Notas iniciais
Recomendo que leiam esse capítulo ouvindo "I Won't Give Up - Jason Mraz", e gostaria de agradecer ao Matt, que me mostrou como essa música combina com Caleo. (:
Boa leitura!

QUANDO LEO ACORDOU Calipso já não estava mais ao seu lado. O sol ainda brilhava do lado de fora de modo que ele podia enxergar melhor o quarto onde se encontrava. Haviam cortinas verdes esvoaçantes nas janelas, o armário de onde ela tirara as roupas tinha pinturas delicadas em motivos florais (Leo suspeitou que feitas pela própria Calipso), do lado direito do quarto havia um sofá cor de creme ao lado de uma estante repleta de livros, um tapete felpudo, um lampião sobre uma pequena mesinha, uma escrivaninha com penas de escrever, tinta e um montinho organizado de papel.

Do lado esquerdo estava o armário, uma penteadeira com fitas, uma escova de cabelo e uma caixinha de música, apenas. Nada de maquiagem, nada de perfumes, a penteadeira não tinha gavetas então Leo se deixou acreditar que a garota realmente não usava essas coisas nunca. Leo tinha uma vista de si mesmo no espelho da penteadeira de onde estava. Tirando o cabelo desarrumado e o rosto amassado depois de uma noite de sono, parecia bem, e tirando também o fato de que parecia ter braços de múmias com tantos curativos.

Ao lado da porta de saída havia prateleiras e mais prateleiras repletas de pequenos objetos. Leo se levantou e andou primeiro até a estante de livros, além dos livros de magia haviam cópias encadernadas em couro de obras de Shakespeare e Jane Austen, alguns livros de Agatha Cristie, manuscritos arrumadinhos que ele não reconheceu, também tinha Alice No País das Maravilhas e o Pequeno Príncipe entre outros livros dos quais nunca ouvira falar. Andou até as prateleiras, os objetos ali eram extremamente comuns, talvez por isso Leo os tenha achado tão estranhos. Havia uma pedra, uma boneca mecânica, uma embalagem de chocolate, um inseto preso em âmbar, sapatilhas de balé, luvas de renda, uma flecha de prata, um batom, uma pistola nazista e um pendrive.

–Vejo que minha coleção despertou sua curiosidade. — Disse Calipso atrás dele.

Ela usava um vestido azul escuro no estilo grego com detalhes prateados nos ombros e um cinto prateado em torno de sua cintura fina, os cabelos não estavam trançados, mas caíam-lhe pelo lado esquerdo.

Ela parecia triste.

Calipso andou até ele e pegou o primeiro objeto na prateleira.

–Essa pedra foi a coisa mais próxima de mim quando fui condenada ao exílio, trouxe-a comigo para não esquecer que existe um mundo inteiro lá fora, como um juramento a mim mesma de que um dia irei conhecê-lo. Leo fitou a pedra mais uma vez, parecia muito mais importante agora que sabia seu significado.

–Eu fui livre uma vez, sabe, — ela disse. — Há muito tempo atrás, eu vivia com meu pai e minhas irmãs.Estou aqui desde a guerra entre os deuses e os titãs, aconteceu quando eu tinha 15 anos de idade. Desde então tudo que eu tenho do lado de fora são esses objetos que os deuses me traziam. A boneca foi um presente de seu pai, o chocolate foi de Apolo, — a menção ao nome do deus e a ideia de que ele andara dando chocolates para Calipso deixou Leo um tanto enciumado. — O inseto preso em âmbar foi de Zeus, uma metáfora que ele achou engraçada "A sua prisão é mais agradável que a desse inseto", ele disse. As sapatilhas de balé são de Deméter e Perséfone, Deméter traz a filha aqui para me dar aulas nos últimos dias de folga antes de Perséfone ter de voltar ao Hades, as luvas foram dadas por Dioniso quando ele me contou como o mundo havia evoluído e como até mesmo as festas haviam mudado, ele disse que as mulheres usavam essas luvas e grandes vestidos magníficos, a flecha foi de Ártemis, ela tentou conseguir permissão para que eu pudesse deixar a ilha caso me unisse à caçada, a ideia de uma mocinha presa em uma ilha destinada a amar heróis lhe dava náuseas, bem, nos falhamos. A arma foi dada por Ares, ele me contou sobre a Segunda Guerra Mundial e me disse que talvez fosse melhor mesmo eu estar aqui, em segurança. Mas nós falhamos. O batom foi um presente de Afrodtite, e essa coisinha — disse apontando para o pendrive. — Foi de Hermes, ele disse que pode caber um mundo inteiro de informações nele, trouxe para me mostrar como a tecnologia estava avançada e me disse para não perder as esperanças.

