Destinados à Payre

35 A primeira morte


Notas iniciais
Olha eu aqui!! Dessa vez quero, de cara, agradecer a minha beta, CisneNegro! Você é linda, poderosa e paciente. Obrigada por disponibilizar o teu tempo para arrumar minhas vírgulas, pontos, palavras... e pelas inúmeras discussões que são sempre proveitosas. Mas eu sempre tenho razão, viu? u_ú hauahuahauahauhauahuh Então boa leitura!! ^^

— Veja, Esan, sou capaz de controlar raios, mesmo não sendo um Nerini! – o garoto olhava fascinado para as próprias mãos, das quais lindos raios crepitavam, indo de uma para outra, conforme ele os conduzia. – O Mestre disse que isso é extremamente raro, que só acontece porque sou muito forte. – os olhos cinzentos brilhavam orgulhosos ao fitar os verdes do primo.

Esan, nos seus onze anos, a mesma idade de Erak, já mostrava uma calma que era considerada (até mesmo) estranha para alguém tão jovem. Ele sorriu e elogiou a façanha daquele que seria seu futuro soberano:

— Seus pais ficarão orgulhosos. Imagino que eles ainda não sabem.

— Não sabem. O Mestre Dari disse que papai e mamãe ficarão ainda mais contentes se eu mostrar que já controlo bem meu poder, por isso estava me preparando para poder fazer uma surpresa! – era visível que ele mal podia conter seu entusiasmo – Agora consigo!

E para mostrar que conseguia de fato, ergueu o braço e uma descarga surgiu ao redor do garoto, como uma barreira bela e perigosa. Esan sabia que se tocasse naquele poder, seria gravementeferido. Estava realmente impressionado. Ainda que fossem raros os mestiços entre Alicanos e Nerinis, eram ainda mais raros os filhos que conseguiam desenvolver os poderes dos dois progenitores. Erak era um Alicano, pois logo foi possível notar a ausência das orelhas Nerinis, e a existência das garras. Ele possuía a agilidade, não tanto quanto um Nerini, mas seus sentidos eram extremamente aguçados, além de ser capaz de se regenerar com facilidade. Na maioria das vezes nem precisava da ajuda de um Curador. Mas era surpreendente sua capacidade de controlar um elemento da natureza, algo que somente um Nerini era capaz.

Sim, era mérito de Erak, mas Esan considerava que tal feito tinha mais relação com o incrível poder de seus pais. O Rei Melkor era impressionantemente forte, nunca havia perdido uma luta e era temido por seus inimigos, mesmo aqueles conhecidos por serem invencíveis em batalha. Todos os Nerinis controlavam um elemento, no máximo dois por toda a vida. A Rainha Syka tinha uma aparência delicada, contudo era a única Nerini com capacidade de controlar quatro elementos: raio, fogo, água e ar. Diziam até que com o passar dos anos provavelmente ela conseguiria ainda mais. Como não seria extraordinário o fruto de um casal como esse?

Erak baixou o braço e sorriu.

— Vou lá mostrar para eles. Você vem junto?

Esan limitou-se a balançar a cabeça de forma positiva. Sabia que Erak precisava dele, da sua presença para adquirir confiança. Enquanto seguia o garoto, que praticamente corria pelos corredores do palácio de Alirini atrás dos pais, Esan refletia sobre os pesares de Erak ser quem era. O jovem príncipe era simplesmente a criança mais cobrada, mais visada e mais vigiada de Payre. Tudo o que ele fazia tinha um propósito, qualquer gesto ou palavra era estudada por seus tutores e por seu Mestre, que era o pai de Esan, mas que jamais poderia ser chamado de “tio” por seu pupilo. Erak tinha um destino, uma missão lhe havia sido dada logo que abriu os olhos pela primeira vez naquele mundo.Proteger Payre até o retorno do Predestinado. Nada era mais importante do que aquilo. Nem mesmo sua vida.

