Destinados à Payre
14 Ele é meu!
{Payre}
Noor, a Especialista, fechou os olhos com raiva, evitando dessa forma a visão dos dois juntos.
Era realmente frustrante ver o Predestinado de Payre, aquele que ela, como pertencente ao grupo dos Guardiões, deveria proteger, sendo agarrado daquela forma por uma misera humana!
Bufando, largou o espelho. O objeto havia sido forjado por seu pai, o Duque de Kolch, um dos Duques mais poderosos de Payre, para servir como forma de ver o Predestinado na Terra. Noor só era capaz de ver e ouvir o Predestinado, isso quando ele estava próximo da água, mas era o suficiente para ela ser a habitante de Payre com o maior conhecimento sobre os humanos. O acompanhava desde quando ele era um bebê. Vira seus primeiros passos, sorrisos. Observara ele chorar. Sofrera junto, em seus momentos de maior tristeza. Aprendera a amar aquele que deveria salvar a todos eles. E orava diariamente a Deusa Ashy e ao Deus Erow, para que o Predetestinado voltasse logo para Payre.
Noor observou de esguelha a imagem da garota loira que estava com seu amado Salvador. E sorriu malignamente. Não tinha importância. Aquela humana não importava. Logo ele voltaria para eles e a humana seria esquecida, deixada naquele mundo distante. Então, ela teria muito prazer em ajuda-lo a superar aquela criatura efêmera e insignificante. Satisfeita com esse novo pensamento, Noor deixou o espelho com a imagem escurecida e o levou consigo para a reunião que teria com a Rainha e o Rei de Sylesth.
***
{Terra}
Ren olhou as imagens, já era a terceira vez que assistia aquilo. Tinha juntado todos os arquivos em uma única apresentação, tomando o cuidado de escolher apenas as melhores e mais impactantes cenas. Sério, aquela garota realmente era problemática. Não tinha dúvidas de que seria muito divertido ver a reação dos colegas e dos ilustres convidados que estariam no Baile. Sem falar no Príncipe!
Voltando a atenção para a apresentação, Ren franziu os lábios. Dava ainda mais raiva saber que tinha apanhado de uma maluca daquelas! Ela nem deveria estar solta entre os alunos! Luca havia tentado naqueles dias, convencê-lo a desistir disso, afinal outros sujeitos, mais habilidosos do que ele até, tinham sofrido o mesmo que ele. E ainda perderam uma boa grana. Mas Ren não ia cair fora dessa, não depois que percebeu o que tinha em mãos. Até pensou em chantageá-la, mas ela não tinha nada do interesse dele. Então seria mais divertido seguir em frente com o plano original. Expor em público que aquela garota não passava de uma cadela suicida e possivelmente uma assassina.
Dessa vez nem mesmo aquele arrogante do príncipe iria poder protegê-la. Angel seria enviada para longe. De preferencia para um reformatório, o que seria o mais indicado para uma adolescente drogada e homicida como ela. Ou talvez um hospicio, como já tinha acontecido antes. E Alexis poderia até agradecê-lo no fim, afinal, poderia estar salvando aquele traseiro real miserável de se tornar mais uma vítima daquela doida.
Assoviando feliz, guardou o pendrive no bolso e saiu do quarto. Uma das gêmeas francesas estava esperando por ele. Com sorte, as duas estariam.
***
Angel nunca teria se imaginado uma covarde, mas agora percebia que era. Nos últimos dias tinha andado totalmente comportada. Fora continuar não comparecendo às aulas, era uma aluna como os outros. E por quê? Porque não queria encarar Alexis.
Ainda estava tentando assimilar o que acontecera no último encontro dos dois. O beijo, a conversa sobre virgindade, sobre o pai dele. E a declaração que ficou no ar. Ela era mesmo muito covarde.
Quando voltou para o seu quarto naquele dia, depois do encontro na piscina, a primeira coisa que fez foi pesquisar sobre Alexis. Sério, como ainda não tinha feito isso? Jogou no buscador “Alexis Al-Saud” e o resultado já mostrou uma informação desconhecida para ela até então. O nome completo do príncipe era Alexis Ra’id Malik bin Talal bin Hamad Aziz al-Saud. Credo!
Passou os olhos por uma biografia dele. O sujeito era citado como uma celebridade da realeza, cheio de admiradores e com um currículo invejável. Uau! Era filho do cara mais rico do mundo! Bom, agora fazia sentido toda aquela obediência servil que observava nos outros. Então, achou algo sobre o que realmente buscava. A mãe do Príncipe.
