.

─Sei. – digo sorrindo e voltando a olha-la.

─Então é só falar que eu vou estar ouvindo. — ela diz e sorrio de volta.

─Te amo.

─Também te amo. – ela se inclina e me beija carinhosamente, posso sentir seu calor, sua presença. Seu amor.

Abro os olhos e o momento passa, ela se foi.

Sorrio alegremente. Tudo parece novo, tudo parece voltar aos eixos. Sinto-me mais tranquilo, mais... feliz.

─... estou falando com você. – uma voz ao meu lado me chama.

─Hum? – olho e vejo o... Shun?

─Perguntei se você está bem. – ele diz preocupado.

─Estou ótimo. – olhos pro Miguel em seus braços me olhando curioso.

─Papa.

─Filho. – digo o pegando no colo.

─Tem certeza? Vi você de longe... falando sozinho. – ele diz me olhando desconfiado. ─Quando cheguei perto você ficou um tempo olhando pra cima. – ele comenta e olha curioso pra cima também.

─É mesmo? – digo sorrindo. ─Estou realmente ótimo. Não se preocupe.

Ele suspira ainda confuso e olha pro lago a nossa frente.

─E você? Como me encontrou aqui? – pergunto.

─Ah, eu fui passear com o Miguel, e queria conhecer o lugar dessa foto. – ele diz sem jeito apontando pras minhas mãos com a carta e a foto junto.

─Hum. Sabe, isso aqui é melhor no verão. – digo sorrindo olhando em volta.

─Pensei que não gostasse do verão. – ele diz intrigado.

─Gosto. –digo dando de ombros.

Ele me olha curioso por um tempo e finalmente sorri.

─Está... alegre? — ele diz animado.

─Estou. – digo rindo. ─Muito. – digo e ele sorri mais abertamente ainda.

─Tô vendo que essa carta quis dizer muita coisa. – ele comenta.

─Você não tem ideia do quanto. – digo animado e o puxo pra perto o abraçando pelos ombros, e mesmo ainda confuso com aquela minha rara demonstração de afeto, ele retribui.

Miguel se aconchega no meu colo e ficamos ali, apenas observando a paisagem.

...

Fiquei boa parte do dia visitando alguns pontos turísticos com o Miguel, mas a neve dificulta bastante as coisas, então não pude fazer tudo que queria.

Antes de voltar pra casa eu ainda me lembrei de uma coisa. Aquele lugar. Será que é perto da casa deles?

Eu estava certo, era perto. Apesar do lago estar congelado e a arvore sem as folhas eu reconheci.

Olho e mais a frente vejo o Hyoga. Reconheço aqueles cabelos loiros em qualquer lugar. Estranho, achei que ele estivesse no hospital.

Miguel ficou inquieto no meu colo e sorriu alegremente.

─Mama. – ele diz animado.

─Hum?

Volto minha atenção pro Hyoga, ele está falando sozinho? Me aproximo e sento ao seu lado. Ele olha pra cima sorrindo, olho também, mas não vejo nada de interessante no céu nublado e cinzento.

─Hyoga. – o chamo. Observo que ele já leu aquela carta.

─Hyoga. – ele permanece distraído olhando pro céu e por um breve momento fecha os olhos.

Olho pro Miguel que também sorri alegremente também olhando pra cima. O que deu neles?

─Acorda Hyoga, estou falando com você. – volto a chama-lo e ele finalmente me ouve.

─Hum?

─Perguntei se você está bem. – digo preocupado.

─Estou ótimo. – ele diz sorrindo.

Comento o quanto ele estava estranho, mas ele nem se importa.

O observo melhor, ele está alegre. Sim, ele está alegre. Aquilo me anima também, é raro vê-lo tão espontâneo, parecia tão livre. Tão feliz.

Me surpreendo com a súbita demonstração de afeto dele. Provavelmente isso é efeito dessa carta.

...

A cirurgia começou exatamente às dez. Busco disponibilizar meu total apoio a Irina, ela está nervosa.

Conversei antes com Adam, dessa vez dando realmente atenção aos procedimentos da cirurgia.

Shun está aqui, tem que estar, preciso dele, mais do que ele pode imaginar.

A cirurgia dura cinco horas no total. A Irina não para quieta de jeito nenhum tento conforta-la, mas ela está ansiosa demais pra isso, mas depois de três horas ela o Miguel já estava adormecidos.

Também estou preocupado. Vou até a sala de observação pra acompanhar a cirurgia que já estava pela metade. Metade do intestino do Andrey está fora dele. Ainda bem que somente eu estou observando. Irina desmaiaria se estivesse vendo isso.

Olho pro Adam comandando a cirurgia com firmeza e concentração. Estava certo em escolhê-lo. Vezes ou outras ele me dava algum aceno pra confirmar de que tudo estava saindo conforme o planejado e sem complicações.

Em algum momento o Shun veio até onde estou.

─E o Miguel? – pergunto sem olha-lo, ainda concentrado em observar a cirurgia.

─Dormindo com a Irina no quarto. – ele comenta olhando lá em baixo também.

Pro um momento a oxigenação do Andrey começou a cair juntamente com seus batimentos. Droga!

Rapidamente Adam tomou as providencias cabíveis, mas não parecia ser o suficiente, logo fiquei alarmado. Todos ficam agitados.

─O que houve? – Shun pergunta preocupado.

─Oxigenação caindo. – digo alarmado. ─Droga! – ele me olha mais preocupado ainda sem saber o que fazer.

Na oxigenação cerebral, existe um grande consumo de oxigênio e glicose por parte do encéfalo, o que exige um grande fluxo sanguíneo para o abastecimento. Quando esse fluxo é interrompido por um período maior do que cinco minutos, os danos podem ser irreversíveis, já que as células não se regeneram nesse caso.

O problema é que os batimentos já estão fracos devido aos ataques que ele já teve. Ele podia ter outra parada cardíaca a qualquer momento em meio a cirurgia.

─Prepare o desfibrilador. – digo logo alertando o Adam pelo interfone.

Ele acena positivamente e logo ordena a enfermeira, mas em um segundo Andrey se estabilizou milagrosamente e sem interferência. Como isso é possível? Olhamos surpresos e confusos um pro outro.

─O que houve? – Shun pergunta ainda alarmado.

─Está... tudo bem. Acho. – digo ainda não acreditando.

─Hã? Como assim? – ele pergunta confuso.

─Sshh. – digo a ele e dou um aceno pro Adam.

Ele dá outro de volta que não sabe o que aconteceu, mas iria continuar com a cirurgia.

─O que houve Hyoga? – Shun ainda insiste.

Olho pra ele e vejo em seus olhos que realmente está preocupado. Como o Shun consegue se preocupar tanto com alguém que mal conhece? Esses são momentos em que eu realmente acredito em sua personalidade empática e altruísta. Sorrio.

─Ele vai ficar bem. – digo sorrindo e ele suspira aliviado, é realmente um anjo.

Após mais uma hora a cirurgia finalmente terminou sem mais complicações.

─E agora? – Shun me pergunta, ele não sai do meu lado um minuto sequer.

─Tudo correu bem. Agora é esperar pelos resultados. – explico a ele.

Andrey foi pra sala pós-cirúrgica.