Esan também tinha a própria missão. De acordo com o que o pai havia lhe dito, no futuro, ele seria um Guardião. Protegeria o Predestinado e os Escolhidos da Deusa Ashy. Sabia que esse deveria ser o seu maior dever e o cumpriria sem hesitar, mas em seu coração havia um ainda maior. Ele tinha decidido que daria sua vida para cuidar daquele que era seu melhor amigo, seu mais querido primo e seu valente príncipe. Sua vida sempre estaria nas mãos de Erak, unicamente. Havia prometido a si mesmo que os olhos do primo jamais se fechariam antes dos seus.

Ao entrar no quarto dos Reis Esan nem sequer hesitou. Embora fossem os soberanos de Sylesth, Melkor e Syka não eram dados a formalidades, por isso continuou a seguir Erak até a sacada. Parou ao lado do garoto, estranhando o fato de ele permanecer parado, apenas olhando pela janela. Seguiu seu olhar e deparou-se com o Rei e a Rainha, abraçados, fitando o céu estrelado em silêncio.

— Por que está aqui parado?- indagou curioso a Erak.

Após alguns instantes, o menino respondeu, em tom muito baixo e sério:

— Não posso interromper. Eles estão conversando com ele.

— Ele?

— Meu irmão. – após alguns minutos, os olhos cinzentos se entristeceram, e sua voz saiu levemente abafada – Ela segurou a mão do papai. Mamãe vai chorar agora.

Surpreso, Esan viu, de fato, a Rainha chorar após segurar as mãos do marido. Era o choro mais doloroso que ele já havia presenciado. Seu próprio coração pareceu doer ao ouvir aquele lamento tão profundo. Então ele se deu conta. Quantas vezes Erak já tinha presenciado aquela mesma cena? E o quão dolorosa era a dor que o garoto também carregava consigo?

— Por que você não se aproxima? São seus pais e é sobre o seu irmão, Erak.

O menino balançou a cabeça, sem desviar os olhos da cena na sacada.

— Eu não quero. Mamãe e papai ficam tristes quando conversam com ele. Papai, às vezes, também chora.- com voz decidida ele completou – Eu vou ser forte por todos nós. Eu não vou ficar triste por ele e nem vou fazer eles ficarem preocupados comigo. Você vai ver, Esan, nunca vou deixar meus pais chorarem assim por mim.

***

— Por que fez aquilo, Erak?

— Do que está falando?

Esan aproximou-se do primo, que estivera até então parado, observando o céu pontilhado de estrelas e com duas belas luas brilhantes em tons de prata e azul. Com a intimidade característica entre eles, tocou com leveza a cicatriz acinzentada no pescoço alvo do Rei, que continuou a fitar um ponto qualquer ao longe.

— Porque permitiu que ele te ferisse dessa forma? – os olhos verdes de Esan desceram para a mão do monarca. Ela estava inteira novamente, mas a dor certamente tinha sido enorme, sem falar no risco desnecessário da situação. E se Alexis tivesse usado a Morte Cinzenta, e não suas garras? Erak teria perdido aquele membro para sempre. Por quê?

— Alexis se tornou forte mais rápido do que esperávamos.

— Não minta para mim. – havia tranquilidade em sua voz, apesar da dureza de suas palavras. – Sei que ele seria um inimigo formidável, mas não quando estava tão machucado. E também sei que foi surpreendente quando ele usou a espada do Rei Melkor com tamanha destreza, mas apesar disso tudo, você não teria apanhado tanto. De maneira alguma perderia até mesmo uma mão!

Erak ergueu a mão e a observou com expressão indecifrável. Mas não para Esan, que o conhecia melhor do qualquer um. Melhor até mesmo do que o próprio Rei, por isso não conteve a surpresa ao compreender o que tinha acontecido. Será que Erak tinha agido de forma consciente sobre isso?

— Foi a mesma que feriu Angel. – comentou com estudada casualidade. Quando viu Erak apertar o punho com força, obteve a sua resposta.

Seu primo era mesmo uma figura lamentável.

***

29 dias depois…

— Então, como foi dito por seus Mestres, hoje teremos uma batalha na qual mostrarão tudo o que aprenderam. A partir dela saberemos se estão preparados para sair da proteção do palácio Alirini.