Só quando ela terminou de falar ele percebeu que ela estava chorando.

–Isso é tudo que você tem de lá de fora?

–Tenho minha escova de cabelo, presente de minha mãe. E os livros que Atena me deu, ela cuidou de minha instrução educativa.

–Onde você colocou meu cinto de ferramentas? — ele perguntou.

–Está na gruta. — ela respondeu.

Ele correu até a gruta e pegou seu cinto mágico, ao chegar no quarto de Calipso novamente, ela continuava lá parada como se não houvesse se mexido desde que o garoto saiu. Ele vasculhou um dos compartimentos até encontrar o que procurava: Um pequeno brinquedo de Kinder Ovo, havia comido um na manhã do dia em que caiu em Ogígia.

–Tome, — disse ele entregando o briquedo a ela. — Mais uma coisa para sua coleção, é um brinquedo que veio dentro de um chocolate, e é para lembrar de como Leo Valdez é divertido.

Ela sorriu e tomou o brinquedo de suas mãos cuidadosamente, era um pequeno coelho de plástico com um botão na barriga, ela o apertou e ele mostrou a língua o que arrancou algumas risadas da garota. Ela o colocou na prateleira.

–Obrigada. — ela disse, limpando uma lágrima que caía em sua bochecha. — Agora, vamos ver esses ferimentos.

Ela tirou suas ataduras e ele parecia completamente novo, não restava nenhuma marca dos cortes, como se nunca houvessem existido.

Ela sorria para ele tristemente, sua expressão parecia sombria e derrotada.

–Está na hora de ir. — ela disse.

Ele a seguiu até a praia, fazendo um último registro de tudo que via para levar na memória. Ela lhe deu um pequeno raminho de enlace lunar e disse:

–Não esqueça de mim, está bem?

–Nunca. — ele respondeu, guardando o raminho em seu cinto.

Ele se aproximou, gostaria de beijá-la, uma ultima memória para levar com ele pelo resto da vida. Mas ela se afastou.

–Não torne tudo mais difícil para mim, está bem? — ela disse — Quanto mais eu tiver de você, mais eu terei de deixar partir.

Então ele apenas a abraçou enquanto a jangada se aproximava.

Ela andou ao seu lado até a jangada, ele subiu e segurou sua mão uma ultima vez antes de a corrente levá-lo para cada vez mais longe, olhou para a garota até que Ogígia começou a oscilar em sua visão, sumindo por alguns milésimos de segundo e depois retornando cada vez mais fraca.

Foi então que entendeu o que Nêmesis quis dizer com "sétima roda.."

Jason tinha Piper, Hazel tinha Frank e Percy tinha Annabeth, todos eles tinham alguém para os consolar caso Leo nunca mais voltasse, mas e ele? Quem o consolaria se ele perdesse Calipso? Ele era a sétima roda, sem ele os outros ainda suportariam o peso, ele sempre sobraria. Se apenas ele tivesse percebido isso antes... Agora era tarde demais.

Não, não era.

Foi então ele pulou na água.

Ele levou seus braços ao limite do esforço com braçadas fortes e rápidas, Ogígia ainda piscava a sua frente, mas ele tinha que conseguir pois a jangada já havia se dissolvido, se ele não conseguisse morreria afogado, mas ele não se importava de morrer por algo que acreditava. Ele não iria desistir assim tão fácil.

Pareceu uma eternidade antes de Leo finalmente chegar à praia, havia conseguido.

Ele correu para Calipso e a beijou, de verdade, como queria ter feito desde a primeira vez que a viu. Quando se afastara, ambos sem ar, ela disse:

–Mas...

–Eu não podia, — ele interrompeu. — Não podia deixar você. Nunca, eu não quero partir nunca.

Ela começou a chorar ainda mais, lágrimas brilhantes escorriam em seu rosto e se perdiam em seu sorriso.

–Você promete? — ela perguntou entre soluços.

–Eu só deixarei essa ilha se você for comigo, eu prometo. Mas antes, preciso fazer uma coisa.

Ele foi até a casa dela e sentou-se à escrivaninha, escreveu algumas linhas e enfiou o papel em seu cinto. Correu de volta para a praia e desejou com todas as suas forças que outra jangada aparacesse. Quando aconteceu, ele colocou seu cinto sobre ela e sussurrou:

–Para meus amigos.

Ele soltou a jangada e a viu desaparecer.

–Qual é o protocolo agora? — perguntou para a garota.

–Como é? — perguntou ela.

–Agora que eu sou permanente aqui, para onde os heróis feridos e desamparados irão?

–Sinceramente, não sei. — ela respondeu encolhendo os ombros.

Ela se jogou em seus braços e ambos caíram sentados na areia, onde permaneceram até o anoitecer.