Após um tempo fomos pra cantina já deserta do hospital e conversei com Adam aos mínimos detalhes sobre a cirurgia e ainda tentando entender o que tinha acontecido. E mesmo sem entender o Shun acompanhava.

─Onde está a Irina? – Adam pergunta.

─Dormindo. Coloquei um calmante no café dela sem que percebesse. – digo.

Pouco depois de duas horas que iniciou a cirurgia a Irina começou a ficar sonolenta por conta do calmante, então eu a direcionei pro quarto do Andrey pra que ela esperasse por lá, e logo ela dormiu. Achei que seria melhor assim. Já passava das duas da manhã então o Miguel já estava dormindo também nos braços do Shun dessa vez.

─Hyoga! – Shun me censura só com o olhar.

─Era pro bem dela. – tento me explicar.

─Ela vai ficar zangada, ela tinha todo direito de aguardar o resultado da cirurgia. – ele reclama.

─Ela supera. Quando acordar vai saber que tudo correu bem. – digo ainda indiferente.

Realmente acho que é melhor pra Irina, mas se alguém fizesse isso comigo quando aconteceu com a Lilia, pode ter certeza, eu esganaria o desgraçado.

─Você vai ver ela superar depois da bronca que der em você. – ele continua.

Só ouvimos risos perto de nós. Era o idiota do Adam.

─Tá rindo do quê? – digo aborrecido.

─Nada. É que, você são... – ele pensa um pouco. ─Bonitinhos juntos. – ele diz sorrindo.

Imediatamente ficamos sem jeito. O Shun estava muito vermelho, nem quero pensar em como estou em comparação a ele.

─Idiota. – reclamo pra Adam que continua rindo.

─Sério. Vocês formam um belo casal. – ele diz falando francamente.

─Hunf. Não fique dizendo coisas desnecessárias. – Shun reclama também e se retira envergonhado.

─Realmente vocês combinam. – Adam comenta.

Adam começa a falar besteira por um tempo.

Olho pra ele. Parecia realmente cansado, e não é pra menos.

─É hora de ir. Descanse Adam. Você foi ótimo. – digo sorrindo.

─Obrigado Hyoga.

─Eu que agradeço. – digo tocando seu ombro.

Ele me olha estranho inclinando o olhar pro meu pescoço.

─O que... – ele se inclina pra perto de mim e afasta a gola da minha camisa, droga! Já sei exatamente o que ele viu.

─Sério mesmo? – ele diz com aquela cara insinuante dele. ─Vocês...

─Cala boca. – digo envergonhado.

─Nossa, ele te marcou mesmo heim. – ele comenta rindo enquanto abre um botão da minha camisa pra me ver melhor. ─E como foi? – o idiota pergunta curioso.

─Coloquei o Miguel no quarto com a Irina de novo e... – Shun aparece no exato momento que Adam me toca.

Adam percebe o olhar assassino do Shun pra cima dele e logo afasta as mãos de mim. Tá certo que somos homens, mas eu nunca me importei com esses atrevimentos do Adam quando ele me toca, sei que ele não tem más intensões nisso, além de me zoar é claro, até porque ele é hetero, mas acho que pra qualquer outro espectador aquilo pareceu bastante suspeito.

─Er... eu só estava... – tenta se explicar.

─Shun, não é o que você... – tenho explicar também.

No mesmo instante Shun se aproxima e me puxa pra um beijo repentino. Droga, logo na frente do Adam. E não foi um daqueles beijos simples e rápidos, ele ainda forçou meus lábios com sua língua enquanto agarrava meu cabelo com força.

Não me atrevo a abrir os olhos, tenho certeza que o Adam tá assistindo de camarote.

Tenho vontade de enterrar minha cara na neve.

Shun finalmente me solta e me olha com um sorriso insinuante. Permaneço paralisado.

─Sei que não há nada entre vocês. – ele diz pro Adam que como pensei estava assistindo tudo de boca aberta. ─Mas não o toque desse jeito, só eu posso. Entendido. – diz sério pro Adam que só acena positivamente sem dizer uma única palavra.

─Ótimo... vou voltar pro quarto pra ficar com o Miguel, querido. – ele diz e me beija novamente, dessa vez mais breve e se retira confiante.

─Cara! – Adam diz depois de um tempo, queria que fosse mais tempo. ─O que foi isso? – ele diz rindo.

─Eu... – nem sabia o que dizer, Shun realmente ultrapassou os limites, sei que não conversamos sobre isso, mas eu queria que ele fosse mais discreto. Demonstrações de afeto em publico nunca fez parte da minha personalidade.

─Ah, agora eu tô proibido de fazer sexo oral com você? – Adam começa com as piadas depravadas dele.

─Cala boca! – reclamo tapando o rosto com as mãos, não consigo nem encara-lo, aquilo foi muito embaraçoso.

─Hyoga. – ele diz ainda rindo.

─Fica quieto Adam.

─Sabe que isso me deixou excitado. – ele diz rindo. ─Vou pra casa praticar com a Wendy.

─Idiota.

...

Mais tarde o Hyoga ainda me deu um sermão por causa do meu atrevimento quando o beijei em publico. Não qualquer publico, mas sim do Adam.

O que posso dizer ora. Não gosto daquela cumplicidade deles, sei que não há nada demais no relacionamento deles dois, mas não posso deixar de sentir ciúmes.

E esse Adam tem uma mão boba demais, não o quero tocando assim o meu Hyoga.

Ficamos a noite toda no hospital. Eu o Hyoga dormimos de qualquer jeito em umas cadeiras do quarto do Andrey enquanto o Miguel dormia na cama com a Irina.

Nem vi quando amanheceu, levei um bom tempo pra adormecer, estou dolorido.

─Vem tomar café. – Hyoga me chama ainda bocejando.

─Tá, café vai ser ótimo. – digo ainda sonolento. ─Que horas são?

─Seis. Daqui a pouco vamos verificar o estado do Andrey. – ele comenta.

Olhamos pro Miguel que permanecia adormecido com Irina. A coitada parece muito abatida.

Mais tarde Andrey foi levado de volta pro quarto, mas ainda não tinha acordado, estava em observação o tempo todo. Irina deu uma bela bronca no Hyoga por tê-la feito dormir num momento tão importante, sabia que isso iria acontecer.

Somente por volta do meio dia Andrey acordou. Irina estava muito aliviada que até esqueceu que ainda estava com raiva do Hyoga.

Hyoga me disse que a cirurgia realmente foi um sucesso, e que os exames pós-cirúrgicos também eram satisfatórios, mas ainda não tinha acabado. As possíveis complicações poderiam surgir com o tempo. Só restava esperar.

Ao menos Andrey já parecia melhor, a pior parte já tinha passado.

Acho que ficamos uns dois dias seguidos naquele hospital. Andrey ainda ficaria umas duas semanas internado, Irina não saia do lado dele, mas nós fomos pra casa, é claro que indo visita-los frequentemente.

─Não Tomoe, ainda não posso voltar. – Hyoga falava ao telefone indo de um lado pro outro no quarto. ─Talvez mais uma semana. – ele dizia já aborrecido. ─Ao menos isso cobre minhas horas, não? – ele diz revirando os olhos.