— O que acontecerá se falharmos? – percebendo os olhares estranhos em sua direção, Angel deu de ombros. – O quê? Pode acontecer, oras.

A Rainha assentiu.

— Tem razão, Angel, pode. E, se isso ocorrer, quem falhar passará por todo o treinamento novamente. É claro que estamos com pressa, muitas vidas estão sendo perdidas em Payre enquanto temos essa conversa, mas muitas outras serão se não formos cuidadosos. Não podemos arriscar a segurança de nenhum de vocês. Não podemos perdê-los.

“Não até que terminemos essa bendita missão”, pensou Angel, “depois já é outra história”.

A Rainha fez um sinal e o chão a frente deles começou a se abrir. Deu para perceber que havia uma proteção de cristal que os impediria de cair lá embaixo, mas então Angel notou. O cristal não tinha essa função. Ele, na verdade, impedia que o que estava lá embaixo chegasse até eles. Um Deiroon, Angel logo reconheceu. Ele observava a todos com seus profundos olhos negros, exibindo um sorriso até mesmo arrogante, ainda que estivesse naquela situação. Preso e a mercê de seus captores.

— Cada um de vocês lutará contra um Deiroon. Até a morte, dele, claro.

Angel retorceu os dedos gelados. Lali com sua voz trêmula, comentou aquilo que ela também pensava:

— Mas ele está preso. Nós vamos matar um prisioneiro que não tem como escapar. Isso é assassinato.

Angel notou que a Mestra da garota tocou-a no ombro de forma gentil.

— Lali, já conversamos sobre isso.

— Eu sei, mas... mas... é errado.

— Não usem seus conceitos Humanos em Payre, pensei que já tinham entendido que isso seria uma grande tolice. – Erak disse com tom aborrecido.

— Sabem o que os Deiroons fazem com aqueles que capturam? – Noor indagou, e sem esperar por resposta, continuou friamente: — Eles estupram, matam e comem. Não exatamente nessa ordem. Mesmo durante as batalhas eles devoram seus inimigos. Os Meiruus e os Darkanos não são diferentes. Eles, depois que se cansam de “brincar” com seus prisioneiros, os negociam com os Deiroons, como meros pedaços de carne.

Sim, Angel sabia que era tudo verdade, mas... ainda era uma vida. Quem assassinava tão friamente, ainda que fossem seus cruéis inimigos, poderia mesmo ser capaz de julgar os atos de maldade alheia?

— Minha nossa! Vocês são tão idiotas assim? – Ren parecia quase entediado. – Se não os matarmos, nós morremos. Querem que eu desenhe para entenderem melhor a situação? – seus olhos negros cruzaram rapidamente com os de Angel, deixando-a prontamente encrespada, sem se abalar ele disse: — Não é como se fosse uma novidade para alguns aqui.

— Cale essa maldita boca, Rembrandt!

Angel sentiu o queixo cair. Alexis que dera um passo a frente, paralisou-se. Choi e Lali arregalaram os olhos, surpresos. Ren ficou mudo. Apenas Mona, a causadora de tamanho espanto, manifestou-se, com ainda mais ênfase:

— Se há alguém aqui que pode ser chamado de assassino, é você! Quando criou sua vingança sórdida contra Angel, deixando-a tão abalada que a matou! – com firmeza, questionou: — Tem consciência que ela morreu lá na Terra? Que foi por culpa sua? – com voz embargada assumiu. – E minha.

— Do que está falando, sua maluca? – o rapaz parecia levemente pálido.

— Angel tinha um problema cardíaco, quando você fez aquilo no baile, ela entrou em choque e... – Mona piscou com força, revelando uma garota que Angel não reconheceu. – Se não tivéssemos vindo para Payre, você seria responsável pela morte dela. Nós dois seríamos. De uma inocente. – em tom baixo, revelou. – Foi o Leonard, Ren. Ele foi o verdadeiro culpado de tudo, não ela.

