Destino.
3 Primeira Noite.
Notas iniciais
Daniel narrando:
Eu estava cansado de tanta reclamação, odiava a mim mesmo por não pegar logo aquele cassetete e bater na garota, mas... ela não merecia isso. Não sabia o que fazer nessas horas, a garota tinha fome e eu precisava alimenta-lá.
Apertei o botão de ligar do meu rádio.
– Chefe, a humana está com fome. — Falei para Demétrius, do rádio.
– Alimente-a. — E ele desligou.
Droga, alimenta-lá com o que? Não posso lhe servir frango assado na brasa, ou uma pizza.
De joelhos, ela foi andando, encostou seu rosto na grade de sua cela.
– Moço, por favor. Preciso comer, estou até agora sem o café da manhã. — Dizia a garota, seus olhos se enxiam de lágrimas.
Suspirei sabendo que era noite e ela já estava praticamente o dia todo sem comer, eu seria obrigado a alimenta-lá. Sem dizer nenhuma palavra, sumi do corredor, fui até a cozinha da cadeia, e peguei um prato com a comida. Comida de prisão, dá até nojo. Peguei uma colher. E minutos depois, já estava de volta ao corredor.
Abri a porta da cela, sem entrar, deslizei o prato com a comida para a jovem.
Ela o olhou, talvez com mais nojo do que eu.
– Angu? — Encarou o prato.
– É, não posso lhe servir picanha. — Ironizei. — Come! — Ordenei ao ver que a humana apenas fitava a comida.
– Estou com as mãos presas, pela algema. — Sua voz era fraca e triste. — Não consigo comer assim.
Resmunguei qualquer coisa, já vi que a garota vai me dar trabalho. Entrei na cela, ela não tirava os olhos de mim. Me sentei no chão, e peguei a colher com o angu.
Ela não recoou, e comeu uma colher cheia daquele angu frio. Eu ainda me perguntava o que a garota fazia aqui. Ela parecia estar com fome, logo pediu mais uma colher, lhe dei na boca.
Ela comia, me encarava, e continuava a chorar. Não trocavamos nenhuma palavra, eu apenas fazia o que era mandado: Cuidar da humana. Depois de um tempinho, ela recusou a colher com o angu.
– Já está sem fome? — Perguntei.
– Não. — Ela respondeu, sem encarar o prato.
– Então coma... — Tentei colocar a colher na sua boca.
– Não quero mais.
– Você precisa se alimentar.
– Eu odeio angu.
– Não interessa, e come! — Virei seu rosto com força, encarei seus olhos, abri sua boca e coloquei a colher com a comida. — Mastiga, e engole. — Ordenei.
Ela virou o rosto para o outro lado, senti a humana engolir o angu. De um modo totalmente forçado, era como se o seu cerebro não deixasse ela comer aquilo.
Passaram alguns segundos, a garota encarava fixamente o chão. Instantes depois, só vi ela vomitar o angu todo.
– Já vi que vou ter que pedir para o porteiro limpar isso... — Reclamei, me levantando.
– Moço... Eu quero... eu quero lavar minha boca. — Pediu a jovem.
– Vou te levar até a enfermeria. Você está pálida. — Vou ter mais trabalho do que imaginava. Levantei a jovem, a segurei no colo, colocando-a no meu ombro, e segurando suas pernas e cintura.
##
– Tsc, Tsc, Tsc... — A enfermeira gordinha examinava a novata. Pelo visto ela não estava nada bem. — Daniel, Daniel... — A enfermeira olhou para mim. — Não dê a comida dessa cadeia pra ela, que maldade. Essa comida é um crime!
Não respondi. Eu era o culpado por ela passar mal?
– Olha linda, vou te dar um lanche decente viu? — A enfermeira olhou para a garota, a mesma aceitou sorrindo. Porém, ainda pálida.
A mulher sumiu depois de alguns segundos, me deixando sozinho com a presidiária.
Ela estava de cabeça baixa, eu me aproximei de sua cama. Ela diminuiu seus ombros, assustada.
Em cima de sua cama tinha sua fixa médica.
– Juliana. Hum... — Lia as informações. — Espere, você tem apenas 15 anos?! — Me assustei, me parecia que tinha mais.
– Sim. — Disse a menina fraca.
– Hum... — mantive a pose depois de sua revelação.
Continuei a ler sua fixa médica...
– Moço.
Me virei.
– Oi?
– Porque foi malvado comigo?
Ri pelo nariz. — Garota, estou sendo muito bonzinho com você. — Respondi, ela abaixou a cabeça, coloquei a fixa no lugar. E segurei forte seu queixo, fazendo-a olhar para mim. Eu nunca tinha me aproximado assim dela. Até senti um arrepio, não entendo o por quê. — Juliana, você não sabe o que é sofrer neste lugar, e não sou eu que vou mostrar isso para você. Bem que eu queria te dar uma lição, por você estar na cadeia, uma garota bonita não devia estar desperdiçando a vida aqui, mas o meu dever é te proteger e cuidar de você, Não o contrário, então você precisa me agradecer por eu ainda estar cuidando de ti. — Soltei seu rosto. E me distanciei.
– Me acha bonita? — Ouvi sua voz doce.
– Não. Claro que não.
– Mas... você acabou de...
– Calada!
Ela obedeceu.
– Voltei. — A enfermeira fantasma apareceu, segurava uma lancheira fechada e uma garrafa de suco. — Aqui está Juliana, uma comida mais decente. — Jogou um olhar ameaçador para mim. Ignorei.
– Obrigada. — Respondeu para a enfermeira. A garota parecia simpática.
– Vamos, sua cela está com saudades de você. — Puxei a garota, a segurei pela cintura e a fiz descer da cama alta da enfermaria.
Passamos pelos corredores, enquanto as outras presidiárias encarnaram em Juliana, por ser novata e estar comigo.
– Você vai sofrer muito na mão do Daniel! — Gritou uma presa.
Eu ignorava, mas Juliana parecia preocupada. Com tanta fome, a garota comia seu lanche no corredor mesmo, eram três sanduíches naturais, a mesma comia com dificuldade, pois ainda estava algemada.
A coloquei novamente na cela, Já era tarde da noite. Entrei com ela no lugar, e acendi o interruptor velho de lá. Ela se deitou na cama.
– É tão dura... — Reclamou a jovem.
Me ajoelhei ao seu lado, sei que não seria nada fácil para mim, tomar conta e cuidar da garota. Peguei uma chave pequena que estava no meu bolso, e destranquei sua algema, deixando as mãos da jovem totalmente livres.
A garota sorriu aliviada, um de seus pulsos tinha um leve corte. Aquele sorriso fez o meu mundo parar. Era lindo. Nunca vi igual...
– Obrigada, Daniel né?
Assenti, ela suspirou, se ajeitou na cama, já com um travesseiro e fechou os olhos. Eu ainda estava parado ao seu lado, de joelhos. Eu brigava com o meu próprio cerebro, que mandava eu dar um beijo de boa noite na jovem.
Notas finais
*u*
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