É a chefe dele eu acho, já tem duas semanas que ela tem ligado sem parar. Hyoga parece muito necessário por lá.

─E então? – pergunto quando ele vem pro meu lado no sofá.

Estamos assistindo televisão. Miguel brinca tranquilamente perto de nós. De alguma forma não me sinto mais um intruso aqui, esses dias que tenho passado com eles, como uma família, tem sido tão maravilhoso. Não quero que acabe. Apesar de minha vida no Japão ainda me puxar de volta pra realidade, ou talvez essa seja minha nova realidade, não sei ainda.

─Continuam me pressionando pra voltar logo. – ele reclama me puxando pra perto dele.

São esses simples gestos que me dão certeza que tudo está seguindo bem entre nós, acho que ele nem percebe mais quando está sendo tão carinhoso comigo. De certa forma percebi que ele se habitua a uma nova rotina muito rápido.

─É, Misaki tem me ligado com frequência também. – comento.

─Você não tem escrito nada nas últimas semanas, não é? – ele comenta preocupado.

─Tudo bem. Quando voltarmos eu retomo meu livro. – digo pra tranquiliza-lo, mas a situação é pior do que se imagina, eu devia ter entregado meu manuscrito faz duas semanas atrás, por isso tenho sido tão pressionado. Mas tudo bem, quando voltarmos eu terei muita coisa pra escrever.

─Já que Andrey vai pra casa hoje então acho que daqui a alguns dias já podemos voltar. – ele diz me dando um beijo na testa pra me tranquilizar. ─A não ser que você queira voltar primeiro. – ele diz me olhando.

─É claro que não vou sair de perto de você. – digo o apertando contra mim.

Ele sorri.

É como brincar de namorados. É tudo um sonho? Será que quando voltarmos tudo vai continuar desse jeito? Estou tão feliz. Espero que esse sonho nunca acabe.

...

Passou-se mais uns dias que Andrey já tinha voltado pra casa. Estava bem melhor apesar dos aborrecimentos constantes de não conseguir fazer nada sozinho.

─Ele vive reclamando. – Irina diz aborrecida.

─Não liga pra isso Irina. – digo indo pra cozinha com ela.

─Você o conhece, sempre com aquele ar de independência. – ela diz revirando os olhos enquanto prepara o almoço do Andrey. ─Mas sabe, eu estou feliz. – ela diz se virando pra mim e sorrindo.

─Isso é ótimo. – digo sorrindo também e sentando na cadeira de frente ao balcão.

─Sabe, você parece bem melhor também. – ela comenta com ar de curiosidade, e também como se escondesse um segredo.

─Pareço? – digo sem jeito.

─Está dando certo então. – ela comenta.

─Hum?

─Sabe Hyoga, certa vez em que eu dormia tranquilamente no quarto do Andrey no hospital eu ouvi ao longe uma conversa... – ela disse com um sorrisinho.

─Conversa?

─Duas pessoas... – diz fazendo gestos. ─Discutiam sobre alguém estar com ciúmes de outro alguém. Daí uma das partes dizia que eram só amigos, depois o outro dizia que estavam perto demais.

Engoli o seco.

─Eu estava tão sonolenta, não entendi direito. Mas no final da conversa eu me forcei a abrir os olhos, não nego que fiquei surpresa. – ela diz pensativa. ─Não imaginei que você... – ela fica me olhando. ─Enfim, não estou julgando, nem quero saber como isso começou. Pelo menos não ainda. – ela diz suspirando. ─Só fiquei triste por você não ter me dito nada. – ela diz me olhando sério agora.

Fiquei sem jeito, não sabia o que dizer.

─Você já estava com tantos problemas... não achei que seria uma boa hora pra contar. — digo sem conseguir encara-la.

Ela fica séria me olhando.

─Você é como um filho pra mim Hyoga. – ela diz. ─Se ele te faz feliz, então estou feliz por você também. – ela diz voltando a sorrir. ─Desde que vi aquele rapaz percebi algo estranho entre vocês, e com o tempo, notei também o grande coração dele. É um bom rapaz. – ela diz com ternura.

Não sabia como reagir, o que dizer.

─Eu...

─Lilia ficaria orgulhosa por você finalmente estar seguindo em frente. – ela diz sorridente.

─Obrigado Irina. – digo sem jeito baixando o olhar. ─O Andrey...

─Não, por Deus, ele sequer suspeita. – ela diz logo. ─Mas ora, por favor. Qualquer um que prestar mais atenção já percebe. – ela diz rindo. ─Vocês vivem juntinhos, e apesar de nunca demostrarem nada em publico ainda dá pra notar a conexão que há entre vocês. –ela diz sorrindo insinuante.

Fico envergonhado.

─Espere mais um tempo até contar ao Andrey. Você entende. – ela comenta.

Só aceno positivamente.

─Seja feliz meu filho. – ela diz se inclinando pra mim e segurando minhas mãos com segurança. ─Você merece.

...

Nosso ultimo dia por aqui. Dou mais alguns passeios por Moscou com o Miguel enquanto o Hyoga vai se despedir do Adam no hospital.

...

Procuro pelo Adam no hospital quando encontro com alguém no corredor, alguém que eu realmente não queria ver.

─Oi Hyoga. – Annia diz sem jeito.

Olho sério pra ela, não quero discutir, realmente não quero. Procuro ignora-la e sigo meu caminho.

─Espera, vamos conversar, por favor. – ela me chama.

─Não temos nada pra conversar, Annia. – digo friamente.

Ela me olha triste.

─Eu sinto muito. – ela diz.

Permaneço indiferente.

─Lamento por tudo que eu disse, eu... eu não devia, eu estava zangada e...

─Esqueça... Adeus. – digo suspirando e me viro, mas novamente ela me chama segurando repentinamente minha mão.

─Por favor. – ela pede. Sou idiota apenas por pensar na possibilidade de lhe dar mais uma chance de se explicar.

Suspiro. Todo mundo merece uma segunda chance.

─Você tem um minuto. – digo sério.

─Vem comigo. – ela me chama e entramos em um quarto com um senhor idoso numa cama.

─Ele está em coma. – digo intrigado.

─Por isso ele não vai se importar de conversarmos aqui. – ela diz.

Fica em silencio por alguns segundos.

Olho pra ela e em seguida pro meu relógio.

─Cinquenta e nove, cinquenta e oito, cinquenta e sete...

─Tá, tá. – ela diz rápido. ─Primeiro quero me desculpar por ter sido tão irracional por tanto tempo. Eu não devia ter alimentado esperanças, mas eu... eu realmente estou apaixonada por você. – suspira. ─Por isso fiquei tão revoltada, poxa, eu me esforcei tanto. — ela começa a chorar.

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De uma hora pra outra, a hostilidade desaparece de sua voz e de seus olhos e ela se encosta à parede, parecendo triste, pequena e vencida, o que, naturalmente, faz com que eu me sinta um lixo.

As lagrimas transbordam, descendo sombriamente pelo rosto de Annia como canais paralelos, e não posso fazer nada senão me aproximar e apara-las com os polegares, um gesto que ela erroneamente interpreta como um convite, apertando seu corpo contra o meu, passando os braços em torno da minha cintura e acariciando com os dedos as minhas costas logo acima das nádegas.