O olhar perdido de Ren mostrou sua surpresa com as verdades contidas nas palavras da irmã. Mas logo seu costumeiro orgulho se impôs e ele desdenhou:

— Bem, mas ela está ok agora, não está? Além disso, — ele sorriu zombeteiro. – todos nós colocamos o pé na cova quando viemos parar aqui, estamos todos na mesma porcaria de buraco. – Ele teve a cara de pau de desviar a sua atenção para a protagonista daquela conversa. – Sejamos realistas. Eu não vou com a sua cara e imagino que sinta o mesmo, então vamos acabar com esse papo, nada disso vai servir para nos ajudar a escapar desse lugar. – voltando a atenção para a Rainha Syka, prontificou-se – eu vou matar esse monstrengo. Como faço para entrar ali?

— Você não o enfrentará sozinho, Ren. – a Rainha observou o grupo. – Vocês lutarão em duplas, contra eles.

Assim que suas palavras foram ditas, ao redor de onde estavam mais dois buracos no chão foram abertos, revelando um prisioneiro Deiroon em cada um deles.

Angel reparou que eles tinham, além da aparência robusta e intimidadora, olhos negros e amarelados que a deixavam arrepiada. Eram cruéis, não exibiam qualquer traço de temor ou receio pela clara situação de vulnerabilidade em que se encontravam, a postura relaxada mostrava até certo desprezo por todos que os observavam do alto.

Ela encarou um deles e notou um discreto brilho de curiosidade nos olhos do Deiroon, então ele sorriu e passou a língua escura pelos lábios lentamente, como se já a estivesse saboreando. A garota fez uma careta. Até parece que tinha sobrevivido a morte apenas para virar o lanchinho do primeiro que a encarasse como se ela fosse uma suculenta costelinha de porco. Não tinha vontade de matar ninguém, mas não seria devorada por aqueles seres sombrios tão facilmente.

— Como serão definidas as duplas? – Lali questionou à Rainha.

— Realizaremos um sorteio.

Angel, Alexis, Choi, Lali, Mona e Ren se entreolharam, avaliando seus possíveis parceiros. Angel suspirou. Com a sorte que tinha certamente faria dupla com Ren, ou com a Mona. Mesmo depois do emocionante discurso da quase-ex-do-Choi sobre a sua fatídica morte e posterior ressurreição, que livrou Ren de aguentar seu espírito vingativo a assombrá-lo eternamente, não podia dizer que se tornariam as novas best friends forever de Payre, por isso cruzaria os dedos e aguardaria por uma parceria que não lhe desse tanta vontade de surrar mais do que o inimigo em comum deles. Só para facilitar as coisas.

— Assim que forem determinados os pares, serão encaminhados para seus respectivos adversários. Vocês lutarão dentro dessas prisões, pois elas foram feitas para conter totalmente qualquer tentativa de fuga dos Deiroons. – Syka mostrou uma seriedade incomum -mesmo para Angel, que quase a tinha enlouquecido durante os treinamentos -ao afirmar – Cada Mestre ficará responsável por seu discípulo e irá intervir assim que notar uma situação de risco fatal. Quando o Mestre entrar na luta, ela será considerada concluída e a derrota da dupla ocasionará em mais trinta dias de treinamentos intensos.

— As disputas ocorrerão todas ao mesmo tempo, e o Curador Falki já está com sua equipe preparada para atendê-los. – acrescentou Erak. – Vocês não correrão risco de morte, mas serão brutalmente feridos. Muito mais do que foram até agora.

Angel passou a mão pela barriga e arqueou uma sobrancelha para o Rei. Ele mostrou um discreto sorriso, ao dizer:

— Pelo menos a maioria de vocês.

Ela bufou. Que bom que ter sido atravessada pelas garras do babaca tinham servido para deixar ao menos alguém feliz. Além de Ren, claro.

— Então, vamos jogar no palitinho logo? – vendo a expressão de confusão dos Reis, ela resmungou. – Sortear, escolher, definir...? Como será isso?

