Destino.
66 Me aceita de volta?
Notas iniciais
Amei os comentários, respondo quando tiver tempo.
Daniel narrando:
Julie fingiu não me ouvir, continuou revirando as coisas do armário, deixando-o mais bagunçado do que já estava. Ela estava se tornando cada vez mais má, e eu estava realmente me preocupando com aquilo.
Não entendo essa ''mulher'', outra hora ela me beija, depois me machuca com chutes no tornozelo e me trata com indeferença, e para completar sua bipolaridade, ela quase beijou o meu amigo.
Em falar nisso...
– Você está surda? — Perguntei, já chateado. — Não vai me responder?
– Olha Daniel, se você veio aqui para me atrapalhar, pode sair.
– Não. Não vou te deixar sozinha. Eu já aprendi a lição.
Ela me ignorou e voltou a vasculhar as coisas. Continuei parado já que aquele armário era apertado e eu mal conseguia me mexer.
Ela foi se virando para o meu lado, já que a mesma estava de costas para mim. Continuou a mexer no armário. Estavamos frente a frente.
Dei um pulinho de susto.
– Olhe a mão boba garota. — A cortei, um pouco frio.
– Desculpe, não queria apertar o seu bumbum. Aqui está um pouco escuro. E apertado, será que pode me dá licença. — Pediu, me dando um leve empurrão, e se aproximando de um tipo de guarda roupas velho que estava no armário. Que na verdade é uma salinha ridiculamente pequena.
– Afinal, o que tanto proucura aqui? — Confesso que estava cada vez mais curioso.
– Uns sprays, tipo grafite. — Finalmente me explicou.
Sua explicação me gerou mais dúvida ainda.
– Vem cá, isso não tem nada a ver com a tal vingança contra o meu chefe. Não é?
– Sabe o que eu acho? — Ela se virou para mim, parando de mexer nas coisas do armário. — Que ele não é o seu chefe, é o seu namorado. — Ela riu, zombando. — Você só pensa nele. Parecem um casal apaixonado.
Puxei seu pulso com força, a trazendo para perto de mim. Ela fez uma cara de dor, talvez eu o apertava com força. Mas eu não me importava.
– Olha aqui, me trate com respeito. Sou um policial, e sou homem. — Soltei seu pulso de uma maneira violenta. — Você sabe muito bem que eu sou homem.
– Hum... — Fingiu não se importar, mas eu ouvi um ''Ai, que bruto... machucou'' dela logo em seguida. — Se você diz que é homem. — Ela fez uma careta. — Tudo bem, eu acredito. — Se virou e voltou a olhar para o armário. — Pode me ajudar a proucurar os sprays? Isso daqui está começando a ficar abafado.
Suspirei, mas acho que quanto mais rápido achar, melhor.
Assenti e resolvi ajudar a proucurar, mesmo não sabendo o real motivo disso. Eu olhei para a as partes altas, lá tinham umas pratelheiras empoeiradas, de madeiras.
Avistei um saco plástico, olhei para Juliana, que estava distraida, ainda proucurando. Peguei o saco sem fazer muito barulho, e então encontrei o spray com a tinta.
Resolvi deixa-lo no mesmo lugar, ainda coloquei uns produtos de limpeza na frente para ela não vê.
Fitei o armário. Enquanto ela ainda estava ocupada.
– Quantas vezes eu te trouxe aqui? — Perguntei, quase sem querer.
Ela se virou para mim, e torceu o nariz.
– Sei lá, umas três vezes?
Concordei com a cabeça, ainda na indecisão. Acho que foram quatro vezes.
– Era bom não era? — Sorri com as recordações. — Agente dançava, se abraçava... namorava. — Continuava com o sorriso bobo no meu rosto, até que ela se virou para mim. O desfiz na hora, lembrando do meu papel como policial. E ela, como detenta.
– Você vai ficar aqui tagarelando no meu ouvido ou vai me ajudar a achar os sprays? — Perguntou, um pouco sem paciência.
Olhei para o rádio, o meu pequeno rádio que ainda estava naquele armário.
– Eu já encontrei. — Falei. Ela me encarou surpresa, e logo sorriu.
– Onde está?
– Dança comigo. — Foi a minha resposta.
Ela ergueu uma sombrancelha, fez uma carinha confusa e linda.
– Eu perguntei onde está o spray, e você me responde, me fazendo um convite para dançar? — Estranhou a mesma. — Você não é o Daniel, cade o verdadeiro? Acho que foi abduzido por et's. — Riu. Em um tom de deboche.
Tentei me controlar, afinal, eu queria dançar com ela. Lembrar dos bons tempos.
– Você vai dançar ou não?
– Claro que não. Estou ocupada. — Falou, quase gritando. — Talvez outra hora. — A mesma sussurrou, mas consegui ouvir. — E você não vai me dizer onde é que está o spray?
– Só digo se dançar comigo.
