Despertados
5 Teste
CAPÍTULO 05- TESTE
O teste consistia em tentar sair ileso daquela sala, nos ombros do uniforme do garoto mais velho havia um número "02" estampado, percebemos isso depois que ele começou a atacar o Cebola antes mesmo do treinador sair do centro da arena.
Cebola desviava do máximo de golpes do adversário que conseguia, porém alguns o acertavam em cheio, cansado desta estratégia ele decidiu correr até uma das muretas onde escolheu um bastão meio metro maior que ele. O outro garoto tomou a mesma atitude e escolheu dois cutelos da mureta oposta.
–Por que será que ele não usa o dom que tem?- perguntou uma garota atrás de mim, era aquela que havia me dado um tímido oi.
–Você sabe o qual é o dom que ele tem?- perguntei.
–Me contaram que ele fica invisível e atravessa paredes, tipo um fantasma!
Na arena, os cutelos e o bastão se chocavam, Cebola aproveitou um descuido e acertou um golpe no peito do Dois que o desiquilibrou, obrigando-o a dar três passos para trás. Sem parecer abalado ele usou aquela distancia a seu favor, lançou um dos cutelos mirando no peito de Cebola que por sua vez abaixou-se rapidamente.
–Ele não parece ser um infrene!- disse o garoto com sardas na bochecha à minha frente.
–Talvez ele não queria mostrar o que pode fazer!- respondi, ele me olhou como se tentasse reconhecer uma antiga amiga.
–Ei, você não é aquela garota que explodiu um pedaço do colégio?
–Eu... eu...
–É ela sim!- disse a garota do oi. -Eu vi você caída naquele corredor, assim como todo mundo que estava conhecendo o colégio naquele dia! Oi, eu sou a Magali!- eu respondi "sou a Mônica" um pouco receosa, alguém naquele colégio devia ter o dom da fofoca.
–Se eu fosse você não ficaria bolado com aquilo, pelo que soube aqueles dois são do tipo que merece uns tapas! E eu me chamo Cascão, prazer!
–Prazer conhecer vocês!- minha mãe ficaria contente se soubesse que eu estava falando com outros alunos, acho que ela pensava que eu seria o tipo de aluna reclusa por conta do incidente de três dias atrás, na verdade eu também achava.
A luta havia piorado, Cebola estava de joelhos no chão se defendendo das cuteladas inimigas, percebendo a desvantagem Cebola decidiu revidar, ficou invisível num piscar de olhos e saiu da direção do cutelo. O Dois olhava ao redor sem ter o que atacar, não demorou para que ele fosse atingido pelo vazio, o baque pelas costas foi tão forte que ele caiu e rolou no chão pra perto do vidro que nos separava, atrás dele Cebola surgia aos poucos, como se atravessasse uma névoa insípida, usou o bastão pra impedir que Dois levantasse.
O apito do treinador anunciava o fim do teste, Cebola liberou o adversário soltando o bastão, em seguida olhou na minha direção e insinuou vir até mim mas o treinador queria que ele saisse para o vestiário. Com alguns gestos que fez, eu entendi que ele queria falar comigo mais tarde, depois seguiu até a saída.
–Alguém de vocês sabe por que ele esta com aquele olho roxo?- perguntei.
–Eu não!- Cascão respondeu seguido de "eu também não" da Magali.
Um a um os alunos eram testados da mesma forma, precisavam derrubar o adversário usando os dons, alguns terminavam a tarefa rapidamente, outros demoravam mais porém foi Cebola quem mais havia gastado tempo até o momento. Eles não voltavam para o lugar que estavamos, talvez eles voltavam para a sala de aula ou iam direto para os dormitórios. Se fosse assim eu só poderia falar com Cebola no dia seguinte já que não sabia nem onde ficava o meu próprio quarto quanto mais o dele.
–Minha vez está chegando!- Cascão parecia um pouco tenso. Ele era o próximo, depois dele só restavam eu e Magali.
–Você vai tirar de letra!- ela o reconfortou.
Depois que o teste dentro de sala havia acabado o professor abriu a porta permitindo que Cascão entrasse, depois de alguns minutos ele saiu pela outra porta e encontrou o treinador no meio da arena, um rapaz com o número treze no ombro saiu da outra fila e foi até eles.
–Como você acha que vi se sair?- perguntou Magali.
–Eu não sei, não tive tempo de treinar!
–Bom, é só fazer o que você fez três dias atrás!
–Não é tão simples, eu não estava controlando aquilo!
–Alguma coisa você precisa fazer, dizem que quem reprova nos testes tem que tomar um remédio que suprime o dom latente!
–Um remédio!- será que era o mesmo que o diretor havia me dado?
–Eles são obrigados à tomar, existe pessoas que tomaram por tanto tempo que vivem como se estivessem lobotomizados!
–Mas por que fazem isso?- eu sentia um pavor crescer em mim, um medo que já estava se tornando familiar.
–O NSP faz isso pra impedir que essas pessoas se tornem um perigo pra sociedade. Pena que não haja um meio menos cruel de fazer isso!
Eu tentei evitar pensar em mim como uma possível vítima da NSP por mais que meu passado indicasse isso, eu não conseguia imaginar nada mais egoísta que isolar e dopar pessoas pelo simples fato de terem nascido naquela condição.
Fui arrancada dos meus pensamentos pelo barulho do impacto de um machado na parede de vidro, eu não via o Cascão pela arena, apenas o Treze e uma imensa águia sobrevoando-o, ele tentava em vão acertar a ave com os disparos de uma besta. Quando as flechas acabaram a águia desceu à altura de Treze e se transfigurou em um garoto, Cascão desaparecia com as últimas penas e garras, correu na direção do outro garoto e novamente se transfigurou, desta vez em um cervo. O Treze tentou fugir mas as galhadas do cervo o acertou entre os braços e pernas prendendo-o, o cervo ergueu o pescoço tirando o garoto do chão, em seguida girou o pescoço lançando Treze à metros de distância e finalizando o teste.
–Sua vez Mônica!- anunciou o professor Rubens.
–Você vai conseguir, não tenho dúvidas quanto a isso!- a Magali tentava transmitir positividade com uma piscadela.
–Será?- Eu precisava fazer uma coisa que nem fazia ideia de como, entrei no vestiário imaginando quartos brancos e pessoas definhando em camas.
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