A rainha Saray tinha sido uma princesa grega que havia se casado com o, então príncipe árabe, Hamad Aziz Al-Saud, com apenas dezenove anos. Ficou grávida alguns meses depois de Alexis. Ela e o marido se tornaram reis de Quidar dois anos depois, com o falecimento do monarca anterior. Quando Alexis estava com oito anos, ela foi morta, junto com um amigo do casal real, em um ataque terrorista.
Isso explicava o porquê do Rei ser tão estranho, Angel refletiu, provavelmente tinha amado muito a esposa e ainda não havia superado a perda dela. E também a fazia compreender melhor a personalidade de Alexis. Perder a mãe daquela forma,e tão cedo, não deve ter sido fácil. Ela própria ainda sofria a perda dos pais, sem nem sequer tê-los conhecido.
Lendo mais um pouco descobriu que ele constava em várias listas de homens mais bonitos, mais influentes, mais ricos, mais desejados... Caramba! Não era a toa que ele tinha um ego daquele tamanho! Sem falar na arrogância!
Mas, Angel pensou, ele nunca tinha sido realmente um tirano com ela. Desde o primeiro contato entre eles, Alexis a havia tratado com deferência e mostrado interesse. Mesmo quando procurou afastá-la, admitiu que estava sendo motivado por sua fraqueza por ela. Sempre a havia socorrido, mesmo quando ela não queria sua ajuda. Por isso, quase não reconhecia a pessoa descrita naqueles inúmeros artigos.
Frio, inacessível, intocável. “Principe dos Desertos De Gelo”, havia um artigo intitulado e vários outros seguiam a mesma linha. Ela notou que em nenhum contava alguma entrevista com ele e as raras fotos exibidas, ainda que mostrassem claramente a beleza dele, não eram poses feitas com esse fim. Eram imagens tiradas de longe, de passagens do príncipe por diversos lugares. E ele estava sempre sozinho, cercado por seguranças. Tantas coisas que tinham acontecido com ele, a morte da mãe, um pai meio maluco, as amantes reais, a bizarrice da sua primeira vez. Os abortos. A perseguição das mulheres gananciosas. Tudo aquilo o tornou distante e isolado. E ainda assim, ele havia permitido que ela se aproximasse. Ele tinha confiado nela. Na garota que nem a própria família queria.
Angel colocou as mãos nos bolsos, enquanto caminhava pelos corredores desertos do Dormitório Feminino, às três da manhã. Não poderia evitar Alexis para sempre. E, se ele havia dito a verdade, logo daria um jeito de confrontá-la novamente. Seria ela capaz de resistir? Duvidava muito disso.
Já tinha cogitado ir embora dali, até chegara a bolar um plano. A equipe de limpeza da Alpha se dividia entre aqueles que ficavam a semana toda na escola e só iam para casa nos fins de semana e os que vinham pela manhã e iam embora a noite. No Prédio Central ficava a sala de descanso deles e também o vestiário. Angel poderia roubar um uniforme e usá-lo para fugir no meio do pessoal que voltava para casa a noite. Lá do terraço de onde ficava, já vira vários indo embora com o uniforme, então não seria tão estranho. Uma noite tinha até arrumado sua mochila para por o plano em prática. Mas desistira. Por quê? A resposta a assustava. Covarde.
Droga, ela estava condenada! Tinha, o que, dois, três anos? Talvez um pouco mais. Ou poderia pifar naquela noite ainda. Sentindo os olhos ficarem irritados (ela não admitiria que estavam lacrimejando), apressou os passos, até estar em uma corrida desenfreada pela grama da área externa do prédio. Sem parar de correr, seguiu para o lago ao lado do jardim. Aquele exercício todo poderia lhe fazer mal, mas seu coração já doía de qualquer forma, então que se dane!
Depois de vários minutos, quando já mal conseguia respirar, se jogou no chão, deitando sobre a relva. Buscando ar, olhou para a lua minguante no céu limpo. Sem poder mais se conter, chorou. Derramou lágrimas doloridas pelas perdas que já havia sofrido em sua vida e por aquelas que estava para sofrer novamente. Chorou de raiva e de frustração, por sonhos que não poderia sonhar. Teria forças para isso? Chorou até mesmo de alegria. Quem poderia imaginar que um dia seria capaz de sentir aquilo tudo? Que sua vida vazia e solitária lhe permitiria esses momentos?
Ainda olhando para o céu, a garota gritou:
–- Ei Hye Kyo! Está vendo isso? Eu estou chorando! Chorando por um garoto! Pode dar gargalhadas agora, sua idiota romântica!
Entre risos e lágrimas, ela adormeceu.
***
–- Ei garota! Acorde, esse não é um local para indigentes!
