Destemido
3 Chamado
Notas iniciais
SE PASSARAM CINCO DIAS DESDE QUE CHEGARA em Ogígia, isso se ele não tivesse perdido a conta. A maior parte do tempo era gasta andando pela praia, dormindo ou conversando com Calipso enquanto a observava trabalhar em seu jardim, nas maravilhosas refeições que tinham juntos ou em qualquer momento que passava acordado. Embora conversassem bastante, Calipso se mostrava bastante reservada sobre a si mesma, seu passado e sobre a própria ilha. Se a conversa fluísse para um desses assuntos a garota fugia desviando o olhar para as mãos ou apenas tentando desconversar.
Um gritinho abafado o despertou de seus devaneios, Calipso vinha correndo na sua direção e ele foi encontrá-la no meio do caminho.
–O que aconteceu? — perguntou ele.
A garota estendeu a mão esquerda, um dos dedos estava inchado onde um espinho estava preso a ele.
–Pode retirá-lo para mim, por favor? — pediu.
Ele puxou o espinho e uma pequena gota de sangue foi deixando uma mancha cada vez maior na pele alva de Calipso. Leo rasgou uma tira de sua camisa e amarrou firmemente ao redor do ferimento.
–Isso é um ato muito doce, herói, — disse ela. — Mas não precisa se preocupar, é apenas um espinho de uma roseira.
–Você cuidou de mim quando eu estava machucado. — ele levou os dedos dela até seus lábios e depositou um beijo cavalheiresco demais para seus padrões neles — É o mínimo que eu podia fazer.
Ele havia feito outra vez, havia flertado. Ela corou violentamente e puxou a mão, deixando um clima estranho no ar.
–Calipso? — ele chamou.
–Sim? — ela olhou para ele ainda corada.
–Você não fica entediada aqui? Digo, esse negócio de cuidar de florzinha o dia inteiro é maneiro e tal, mas você nunca, você sabe... explora a ilha?
–Hmm... Não. — respondeu a garota. Seu tom de voz vacilou, estava escondendo alguma coisa.
–Nós podiamos fazer isso. -Leo disse, levantando-se animado.
–Agora? — ela questionou desviando o olhar nervosamente.
–E por que não?
–Está bem, — respondeu com um suspiro. — Vire-se para lá, destemido.
Leo virou de costas e esperou enquanto ouvia ruídos que pareciam ser de tecido. Quando Calipso pediu, ele se virou. Ela vestia um par de calças jeans, uma camiseta branca, botas de caminhada e tinha um casaco amarrado ao redor da cintura. Seus cabelos estavam presos em um rabo de cavalo e o vestido que usava antes estava caído aos seus pés.
Mãos invisíveis ofereceram a Leo um par de botas semelhantes ao dela que serviram perfeitamente e depois recolheram o vestido no chão.
Calipso o levou para dentro da gruta onde Leo dormia. Passaram por uma das portas improvisadas bloqueadas por cortinas onde ele ainda não havia entrado. Andaram pelo que pareceram uns cinco metros antes de saírem em uma clareira aberta, vaga-lumes começavam a brilhar indicando o começo da noite, havia outro jardim ali, onde uma quantidade de enlace lunar (planta que ela o apresentara) três vezes maior que a do jardim próximo da gruta estava plantada e brilhava prateada fazendo a clareira toda brilhar. Leo deixou seus olhos correrem para Calipso, ela parecia pertencer àquele lugar mais do que a qualquer lugar do mundo. Mesmo com jeans e camiseta (o que destoava um pouco), ela era tão parte do lugar que parecia não existir... Mesmo assim ele não conseguia não reparar nela.
Ele quase não notou em uma cabana não muito longe de onde estava, era pequena, com paredes de madeira e um teto baixo que se assemelhava muito ao chalé de Hermes. Leo notou que coisas se mexiam sozinhas dentro dela. Deu um passo hesitante em direção a ela para tentar ver melhor.
–Você não pensou que eles não tinham um lugar para viver, pensou? — Calipso surgiu perto dele.
–Os criados invisíveis moram ali? — perguntou ele surpreso.
–Sim, — ela respondeu docemente e apontou para uma árvore enorme com um tronco com espessura de uns 120 Leos. — E aquela é minha casa.
No tronco havia uma porta e janelas feitas de galhos e cipós trançados, hera cobria parte da superfície do tronco, que se misturava com orquídeas e outras flores cujos nomes Leo desconhecia saiam pelas janelas em cascata. Era a casa de garota mais maneira que ele já viu.
Ele começou a andar na direção da casa esperando que Calipso o acompanhasse, mas ela segurou seu ombro.
–Não, meu destemido. Nosso caminho não é esse.
E juntos, entraram na mata escura perto da cabana onde mãos invisíveis trabalhavam sem parar.
Leo nunca havia imaginado que Ogígia teria um lado sombrio, mas ali estava ele. Calipso o guiava através de terrenos íngremes e disformes, a noite ficava cada vez mais fria e escura e a mata, cada vez mais fechada.
–Eeer... Onde estamos indo? — ele finalmente perguntou depois de longos minutos de caminhada.
–Encontrar seu destino, herói. — ela respondeu com uma voz cansada.
Leo reparou que a cada passo que dava, a garota parecia mais desolada.
–O que quer dizer?
Ela parou.
–Era bom demais para ser eterno. — ela disse baixinho antes de se virar — É fácil esquecer sua vida do lado de fora quando se está em Ogígia, — ela explicou. — Quando isso acontece e um herói passa tempo demais aqui, ele ouve o chamado. É por isso que você queria tanto explorar a ilha, porque algo o chamava para lá. — ela apontou para uma caverna.
–O que me espera lá? — ele questionou.
–Não sei exatamente, não tenho permissão para entrar, mas seja o que for, lhe fará um ultimato. — ela respondeu com lágrimas nos olhos — Você terá de escolher se vai ficar ou partir.
–Partir...E deixar você. — ele disse.
Calipso piscou para afastar as lágrimas, se aproximou e pousou a mão em seu ombro.
-Eu gostaria que ficasse, mas não cabe a mim decidir por você. — ela deu a ele um olhar encorajador — Eu lhe esperarei aqui.
Após depositar um leve beijinho na testa da garota e segurar suas mãos trêmulas por alguns segundos, ele seguiu sozinho para a escuridão, e para seu destino.
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