─Hyoga. – diz ela, aninhando-se contra mim, o hálito quente e úmido em meu ouvido.

Inclino o corpo pra me afastar, mas ela me prende colocando a perna rapidamente entre as minhas e apertando exatamente onde não devia. Ela abre a boca, esfregando lentamente os lábios até encontrar meu queixo, descendo a mão até meu abdômen, passando pelo meu cinto me agarrando entre as pernas.

─Annia. – digo tentando tira-la de cima de mim sem machuca-la. Ela tenta impedir com um sorriso sacana como se tudo isso fosse um jogo. Depois torço a sua mão e a prendo em suas costas, o que produz um efeito indesejado quando ela geme baixo com dor. ─Desculpe. – porque estou me desculpando?

Merda. Isso não deveria estar acontecendo. A afasto de mim rapidamente.

─Você sabe que quer. – ela diz insinuante enquanto massageia o pulso dolorido.

─Annia, no que está se transformando? – digo triste.

Ela me olha magoada, acho que por causa da minha expressão de pena direcionada pra ela.

─Do que está falando?

─Olhe pra você, uma garota tão bonita e inteligente se arrastando por um cara que não quer nada com você.

Ela volta a me olhar irritada, mas enfim suspira triste. Deve estar cansada também, não deve estar sabendo lidar consigo mesma. Já me senti assim também.

─Sei que eu devia ter deixado você seguir em frente, mas se ter você vulnerável era a única maneira de te ter, então eu faria com que assim continuasse. – ela diz.

Dito isso eu logo me lembro de com quem estou falando. Como é possível que eu ainda me sinta sensibilizado com essa garota egoísta.

–Eu só queria ter você por perto, queria que me deixasse te amar. Você estava sofrendo e eu me aproveitei disso, e quando você tentou seguir em frente, não aguentei. Isso faz de mim uma pessoa ruim? – ela diz já soluçando.

─Faz. – digo sério e ela me olha surpresa.

─Olhe. – digo a ela. ─Tive tanta culpa quanto você. Acho que durante esse ultimo ano encarei a morte de Lilia como uma carta branca pra fazer o que bem entendesse. Foi egoísta e idiota da minha parte também, sei que muitas vezes eu te magoei... me perdoe. Só que eu resolvi não fazer mais isso. – ela assente.

─E é sério?... com ele? – está se referindo ao Shun num tom amargurado.

─Annia, eu fato de eu não poder te amar não é por causa do que eu sinta por outro alguém, mas sim o de sentir que você realmente não fosse alguém em quem eu poderia me apoiar, que eu pudesse confiar. Sei que você se esforçava, mas às vezes isso não é suficiente, sei que é triste, mas é a verdade. Houve uma vez que eu realmente pensei na possibilidade de tentar algo com você. – digo suspirando e ela me olha em expectativa. ─Mas se não era pelos motivos certos então porque tentar algo sem futuro? E eu te respeitava o suficiente pra não te machucar com algo encapuzado numa grande rede de gratidão, e era só isso... gratidão. Nunca chegou nem perto de amor.

Ela me olha triste com as lagrimas caindo novamente.

─Como você conseguiu? – ela pergunta com a voz cansada.

─Hum?

─Como conseguiu deixar de ama-la tanto?

─Quem disse que não amo? – digo seriamente. Sorrio suspirando. ─Ainda a amo.

─Então como está conseguindo?

Penso por um instante.

─Porque agora me dei uma chance. – digo sorrindo. ─Antes eu tinha o pensamento egoísta de manter aquela dor presa em mim, e aquela era a única maneira de eu sentir que ela ainda estava comigo, na realidade eu nunca pensei realmente em me dar uma segunda chance de ser feliz. Antes eu só fugia, tentava esconder o que sinto, nunca fiz nada com o intuito de deixa-la ir. Hoje eu entendo que eu só precisava me dar uma chance... de amar. Eu só precisava deixar o passado pra trás. – digo até que aliviado em dizer aquilo.

─Eu sempre tentei fazer com que se sentisse melhor. – ela diz indignada.

─Annia como poderia fazer bem aos outros se você não consegue fazer bem a si mesma?

─O quê?

─Você só me quer porque eu não te quero, em algum momento, o que você chama de amor tornou-se apenas uma obsessão. Olhe bem pra você Annia, você é linda. Porque continuar perdendo tempo e insistindo comigo? Você sequer chegou a me conhecer como devia.

─Eu te conheço muito bem, eu te amo! – ela insiste.

─Conhece mesmo?... Qual minha comida preferida?

─Er...

─Sabe por que meu nome é Yukida? Onde eu vivia antes de voltar pra Rússia?

─Eu... err... talvez porque... Uhmm...

─Você não sabe por que você nunca me conheceu de verdade. – digo sério e ela baixa o olhar. ─Com o tempo você se tornou tão grande amiga Annia. – comento e ela volta a me olhar. ─Você sempre estava lá, sempre deu apoio a Lilia e a mim. E eu te agradeço tanto por isso... Você compreende? Pode entender o quanto eu valorizei sua amizade? Durante o tempo que estive naquela situação deprimente você era uma das poucas pessoas que eu ainda permitia se aproximar, sabe por quê? Porque você era minha amiga... e eu sinto falta disso, sinto falta da sua amizade Annia. – digo suspirando.

Ela permanece calada sem conseguir me encarar.

─Espero que algum dia voltemos a ser como antes, juro que ainda quero ser seu amigo. – digo e ela não consegue responder, portanto apenas balanço a cabeça e fecho os olhos.

─É sério sim com ele... Se cuida Annia. — digo e a deixo enquanto ela permanece aos prantos.

.

─Vai ficar um bom tempo cumprindo hora extra. – Adam comenta enquanto passeamos pelo jardim, ainda coberto pela neve, do hospital.

─Espero que não tanto. A vaga pra cirurgião chefe estava pra ser destinada a mim... agora tenho que competir com Nishimura por ela. – digo aborrecido.

─Injusto. – ele comenta me olhando sério.

Só dou de ombros.

─Estou feliz que esteja melhor, foi ótimo passar mais um tempo com você irmão. – Adam diz sorrindo sem jeito pra mim.

Olho pra ele e suspiro. Adam é realmente um amigo.

─Sabe Adam, eu sempre quis te contar uma coisa. – digo relutante.

─Hum? – ele me olha confuso.

Penso um pouco em como iniciar aquela conversa.

─Lembra que uma vez voltamos tarde da faculdade depois de cuidar por horas dos experimentos? – comento.

─É claro, como poderia esquecer, fomos os últimos a sair da faculdade, meu carro até quebrou aquele dia. – ele diz aborrecido. ─Foi o dia daquele acidente. – ele diz receoso. ─Mas o que tem isso? – ele diz confuso.

─Estava uma nevasca terrível naquele dia. – comento.

─Sim, ficamos no meio de uma avenida vazia quando meu carro enguiçou. O vento tava forte, lembro que aquele semáforo quase caiu em cima de nós. – ele diz se lembrando. ─Meu carro ficou um estrago. – ele diz suspirando.

─Você ficou inconsciente. – digo.

─É. E você cuidou de mim o tempo todo até o resgate chegar. Nunca vou me esquecer disso. – ele diz sorrindo com ternura.