Mona colocou as mãos na cintura, enquanto observava a figura jogada sobre a grama. Estava fazendo sua caminhada matinal pelo lago quando deu com aquela garota dormindo bem no seu caminho.
Não precisou de muito tempo para perceber quem era ela. Só podia ser a maldita Lancaster. Que outro aluno da Alpha seria estranho o suficiente para dormir ao relento onde todos poderiam ver? E ainda correndo o risco de receber uma advertência por isso.
Era até estranho, mas ainda não a tinha visto pessoalmente. Logo nos primeiros dias tinha procurado fotos dela na internet, mas para sua total surpresa não havia nada, e as informações eram extremamente raras. Parecia que o avô era realmente cuidadoso no que dizia respeito a neta. Também a procurou pela escola, mas a garota era uma maldita reclusa e nas raras oportunidades que a viu de longe, notou apenas uma pequena figura maltrapilha que não exibia o rosto.
Quando os vídeos dela cantando bêbada tinham ido parar na internet, Mona aproveitou para assistir e poder finalmente ver como era a tal Angel. Mas, tudo que mostrava era a mesma figura pequena, cambaleando pelos corredores vestindo um moletom cinza enorme, que cobria seu rosto.
Irritada, Mona olhou para a colega adormecida. Agora, aquela aberração usava uma calça moletom e uma camiseta de mangas longas com a estampa de um coelho pirata. Era mesmo uma esquisita! Observou também, com curiosidade, os cabelos platinados cheios de folhas, espalhados pela grama. A pele perfeita recebendo os primeiros raios de sol. Os cílios negros e os lábios rosados que davam um colorido a pálida figura. Droga, agora que tinha a chance de conhecê-la via que ela era a porcaria de uma boneca! Naquele momento então, parecia uma fada cochilando na relva.
Com mais raiva ainda, Mona se aproximou. Sua vontade era chutar a garota até ela acordar, mas do jeito que ela era louca, podia muito bem se tornar violenta! Assim, contentou-se em cutucá-la com a ponta do tênis esportivo que usava.
–- Acorda! – mais cutucões, agora na cintura – Vamos sua maluca!
Mona, parou de repente quando um par de olhos, com a cor mais linda que ela já tinha visto, viraram em sua direção. Mesmo sonolentos, exibiam um brilhante tom violeta.
–- Por que está me incomodando?
Droga. Droga. A voz dela não era bonita apenas cantando.
Sem se deixar intimidar, Mona cruzou os braços e disse:
–- Esse não é um local para dormir. Temos os Dormitórios pra isso, é contra o Regulamento dormir em locais impróprios pela escola.
Angel se sentou e alongou os braços enquanto dava um longo bocejo. Calmamente se ergueu e encarou Mona que não pode deixar de reparar no quanto a garota era baixinha. Céus, aquela coisinha minuscula tinha batido no seu irmão? E em pelo menos mais quatro grandalhões da Alpha? Como?
–- E quem é você? – a melodiosa voz sonolenta questionou.
–- Sou Mona Dewis.
–- Ah. Monalisa, irmã do Rembranth. – Angel a encarou melhor – Seus pais realmente sacanearam vocês dois, né?
Se Mona já não tivesse uma lista infinita de motivos para detestar aquela garota, agora seria o momento de odiá-la profundamente. Ela, em uma frase, havia tocado nas coisas que mais a incomodavam no mundo. Seu nome e seu irmão.
–- Não me chame dessa forma. Meu nome é Mona.
–- É. Eu entendo. Também não me divirto muito sendo “um anjo”. – tirando distraidamente algumas folhas dos cabelos, Angel começou a se afastar.
Por algum motivo, ser ignorada daquela forma, deixou Mona muito indignada. Aquela não era a garota que estava sempre se metendo em confusão? Como podia aceitar tão tranquilamente aquela sua abordagem abertamente agressiva?
–- Ei garota! – quando Angel parou e se virou, Mona a fitou cheia de arrogância disparando num só folego – Quando pretende ir embora da Alpha? Já não está tempo o suficiente por aqui? Até quando vai ficar rondando o príncipe Alexis? Não pense que é a única que já tentou se aproximar dele com essas táticas ardilosas. Nenhuma conseguiu algo.
Mona percebeu o perigo em que tinha se metido, quando a loirinha começou a caminhar na sua direção, a encarando com olhos muito frios. Parou quando chegou na sua frente, mesmo tendo que erguer levemente a cabeça, parecia bem mais perigosa do que muitos homens poderosos que Mona já havia encontrado. Controlando o pânico crescente, manteve os olhos fixos nos dela.
–- Então, imagino, você deve ser uma dessas “com táticas ardilosas” que não foi bem sucedida. Essa sua atitude é uma forma de pedir minha ajuda?