– Aff, deixa. Eu proucuro sozinha. Acho que eu ainda não vi ali. — Apontou para a prateleira alta, a mesma onde estava o que tanto proucurava.
– Ahh, huh... acho que sim. Já viu ali sim. Proucure em um outro canto. — DIsse um pouco nervoso.
– Hum, eu ainda acho que não. — Tentou se aproximar, esticando a mão.
Até que segurei sua mãozinha, sorrindo. Liguei o rádio sem solta-lá. O rádio começou a tocar, soando uma música lenta em nossos ouvidos.
– Daniel, eu não vou dançar com você. — Tentou se soltar, porém, eu era mais forte.
Passei minha mão por seus cabelos, e puxei sua cabeça, a deitando lentamente em meu peito. Ela foi aceitando meu pedido aos poucos, e então colocou uma de suas mãos, de um modo timido, na minha nuca. Começamos a balançar nossos corpos, no ritmo da música.
– Porque? — Ela parou de dançar, e me encarou, porém, ainda abraçada a mim. Sua voz estava melancólica.
– Porque o que?
– Me trata com frieza, me trata mal perto dos outros. É grosseiro comigo quase sempre, violento também. Mas quando estamos sozinhos você se mostra totalmente o contrário?
– E-eu... eu não sei bem como responder. Só sei que... é por causa do meu chefe. — A música estava quase no finalzinho. Resolvi calar a minha boca antes que eu estragasse todas as minhas chances.
Julie estava visivelmente decepcionada com a minha resposta, deitei sua cabeça novamente, e continuamos abraçados, agora, dançando. Como nos velhos — lindos e bons — tempos.
Ela foi levantando a cabeça quando viu que a música estava no fim. Desceu sua mão para o meu peito, ali, eu a segurei. Ela me encarou, beijei sua mão esquerda com paixão. Admito que não queria perde-lá, mesmo sabendo que esse dia irá chegar, o dia em que ela cumprirá totalmente sua pena, e for solta.
Mesmo assim, eu não queria disperdiçar meu tempo. Estando tão perto, e ao mesmo tempo tão longe dela.
– Julie... — Sussurrei, dei mais uns três beijinhos rápido em sua mão. Ela me encarava, deixando eu proseguir com o carinho. Fitei seu lindo rostinho, e o segurei com minhas duas mãos, me aproximando dela.
Eu iria beija-lá antes de fazer uma pergunta importante, porém, ela virou o rosto para o lado. Negando o beijo.
– Tem algo para me dizer? — Ela perguntou, um pouco seca. Assenti, chateado por não conseguir beija-lá. Respirei fundo.
– Quer namorar comigo? — Perguntei, ela escondeu o sorriso. — De novo? — Completei, agora segurando suas duas mãos.
– Não. — Respondeu naturalmente, sem olhar para mim, e sim fitando as coisas do armário. Estava perplexo com a sua resposta, será que nunca mais verei a Julie ''boazinha'' novamente? — Você achou o spray? Onde está? — Mudou radicalmente o assunto; Parecia esquecer que a poucos minutos estavamos abraçados, como namorados.
– Como é que é? Você disse não? — Engoli as lágrimas.
– É, entenda, é simples. Não. N-Ã-O.
– P-porque não? — Minha voz estava trêmula.
– Nada mudou, você continua frio. Comigo, ou não. Sempre será assim, e sempre vou sofrer com isso. Eu não quero. Não quero sofrer mais do que já estou sofrendo nesse lugar, e afinal, quando eu for solta desse inferno, não nos veremos nunca mais, a não ser que eu corte os meus pulsos. Você quer que eu me corte? — Ela perguntou propositalmente, ela sabia que eu não queria isso, nunca quis.
Eu sabia que ela estava certa, mas meu coração estava partido.
– Cadê os sprays? — Juliana quebrou o silêncio.
Eu estava imovel.
– Só dançou comigo para conseguir os malditos sprays de tinta, não é?
– Huh... nã-o... eu... — tentava se explicar. Mas acho que não tem explicação, já que foi apenas uma troca, uma música pelos sprays de grafite que tanto desejava. — Isso não é verdade. Gosto de dançar com você. — Ela sussurrou, eu ouvi. Mas não acreditei muito, também, depois do fora que levei. Eu estava em estado de depressão.
– Toma. — Falei, esticando minha mão para a prateleira, e entreguei o que ela queria. — Divirta-se. — Ironizei.
– E-eu... eu não sei se quero mais isso. — Ela comentou, olhando para o saco com as tintas. Parecia tão triste quanto eu.
Abri a porta do armário, sem ligar. Ela viu uma lágrima cair sobre meu rosto, mas logo a sequei.
– Está tudo bem? — Ela perguntou.
– Claro, nunca me senti tão bem. — Menti descaradamente.
– Daniel... — Ela tentou me chamar.
– E... pode deixar, não vou te seguir o tempo todo. Faça o que quiser. — Me virei e fui andando.
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