Fico relutante em continuar.

─Naquele dia... o poste ia atingir você em cheio. – comento.

─Verdade, eu tive muita sorte.

─Você não se lembra de mais nada?

─Er... – ele fica sem jeito. ─Eu não sei o que eu vi naquele dia Hyoga, foi tão rápido. Em poucos segundos eu fiquei inconsciente.

─Tem certeza?

─Bem, eu me lembro de um frio imenso e repentino em volta, e... – fica relutante. ─Eu te contei, mas você insistiu que era coisa da minha cabeça, então eu me convenci.

─E se eu dissesse que era verdade? – digo seriamente.

─Uma coisa daquelas é impossível de acontecer. – ele diz serio também. ─Uma pessoa não pode se mover tão rápido Hyoga, e ninguém tem uma força como aquela. – ele diz sem querer acreditar.

Suspiro. Por muito tempo eu mesmo o fiz desacreditar no que seus próprios olhos tinham testemunhado, mas naquela época ele era jovem demais, imaturo demais, e eu ainda não confiava tão plenamente nele como confio agora. Naquela ocasião nós até brigamos por minha suposta descrença na historia dele.

─Você não quis acreditar em mim. – ele diz aborrecido baixando o olhar.

─Me desculpe. – digo e ele volta a me olhar.

─Porque está me dizendo isso agora? – ele diz confuso.

─Bom, naquele dia... – digo sem saber como continuar aquilo, mas já é hora dele saber. ─O que você viu era real. – acabo confessando.

─O quê? Você também viu? – ele diz ansioso.

─Era eu Adam. – digo e ele me olha muito surpreso e começa a rir.

─Pensei que você estava falando sério. – ele brinca. ─Sei que você quer descontar em mim todas as vezes que eu te zoei, mas da próxima vez acho melhor você me zoar com uma história mais engraçada Hyoga. — ele diz rindo.

─Não estou. – digo ainda sério.

Ele me olha desconfiado por um tempo.

─Tá bom, então quer dizer que você sabe se mover a uma velocidade incrível e tem uma super força. – ele diz com deboche. ─Sabe voar também? – diz rindo.

─É sério Adam. Tente se lembrar de todas as coisas estranhas que já aconteceram quando estávamos somente nós dois.

Ele pensa um pouco.

─Tudo coincidência. – ele conclui.

─Vem comigo. – o chamo e ainda rindo ele me segue pra um lugar mais distante dos olhares alheios.

─Não me diga que vai me mostrar seus superpoderes. – ele diz rindo. ─Essa foi boa Hyoga, mas já tá na hora de parar de brincar.

Chegamos um local fechado do bosque atrás do hospital. Aqui é ótimo pra mostrar pra ele.

─Do frio você se lembra, não é? – pergunto.

─É claro, tava congelante, mas talvez seja por causa do incrível poder da nevasca daquele dia. – ele diz sarcástico rindo.

─Hum. Promete que não vai correr, nem gritar. – peço.

─Ah sim, claro, claro.

─Estou falando sério. – insisto.

─Tá, eu prometo. – ele diz revirando os olhos.

Com um único movimento de uma mão eu aumento meu cosmo e jogo um ar congelante a nossa frente formando imensos blocos de gelo pontiagudos.

Adam sobressaltou-se a caiu sentado na neve, completamente surpreso e assustado.

Ainda no chão ele se move pra longe de mim. Rapidamente formo uma parede de gelo atrás dele.

─Você prometeu. – retruco.

Ele me olha surpreso e depois pra trás pra parede.

─Como foi que...

─Eu disse que estava falando sério.

─Isso é algum truque? – ele pergunta ainda descrente.

─Isso é truque? – pergunto enquanto facilmente soco uma arvore e a derrubo com um único golpe. Tomara que ninguém tenha ouvido o barulho.

Adam fica mais espantado ainda.

─Está vendo? – digo me aproximando e mostrando minha mão com um ar frio ainda ativo do meu cosmo. ─Isso se chama cosmo energia. – explico.

─O que você é? – ele pergunta atônito.

─Sou um cavaleiro de Atena.

...

Fui ao hospital pra me despedir do Adam também. É quando sinto o cosmo do Hyoga ativo, será que é alguma ameaça?

Rapidamente corro em direção ao local, mesmo com o Miguel comigo.

Chego num bosque atrás do hospital e vejo o Hyoga falando com o Adam encolhido no chão, uma grande parede de gelo atrás dele e uma arvore próxima caída.

─...Entendeu tudo agora? – Hyoga pergunta e o Adam ainda confuso confirma.

─Hyoga? – me aproximo. ─O que houve?

─Está tudo bem. – ele confirma.

─Algum perigo? – pergunto sério.

─Nenhum, só estou contando a verdade ao Adam. – ele diz indiferente com o Adam ainda olhando assustado e confuso pra nós dois.

─E precisava disso? – digo indicando em volta.

─É que ele não queria acreditar. – Hyoga comenta.

Olho pro Adam e suspiro.

─Você está bem? – pergunto me aproximando deles.

─Você sabia disso? – Adam me pergunta.

─É claro que sabe. Shun também é um cavaleiro de Atena. – Hyoga comenta e o Adam me olha surpreso também.

─As pessoas vão vir aqui e vão notar a bagunça que você fez Hyoga. – digo aborrecido. ─Olha só isso. – digo indo até aquela arvore caída, ainda bem que ela não era tão grande, será que alguém ouviu ela sendo derrubada?

Aumento meu cosmo e com um movimento faço um ar cortante atravessar o lugar onde a arvora foi partida pra parecer que foi cortada por machados.

Miguel se anima todo no meu colo.

─Legal Shu. – ele diz rindo. ─De novo. – ele pede.

Olho sorrindo pra ele. Acho que está menos impressionado que o Adam que me olhava espantado.

─Que foi? – digo dando de ombros. ─Agora desfaz esse gelo. – digo ao Hyoga.

Ele simplesmente estala os dedos e o gelo descongela e por fim desaparece rapidamente.

─Isso é inacreditável. – Adam comenta já se levantando do chão quando o Hyoga lhe oferece a mão.

─Agora acredita? — Hyoga pergunta.

─Como não poderia? Vocês são tipo... super-heróis. – ele diz animado.

Eu e o Hyoga nos entreolhamos e começamos a rir.

─É sério. – Adam ainda insiste.

─Certo, certo. Cadê a capa Hyoga? – digo rindo.

─Bem aqui. – Hyoga diz rindo também fazendo um movimento como se balançasse uma capa de super herói invisível.

Nos acabamos de rir.

Adam se emburra mais ainda.

─Podemos ser os Power Rangers. – digo ainda rindo.

─É mesmo, eu posso ser o azul? – o Hyoga diz ainda rindo.

─Idiotas. – Adam diz emburrado.

─Foi mal Adam. – Hyoga diz finalmente parando de rir. ─É que nós estamos mais pra... Pra o quê? – ele diz me olhando.

─Sei lá, a ideia de cavaleiro é mais pra mitologia. – digo pensando um pouco.

─É, isso aí. – Hyoga confirma.

─Porque nunca me contou isso? – Adam diz aborrecido.

Hyoga suspirou.