A Rainha tirou algumas pedras da delicada pulseira colorida que usava e as colocou dentro de um lenço, usando o adereço como se fosse um pequeno saco azul. Após fazer isso, ergueu os olhos para os Humanos.

— Coloquei duas pedras de cada cor, aqueles que escolherem as mesmas cores, formarão uma dupla.

A soberana parou na frente do Ren, que tirou uma pedra branca. Lali tirou uma verde, Choi uma vermelha. Angel bateu o pé, ansiosa e irritada, pois os três conseguiram a proeza de pegar as únicas três cores diferentes que tinham sido colocadas ali! Que coisa!

Mona sorteou a verde e franziu as sobrancelhas, não parecendo muito feliz com aquilo.Angel ficou curiosa com a atitude dela, mas ao notar a aproximação do Choi e o seu gesto simpático de tocar no ombro da indiana, parecendo querer animá-la, sacou na hora o problema. Mona tinha ciúmes da amizade entre os dois. O que era muito engraçado, porque pelo que ela tinha notado... Putamerda! Alexis pegou a pedra branca! O Príncipe não esboçou reação alguma, mas Angel viu Ren olhar com desconfiança para o “parceiro”. Ele já devia estar imaginando quem seria o seu maior problema naquela luta: o Deiroon ou Alexis. Rindo, e sem expectativa alguma diante do óbvio, Angel retirou a última pedra do saco e a exibiu para Choi, que apenas balançou a cabeça e comentou, do seu jeito dramático:

— Ah droga, vou voltar para o Centro de Cura!

— O que está querendo dizer com isso, Montinho? – ela indagou parando na frente dele, as duas mãos na cintura.

— Ora, o último que lutou ao seu lado se ferrou bonito. Mal reconheci o Alexis depois da luta de vocês, o coitado estava todo estropiado! – ele balançou a cabeça, pesaroso.

Antes que Angel pudesse responder a altura, ou socá-lo, a Rainha interviu:

— Duplas, posicionem-se sobre os cristais, por favor.

Angel nem pensou, foi na direção do Deiroon que tinha a encarado antes, sendo seguida por um Choi cheio de suspiros. Se ela tivesse a chance, ia aproveitar para dar uns sopapos nele também — totalmente sem querer. Quando parou e se virou, notou que todos os demais também já haviam se posicionado.

— Preparem-se e, assim que eu disser, lutem. – Syka, assim como Esan, estavam ao lado dela e de Choi, sobre a prisão do Deiroon de olhos amarelados que mantinha a atenção fixa nela.

Angel procurou Alexis e inclinou a cabeça para o lado, fazendo com que a sua longa franja caísse sobre os olhos violetas. O restante do cabelo estava firmemente preso em um rabo de cavalo no alto da cabeça. Ela analisou a expressão calma dele, mas não se deixou enganar. Alexis estava ressentido com tudo aquilo. Ele estava a alguns metros do primeiro ser que iria matar, ainda que fosse para poder sobreviver, pois a garota não tinha qualquer dúvida sobre quem faria o serviço ali. Ren podia estar se gabando de sua insensibilidade e poder, mas não seria páreo para aquele olhar decido que ela via em Alexis. Ele iria matar aquele Deiroon, não porque queria, não para mostrar aos payreanos que podia, mas para provar a si mesmo que seria capaz de fazer isso sem se tornar alguém diferente do que era. E ela faria o mesmo.

Com os olhos ainda presos nos azuis do Príncipe, ela ouviu a voz da Rainha:

— Lutem!

Foi uma queda rápida e que não chegou a surpreendê-la. Com agilidade, caiu rolando pelo chão, na direção oposta a do inimigo e se ergueu. Logo Choi estava ao seu lado.

— Nós temos alguma tática ou vamos só encher ele de porrada e ver o que acontece?

Ela ergueu o rosto para o Deiroon, que não escondia o sorriso cheio de dentes afiados. Para Choi, respondeu:

— Vamos testar um pouco, para descobrir do que o grandalhão é capaz.