–- Como?!
Angel inclinou levemente a cabeça para o lado, analisando o seu rosto, com aqueles olhos hipnotizantes.
–- Bem, obviamente as minhas táticas estão dando certo. Quer que eu te ensine como fisgar o príncipe rico e bonitão?
Mona praticamente ferveu por dentro. Aquela vagabunda!
–- Eu não quero dormir com ele, se fosse esse meu objetivo, já tinha aberto as pernas. Como você. – a raiva era tanta que ela perdeu a noção do perigo, olhou Angel dos pés a cabeça e disse com desprezo – Não sei o que ele viu nisso.
–- Tudo, na verdade. – Angel arregalou os olhos com falsa inocência – Ah, não era disso que estava falando, certo? Me desculpe, equivoquei-me. Você é apenas uma doce garota que quer fisgar um marido rico para exibir ao mundo seu poder e status. Nada dessa coisa de pegação.
–- Não estou atras de um homem rico.
–- Não, realmente não está. Você quer um príncipe.
Mona também exibiu frieza nos seus olhos dourados.
–- Está enganada. Eu quero o príncipe Alexis.
Angel sorriu zombeteira.
–- Me desculpe estragar os seus lindos sonhos cor-de-rosa, mas acho que é fria e chata de mais para ele. Pode não saber, até porque não parece, mas Alexis não curte esse estilo donzela de gelo e cheia de mimimi. Sabe, é por experiencia própria que estou dizendo.
–- Tudo bem. Como já disse, meu propósito não é estar na cama dele. É estar com ele no altar.
A pequena loira sorriu ainda mais.
–- Agora entendi. Provavelmente outra mulher seria a amante dedicada. Você seria apenas a esposinha perfeita.
–- Não apenas a esposa. Seria a Rainha.
–- Claro, a Rainha Galhuda. Nossa, estou com muita inveja.
Mona mexeu levemente a mão, mas parou subitamente, ao ouvir as palavras geladas da garota, ditas em tom baixo e ameaçador.
–- Se mexer um milimetro sequer, eu vou quebrar cada ossinho dessa mão gananciosa e delicada que tem. Monalisa.
Assustada, não foi capaz sequer de sentir raiva ao ouvir seu nome completo. Seu corpo inteiro gritava para correr o mais rápido possível. Mas o orgulho esbravejava contra essa atitude covarde. E ele venceu, ainda que ela se mantivesse totalmente paralisada.
–- Agora, Monalisa – Angel pareceu fazer questão de falar seu nome bem lentamente – vamos esclarecer algumas coisas. O que existe entre mim e Alexis não é, e nunca será, da sua conta. – ela deu alguns passos na direção de Mona, sorrindo perversamente quando a viu se afastar – E, não seja tão idiota. Alexis obviamente já esta ciente desse seu plano maquiavélico e ele não parece estra interessado, não é mesmo? Então uma dica, garota do sorriso enigmático, vai caçar um outro príncipe que seja tão mercenário e irritante quanto você e principalmente – seus olhos violetas brilharam ainda mais ameaçadores – que esteja disponível.
Dando um último olhar de advertência, a garota partiu em direção ao Dormitório Feminino sem olhar para trás.
Mona finalmente conseguiu respirar direito, só então reparando que esteve com dificuldade de fazer isso durante toda aquela conversa. Aquela garota era assustadora. Parecia um anjo, mas causava calafrios como um demônio. Observando o caminho por onde ela havia seguido, Mona recordou suas últimas palavras “que esteja disponível”.
Então a relação entre os dois não era tão superficial quanto ela imaginava? Eles realmente estavam em algo sério?
Recomeçando a caminhada Mona cerrou os punhos. Não ia permitir que todos os seus esforços durante aqueles anos fossem jogados no lixo apenas por que o Príncipe tinha encontrado um brinquedinho divertido. Ele era homem, então era óbvio que tinha suas necessidades. Ela franziu a testa, tudo bem que nunca sequer tinha ouvido falar de algum caso entre o Príncipe e alguma garota, dentro ou fora da Alpha. Já vira muitas garotas, as mais idiotas a ponto de tentarem algo, levando uma “gelada” dele. Provavelmente tanto celibatarismo fez com que ele visse a nova aluna com outros olhos. Afinal, ela fugia do padrão encontrado entre as garotas que conhecia. Como Mona tinha pensado, apenas um brinquedo exótico e divertido. Facilmente descartável.
Com raiva, a garota refletiu “mesmo que eu quebre minhas mãos no processo, eu vou estraçalhar esse brinquedo, até que ele fique em pedaços!”
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