─Bom, vou deixa-los conversar. – digo já indo com o Miguel. ─Te espero em casa Hyoga, estou terminando de arrumar as coisas. — digo e ele dá um ultimo aceno.

─Tchau Adam. Nos vemos no aeroporto. – digo acenando pra ele e me retiro.

...

Contei tudo ao Adam. É claro que ele ficou muito, muito mesmo, surpreso.

Fez milhares de perguntas e parecia cada vez mais impressionado. Acho que subestimei a reação dele quando contasse.

Pensei que ele ficaria chateado por eu ter guardado segredo por tanto tempo, mas acho que a surpresa em si já ocupava boa parte de seus pensamentos agora.

O importante é que já não há mais segredos. Agora ele já entende porque considero tanto meus amigos de batalha.

Me despedi dele logo antes que ele fizesse mais perguntas e me prendesse pelo restante do dia. Mais tarde nos veríamos novamente quando fossemos pro aeroporto, nosso voo sairia hoje a noite, já era hora de voltar.

...

Hyoga chegou em casa me levou até a casa dos sogros dele pra nos despedirmos.

─É uma pena que já estejam indo. – Irina diz triste.

─Está tudo bem, vou ligar todos os dias pra saber como estão, e quando eu tiver alguma folga eu venho visita-los. – Hyoga diz aos dois. ─E quanto a você Andrey, não quero saber que você andou fugindo do tratamento quando eu partir. – diz sério pra ele.

Estava sentado em um sofá emburrado. Ainda parecia um tanto fraco, mas ao menos estava bem melhor que algumas semanas atrás.

─Não aguento mais ficar sentado o dia todo, nem posso comer minhas coxas de frango, é só sopa, sopa e um pouco mais de sopa, todo dia, não se surpreenda se souber que eu tive alguma intoxicação alimentar. – ele resmunga.

─Ah, pelo amor de Deus Andrey, reclama feito um velho. – Irina resmunga também.

─É pro seu bem Andrey. – digo. ─Tem que comer adequadamente agora, daqui uns tempos pode voltar a comer comidas mais solidas, mas regulado entendeu?

─Ele sabe Hyoga, é que ele gosta de reclamar só pra chamar atenção. – Irina diz indiferente olhando pra um emburrado Andrey.

Sorrio vendo aquela cena, realmente era uma família como eu sempre quis, implicâncias, desordem, mas ainda assim amorosa e que se preocupam uns com os outros.

─Vê se volta quando estiver na final do campeonato viu Alexei, vamos assistir juntos, lembra? – Andrey comenta.

─É claro. – diz sorrindo.

─E você também Shun. – ele fala pra mim de repente.

─Hã?

─Gosta de esportes não é? – Andrey pergunta.

─Ah sim. Gosto. Apesar de não ter muito tempo pra assistir. – digo sem jeito.

Ele me olha estranho, mas enfim sorri.

─Vou fazer você amar o meu time. – ele adverte.

─Nem vem Andrey, há três anos que o Rostov nem chegam às finais. – Hyoga comenta em desafio.

─Pior o seu Lokomotiv que foi rebaixado pra segunda divisão esse ano. – Andrey retruca.

─Ao menos ainda tem chance de ir pras semifinais. – Hyoga continua.

─Não com um zagueiro daqueles. – Andrey debocha.

─Até parece que o Rostov tem coisa boa. – e daí começam a discutir.

Eu e Irina saímos enquanto eles permaneceram discutindo de quem era o melhor time.

─É sempre assim. – Irina comenta rindo.

─Já imagino durante os jogos. – digo rindo.

Pegamos um café e ficamos os olhando da cozinha.

Miguel está confuso entre os dois, acho que tentando entender porque dois marmanjos discutem por uma coisa tão tola.

Hyoga era outra pessoa. Esse Hyoga que tanto amo. Ele está feliz, e eu também. Há uma paz de espirito tão grande em sentir algo assim. Graças a Deus deu tudo certo, em pensar que a um mês atrás quando chegamos aqui a situação era tão conturbada.

─Obrigada Shun. – Irina diz do nada ao meu lado.

─Hum?

─Por trazer o nosso Hyoga de volta. – ela diz sorrindo olhando pra ele. ─Ele tem sorte de ter você. – ela comenta e me encara repentinamente.

Fico surpreso, até onde ela sabia?

─Como você...?

─Isso é obvio. – ela diz rindo.

Fico sem jeito sem saber o que dizer.

─Quando ele contou?

─Hyoga não me contou nada, eu apenas posso sentir a atração que há entre vocês.

─E o Andrey?

─Ele ainda não sabe, mas não se preocupe... ele também gosta de você. – ela diz sorrindo com ternura.

Sorrio alegremente. Está dando certo.

...

─Realmente foi ótimo rever vocês, Hyoga. – Wendy diz enquanto me abraça.

─Adorei rever vocês também Wendy. – digo sorrindo.

─E agora só quando um elefante rosa, pintado com bolinhas roxas passar voando pelo céu de Moscou que ele volta. – Adam diz sarcástico com Nina nos braços.

Estávamos no aeroporto, prontos pra partir.

─Não exagera Adam. – digo indiferente enquanto pego Nina dele, adoro essa menina.

─Tio Hyo e o Mimi voltam? – Nina pergunta fazendo um biquinho.

─Não se preocupem que voltamos assim que possível. – Shun diz.

─Tchau garotão. – Adam diz abraçando o Miguel que estava com o Shun.

─Talvez no Natal. – comento.

─Seria ideal. – Wendy comenta animada.

─Fique de olho no Andrey pra mim Adam, por favor. – digo serio devolvendo Nina pra Wendy.

─Não se preocupe, vou mantê-lo informado. – ele diz devolvendo o Miguel ao Shun também.

─Obrigado. – digo sorrindo até levar um susto quando ele me abraça de repente.

─Volte logo. – ele diz me apertando contra ele.

─Lá vão eles... dramáticos, como sempre,. – Wendy diz indiferente.

Sorrio, realmente adoro o Adam.

Shun pigarreia de repente por conta do momento constrangedor, ciumento como sempre. Então eu e Adam nos separamos rindo.

─Se cuida Adam.

Estranhamente Adam se dirigiu ao Shun e o abraçou também. Vi ele cochichar alguma coisa, mas não pude ouvir.

Shun se despediu da Wendy e nós finalmente partimos.

Foi ótimo voltar, mas minha nova vida não é aqui.

...

...

...

Era uma tarde quente, mas ventilada. Um casal de jovens pára num pequeno armazém na proximidade da rodovia que levava às ruinas da Grécia antiga.

O rapaz permanece no carro aguardando enquanto a garota vai até o armazém para comprar mais algumas garrafas de agua. Trajava uma calça jeans escura e uma camiseta polo rosa clara, seus óculos escuros ocultavam o azul profundo de seus olhos. Os cabelos loiros e cacheados estavam presos. O sol fazia-os parecer ouro puro pelo brilho que cintilava quando o vento os balançava com a suave brisa.

Ao mesmo tempo um rapaz chegava em outro carro, usava roupas leves também, uma camisa num leve tom esverdeado e uma calça bege, os óculos escuros escondiam seus olhos esmeralda e o boné verde ocultava seus curtos cabelos castanhos, estava só, e falava ao celular quando entrava no armazém também.