Após dizer isso, ela se aproximou audaciosamente do inimigo, ficando a apenas dois metros de distância. Ele ainda sorria e não parecia nem um pouco impressionado com a coragem dela. Estando mais próxima, Angel notou, com surpresa, que ele era um sujeito boa pinta. Embora a maior parte do rosto estivesse cheio de símbolos, que ela sabia serem em sua maioria de nascença, dava para notar o nariz um tanto longo, mas regular, as maçãs do rosto altas e a boca com lábios bem feitos. Os músculos dispostos nos mais de dois metros de altura eram sólidos e fariam muitas mulheres suspirarem, principalmente as que curtiam tatuagens, pois ele tinha todo o peito nu coberto por elas.

Bem, ela não era uma dessas mulheres, embora tivesse ficado bastante interessada na versão tatuada que agora Alexis exibia. Durante os treinamentos dele com o Rei, Alexis tinha conseguido absorver sua espada, como Choi, Lali e Ren tinham feito, e o resultado havia sido uma tatuagem preta, como se fossem marcas tribais, que desciam do ombro e seguiam por todo o braço direito, dando a volta no pulso e terminado no centro de sua mão.

— Você tem um cheiro delicioso, criaturinha.

A voz grave tirou-a de suas fantasias com o namorado e a lembrou que estava no meio de uma luta até a morte com um dos seres mais perigosos e cruéis daquele mundo. Céus, Alexis às vezes a fazia parecer uma adolescente idiota cheia de hormônios ensandecidos. Aborrecida com a situação, retrucou:

— Eu sei. E já vou avisando que essa cantada não cola, bonitão.

Ela ficou tentada a rir ao notar o espanto tomar as feições sombrias, desfazendo um pouco o ar constantemente ameaçador do Deiroon. Após alguns instantes ele pareceu se recuperar, e seu sorriso maligno, agora com uma pitada de malícia, pintava mais para o sugestivo do que para cruel, contrastando com as palavras doentias:

— Eu vou adorar devorar cada pedacinho de você, pequenina.

Após dizer isso, o Deiroon lançou-se na direção dela, Angel tentou escapar, mas ele era muito mais rápido que imaginara. Quando conseguiu entender o que acontecia, estava sendo jogada pelo ar, após ter sido rebocada pela perna. Seu corpo atingiu com força a parede, mas sem causar qualquer dano ao metal frio do qual era feita. Pelo visto a prisão era realmente reforçada. Pena que o mesmo não poderia ser dito sobre ela mesma, pois o impacto tinha a deixado quase sem fôlego e a dor em seus ossos deixou-a sem ação por alguns segundos.

Viu Choi puxar o ar com as mãos e jogar um vendaval, muito mais concentrado e potente do que o feito contra Mona anteriormente, mas o Deiroon ficou absolutamente parado, gargalhando, enquanto as marcas do seu rosto brilhavam em um tom escarlate.

Choi mudou de tática, tocou na parede de metal atrás de si e para espanto de Angel, os braços do rapaz se transformaram no material que ele havia tocado. Caramba, o treinamento com Esan tinha sido algo! Ainda impressionada, viu ele correr e saltar sobre o Deiroon, socando-o. Mas o outro, apesar do seu tamanho, era incrivelmente rápido. Ele desviou com facilidade, abaixou e socou o estômago do rapaz. Sangue jorrou da boca de Choi quando ele caiu em agonia no chão. Angel reagiu.

Ela se ergueu e esticou os braços na lateral do corpo. As tatuagens prateadas que agora possuía em seus pulsos ficaram mais claras e começaram a escorrer, fluindo como se estivessem em forma liquida, atingindo suas mãos, escorrendo por seus dedos até atingir o contorno das espadas. Quando a cor escureceu, Angel empunhava as Penas de Dragão.

Correndo em zigue-zague, deslizou pelo chão ao chegar perto adversário, evitando que ele a chutasse, se ergueu atrás dele e desferiu um corte em seu braço robusto. Chocada, viu o ferimento fechar segundos depois que a lâmina deixou a pele escura. Era uma regeneração muito superior à dos Alicanos. Mesmo Erak não se curava daquele jeito!

