Destino.
22 Ao encontro do Destino.
Notas iniciais
Julie narrando:
Já tinha feito um tempinho que eu não estava mais presa em um cubiculo de concreto e grades. Eu estava sentada na mesa grande do restaurante, o lugar estava lotado de pessoas e as garçonetes tentavam ao máximo atender todos sem demora. Continuei sentada, olhando para o céu cor de noite, repleto de estrelas.
Na hora se passaram mil coisas na minha cabeça, estava um pouco arrependida de ter deixado aquele policial violento. Mas eu não voltaria atrás, não mesmo.
– Oi, quer fazer o pedido? — A garçonete se aproximou de mim, segurando um lápis e um bloquinho de notas, engraçado que aqui, no mundo espectral os fantasmas aparecem para os vivos sem problemas, acho que é no mundo dos vivos que eles não podem aparecer para nós, este é o caso dos meus dois amigos, Martim e Félix. — Seu pedido? — Perguntou novamente, percebi que estava distraida.
– Ahh, desculpe. — Sorri, ela assentiu. — Bom... vou querer um refrigerante grande, diet. — Eu dizia, e ela anotava com rapidez. — Duas tortas de frango grandes com catupiry, uma banana splite média e uma chicara pequena de café, com bastante açucar. — Recomendei, na hora ela se assustou um pouco com a quantidade de comida, mas ficou calada e se retirou.
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Já estava no último pedaço da torta de frango, a minha mesa estava lotada de pratos sujos, eu já tinha feito minha refeição quando vi um rapaz que me deu calafrios entrar, ele usava o uniforme azul marinho, o quepe na cabeça, escondendo seus cachos de anjos. Me encolhi na cadeira... era Daniel.
O mesmo chegou até o balcão da lanchonete, coxichou algo para a moça, infelizmente não consegui ouvir. Eu apenas torcia mentalmente para que ele não me visse, sei que ele deve estar à minha proucura.
O policial passou pelas mesas, olhando o rosto de cada um. Infelizmente não tinha muitas mesas vagas, ele parecia querer encontrar algum lugar para se sentar.
Minha mesa estava vazia, não tinha mais ninguém ali, além de mim. Me arrepiei ao pensar que ele poderia se sentar ao meu lado, e talvez até me reconhecer.
Olhei para meus pratos vazios e senti minha barriga cheia... eu nem tinha dinheiro para pagar, eu poderia passar a madrugada lavando a louça, pelo menos assim eu não iria se encontrada tão fácil.
– Oi — Ouvi sua voz soar... era Daniel, não me virei para ele, pois mesmo com essa touca grande e peluda, ele poderia me reconhecer.
Sem me dizer mais nada, ele se sentou a minha frente, e suspirou, triste '' Vou perder meu emprego '' ouvi ele sussurrar. Fiquei um pouco surpressa por ele parar exatamente no mesmo restaurante que eu, parece até coisa do destino.
– Desculpe... — Ele se debruçou na mesa, se aproximando um pouco, sem pensar, escondi meu rosto ainda mais. — Não perguntei, você está acompanhada?
Apenas balancei a cabeça, dizendo não, ele assentiu. Porém, fiquei pensando. '' Ele vai cantar outra garota, uma garota que mal conheceu? hum... ''
Ele se calou, e voltou a se sentar, começou a mexer no meu celular... bom, pelo menos ele o concertou.
– Oi, posso fazer seu pedido? — A mesma garçonete se aproximou de Daniel. Ela acabou deixando seu lápis cair no chão. Ela iria se abaixar para pegá-lo, mas Daniel foi mais rápido, e o pegou.
– Deixou cair... — Brincou, sorrindo um pouco. A garçonete segurou o lápis no mesmo lugar em que ele segurava, acabaram, acidentalmente, dando as mãos.
– Hum... — Só isso que eu poderia dizer para expressar o que eu sentia ao ver aquela cena.
Eu sei que foi apenas um gesto cavalheiro, mas admito que estou com ciúmes. Do Daniel.
– O que vai querer? — Novamente perguntou.