─Misaki, você falou que me daria um sossego ao menos hoje. — reclamava enquanto adentrava o armazém e pegava uma garrafa d'agua no freezer sem quase perceber que esbarrou na garota loira. ─Desculpe... — disse a ajudando a recolher algumas garrafas que caíram.

─Tudo bem. — ela diz sorrindo e ele percebe a enorme quantidade de garrafas que ela carregava e se oferece pra ajuda-la a levar até o balcão.

─... sim, eu sei que o lançamento está logo aí, mas eu só quero ter um tempo de sossego até lá... mas eu acabei de chegar... estou na estrada agora. — continua no celular.

─Obrigada. — a garota agradece sorrindo quando chegam ao balcão, e recebe apenas um aceno e um sorriso do jovem rapaz.

─Mas logo agora?... Sério que você vai me fazer voltar? — reclama ao celular.

A garota apenas o observa enquanto o atendente barrigudo registra o preço de suas compras. O rapaz falava em japonês, mas ela ainda o compreendia já que seu marido também tinha fluência na língua e a ensinara. Assim como grego que teve que aprender só pra fazer aquela viagem.

O rapaz ainda reclamando pega uma barra de chocolate no balcão e acena pro atendente que apenas consente a compra.

─Faz duas semanas que não vejo meu irmão, apenas quero ter a oportunidade. — continua falando enquanto desembrulha a barra e morde um pedaço da lateral. ─... tá bom Misa, você venceu. -ele diz suspirando. ─Estarei de volta em umas quatro horas. Até. — diz e desliga.

Abre a garrafa e bebe um bom gole de agua. Pega a carteira.

─Quanto? — pergunta olhando pro atendente.

─Só um minuto. — o atendente resmunga ainda calculando a conta da moça.

O rapaz novamente olha pra garota e a grande quantidade de garrafas d'agua.

─Parece estar mesmo com sede. — ele comenta sorrindo pra garota.

─Ah, não é tudo pra mim, é que meu marido não suporta ambientes tão quentes e desidrata com facilidade. — ela comenta rindo.

─Engraçado, tenho um amigo assim. -ele diz sorrindo e tirando os óculos e revelando seus olhos esmeralda. ─Você é turista. -ele comenta notando o sotaque diferente da garota.

─Sim, estou retornando com meu marido das ruinas, é realmente magnifico. — ela comenta.

─De fato é. — ele comenta indiferente.

─Já conhece?

─Sim, venho por aqui às vezes.

─De onde você é? – ela pergunta.

─Sou japonês. – ele diz fazendo um gesto em seu rosto como se ela não tivesse observado seus olhos puxados.

Ela ri.

─Ah, você poderia ser também um chinês, um coreano, um tailandês. – ela comenta dando de ombros.

─É tem razão, tudo que tem olhos puxados né. – ele diz rindo. ─E você? – ele pergunta.

─Sou russa. – ela diz rindo apontando pros cabelos loiros num gesto dizendo que foi a vez dele não ter percebido.

Ele ri.

─Mas você também poderia ser alemã, ou americana, ou até mesmo da Bulgária. – ele comenta rindo.

─Bulgária? – ela diz rindo.

─Pois é, mas é muita coincidência, meu amigo é russo também. – ele comenta.

─Tenho a impressão que te conheço de algum lugar. — ela comenta pensativa.

─Provavelmente é só impressão mesmo.

─Por quê? — ela pergunta.

─Eu me lembraria de alguém tão bonita como você. — ele sorri sem querer parecer sedutor, mas não consegue.

A garota logo fica vermelha e sorri sem jeito, mostra a mão com aliança pro rapaz.

─Você me interpretou errado, mas tenho certeza que ele é um cara de sorte.- o rapaz diz rindo.

─Ah, err... desculpe. Pensei que estivesse me cantando. — ela diz sem jeito por tê-lo interpretado errado.

─Tudo bem, eu que me expressei mal. Se me conhecesse saberia que não teria o mínimo perigo de estar sendo cantada por mim. – ele diz rindo.

Ela o olha confusa pra depois de alguns segundos se tocar de sua gafe.

─Ahh, você... err... – ela diz surpresa.

Ele só acena positivamente sorrindo.

─Então me desculpe. – ela diz sem jeito.

─Não tem problema. – ele diz sorrindo e voltando a beber mais um gole de agua, o clima estava realmente quente.

Ficam quietos alguns segundos.

─Definitivamente o calor hoje está terrível. — o rapaz comenta bebendo mais um gole de agua.

─É mesmo. Meu marido vai acabar derretendo no carro. — ela comenta rindo.

─Ele é tão sensível assim a temperaturas altas?

─Muito. Ele é praticamente um cubo de gelo. — ela diz rindo. ─Por isso ele ficou no carro, mais alguns graus no sol e ele derreteria de vez. – comenta rindo.

─Nossa, realmente parece com meu amigo. Ele estaria passando mal se estivesse aqui.

─Ah pode ter certeza que meu marido está pior. – ela comenta decidida.

─Não acho, meu amigo é que estaria pior. Ele vem de um lugar extremamente frio.

─Meu marido também.

Olharam-se e começaram a rir.

─Empate então. — o rapaz diz rindo.

─São sete euros. — o atendente mal humorado diz. A garota paga. E vai se retirando com a sacola.

─Quer ajuda? — o rapaz pergunta.

─Não precisa. Obrigada. — diz sorrindo.

─Então até. Tenha uma boa estadia, recomento que visitem o Parteon antes de partirem. – ele diz solicito.

─Ah, nós já estamos indo pro aeroporto, foi só uma visita rápida. – ela diz ainda enrolando pra ir, não é todo dia que se encontra um rapaz tão simpático.

─Que pena, pra onde vão agora?

─França. – ela diz animada.

Ele a olha e fica pensativo um pouco.

─Estão em lua de mel, certo? – ele pergunta sorrindo assim que paga a conta e os dois vão seguindo juntos pra saída.

─É tão obvio assim? – ela diz sorrindo sem jeito.

─É que você parece apaixonada. – ele diz rindo.

─E essas coisas se percebem fácil assim? – ela diz incrédula.

─Digamos que sou sensitivo. – ele diz rindo.

Vão saindo do armazém e se despedem.

─Pra onde vai agora? – ela pergunta.

─Pro Japão, tenho muitas coisas pra resolver por lá. – ele diz suspirando.

─Ah, sempre quis conhecer, quem sabe passamos por lá e nos encontramos de novo. – ela diz sorrindo.

─Quem sabe, o mundo é pequeno. Ah eu nem perguntei seu nome. – ele diz antes de colocar os óculos escuros de novo.

─Sou Lilia. – ela diz sorrindo e oferecendo a mão em cumprimento.

─É um prazer, sou Shun. – ele retribui o cumprimento e acena se distanciando. Vira-se, mas pára por um segundo pra voltar-se pra moça de novo.

─Aqui. – diz tirando o boné e entregando pra moça.

─Hã?

─Fique com ele, ou dê ao seu marido... – ele diz sorrindo dando de ombros. ─Vai esquentar bastante ainda, vão precisar. – diz piscando carismático pra ela.