Estava tão surpresa que não percebeu o punho até que ele atingiu com força sua cabeça e, com a potência de um porrete, esmagou-a contra o chão frio e duro. Sentiu o sangue escorrer de seu nariz, sua cabeça tornou-se pesada e pareceu quebrar em diversos pedaços doloridos. Não sentiu que fosse capaz de levantar tão cedo, por isso estranhou quando seu corpo se ergueu, mas então a dor no couro cabeludo, que lhe trouxe lágrimas aos olhos, a fez entender que o Deiroon a tinha erguido pelos cabelos como se fosse uma boneca de trapos. Ele a colocou na altura do próprio rosto. Angel mal conseguiu manter os olhos focados, mas foi o suficiente para perceber que estava muito ferrada. Os olhos dourados sorriram vitoriosos e famintos.

Quando ele a aproximou e lambeu a lateral do seu rosto, do queixo a testa. Ela sentiu vontade de vomitar, embora pudesse ter também relação com o quanto ainda se sentia tonta, mas a revolta foi muito maior. Cravou uma das espadas que mantivera em suas mãos, no peito do desgraçado. Ele levou os olhos para o local, então voltou a encará-la, cheio de raiva.

— Acha que poderá me vencer com essa espada de criança?

Ah, que sujeito desagradável! Como ousava falar mal de sua espada daquela forma? Tudo bem que no inicio ela própria não tinha levado muita fé nas “pluminhas”, mas depois de semanas treinando com a Rainha, que também se mostrou uma inquietante surpresa para ela, tinha entendido que as aparências podiam ser bastante enganosas.

Com energia renovada diante do desafio provocado pelas palavras dele, Angel balançou o corpo, ignorando a dor aguda em sua cabeça, ampliada pelo movimento brusco, e apoiou o pé no estômago do Deiroon, usando-o como base para tomar impulso ao levar a outra mão para o cabo da espada. Com as duas mãos segurando firmemente uma das Penas de Dragão, ela impulsionou a lâmina para cima. Gritando com a dor que sentia e com a força que usava para fazer aquilo, ampliou o corte feito anteriormente pela espada. O Deiroon urrou em protesto, largando-a com brusquidão ao mesmo tempo em que a socou com a outra mão, lançando-a para longe, como a um inseto que meramente lhe perturbava.

Angel já tinha sido socada e arremessada por ele antes, por isso não houve surpresa com a força do golpe. Sangue lhe escapou da boca e seus movimentos pareceram ficar preocupantemente lentos, mas ela conseguiu reagir e rolar pelo chão, sem se ferir ainda mais no processo. Quase sem fôlego, se ergueu e olhou para o lado. Choi vinha correndo em sua direção, ela gritou:

— Ei, pode dar uma mão nessa luta? Ou só veio para ficar assistindo, mesmo?

Ele parou e sorriu, a preocupação sumindo do seu rosto. Sem responder a provocação, o garoto, ainda com os braços de metal, foi para cima do Deiroon, que tentava arrancar a espada do seu peito sem sucesso, fazendo com que uma enorme quantidade de sangue cor de rubi escorresse pela espada cravada.

Aquele tinha sido um dos vários truques interessantes que descobriu sobre a espada. Ela era um tipo de Excalibur. Ninguém além dela mesma seria capaz de tirá-la de onde quer que a cravasse. Pareceu-lhe bem útil usar essa peculiaridade contra alguém que se regenerava. Como o corte não fecharia, ele continuaria sangrando e como qualquer outro ser, ficaria cada vez mais fraco. Ah, coitadinho dele! Ainda que estivesse em estado lastimável, ela sorriu feliz enquanto observava Choi dar um soco certeiro na mandíbula do adversário deles. O Deiroon cambaleou, mas resistiu.Não apenas ao murro dado pelo garoto, mas também a todos as potentes pancadas dos punhos de ferro que seguiram. Angel viu com satisfação que osangue também começou a correr pela boca do grandalhão, sinal de que seu poder de regeneração estava enfraquecendo. Mas não o suficiente. Com um berro cheio de fúria, o Deiroon bloqueou um dos golpes de Choi, segurou seu punho entre suas mãos enormes e,com um impulso, jogou-o contra o cristal do teto. Quando ele começou a cair, o Deiroon saltou em uma velocidade espantosa para alguém que tinha uma espada em seu corpo, girou os dois no ar e caiu com violência sobre Choi, ao atingirem o chão. Ainda que estivesse sendo esmagado pela força impressionante do outro e completamente tonto pelo golpe, Choi conseguiu pensar com rapidez. Espalmou a mão sobre o chão, até que ele começou a tremer e se partir. Enormes fendas se formaram, e delas pedaços de rochas afiadas em forma de estalagmites começaram a se erguer em todas as direções.