– Café. — Respondeu o fantasma, naturalmente. — Com bastante açucar. — Completou, fazendo o mesmo pedido que o meu.
A garçonete olhou para mim.
– Vai querer mais alguma coisa? — Perguntou, simpática.
Não queria que ele reconhecesse a minha voz, então apenas neguei com a cabeça. Ela saiu.
– Vem cá, você é tão calada... — Comentou Daniel, me deixando nervosa. — Deixe-me ver o seu rosto.
– Huh... Não. — Fiz uma voz mais fina, porém, ele ficou disconfiado.
Pegou meu celular, e o colocou na mesa.
– Conhece essa garota? — Apontou para uma foto minha.
Engoli em seco, balancei a cabeça, dizendo não.
– Hum... Acho que não está tão frio para usar essa touca, ela tampa metade do seu rosto.
– Aham. — Modifiquei minha voz, mas ele continuou a me encarar confuso, se levantou, se aproximando de mim, me encolhi mas isso já não era o bastante.
Daniel tirou minha touca com força, não se mostrou surpresso ao me ver.
– Você é uma péssima atriz. — Comentou, com uma expressão de raiva.
Segurou meu braço com força. Não tinha como eu fugir. Ele meio que me abraçou por trás, torçendo meu braço esquerdo, eu gemia de dor. Os fantasmas viam assustados aquela cena, mas Daniel logo mostrou seu crachá de policia e todos entenderam.
– Você pensa que eu sou bobo não é Juliana? — Me arrastou com força. Não o respondi.
A garçonete o parou.
– Essa garota não pagou o lanche.
'' Agora sim eu to fudida ''
– Do que está falando? — Daniel perguntou. — Ela é uma fugitiva. Deixe-me passar.
– Espere, ela precisa pagar.
O policial olhou pra mim. Sabia que eu não tinha dinheiro.
– Fica aqui. — Sussurrou ele para mim, fui obrigada a obedecer, ele me soltou, me fazendo suspirar aliviada por cessar a minha dor. Tirou do seu bolso uma nota de dez reais. E entregou para a garçonete.
– Agora falta mais cinquenta reais. — A moça falou, naturalmente.
– O QUE?!
– Isso mesmo, no total deu sessenta. — Mostrou o bloquinho com a conta.
Vencido, ele tirou uma nota de cinquenta e entregou à moça, o mesmo fazia uma cara feia para a mulher, que apenas sorria, zombeteira. Ele saiu de lá, segurando o meu braço, percebi seus olhos vermelhos, mesmo na escuridão da noite, parecia que ele havia chorado à pouco tempo.
– Desculpe. — Foi a única coisa que eu consegui dizer. Ele ignorou.
– Está me devendo sessenta reais garota.
Engoli em seco. Fiquei triste ao ver seu rosto de decpção, mas porque ele estava assim?
– Sabe Juliana. Agora posso te chamar pelo nome. — Falava, enquanto andavamos pela cidade, ele ainda segurava meu braço, garantindo que eu não fugiria. — Eu vou perder o emprego, quer dizer, já perdi o emprego... — Abaixou a cabeça, e torceu o canto da boca.
Uma onda de culpa veio em mim. Apenas suspirei.
– E como eu vou perder o emprego, acho que não vai fazer mal se eu tomar umas... — Comentou.
– V-você vai beber? Você bebe?
– Não, vai ser a primeira vez que eu bebo, é bom experimentar coisas novas, assim eu consigo tirar a demissão da minha mente.
– Daniel, não faz besteira.
– Cala a boca. Estou cheio de você.
– E-eu posso fugir enquanto você tá tomando todas.
– ''todas'' não, ''umas''. — Me corrigiu, dando a entender que não iria se embebedar muito. — E para garantir que você não vai fugir, de novo. — Ele parou na calçada, colocou um lado da algema no seu pulso, e outro lado no meu. — Agora cala a boca e anda. Estou triste com você.
Me calei e atravessamos uma rua movimentada, vi que um barzinho, tipo uma balada estava à nossa frente. Ele foi me levando até lá, e nós dois entramos.
Senti que ele não iria beber apenas para tirar a demissão de sua cabeça, e sim por outra coisa.
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