─Porque está me dando isso? – ela diz ainda confusa enquanto o vê se distanciando.

─Porque gostei de você. – ele diz simplesmente.

Ela fica confusa olhando pra ele indo até seu carro.

─Ah, tenha uma boa lua de mel Lilia, e manda um abraço pro seu marido de gelo. Tchau. – ele diz sorrindo e entrando no carro.

Ela acena sorrindo mesmo ainda com algo lhe incomodando por não estar lembrando-se de algum detalhe. Por alguma razão o nome daquele rapaz soava bastante familiar. E ele foi tão educado e gentil, identificava-se facilmente. Sabia que em outra ocasião seria muito fácil se apaixonar por ele.

─Shun! – ela diz se tocando do detalhe e olha pro rapaz, ia chama-lo pra poder comprovar sua duvida, mas ele já tinha dado a partida e ia seguindo embora. Ela desiste de chamar o rapaz, ele já estava longe mesmo.

Olhou pro boné em suas mãos, esverdeado, quase azulado, tinha uns bordados marcados aleatoriamente como simples pontos, formavam uma espécie de desenho, mas não entendia se era um símbolo ou qualquer outra coisa.

De subido ouve o barulho de uma buzina. Era seu marido um pouco mais distante acenando pra ela ao lado do carro.

Enquanto isso o rapaz seguia de volta pro aeroporto. Estava triste em ter que voltar logo, mal acabara de chegar e já tinha que retornar. Até ocultou seu cosmo pra poder fazer uma surpresa pro irmão quando chegasse.

Infelizmente teria que voltar pro Japão pra tratar novamente de assuntos referentes ao seu segundo livro que estava prestes a ser lançado, por isso estava tão atarefado, achava que teria um sossego pelo menos por um dia, mas concluiu errado. O jeito era aceitar as circunstancias.

Ficou pensando na garota que conhecera, era realmente simpática. Gostou dela. Pensou em Hyoga, ela seria perfeita pra ele. Quem diria que mesmo estando tanto tempo afastados ainda lembrava-se do amigo em todos os detalhes, inclusive suas preferencias, e aquela garota com certeza seria um bom partido para seu amigo seletivo.

De volta ao casal.

─Porque demorou tanto? Estou derretendo. – seu marido resmunga quando ela se aproxima, ele pega uma garrafa da sacola em suas mãos e bebe a agua com pressa.

Entram no carro enquanto ele ainda se acaba em várias garrafas de agua, realmente estava com sede.

─Bebe devagar Hyoga, parece que ficou dias em um deserto. – ela comenta.

─Você diz isso porque não é com você, estou com mais de vinte graus acima da minha temperatura habitual. – ele comenta ainda se acabando na agua.

─Céus, você é realmente um cubo de gelo. – ela diz aborrecida.

Ele dá de ombros e continua bebendo a agua. Ela permanece pensativa.

─Que foi? – ele pergunta.

─Nada. – ela diz ainda pensativa.

─E isso aí? – ele pergunta olhando pro boné verde nas mãos dela.

─Er... achei bonito e comprei. – ela diz sem jeito, sabia que apesar de seu marido não admitir ele era muito ciumento, por isso mentiu, ficou até aliviada dele não ter visto que foi aquele rapaz que o deu de presente.

─Hum.

─Hyoga, você entende esses símbolos? – ela pergunta mostrando o boné.

Ele pega e olha, inspeciona por uns minutos.

─São os pontos da constelação de Andrômeda. – ele diz e fica pensativo.

─Que foi? – ela pergunta vendo-o pensativo demais.

─Curioso. – ele comenta ainda distraído.

─Hã?

─Nada... Ah, quem era o sujeito com quem você estava falando? – ele diz desconfiado.

─Quem?

─Vi você conversando com um cara, aquele de óculos escuros, quem era?

─Hyoga, aquele seu amigo, o Shun, está no Japão agora? – ela pergunta do nada.

─Sim, o Ikki disse que ele quase não vem aqui, está muito ocupado com seu livro. Por quê?

─Hum... nada não.

─Você não respondeu minha pergunta. Quem era o sujeito que se atreveu a falar com você? Estavam falando animados demais pro meu gosto. – ele diz aborrecido.

─Ora, por favor, Hyoga, só estávamos conversando. Ele foi gentil.

─Hunf, eu te deixo sozinha por alguns minutos e isso acontece.

─Depois eu é que sou a ciumenta aqui. – ela diz cruzando os braços.

─E quem foi que não me deixou ir comprar a agua? – ele diz sarcástico.

─Ah, vai que você encontra alguma assanhada pelo caminho, prefiro não arriscar.

─Eu também não gosto de te ver conversando com outros caras. – ele resmunga.

─Ah pela amor de Deus, só um de nós tem o direito de ter ciúmes aqui, e sou eu. – ela diz decidida.

Ele suspira.

─Ok, senhora dona da razão. – comenta indiferente, se continuasse insistindo em discutir nunca acabariam. ─Melhor irmos, tenho que devolver o carro e nosso voo sai em uma hora. – ele comenta já dando a partida no carro ao mesmo tempo em que bebia agua.

Ela o olha arrependida, as vezes concorda que é mesmo muito cabeça dura, e ele ainda é tão paciente e compreensivo, sempre acaba cedendo, teve sorte de encontrar um homem assim.

Insinuantemente se inclina no banco e beija repentinamente seu amado num pedido de desculpas.

─Lilia! – diz alarmado, quase acaba perdendo o controle do carro com o gesto repentino dela.

─Desculpe. – ela sorri sem jeito.

─Não fica fazendo isso enquanto dirijo, por favor. – ele diz suspirando e parando o carro.

─Eu só queria um beijo. – ela diz dengosa.

Ele a olha e sorri. Se inclina e a beija carinhosamente.

─Terminamos isso no avião. – ele diz insinuante.

─Pervertido. – ela diz rindo.

─Olha quem fala. – diz sorrindo e continuam seguindo mais tranquilos.

─Tem certeza que seu amigo está mesmo no Japão? – ela pergunta depois de um tempo.

─Acho que sim, porque essa duvida?

─Lembra-se do cara que você me viu conversando quando saímos do armazém?

─Como não lembraria? – ele diz aborrecido. ─O que tem ele?

─O nome dele também é Shun e ele é japonês. – ela comenta.

─Deve ser coincidência. – ele comenta indiferente. ─Não senti nenhuma presença familiar, com certeza eu teria percebido se fosse ele.

─Hum... Seria muita coincidência se fosse mesmo ele. – ela diz sorrindo. ─Seria o destino.

─Essa coisa não existe Lilia. – ele diz rindo.

─Se você diz. – ela diz indiferente sorrindo.

E assim seguiram.

Notas finais
Gente, e esse filme? :3 o Hyoga tava perfeeeiiitoooo :D mas fora isso eu não gostei nenhum pouco de terem fugido completamente do enredo original ¬¬ Bom, de volta ao capitulo... Desculpem a demora, realmente estou sem tempo pra escrever. Acho que viajei um pouco nesse né :P mas enfim o drama acabou, e ainda dei mais um esclarecimento no final. Espero que tenham gostado :D provavelmente eu irei postar o epílogo nesse final de semana. e agradeço muito as recomendações (^_^) Até o próximo. bjs