O Deiroon olhou espantado para aquilo, dando a oportunidade que Choi precisava para escapar dali. Depois de se encolher e chutar com toda sua força o cabo da espada que o inimigo trazia presa a si, ele rolou para o lado, sendo imediatamente protegido por uma verdadeira parede de rochas que mais pareciam lâminas mortais.

Angel viu que a fuga de Choi deixou o Deiroon completamente ensandecido. Ele partiu para cima do coreano, chutando a barreira que os separava, se cortando gravemente no processo. Ele parecia alheio a tudo, totalmente focado em acabar com o rapaz que,assustado, tentava se erguer. Um verdadeiro pavor a tomou. Choi não estava em condições de escapar do ódio que via brilhar naqueles olhos dourados. Assim, após fazer novas Penas de Dragão surgirem em suas mãos, mais uma maravilha proporcionada pela sua arma, só que em tamanho de punhais. Arremessou-as contra o Deiroon, mirando qualquer parte do corpo que o fizesse desistir de chegar ao rapaz quase desfalecido.

Seu esforço mostrou resultados, até mais do que deveria, foi o que pode concluir quando os olhos brilhantes do sujeito viraram em sua direção. Sem hesitação, ele correu na direção dela, agora exibindo, além da espada, mais dois punhais presos em seu corpo — um no ombro e outro na testa. Ela se preparou para receber os ataques dele, fazendo surgir novas espadas, mas dessa vez no seu formato original. Quando ele tentou agarrá-la, Angel desferiu um golpe em sua barriga, fazendo-o urrar de dor, mas manteve-se firme em seu objetivo, surpreendendo-a por isso. Assim, foi capaz de segurá-la pelo pescoço, enquanto levava seus dentes até a carne macia do seu ombro desnudo pela roupa rasgada durante a luta.

Ela sentiu o calor e a dor provocada pela mordida. Não poderia deixá-lo se alimentar dela. Ele ficaria forte, iria resistir por mais tempo e tanto ela quanto Choi, não estavam em condições de suportar mais tempo de luta. Ela não seria seu lanche. Jamais. Então, desesperadamente, mesmo indo contra tudo que acreditava, contra todas suas dúvidas e incertezas, o golpeou no pescoço com as espadas cruzadas, como se fossem tesouras. A força imposta ao golpe foi tamanha que o membro ficou preso ao corpo apenas por uma pedaço de pele, que logo se rasgou com o peso da cabeça quando essa começou a cair por suas costas.

A seguir, Angel estava gritando, ainda presa pelo pescoço por mãos cruéis que se mantiveram firmemente fechadas, ainda quando não havia mais vida naquele corpo. Ela gritava enquanto o sangue escuro do homem jorrava sobre ela, cobrindo-a por completo. A dor era tão aterradora, que tocou o rosto em desespero, estava sentindo como se sua pele e carne estivessem derretendo sobre seus ossos, que se quebravam dentro dela, transformando-se em pó. Não percebeu quando perdeu os sentidos, apenas agradeceu por isso.

Notas finais
O que acharam do Erak e do Esan crianças? E da visão do Esan sobre o primo? E da luta? E das duplas formadas? E do tempo? Ainda ta frio aqui arghhh >